Vende-se otimismo: como em todo golpe, o derrotismo virou ufanismo

Publicado em 8 de agosto de 2016

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Depois de três anos bombardeando a todos com pessimismo, ódio e com a percepção de um país em frangalhos, destruído, derrotado, não deixa de ser curioso observar a súbita guinada da mídia brasileira, com o auxílio providencial dos Jogos Olímpicos. O Brasil de repente parece outro lugar, com mais humor, energia e esperança no futuro. “Este é um país que vai para a frente” seria o lema perfeito para os tempos que vivemos, se não tivesse sido um dos slogans utilizados pela ditadura militar para ludibriar os incautos. Ops.

Como em todo golpe que se preza, o derrotismo explícito da velha mídia e de seus sabujos a soldo se transformou rapidamente em um ufanismo rastaquera, vulgar. Exatamente como em 1964, agora os (de)formadores de opinião reconhecem que este é um país incrível, capaz de espantar o mundo com seus feitos, como a abertura de uma Olimpíada. Ora, e quem é que não sabia disso? Somente os vira-latas da imprensa e os que vestiam camisetas da CBF para protestar até outro dia apostavam no vexame, que seríamos incapazes de fazer uma festa daquelas. Pois eu acho até que foi fraca para o potencial que temos.

A festa idealizada por Fernando Meirelles, Daniela Thomas e Andrucha Waddington foi bonita, mas infelizmente contribuiu para este clima ufanista, ao pintar um país onde brancos, negros e índios convivem pacificamente e onde se respeita a natureza exuberante como nenhum outro. Nada mais oposto ao que vivemos e viveremos com os golpistas no poder. OK, faz parte do espetáculo, ninguém mostra suas desgraças e incoerências em eventos como este, mas que foi irônico assistir aquilo neste momento, foi.

O otimismo está à venda nas manchetes e nos telejornais, que se igualam enquanto versões replicadas do Jornal Nacional da época da ditadura. As Olimpíadas são a nova Copa de 1970, usada pelos militares para convencer os brasileiros de que o país ia bem. O apresentador da TV Globo Galvão Bueno chegou a mentir aos telespectadores dizendo que o presidente ilegítimo Michel Temer tinha sido “vaiado e aplaudido” na abertura. Que papo furado, Galvão! Temer foi apenas vaiado. O jornal italiano La Repubblica fez o dever de casa e mostrou a quem quiser ouvir.

Assistir às transmissões dos jogos ao vivo pelas emissoras de televisão é para quem tem estômagos fortes, e não me refiro aos embates entre os atletas. São vomitivos os comentários exagerados, falsamente contaminados por um otimismo recém-inventado para enganar trouxas. Aliás, é só isso que a mídia brasileira tem feito nos últimos tempos: enganar trouxas. Só um trouxa acreditaria que o país “catastrófico” de menos de seis meses atrás se transformou em um paraíso de uma hora para outra e que isso se deve ao “novo” governo imposto por um mal disfarçado golpe apoiado mais uma vez pelos meios de comunicação.

Claro, é fácil sorrir diante das câmeras quando se almeja apenas o lucro e é principalmente isso que as emissoras querem com os jogos, uma forma de ajudá-las a sair da bancarrota em que se encontram. Para obter audiência, é preciso transmitir a imagem de um país “vencedor” e as Olimpíadas caem como uma luva. Cheguei a ouvir um comentarista dizendo que a abertura dos jogos “resgatou a auto-estima dos brasileiros”. E quem a destruiu?

Comparemos com o clima reinante na Copa do Mundo em 2014, com Dilma Rousseff ainda no poder e candidata à reeleição. A velha mídia torceu contra desde o primeiro momento. Falou-se inclusive na possibilidade de alguma das novas arenas simplesmente desabar, matando gente, o que felizmente não aconteceu. Derrota para a Alemanha à parte, a Copa do Mundo foi um sucesso, a maior de todos os tempos, apesar do derrotismo constante da mídia, que só larga o complexo de vira-latas quando interessa, como agora.

Com Temer na presidência, a palavra de ordem nas redações da mídia golpista é “otimismo”, o que não chega a ser uma novidade: o otimismo como instrumento do golpe é mais uma novela reprisada pela Globo e suas cópias. O roteiro é o mesmo: enquanto o povo celebra o delírio de que o Brasil “melhorou”, nossa pátria-mãe é subtraída em tenebrosas transações… Só falta agora ressuscitarem a “Semana do Presidente” para o clima de revival da ditadura se instalar de vez.

 

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A mídia aparentemente despreza Cunha, mas o utiliza para imolar uma presidente inocente

Publicado em 20 de abril de 2016
cunhasalome

(Montagem de Magnesio sobre o quadro Salomè con la Testa del Battista, de Bernardino Luini, 1527)

O absoluto maucaratismo, a covardia, a falta de apreço aos fatos e o profundo desamor pelo Brasil da velha mídia ficam mais do que evidentes neste novo golpe que perpetram contra a democracia. Nada mais importa a não ser arrancar o PT do poder. Dane-se que Dilma Rousseff não tenha cometido ilícito; dane-se o dantesco julgamento de domingo, quando o mundo inteiro pôde ver a classe de políticos que votou contra ela; dane-se que se está cometendo uma injustiça.

Os jornais brasileiros ocultam todo o tempo de seus leitores que Dilma é honesta e que está sendo derrubada do poder por um bando de políticos às voltas com a Justiça. Em nenhum momento os editoriais dos três maiores jornais, que expressam a opinião de seus donos, foram capazes de ao menos se indignar com a realidade de que Dilma não é corrupta e que está sendo deposta por gente acusada de corrupção. Pelo contrário. A questão agora é fazer o impeachment o mais rápido possível, defendem a Folha de S.Paulo e o Estadão, em uníssono. Hoje, o jornal dos Mesquita inclusive zomba da dor da presidenta da República por se sentir injustiçada.

É risível, mas a  Folha chega a cobrar do presidente do Senado, Renan Calheiros, “apreço pela verdade”, ao mesmo tempo em que, cinicamente, adere ao “novo” presidente Michel Temer e lhe apresenta sugestões de medidas “urgentes” para quando começar a governar –sendo que, apenas duas semanas atrás, pedia a renúncia dupla do mesmo Temer junto com Dilma, no mais covarde editorial da história da imprensa brasileira.

Principal artífice midiático do golpe,  O Globo celebra sem pudor a iminente queda de Dilma e ataca os cidadãos pagadores de impostos que defendem a presidenta, alcunhando-os “bolivarianos”, como se não fossem tão brasileiros quanto os que protestam contra ela (e é o PT quem é acusado de “dividir o país”…). Os jornais anseiam loucamente por escapar da ideia, já disseminada na opinião pública, de que há um golpe em curso e por isso utilizam sofismas, exatamente como fizeram em 1964, quando chamava o movimento militar que destituiu João Goulart de “revolução”. Naquela época, era a “revolução” sem povo. Hoje é o “impeachment” sem crime.

O jornal carioca diz que um golpe com apoio do Supremo Tribunal Federal “seria candidato a entrar no Guinness”, mentindo para seus leitores, já que o golpe de 1964 contou com o beneplácito do STF: no dia 2 de abril de 1964, o presidente do Supremo, Ribeiro da Costa, participou da posse de Ranieri Mazzilli, então presidente da Câmara dos Deputados e interino no comando do país; e, em 15 de abril, saudou o general Castelo Branco, o primeiro de nossos ditadores. Daqui a 50 anos, provavelmente o panfleto dos Marinho pedirá perdão por ter apoiado a destituição de uma pessoa inocente, como fez dois anos atrás em relação a 1964. “Foi mal, galera.”

Apegar-se à desculpa de que Dilma está sendo escorraçada do poder porque não possui popularidade é uma tentativa de justificar o injustificável. Não está prevista na Constituição a hipótese de derrubada de uma presidente eleita porque se considera o governo dela ruim ou péssimo. Se assim fosse, a mídia hegemônica teria, como fez com Dilma, exigido a renúncia do tucano Fernando Henrique Cardoso em 1999, quando sua popularidade decaiu para 8% e também havia multidões nas ruas bradando “fora FHC”. A crise econômica ou o desemprego de 38% no governo de Fernando Henrique (é de 10,3% com Dilma) tampouco levou os jornais a uma campanha pela destituição do “príncipe da Sociologia”.

Enquanto a imprensa brasileira age como comandante do golpe, a estrangeira denuncia a farsa do impeachment de uma presidente que não cometeu crime de responsabilidade, condição sine qua non para tirá-la do cargo, de acordo com a Carta Magna do país. O primeiro a sair em defesa de Dilma foi o prestigiado jornalista norte-americano Glenn Greenwald, que em 2013 denunciou as escutas do governo dos EUA ao mundo. Em março, Greenwald apontou, no seu site The Intercept , que “o Brasil vive uma perigosa subversão da democracia” e criticou o papel manipulador da mídia. “Acreditar que as figuras políticas agindo para o impeachment de Dilma estão sendo motivadas por uma autêntica cruzada anti-corrupção requer extrema ingenuidade ou ignorância”, escreveu, em artigo assinado com outros dois jornalistas.

Em seguida, o The New York Times publicou uma reportagem em que dizia, com todas as letras, que Dilma é uma presidente honesta que está sendo derrubada por uma gangue. Reforçou a percepção na terça 19, com um editorial em que critica o processo de impeachment, dizendo que o argumento das pedaladas é na verdade o pretexto para “um referendo” sobre a permanência do PT no poder –referendo sem povo, diga-se de passagem. Rasgando seus manuais de redação, os jornais noticiam estes reparos ao processo feitos por alguns dos mais importantes veículos de comunicação do mundo novamente subtraindo aos leitores o ponto principal da crítica: o fato de Dilma ser inocente e estar sendo condenada por abutres. O Estadão, por exemplo, preferiu destacar, sobre o editorial do New York Times, que Dilma “terá que mostrar liderança para sobreviver”.

Na Inglaterra, o The Independent saiu com uma matéria dura contra a imprensa daqui: “Processo político brasileiro é ‘prejudicado por imprensa partidária'”. E o The Guardian , também em editorial, apontou a falta de provas contra Dilma, a sobra de evidências contra a Câmara que votou por seu impeachment e declarou “temor” pelo futuro do país: “Um escândalo e uma tragédia”. O editorial do diário espanhol El Pais, “O Brasil diante do abismo”, é um tapa na cara no jornalismo pseudoimparcial de nossa imprensa: “O processo de destituição de Dilma Rousseff não resolve nenhuma das crises do país”. Não é à toa a pressa dos jornais brasileiros pelo impeachment: quanto menos o mundo souber da injustiça histórica que estão patrocinando, melhor.

O pior de tudo, para mim, é assistir a mídia se utilizando de um político fundamentalista, perigoso para os destinos da Nação, sobre quem pesam graves denúncias de corrupção, réu no STF, para ser o carrasco de Dilma, ao mesmo tempo que finge indignação contra ele. Para usar uma metáfora bíblica, tão em voga nos dias atuais, é como se Eduardo Cunha fosse Salomé, com a cabeça de João Batista/Dilma numa bandeja, enquanto a velha mídia/Herodes Antipas demonstra “constrangimento” diante da imolação de uma pessoa digna. Mas não move um dedo para defendê-la. A diferença é que, no Novo Testamento, é Salomé quem pede e Herodes Antipas quem ordena a decapitação; a situação atual é o exato oposto: a mídia quis e Cunha executou o serviço sujo.

Não que Antipas, ops, a imprensa dê a mínima, mas o papel indigno que desempenha neste momento lamentável e sua responsabilidade direta nas consequências nefastas para o país serão cobrados pela História. A participação em dois golpes deixará uma marca indelével na reputação dos jornais brasileiros –isto é, se eles não falirem antes.

 

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Dilma: “Impeachment sem base legal é atalho para o poder dos que não têm voto, não têm capacidade de atrair apoio [do povo]”

Publicado em 13 de abril de 2016
(Dilma e os jornalistas. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR)

(Dilma e os jornalistas. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR)

A quatro dias do julgamento de seu impeachment pelo plenário da Câmara dos Deputados, a presidenta Dilma Rousseff recebe os dez repórteres que foram ao Palácio do Planalto para uma entrevista coletiva com um sorriso, e cumprimenta um a um com simpáticos beijinhos na face, independentemente do veículo. Estão ali representantes da chamada “grande imprensa”, que a castiga diuturnamente e promove a sua destituição do cargo, um repórter da revista CartaCapital e também dois blogueiros “sujos”, como a mesma imprensa se refere à mídia progressista: eu e Luis Nassif. Dilma está vestida com uma blusa preta de bolinhas brancas que fazem jogo com o par de brincos de pérolas que já se tornaram a sua marca. Tem, ao contrário do que eu imaginava, uma aparência descansada de quem continua dormindo o sono dos justos, o que ela confirmará em seguida.

“Eu durmo bem dormido e não tomo remédio. Se eu tomar um remédio para dormir, vocês nunca mais vão me ver acordada, porque durmo muito fácil, não posso tomar nada”, brinca. “Começo a ter muito sono ali pelas 10 e meia da noite. Se achasse que tinha cometido alguma coisa que merecesse tudo isso, eu não dormia, não. Mas eu acho que não fiz. Só não sei se quem faz isso dorme. Fui investigada, virada dos avessos. O impeachment sobre uma contabilidade esotérica (todos os que me antecederam usaram, todos os governos usam) evidencia que não acharam outro motivo para tentar forçar meu impedimento. Repudio todas as tentativas de me ligar a atos que nunca pratiquei. A dificuldade é que sabem disso, sabem perfeitamente disso.”

O rivotril de Dilma é andar 50 minutos de bicicleta nas cercanias do Alvorada todos os dias de manhã, sob o olhar atento da equipe da rede Globo que faz plantão desde a madrugada às portas do palácio e dos “atrasadinhos”, que é como a presidenta se refere ao grupo do SBT que também bate ponto por lá logo cedo. “Alguém que está muito ruim levanta e vai andar de bicicleta às 10 para as 6? E anda 50 minutos no mínimo, faz musculação, você acha que isso é possível? Eu tenho uma grande competência quando aumenta a tensão e a minha fraqueza é quando eu relaxo. Quando eu tô muito feliz, tô muito normal, igual a todo mundo. Quando tô tensa, sou presidente da República. Não há na história do mundo um presidente que não tenha uma tensão.”

Dilma avisa logo de cara que não dará uma entrevista muito bem comportada e, apesar de elegantemente não citar nomes, seus principais alvos são o vice-presidente Michel Temer e o presidente da Câmara, Eduardo Cunha. “Uma das questões mais perversas dessa história é quem preside meu impeachment, inequivocamente. Não só essa pessoa pratica desvio de poder como, ao contrário dele, não tenho conta no exterior, não tenho nenhuma das acusações que recaem sobre ele. Mas o que eu acho mais grave não é que ele presida o impeachment, é que a proposta que está na mesa contra a minha permanência no cargo de presidente tenha ele como vice. Ele será o vice-presidente da República. E tem com o atual vice uma relação de profunda sociedade. São associados.”

Todo o tempo, a presidenta usa a palavra “golpe” para definir o processo que está em curso, e coloca o vice Michel Temer como um dos artífices da trama que pretende arrancá-la do poder com base em um relatório, em suas palavras, “fraudulento”. “A máscara caiu, a fantasia foi rasgada e não fui eu quem disse, é só ler as declarações, um vazamento interessantíssimo, porque nunca vi vazar para si mesmo, é algo fantástico. Foi tratado como vazamento o que não foi, era uma manifestação deliberada nunca dantes vista na história do mundo. Um processo está em curso e alguém tenta, sem olhar o resultado, fazer um discurso de posse. Eu chamei de golpe, de chefe do golpe e de vice-chefe do golpe. Eu só não sei quem é o chefe e quem é o vice-chefe. Acho que são associados, um não age sem o outro. Uma parte do golpe depende do presidente da Câmara, diretamente do presidente da Câmara.”

Dilma faz questão de lembrar que são ambos, Michel Temer e Eduardo Cunha, dois políticos que jamais chegariam à presidência da República por meio do voto popular, e por isso recorrem ao tapetão do impeachment para tomar o poder. “Tem gente tentando, através do impeachment, fazer uma eleição indireta daqueles que não têm voto. Todo mundo sabe disso. Uma eleição indireta perigosíssima, porque não resolve os problemas do país”, diz. “Eu não respeito e nenhum de nós pode concordar com um impeachment sem base legal. Fere nossa democracia, é um atalho para o poder daqueles sem voto, que não vão se submeter a nenhuma eleição, porque não serão sequer considerados, porque não têm os requisitos necessários para se apresentar como tal. Podem porque são brasileiros natos, mas não têm capacidade de atrair apoio.”

A presidenta cobrou a velha mídia por não deixar claro para seus leitores a falta de consistência, em termos jurídicos, do relatório aprovado esta semana na Comissão Especial que cuida do impeachment na Câmara. “O impeachment está previsto na Constituição, essa é uma afirmação correta dos órgãos de imprensa, mas estes órgãos de imprensa se esquecem que um impeachment tem que ter base legal. Não dá para fazer o salto no escuro de um impeachment fraudulento, sem base legal. Não sei se isso terá consequências imediatas, mas marcará indelevelmente a história do presidencialismo no Brasil. Os que fazem isso tem que saber as consequências do seu ato, que estão ocultas. Não vejo nenhum grande órgão de imprensa dizer que é golpe, vi alguns articulistas. Como presidenta tenho de fazer uma denúncia: há um estado de golpe sendo conspirado no Brasil. E tem tanto aqueles que agem a favor abertamente, como os que agem ocultamente; e tem aqueles que se omitem. Todos serão responsáveis. Não se pode supor que certos atos políticos não têm consequência.”

Há uma inescapável melancolia no ar que Dilma trata de dissipar demonstrando otimismo em relação à votação de domingo. “Nessa reta final vamos sofrer uma guerra psicológica. Este será um processo que tem um objetivo: construir uma situação de efeito dominó”, adverte. “Eu acredito que nós temos todas as condições de ganhar no Congresso Nacional. Acho que o resultado que nós obtivemos na comissão, ao contrário do que foi cantado em prosa e verso, foi importante: 41,5%. Se você fizer uma projeção, dá 213 votos. Dá um desconto, ainda fica na faixa do conforto. O governo vai lutar até o último minuto do último tempo por uma coisa que nós acreditamos que é factível, ganhar contra essa tentativa de golpe que estão colocando para nós através de um relatório que é uma fraude. O relatório tem momentos que são estarrecedores.”

A presidenta admitiu, no entanto, que a proposta de convocar eleições gerais seria menos antidemocrática. “Em que pese considerar que a Constituição diz o dia que começa e o dia que termina meu mandato, respeito uma proposta que passa por eleição, que tenha voto popular. A minha não é essa, mas respeito”, disse. Se ganhar, Dilma pretende convocar a sociedade brasileira para um pacto, mas tem perguntas a fazer sobretudo à mídia: “O que tem que se avaliar não são os poderes, é: como se comportará a imprensa diante da continuidade? O impeachment não passando, a espetacularização da investigação vai continuar? Uma coisa é investigar, outra é a espetacularização, um instrumento político. Vaza prova nos EUA para ver o que acontece: o processo é anulado. Grave presidente da República sem autorização do Supremo para ver o que acontece.”

Além de um pacto “sem ódio, sem vencidos e vencedores”, Dilma fala de reformas necessárias, como a política e a tributária. Pergunto como isso se dará quando sabemos que, mantida no cargo, também estarão mantidos o presidente da Câmara e um Congresso francamente hostil. A presidenta reclama que essa é “a pergunta do fim do mundo” e conta uma história de quando estava presa durante a ditadura como metáfora de que é preciso ter esperança e não ser pessimista, mesmo depois que ela deixou claro que os acenos à esquerda não fazem parte de sua agenda e sim da de Lula. “O presidente Lula quando presidente teve um comportamento, fora da presidência ele tem outro. Eu teria também. Mas tenho que ter uma posição que diz respeito ao todo. O presidente Lula pode falar tudo que ele pensa, tem todo o direito. Eu não posso defender todas as minhas posições pessoais, seria colocar os meus interesses na frente de todos que estou representando. Não posso ter posições que sei que uma parte da população brasileira não endossa. Um presidente não cria divisão.”

No final da entrevista, um garçom do Palácio chega com uma bandeja de pães de queijo recém-assados e Dilma titubeia, indecisa entre quebrar ou não a dieta, tapando o rosto com a mão esquerda para manter a guloseima longe das vistas. Em seguida, se arrepende. “Sabe o quê? Vou comer um, sim.”

 

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