Back in the USSR: como os soviéticos trocaram Lenin por Lennon (& Paul & George & Ringo)

Publicado em 5 de março de 2017
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(Cortesia Leslie Woodhead)

Trinta anos atrás, em julho de 1987, o beatle Paul McCartney resolveu gravar um álbum exclusivamente para seus fãs na União Soviética. Segundo disse Paul na época, era no país comunista que estavam muitos dos seus “seguidores mais leais”. E isso que os Beatles, assim como todos os grandes ídolos do rock and roll, eram tidos como inimigos do regime e seus discos, vendidos apenas no mercado negro. Lançado no ano seguinte, o álbum CHOBA B CCCP (“Back in the USSR”, em russo) foi um sucesso e acabou por dar um empurrãozinho a Mikhail Gorbachev em sua Glasnost, a abertura política que culminaria no fim da URSS em 1991.

CHOBA B CCCP (pronuncia-se Snova Vess-ESS-ESS-er) traz 13 faixas de puro rock raiz interpretadas por McCartney, como Lucille, Summertime e Kansas City. A capa, desenhada pela mulher de Paul, Linda, com a estrela vermelha sobre o rosto do beatle e seu nome em cirílico, é hoje um clássico. O disco foi um dos primeiros vinis de música pop prensados pela gravadora estatal Melodiya, e as 400 mil cópias se esgotaram rapidamente, disputadas por ávidos beatlemaníacos soviéticos e também por colecionadores estrangeiros. No Ocidente, o álbum só sairia após a URSS acabar.

Em janeiro de 1989, Paul teria uma conversa pelo rádio com os fãs da URSS através do serviço russo da BBC, autorizada a transmitir de Moscou a partir de 1987. Calcula-se que 17 milhões de pessoas o ouviram e mais de 300 puderam falar com ele pelo telefone, apesar do alto custo das ligações. McCartney se recusou a responder sobre as ligações entre rock e política, mas dedicou o álbum à Glasnost e à Perestroika, a reestruturação econômica de Gorbachev.

Era mais fácil para os líderes comunistas manterem os jovens afastados das grifes e da Coca-Cola do que do rock and roll. Embora não fosse permitida sua venda, os álbuns dos principais nomes do rock mundial cruzavam a cortina-de-ferro contrabandeados e eram comercializados às escondidas, em becos escuros, como drogas. Os soviéticos também ouviam os hits ocidentais clandestinamente, sobretudo através da Rádio Luxembourg, e descobriram uma maneira de prensar discos em chapas de raio X descartadas pelos hospitais, que eles chamavam de “costelas” ou “música de osso”. A revolução rocker que germinava nos subterrâneos da URSS não podia ser detida nem pela KGB.

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(Foto: Dmitry Rozhkov)

Às vésperas da derrocada comunista, o espectro do rock and roll rondava não só a União Soviética, mas todos os países do Leste Europeu. Submetidos a 70 anos de músicas folclóricas russas, os jovens estavam fartos de dança cossaca e sedentos por sacudir o quadril com o ritmo de Chuck Berry abertamente, livremente. A juventude começa a ocupar as ruas primeiro pelo rock, como uma forma de dizer “não” ao sistema. Exatamente como nós.

Bruce Springsteen fez o primeiro show de rock da Alemanha Oriental em 1988, botando os guris do mundo comunista para cantar a plenos pulmões Born in the USA. Um ano e quatro meses depois, o muro caiu.

No ano anterior, em 1988, com o festival Rock Summer, que ficou conhecido como Glasnost Rock, a Estônia reunira mais de 20 artistas ocidentais como o britânico Public Image Ltd.(PIL) e roqueiros do país diante de um público de 150 mil pessoas. O processo de emancipação da Estônia foi tão intrincado com a música que é chamado de Singing Revolution (Revolução Cantada), título de um documentário de 2007.

Em março de 1989, o Greenpeace lançou em Moscou o álbum Breakthrough (Rainbow Warriors no resto do mundo) com 25 superastros, entre eles Annie Lennox, Peter Gabriel, The Edge do U2, David Byrne do Talking Heads e Chrissie Hynde, dos Pretenders. O disco vendeu 500 mil cópias em um só dia e 3 milhões no total, com renda revertida para o grupo.

Mas não houve show, só autógrafos. A intenção original do Greenpeace era botar para quebrar, mas alguém lá de cima do Politburo disse “não”, contou The Edge à revista oficial da banda irlandesa, Propaganda. “O Greenpeace veio então com a ideia do disco e não demorou cinco minutos para que disséssemos ‘sim'”, comentou o guitarrista do U2 à revista da banda, que ficou surpreso com o que encontrou em Moscou.

“A Rússia era ao mesmo tempo muito mais livre em algumas áreas e muito mais restrita em outras do que eu imaginava. Andamos por onde quisemos. Tínhamos nossos guias –estudantes que falavam inglês–, mas eu pensava que seríamos vigiados por toda parte. Mas outras coisas eram quase impossíveis, como fazer chamadas telefônicas, achar um restaurante, este tipo de coisa que, suponho, a Rússia não teve interesse ou o ímpeto de conseguir. Conseguir um táxi era praticamente impossível.”

Em agosto do mesmo ano a turma do hard rock teve mais sorte: o Moscow Music Peace Festival reuniu na capital do império comunista bandas como Skid Row, Mötley Crüe, Bon Jovi e Ozzy Osbourne no Estádio Lenin, para mais de 100 mil fãs vermelhos do bom e velho rock and roll.

Mas nada se igualou aos Beatles. A teoria de que foram os quatro de Liverpool os grandes impulsionadores da queda do comunismo vem fascinando beatlemaníacos do mundo inteiro há quase uma década, desde que o jornalista britânico Leslie Woodhead lançou, pela BBC, o documentário How the Beatles Rocked The Kremlin, em 2009. No filme, assim como no livro homônimo de 2013, Woodhead sustenta que nada foi mais poderoso na implosão da União Soviética do que os Beatles.

A história do documentarista por si só daria um filme. Em 1962, ainda como estagiário em uma TV local de Manchester, Woodhead fez algumas imagens de quatro garotos desconhecidos tocando num porão de Liverpool chamado… The Cavern Club. Sim, é ele o autor das primeiras imagens conhecidas dos Beatles.

Em seguida, Woodhead foi trabalhar como informante britânico nos países da cortina-de-ferro. Nos anos 1980, quando fazia documentários na União Soviética, sua vida novamente se cruza com os Beatles: começou a ouvir dos locais histórias sobre como a banda tinha ajudado a dinamitar o comunismo. Muito antes de Paul McCartney lançar seu “disco russo”, os soviéticos haviam sido ganhos para a causa roqueira, principalmente após a saída de Nikita Khruschev do poder, quando o país mergulhou numa cafonália sem fim até a ascensão de Gorbachev.

No documentário de Woodhead (clique aqui para assistir no youtube, é genial), o especialista russo em rock and roll Artemy Troitsky lembra que, no início dos anos 1960, era cool ser comunista em todo o mundo e a URSS tinha seus próprios pop stars: Yuri Gagarin, o primeiro homem a chegar no espaço, em 1961, os barbudos revolucionários cubanos e o próprio Nikita. Despojados destes ídolos, a partir de 1964 a juventude soviética passou a admirar e a se espelhar naqueles garotos que faziam música a 2500 quilômetros dali, em Liverpool, na Inglaterra.

“A música soviética era totalmente quadrada, não-cool, os cantores tinham o corte de cabelo errado e cantavam como se participassem de um congresso do Brejnev. A cultura soviética era totalmente sem sex appeal. Era tudo muito rígido, limitado. Não havia nada brilhante nem livre nem funky nem sexy”, diz Troitsky (curiosamente, seu nome lembra Trotsky e o estilo, idem). “O Ocidente tinha instituições enormes, que gastaram milhões de dólares para destruir o sistema soviético, mas tenho certeza que o impacto destas instituições estúpidas foi muito, muito menor do que o impacto dos Beatles.”

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O documentarista e escritor Leslie Woodhead falou com exclusividade ao blog.

Socialista Morena  Os Beatles aparecem em seu documentário, assim como no livro, como uma paixão intensa para a juventude soviética. Sua tese é que esta paixão foi capaz de balançar a ideologia deles, de colocar dúvidas em suas mentes. Qual força foi mais poderosa em atingir os corações e mentes soviéticos, a música, as letras ou o estilo dos Beatles?

Leslie Woodhead – Eu acho que o estilo e a música dos Beatles representaram liberdade e energia juvenil para os garotos soviéticos dos anos 1960, tudo aquilo que eles não podiam achar na cultura jovem oficial. O sentimento de prazer com a música –’uma luz brilhante em uma vida triste’, como um dos meus entrevistados falou– era mais importante do que as letras, que a maioria da juventude não podia entender. O fato de os Beatles e sua música serem odiados e proibidos pelo governo os fez ainda mais desejados pelos jovens. Quando a jovem geração soviética se deu conta de que a música dos Beatles era alegre e que eles eram divertidos e fofos, perceberam que a propaganda oficial contra o Ocidente era uma mentira e confirmaram que foram enganados pelo Estado. Os Beatles foram vitais em acender a fagulha da rebelião em todo o Leste europeu.

SM – Qual foi o efeito do álbum soviético de Paul McCartney naquele momento?

LW – O disco foi disputadíssimo em todo o bloco soviético. No meu livro eu descrevo como os marinheiros mercantes russos venderam aqueles álbuns raros nos portos ocidentais, onde ele não podia ser comprado, por uma fortuna. Alguns ganharam dinheiro suficiente para comprar um carro! Mas naquela época muitos jovens soviéticos já tinham seus próprios discos dos Beatles e o álbum de Paul foi apenas uma parte daquele momento anti-soviético do final dos 1980. Paul escolheu aquelas canções antigas porque eram fáceis de gravar rapidamente e porque não teria problemas de copyright como seria se gravasse canções originais dos Beatles.

SM – Vi algumas frases atribuídas a Gorbachev sobre os Beatles. Ele realmente falou sobre eles?

LW – Sim, Gorbachev realmente disse que os Beatles tiveram um papel importante em mudar a União Soviética e ajudar a Glasnost.

SM – No entanto, não consigo ver os Beatles como “anticomunistas”. Eles parecem para mim mais como “pró-liberdade” e “antitotalitaristas”, você não acha?

LW – Sim, eu concordo. Os Beatles como grupo não eram diretamente políticos e suas músicas certamente não eram “anticomunistas”. Acho que foi o espírito livre das canções deles que realmente ajudaram a produzir mudança e, como um dos meus entrevistados disse em St. Petesburgo, ‘varreram os fundamentos do totalitarismo’.

Quando a repressão ao rock começou a acabar, já na era Gorbachev, até mesmo o “cantor oficial” do sistema, Joseph Kobzon, fazia covers das canções dos Beatles… O primeiro beatle a pisar em solo russo foi Ringo Starr, em 1998. Paul McCartney só faria seu tão esperado show em Moscou em 2003, mais de 15 anos após o disco soviético. Ainda na chegada, o cantor e a segunda mulher, Heather Mills, ouviram dos oficiais de aduana o mesmo que Woodhead ou qualquer um que visita o país ouve: que os russos aprenderam inglês ouvindo os Beatles.

O casal foi recebido no Kremlin por ninguém menos que o presidente da Rússia, Vladimir Putin. Paul tocou Let It Be ao piano para Putin, a quem descreveu ao jornal The Guardian na época como “fabuloso”.

Putin não prometeu aparecer no histórico show da Praça Vermelha. Mas então, subitamente, eis que rola uma movimentação na platéia de mais de 100 mil pessoas… Paul finge que não vê o presidente chegando com sua entourage e segue cantando.

A apoteose, é claro, vem quando sir Paul McCartney canta Back in The USSR, gravado pela primeira vez no Álbum Branco, em 1968. Ao fundo, pôsteres com as imagens de Stalin, Lenin e do passado soviético no telão –ao mesmo tempo em que bandeiras comunistas se agitam na plateia.

O fim desta história que ainda não acabou é irônico. Uma das provocações dos rebeldes ucranianos em 2013 era colar o nome “Lennon” em cima das placas das avenidas “Lenin” espalhadas pelas grandes cidades do país. Em março do ano passado, finalmente uma rua do mais anti-comunista dos países da antiga república soviética mudou de nome: deixou de ser “rua Lenin” para ser “rua Lennon”. Vão-se algumas estátuas, erguem-se outras. Lenin says goodbye, Lennon says hello.

 

 

 

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Contra o feminicídio, Café Tacvba não tocará mais La Ingrata, um de seus maiores sucessos

Publicado em 24 de fevereiro de 2017
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(O grupo mexicano Café Tacvba. Foto: divulgação)

O grupo de rock mexicano Café Tacvba anunciou esta semana que não tocará mais um de seus maiores sucessos, La Ingrata, cujo vídeo de lançamento foi considerado o melhor do ano pela MTV em 1995. A razão: solidarizar-se com as mulheres que são assassinadas todos os anos no México, que carrega o triste recorde de ser um dos campeões mundiais em feminicídios. A letra de La Ingrata termina justamente com uma mulher assassinada pelo companheiro.

Ingrata, aunque quieras tu dejarme
los recuerdos de esos dias
de las noches tan obscuras tu
jamas podras borrarte.
Por eso ahora
tendre que obsequiarte
un par de balazos
pa que te duela.
Y aunque estoy triste
por ya no tenerte
voy a estar contigo
en tu funeral…

(Ingrata, ainda que queiras deixar-me/as lembranças destas noites tão escuras jamais poderás apagar/ Por isso agora/ terei que obsequiar-te com um par de balaços/ para que te machuque. /E ainda que esteja triste/ por já não ter você comigo/ Vou estar contigo em teu funeral…)

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(Capa do single de La Ingrata, de 1994)

A confirmação de que La Ingrata não será mais tocada pelo grupo veio na página oficial do Café Tacvba no Facebook, na última terça-feira 21. “Para nós, as mulheres sempre são dignas de muito respeito, amor e cuidado”, dizia a nota, acompanhada do link para uma entrevista ao jornal argentino La Nacion, em novembro passado, onde os músicos mexicanos foram questionados por cantar uma canção que contém um feminicídio ao mesmo tempo em que estão engajados na luta por igualdade de gênero.

“Éramos bem jovens quando fizemos a canção e não estávamos sensibilizados para esta problemática como agora estamos. Creio que é um momento de repensar se vamos continuar tocando a canção ou se mudamos a letra. Porque agora sim estamos sensibilizados, agora sabemos do problema. E eu, pessoalmente, não estou interessado em apoiar isso. Muita gente pode dizer que é só uma canção. Mas as canções são a cultura, e essa cultura é o que faz com que certas pessoas se sintam com o poder de agredir, de fazer dano”, disse o vocalista Rubén Albarrán.

Entre 2007 e 2015 o número de mulheres assassinadas no México duplicou. Cerca de 10 mil mulheres foram assassinadas entre 2012 e 2016, mas menos de 20% destas mortes foram julgadas como feminicídio, segundo a investigação Feminicídios Ocultos, feita pela ONG Mexicanos contra a Corrupção e a Impunidade (MCCI), com o apoio da plataforma CONNECTAS e do Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ).

“Com base nestes informes, pelo menos 7,6 mil mulheres que foram assassinadas a bala, esquartejadas, estupradas, asfixiadas ou golpeadas até morrer não foram reconhecidas como vítimas de feminicídios”, diz a investigação. “Um feminicida pode receber uma pena de até 70 anos de prisão em alguns estados mexicanos, mas se o assassino alega que cometeu o crime sob ‘forte emoção’ (que também chamado de crime passional), a pena pode ser reduzida a um quarto.”

A decisão do Café Tacvba de não tocar mais La Ingrata dividiu os fãs no Facebook. Alguns reclamaram e outros apoiaram. “Historicamente a música popular trata as mulheres com falta de respeito. Isso que vocês estão fazendo, simbolicamente, é muito poderoso. Fala da mudança de mentalidade que ocorreu no novo século. Fala da evolução que estão dispostos a seguir e é coerente com as causas que vocês defendem”, disse um dos apoiadores. “Por favor, menos lição de moral e correção política”, criticou outro.

La Ingrata é uma das canções de maior sucesso do grupo mexicano e uma das que mais sacudiam seus fãs nos shows, por seu ritmo empolgante. A conferir se a decisão de não tocá-la mais é para valer.

 

 

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Woody Guthrie X Fred Trump, parte 2: “Trump me transformou num vagabundo”

Publicado em 9 de fevereiro de 2017
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(Woody Guthrie com crianças em Nova York, em 1943. Foto: Eric Schaal)

Alguns meses depois de revelar ao mundo a existência de letras e escritos do compositor e cantor Woody Guthrie denunciando o racismo do império imobiliário dos Trump, o pesquisador Will Kaufman voltou à carga com uma nova descoberta: uma letra inédita onde Guthrie culpa o pai do presidente dos EUA, Fred Trump, por sua decadência financeira. Um dos maiores nomes da história do folk em todos os tempos e maior influência de Bob Dylan, o compositor morreu em 1967, aos 55 anos de idade, vítima da Doença de Huntington, uma enfermidade hereditária.

Para ler a primeira parte desta sensacional história, clique aqui. Lembrando que o artigo contém “vaquinha posterior” ao final, para pagar o tradutor Mauricio Burigo.

***

Em outra canção inédita, Woody Guthrie continua seu ataque ao “Velho Trump” 

Por Will Kaufman, no The Conversation

Tradução: Mauricio Burigo*

No início deste ano escrevi sobre uma série de escritos amargos de Woody Guthrie que eu havia descoberto enquanto fazia pesquisa para um livro sobre o compositor de baladas.

Os ataques eram dirigidos contra um homem que Guthrie havia apelidado de seu “pior inimigo”: Fred C. Trump, o senhorio do complexo de apartamentos Beach Haven no Brooklyn, onde a família Guthrie morou de 1950 a 1952. Guthrie abominava particularmente a linha de cor (referência à linha imaginária delimitando espaços para pretos e brancos nos EUA) de facto do projeto habitacional. (“Beach Haven se parece com o céu/ Onde nenhum negro vem vagar!/ Não, não, não! Velho Trump!/ O velho Beach Haven não é meu lar!”).

Neste verão, Judy Bell –a infatigável guardiã das canções de Guthrie na gravadora independente TRO-Essex– contou-me que havia encontrado em seus arquivos uma folha datilografada com a letra de uma canção de Guthrie. Embora seja outra praga lançada ao pai de Donald Trump, a descoberta chega no momento em que um recente artigo de fôlego do New York Times detalha a “longa história de preconceito racial” nas propriedades construídas e possuídas pelo Império Trump.

“Trump me transformou num vagabundo”

Como tantas outras canções folk memoráveis, a diatribe de sete versos de Guthrie é desavergonhadamente simples, repetitiva e formulada. Descreve o ultraje do compositor acerca dos aluguéis cobrados de forma exploradora num projeto habitacional feito com dinheiro público, destinado a veteranos de guerra como ele próprio:

Mister Trump made a tramp out of me;
    Mister Trump has made a tramp out of me;
    Paid him alla my bonds and savin's
    To move into his Beach Haven;
    Yes, Trump has made a tramp out of me.

(O sr. Trump me transformou num vagabundo; O sr. Trump me transformou num vagabundo; Paguei ele com tudo que é título e poupança para me mudar para o Beach Haven; Sim, Trump me transformou num vagabundo.)

Guthrie foi certeiro quanto à exploração de Fred Trump. Ele pode ter sido inclusive econômico em detalhes: os milhões que Trump ganhava dos pagamentos de aluguel; os 5% embolsados do custo da empreitada de Beach Haven; o valor de US$ 3,7 milhões em fundos federais para edificação tomados de empréstimo, desnecessários, que foram destinados à construção. Mas Guthrie sabia por instinto que um negócio sujo estava se desenrolando em Beach Haven.

Sua canção reflete, também, o que o estudioso de música popular Edward Comentale chamou de “filão divagante, engraçado”, de Guthrie: uma retórica constrangida e estilizada em alto grau, caracterizada por “uma aceitação da pobreza e até do desamparo, em oposição às estruturas de orgulho e poder”.

Well, well, Trump, you made a tramp out of me;
    Well, well, Trump, you made a tramp out of me;
    You charge me so much it just ain't human,
    I've got to try to live with president Truman;
    Yess, Trump, you made a tramp out of me.

(Ora, ora, Trump, você me transformou num vagabundo; Ora, ora, Trump, você me transformou num vagabundo; Você me cobra tanto que isso simplesmente não é humano, Vou tentar morar com o presidente Truman; Ééé, Trump, você me transformou num vagabundo.)

Em última análise, tudo isso demonstra algo muito mais grave. Oferece um vislumbre da mente de um homem que recebera um diagnóstico desalentador dos médicos do Hospital Estadual do Brooklyn, em 3 de setembro de 1952, enquanto ainda vivia em Beach Haven: “PSICOSE ASSOCIADA A ALTERAÇÕES NO SISTEMA NERVOSO COM CORÉIA DE HUNTINGTON”.

Por fim havia uma explicação para o que fora um padrão de comportamento alarmante e desorientador para Guthrie: tontura constante, que ele e outros tomavam por alcoolismo; acessos súbitos, fora do comum, de violência verbal e física; uma desinibição sexual elevada, com frequência embaraçosa; e a deformidade e aberração gradual de seus escritos –o que seu biógrafo Joe Klein chama “anarquia linguística”, e que “se estendeu até ao seu endereço (Beach Haven, em New York City, tornou-se ‘Bitch Haven’ em ‘New Jerk Titty’)”.

O período em Beach Haven, que se mostrara tão auspicioso no seu princípio (com mais espaço de convivência para a família, alguns royalties modestos pelas composições de Guthrie, e uma oportunidade para que sua esposa Marjorie abrisse uma escola de dança moderna), acabou após dois anos, com o fim do casamento de Guthrie e episódios alternados de hospitalização, encarceramento e vagabundagem.

Beach Haven: uma cidade segregacionista

É claro que não foi Fred Trump que “transformou” Guthrie num “vagabundo”. No entanto, é igualmente claro que Guthrie veio a associar o nome “Trump” à sua decadência.

Mesmo que estivesse sendo despojado de suas próprias faculdades neurológicas e expressivas, ele escreveu de “Witchy Haven” (“Refúgio das Bruxas”) ao seu amigo íntimo, ativista e infiltrado na Ku Klux Klan, Stetson Kennedy, sobre o “Velho Sr. Trump” e “sua cambadinha de puxa-sacos” que o impediam de fazer “um centímetro sequer de trabalho para pregar ou montar ou consertar a espelunca”.

E escreveu sobre algo ainda pior: a “linha de cor” de Fred Trump.

“Além de não ser capaz de desfrutar um dia sequer de vida normal ou natural aqui no projeto de edifícios do Sr. Trump por conta de cerca de 99 cláusulas no seu velho maldito contrato de inquilino, descubro que estou residindo no centro insuportável de uma cidade segregacionista (jimcrow town, no original) para onde nenhuma família negroide tem ainda permissão de se mudar e viver livremente”.

Guthrie lamentava que ele e a esposa fossem forçados a criar seus filhos “sujeitos ao fedor e ranço de caveira e ossos do ódio racial, jimmycrack Krow” (trocadilho com Jim Crow, as leis segregacionistas dos EUA).

Daí o derradeiro tiro de Guthrie em seu senhorio:

Humm humm, Trump, you made a tramp out of me;
    Hummm, humm, Trump, you made a tramp out of me;
    You robbed my wife and robbed my kids,
    Made me stay drunk and to hit the skids;
    Yepsir, Trump, you made a tramp out of me.

(Hum, hum, Trump, você me transformou num vagabundo; Hum, hum, Trump, você me transformou num vagabundo; Você roubou minha mulher e roubou minhas crianças, Me fez ficar bêbado e desandar; Sim, senhor, Trump, você me transformou num vagabundo”.)

(Woody Guthrie hospitalizado em 1958. Foto: Lou Gordon/Woody Guthrie Publications)

(Woody Guthrie hospitalizado em 1958. Foto: Lou Gordon/Woody Guthrie Publications)

No fim de setembro de 1952, Guthrie caiu na estrada sozinho, rumo à Califórnia, em parte para ajustar-se à realidade do seu diagnóstico. Marjorie ficou para que se dirigisse ao escritório de Trump com uma solicitação de suspensão do contrato. Depois de não receber resposta, escreveu ao agente de Trump em Beach Haven em 4 de dezembro de 1952:

“Meu marido, após meses de hospitalização e exames, foi declarado incurável e está sofrendo de uma doença fatal conhecida como Coréia de Huntington. Temos três crianças pequenas e, como agora sei que somente eu serei responsável por elas, acho que seria impossível para mim continuar morando em meu apartamento, cujo aluguel agora se tornará um sacrifício e tanto… Creio que devo sair dentro de uma semana”.

Até esta data, os arquivos não mostram qualquer evidência de uma resposta, favorável ou não. Em seguida, Marjorie e suas três crianças –Arlo, Joady e Nora– deixaram Beach Haven e mudaram-se para Howard Beach, Queens.

As letras de Guthrie repercutem hoje

Não é surpreendente que os escritos de Beach Haven de Guthrie tivessem atraído tanta atenção na corrida eleitoral à presidência em 2016. Um esclarecimento histórico precisa ser feito. O jornalista David Cay Johnston, por exemplo, escreve em seu novo livro, The Making of Donald Trump, que Guthrie “pensava em colocar as políticas de aluguel de Trump em uma canção que intitulou Old Man Trump“.

Na verdade, Guthrie nunca escreveu uma canção chamada Old Man Trump. Johnston usou o título porque foi uma condição da licença de direito autoral concedida pela família Guthrie. Neste meio tempo, a canção com esse nome recentemente gravada e divulgada por Ryan Harvey, Tom Morello e Ani DiFranco, é uma mistura feita por Harvey com fragmentos de versos tirados de três fontes de arquivos separados (publicados pela primeira vez em The Conversation em janeiro de 2016). Guthrie tampouco usou a expressão “Trump’s tower” (“Torre de Trump”), como Harvey e seus colegas cantam; Harvey explicou que foi decisão sua “inserir uma referência do tempo presente”.

Os escritos de Beach Haven de Guthrie vieram a público em uma hora em que sua gravadora, TRO-Essex, em parceria com o espólio de Woody Guthrie, está travando uma batalha quanto aos direitos autorais do hino mais celebrado de Guthrie, This Land Is Our Land.

Como explicou Nora Guthrie: “nosso controle desta canção não tem nada a ver com ganho financeiro… Tem a ver com protegê-la de Donald Trump, protegê-la da Ku Klux Klan, protegê-la de todas as forças malignas lá fora”.

Trump possui um considerável histórico de se apropriar sem autorização de canções para a sua campanha, para grande indignação dos seus compositores. Mas, olhando mais além da campanha presidencial: ainda que os escritos de Beach Haven passassem batidos, e ouvíssemos, de qualquer maneira, This Land Is Our Land sendo tocada dentro dos elevadores da Trump Tower ou nas sedes dos clubes de campos de golfe de Trump, não existiria um instrumento científico que pudesse medir a velocidade com que Woody Guthrie se reviraria no túmulo.

VAQUINHA POSTERIOR: todas as doações feitas para esta reportagem nos próximos dias, por Paypal ou depósito em conta, serão encaminhadas ao tradutor Mauricio Burigo. Se você gostou, apoie!

 

 

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