Novos Baianos: a arte de viver em comunidade – e fazer música genial

Publicado em 6 de julho de 2016

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Se tem um grupo que realizou o sonho hippie de morar em comunidade foram os Novos Baianos. Moraes Moreira, Baby Consuelo (hoje Baby do Brasil), Pepeu Gomes, Paulinho Boca de Cantor, Dadi, o letrista Luiz Galvão e alguns agregados viveram juntos num apartamento no Rio de Janeiro, num sítio em Jacarepaguá (o lendário Cantinho do Vovô) e, por último, numa fazenda em São Paulo. Quase dez anos de convivência, entre 1969 e 1979, regada a muita música, futebol e maconha, até que um dia, como qualquer casamento, não deu mais certo e cada um foi para o seu lado.

O tempo que duraram a vida em comunidade e o grupo rendeu crias humanas e artísticas: muitos filhos e oito discos considerados clássicos da música popular brasileira. No documentário Filhos de João – O Admirável Mundo Novo Baiano, o diretor Henrique Dantas recria a história dos Novos Baianos, com histórias hilárias, como a origem do nome do disco Acabou Chorare (1972), que em uma votação da revista Rolling Stone em 2007 foi escolhido o maior álbum de MPB de todos os tempos.

No filme, Galvão conta que João Gilberto chegou contando uma história sobre a filha, Bebel, que tinha levado uma queda e quando o pai foi consolá-la, disse: “Acabou chorare, acabou chorare”. Não é demais? Também engraçadíssimo é o causo da filha de Paulinho Boca. Como a menina não havia recebido nome até os 2 anos, ficou sendo chamada de “Buchinha”, porque o pai tinha o apelido de La Bouche. Até que um dia, uma canção do mesmo João Gilberto inspirou seu papai a finalmente batizá-la como Maria.

Mesmo sem ter sido entrevistado, João Gilberto é como um sujeito oculto: o documentário abraça vigorosamente a tese de que os Novos Baianos são seus herdeiros, uma espécie de “continuidade” do trabalho do “pai da bossa nova”. O único porém: Baby do Brasil se recusou a liberar as entrevistas que fez para o filme, alegando que tinha falado para um “trabalho de universidade” e não para uma produção profissional. Fica desfalcada a presença dela, uma pena. Ainda assim, é imperdível. Lindo demais, puro amor.

De bônus, assista também Novos Baianos FC, documentário de Solano Ribeiro, de 1973, que traz uma visão de insider sobre a vida em comunidade daquela galera genial: Ribeiro acompanhou durante dez dias o cotidiano dos Novos Baianos no Cantinho do Vovô. Música de primeira, rolando solta direto da fonte. Aproveitem.

 

 

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Grandes enganações do capitalismo: o CD

Publicado em 5 de julho de 2016

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Existe tecnologia mais fail do que CD? A porcaria arranha, quebra, fura, mofa, descasca ou simplesmente NÃO TOCA! Quem nunca passou raiva com um CD que fica rodando, rodando, rodando e zunindo sem parar? Aí você troca de aparelho para testar e o troço continua pulando de faixa em faixa feito um demônio e nada de música… Sem contar que os próprios CD-players também vivem encrencando. Está para nascer quem não tenha um aparelho velho de CD encostado em casa. Ou vários, uma espécie de cemitério de CD-players inúteis.

Já comentei aqui sobre o manjado truque do capitalismo de criar necessidades: convencer as pessoas de que elas precisam de algo que na realidade não precisam. Foi assim com os CDs. Fico pensando no momento em que nos convenceram a todos de que o disco de vinil era algo obsoleto e que os CDs eram muito melhores, mais práticos e duráveis. Resultado: a maioria de nós jogou fora todos os LPs e compactos que colecionamos durante a vida inteira, alguns deles relíquias de família. Que burrice!

Fomos convencidos ainda a comprar equipamentos ultra-sofisticados para tocar os CDs e impressionar as visitas. Lembro de gente que tinha umas CDtecas enormes, com aparelhos que tocavam vários CDs de uma vez, e quem comprava aquilo adorava se exibir, era símbolo de status. O tempo mostrou quão ilusório isso era: os CDs não duram nada se não estiverem em condições de armazenamento, umidade etc. “ideais” e aqueles aparelhos “de última geração” quebram com a maior facilidade. Para consertá-los, as assistências técnicas cobram os olhos da cara, e muita gente acabava preferindo comprar outro. Nada mais lucrativo para os fabricantes.

Os CDs eram mais portáteis, isso é verdade, do que os velhos bolachões. Você podia levar vários numa viagem de carro, por exemplo. Quanto aos CD-players, a maior vantagem apontada era a possibilidade de pular a música apenas com um toque de botão ou no controle remoto, sem precisar levantar para mexer no disco, como acontece com os LPs. Essa, pensando bem, deve ser a maior desvantagem do CD diante do vinil: criar uma geração inteira de gente com preguiça até de levantar para trocar um disco de lado.

Com o advento do MP3, o CD, que supostamente duraria 200 anos, foi praticamente abandonado. Hoje inclusive tem mais gente que escuta música direto em aplicativos como o Spotify. Aquela “tecnologia moderníssima” foi para o limbo. Não conheço quase ninguém que escuta CDs atualmente. Em compensação, muitos amigos voltaram a ouvir os velhos vinis. Sorte de quem não seguiu a onda e os salvou da lata de lixo. E, surpresa: basta passar um paninho que eles tocam que é uma maravilha!

Não vou entrar aqui na polêmica nunca resolvida sobre qual dos dois possui o melhor som, o CD ou o vinil. Acho que é, acima de tudo, uma questão de gosto. Mas o fato é que os vinis não estragam! O máximo que pode acontecer com eles é arranhar. Se você deixá-los guardado um tempo, não vai precisar de muita coisa além de esponja e sabão para tê-los tinindo novamente. Agora faça o mesmo com um CD, deixe-os esquecidos durante décadas: eles ficam imprestáveis!

As caixinhas dos CDs são outra coisa abominável. Feitas em plástico, elas quebram no primeiro descuido e ficamos com vários discos sem caixa até conseguir outras – e aí obviamente eles estragam ainda mais facilmente. Impossível não comparar com as belíssimas capas dos LPs de vinil, em papel, perfeitamente duráveis. Tenho discos com mais de 40 anos aqui em casa e com as capas novinhas.

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(Esse disco do Police é de 1978…)

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(…e esse da Rickie Lee Jones é de 1991. Novinhos!)

Os aparelhos para tocar vinil podem ser supersimples, analógicos. Ou seja, como Fuscas, raramente quebram. O melhor é voltar à velha vitrolinha e comprar algo bem rudimentar, que serve apenas para… tocar disco. Foi o que eu fiz. Tínhamos em casa um 3 em 1 velho que estava há anos encostado e foi parar no quartinho dos fundos. Comprei uma vitrola e voltei a ouvir meus discos e alguns usados que comprei em sebos, todos em excelente estado. A vitrolinha também é capaz de transformar meus velhos LPs em MP3. O melhor da velha e da nova tecnologias.

Fala sério: fomos ou não fomos trouxas ao cair no conto do CD? Bem, eu nunca joguei meus LPs fora e agora estou tendo o prazer de escutá-los na vitrola. Nada mais gostoso do que aproveitar os momentos de folga ouvindo-os um por um, com seu som inigualável. Sem a menor preguiça de levantar, trocar de lado, escolher outro… Delícia.

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(O cantinho que eu fiz pros meus amados LPs)

 

 

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O reggae socialista de Max Romeo

Publicado em 29 de abril de 2016
(Max Romeo nos anos 1970)

(Max Romeo nos anos 1970)

Pouco conhecido no Brasil, o jamaicano Max Romeo, hoje com 71 anos, é uma das lendas do reggae mundial. Engajado, Romeo escreveu uma série de canções políticas nos anos 1970, sob a influência de Michael Manley (1924-1997), ex-primeiro-ministro do país, um líder sindical carismático, considerado “herói nacional” e mentor do que se chamou “socialismo democrático” na Jamaica.

Nas eleições de 1972, Romeo fez canções para o Partido Nacional do Povo, de esquerda, liderado por Manley (cujo apelido carinhoso era Joshua). Sua canção Let The Power Fall (Deixe o Poder Cair) se tornou o tema das eleições gerais na Jamaica aquele ano, ganhas por Joshua.

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(Max e os filhos Ronaldo e Romario)

Atualmente, Max Romeo se apresenta com os filhos Romario e Ronaldo (em homenagem aos jogadores brasileiros, eu suponho!), que formam a dupla reggaeira Rominal. Sua filha Xana Romeo também canta reggae.

Em 1974, Romeo escreveu Socialism is Love, um reggae muito lindo cuja letra traduzo aqui para vocês.

***
Socialismo é amor
Por Max Romeo

Você pergunta:
“O que é socialismo, o que isso realmente significa?”
Direitos iguais para todos, independentemente de seu poder
Não se deixe enganar (Joshua disse)
Ouça o que eu digo (Joshua disse)
Nenhum homem é melhor que o outro

Socialismo é amor entre homem e homem
Socialismo é amor por seus irmãos
Socialismo é conectar corações e mãos
Você acredita em mim?
É a pobreza e a fome que estamos combatendo

Socialismo é compartilhar com suas irmãs
Socialismo são os povos caminhando juntos
Você acredita em mim?
Amor e companheirismo, é isso que significa

Mr. Big tremendo em seus sapatos, dizendo que ele tem muito a perder
Não quer ouvir sobre sofrimento de jeito nenhum
(Joshua disse)
Um homem tem demais, enquanto tantos têm tão pouco
O socialismo não concorda com isso, não concorda de jeito nenhum
(Repete)

 

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