Marilena Chaui errou em atacar a classe média

Publicado em 14 de fevereiro de 2016
grandefamilia

(Elenco original de A Grande Família, um símbolo da classe média brasileira. Foto: divulgação/TV Globo)

Aquele vídeo em que a Marilena Chaui, intelectual que respeito, ataca a classe média, sempre me deixou incomodada. Poxa, eu sou de classe média! Compreendo, claro, que ela se referia, mais que à classe média, ao pensamento médio, tacanho, mesquinho, egoísta. Ainda assim, foi como se ela estivesse me atacando pessoalmente. Sinto de forma parecida quando criticam o Lula e percebo que, por trás dos ataques, se esconde um enorme preconceito de classe e de origem, por Lula ser nordestino e de família humilde. Isso me atinge, porque, além de tudo, eu também tenho origem simples e sou nordestina.

É duro, para uma pessoa de classe média, ouvir uma intelectual de esquerda dizer que a odeia, que a acha “uma abominação política porque fascista, uma abominação ética porque violenta, e uma abominação cognitiva porque ignorante” —sobretudo quando não se é nada disso. Soa pior ainda quando vemos que tem a seu lado, no palco da palestra em questão, um ex-presidente que se gaba (e é verdade) de ter possibilitado a ascensão dos pobres à… classe média!

Essa crítica tão feroz à classe média, que me perdoe a Marilena Chaui, me parece elitista, uma velha contradição da esquerda intelectual no Brasil. Um certo esnobismo, complexo de superioridade. Me lembra aquele personagem de Terra em Transe, de Glauber Rocha, gritando a todos pulmões que o povo é débil mental. Não acredito que faça bem nenhum à imagem da esquerda este tipo de postura, pelo contrário. O vídeo de Marilena Chaui virou um clássico da direita contra a esquerda na internet, popularizado em memes e edições grotescas.

Do ponto de vista estratégico, o ataque da filósofa petista é um desastre. Atiçou a turba sem necessidade, ajudou a desatar a ira da classe média sobre a esquerda (como se não bastasse a mídia…). Principalmente porque sabemos que na hora agá, em ano eleitoral, o PT gasta milhões com marqueteiros para atrair justamente a classe média —com doações dos banqueiros que, aliás, ele NÃO critica. Taí, eu simplesmente não consigo entender uma esquerda que poupa os banqueiros e detona a classe média. E sejamos francos: se quem vai às ruas atacar a esquerda é de classe média, também o é boa parte de quem se manifesta para defendê-la.

Auto-denominado “socialista democrático” e com sérias chances de vencer a disputa na pátria do capitalismo, os EUA, o pré-candidato à presidência Bernie Sanders tem tentado uma estratégia oposta, a de seduzir a classe média para o que pretende. Porque lá o sonho americano está se desfazendo e a principal vítima é a classe média. É a classe média norte-americana quem está sedenta por mudança e que é capaz de enxergar que o “outro mundo é possível” pode ser experimentado na terra de Ronald Reagan. Bernie faz promessas diretas para a classe média, de que o modelo que propõe vai ajudá-la a recuperar seu poder aquisitivo.

“A grande classe média norte-americana está desaparecendo”, Sanders costuma lembrar nos comícios, apontando para o tão acalentado “american dream”, que se esfuma diante dos olhos da nação. O sonho americano acabou?, perguntam-se articulistas atônitos em publicações liberais e conservadoras, confrontados com indicadores que mostram o empobrecimento da população e a desigualdade crescente. Que dor maior seria possível, para o americano médio, do que admitir que o sonho acabou?

Em seu discurso vitorioso na convenção em New Hampshire, Bernie novamente acenou à falida classe média do país. “A ganância, a imprudência e o comportamento ilegal de Wall Street levaram a nossa economia a ficar de joelhos. O povo americano socorreu Wall Street, agora é a hora de Wall Street ajudar a classe média”. A promessa de que haverá saúde gratuita universal (além de universidade gratuita) ajuda a conquistar a classe média também pelo bolso, porque significará uma economia no orçamento apertado de gente que precisa ter até três empregos para ganhar a vida.

O discurso de Bernie Sanders mostra que a classe média pode ser despertada para uma visão progressista do mundo, em lugar de desprezada. Mas é preciso detectar o que ela deseja. Melhor: é preciso convencê-la de que o que ela deseja de verdade em sua vida é algo muito mais profundo do que um novo smartphone ou televisão de plasma. Nos EUA, a classe média está decaindo, e por isso este interesse pelo socialismo de Sanders, pela outra via. No Brasil, a classe média subiu pelo consumo, mas este apoio ao PT pelo consumo se mostrou volátil, superficial, não duradouro além da eleição. Estamos vendo isto com toda clareza neste momento.

Em vez de pensar em um discurso mais abrangente e sedutor, no sentido de mostrar ser possível um lugar melhor para viver para a maioria das pessoas, a esquerda brasileira repete o mesmo comportamento de Hugo Chávez na Venezuela, espantando a classe média como um todo ao invés de tentar ganhar pelo discurso ao menos parte significativa dela —uma pena, este foi o grande equívoco do comandante. Desculpa, mas para mim o real inimigo nunca foi a classe média e sim a burguesia; as classes altas; os especuladores; as “elites” de que falava Lula; o 1%. É exatamente quem Bernie Sanders tem atacado, com sucesso.

Se um partido fracassou em conscientizar politicamente a classe média, não me parece justo culpá-la por sua falta de politização.

 

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O que desejo para o Brasil em 2016

Publicado em 31 de dezembro de 2015
(Criança Awa. Foto: Sebastião Salgado)

(Criança Awá nos braços do pai. Foto: Sebastião Salgado)

Que Dilma Rousseff FIQUE e Eduardo Cunha SAIA.

Que o governo MELHORE para o lado que tem de melhorar, não para o lado que a direita quer que “melhore”.

Que NÃO FALTE coragem a Dilma e que ela seja mais capaz de OUVIR.

Que Aécio CRESÇA e aprenda a digerir derrotas.

Que a oposição e a mídia (praticamente irmãs siamesas) AMEM um pouco o Brasil. Independentemente de quem está no poder, o país é o mesmo.

Que a Justiça PUNA corruptos de todos os partidos, não só do PT.

Que a polícia PRENDA bandidos em vez de matar inocentes, sobretudo jovens negros.

Que os responsáveis pela tragédia no rio Doce PAGUEM por ela.

Que os movimentos sociais NÃO SE CALEM.

Que as mulheres CONTINUEM nas ruas denunciando e clamando por seus direitos e que os os homens SE JUNTEM a elas.

Que as pessoas aprendam a RESPEITAR o pensamento político umas das outras.

Que gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros VIVAM.

Que a intolerância religiosa ACABE. Este é um caminho sem volta, que leva, como vemos em muitos países, ao terrorismo.

Que os índios PERMANEÇAM em suas terras.

Que os governantes PESQUISEM outros caminhos para sair da crise. É tempo para ideias inovadoras. O sistema atual dá sinais de esgotamento há muito tempo.

Que “pátria educadora” NÃO SEJA apenas um slogan para ganhar eleição.

Que os sindicatos ATUEM contra a precarização do trabalho e LUTEM por novas conquistas para os trabalhadores.

Que o Brasil SE TRANSFORME no país que queremos para nossos filhos, de todas as raças e crenças: um país que inclui e não exclui; um país menos desigual e mais fraterno; o país do futuro.

Feliz 2016 para todos nós. Os brasileiros merecem.

 

 

 

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Os 10 posts mais lidos de 2015

Publicado em 29 de dezembro de 2015

Política, sexualidade, religião, negritude, humor… Estes foram os grandes destaques do blog em 2015 na opinião dos leitores. Para minha satisfação, as reportagens históricas foram campeãs em compartilhamentos nas redes sociais. Sinal de que minha percepção de que faltam “olds” no jornalismo é acertada: as pessoas querem ler sobre o passado também. Repito sempre que o jornalismo tem o papel social de compartilhar conhecimento, esquecido pela mídia hegemônica.

Basta clicar nos links para ler ou reler os textos. E que venha 2016! Feliz ano novo a todxs.

1. Como a igreja arruinou a vida sexual das Américas com pecado, culpa e preconceito

mochica69

(Cerâmica pré-colombiana do museu Larco em Lima, Peru)

 

2. Que país você quer para os seus filhos? O de Dilma ou o de Eduardo Cunha?

O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, durante entrevista coletiva, fala sobre regra para aposentadoria (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

(O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

 

3. Uma entrevista com a “sem-terra do Outback” (Ou: como a direita perdeu a noção do ridículo

outback1

4. Você sabe o que quer dizer “aperreado”?

aperreamiento

(Pintura indígena reproduzida no livro Proceso de residencia instruido contra Nuño de Guzmán, de José Fernando Ramírez, 1847)

 

5. 10 coisas sobre o Mais Médicos que a mídia convencional não vai contar para você

(O médico Juan Delgado é agredido por colegas em sua chegada; à direita, Dilma pede desculpas oficiais em nome do governo)

(O médico Juan Delgado é agredido por colegas em sua chegada; à direita, Dilma pede desculpas oficiais em nome do governo)

 

6. Por que nos EUA não tem batucada?

(Uncle Tom's Cabin, Robert Criswell, 1852)

(Uncle Tom’s Cabin Contrasted…, Robert Criswell, 1852)

 

7. Evangélicos progressistas, graças a Deus

crentassos

(O pastor evangélico Cristiano Machado, criador do blog Crentassos. Foto: Mario Ohashi)

 

8. 10 perguntas que você sempre quis fazer sobre o socialismo (mas deveria ter vergonha de perguntar)

(Poster do artista húngaro Sándor Pinczehelyi, 1973)

(Pôster do artista húngaro Sándor Pinczehelyi, 1973)

 

9. Guia prático das cotas

cotassim

10. A suavidade esquecida dos pelos pubianos

xoxota

(Theodoor Thomas, Nu Feminino, 2013)

 

 

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