8 medidas contra o povo que o PSDB apoia, mas dizia antes que era “terrorismo” do PT

Publicado em 24 de julho de 2017

medoaecio

Ao longo dos últimos anos, em época eleitoral, os petistas vinham apontando uma série de medidas contra o povo que seriam tomadas pelos tucanos se voltassem ao poder. O PT dizia que o PSDB iria acabar com todas as conquistas sociais dos governos Lula e Dilma. E os marqueteiros e candidatos tucanos, com o apoio explícito da mídia comercial, diziam que o PT fazia “terrorismo” e que queria colocar “medo” nas pessoas.

Quase quatro anos se passaram desde a última campanha presidencial. Aécio Neves, o candidato favorito da imprensa e então baluarte da ética na política, foi flagrado pedindo dinheiro ao empresário Joesley Batista. Mas as mentiras ditas pelos tucanos não se resumem a essa. De volta ao governo do país ao lado do PMDB graças a um golpe, o PSDB está fazendo exatamente o que o PT dizia que faria, e em apenas um ano no cargo.

Confira.

1. Bolsa Família: o governo PSDB-PMDB reduziu o número de beneficiados do programa e suspendeu o reajuste acima da inflação. Os tucanos sempre disseram que iriam preservar o Bolsa Família e que eram “boatos” as afirmações de que pretendia acabar com o programa, considerado essencial para combater a pobreza pela ONU.

2. Minha Casa Minha Vida: o governo PSDB-PMDB reduziu em 10% os recursos orçamentários para o programa habitacional. Em 2014, Aécio batia o pé dizendo que era mentira do PT que iria fazê-lo se chegasse à presidência.

3. CLT: o governo PSDB-PMDB aprovou uma “reforma” trabalhista que destrói a CLT e precariza a vida do trabalhador. Em um dos últimos debates, Aécio mentiu aos brasileiros dizendo que não faria a flexibilização da CLT se fosse eleito.

4. Previdência: o governo PSDB-PMDB pretende acabar com a aposentadoria dos brasileiros com sua “reforma”, prevista para ser votada pelo Congresso no segundo semestre. Se ela for mesmo aprovada, as pessoas precisarão trabalhar 49 anos para conseguir se aposentar integralmente. Nas últimas campanhas, nenhum eleitor do PSDB foi informado que isso iria acontecer.

5. Privatização da Petrobras: o governo PSDB-PMDB já está vendendo vários setores da Petrobras e transformando-a numa empresa pequena. Aécio Neves, no entanto, dizia em campanha que iria fazer o contrário: reestatizar a empresa, que segundo ele tinha sido “privatizada” pelo PT.

6. Meio ambiente: o governo PSDB-PMDB sancionou a MP da Grilagem, que legaliza massivamente áreas públicas invadidas, e agravará o desmatamento e os conflitos de terras, principalmente na Amazônia. A MP retira ainda exigências ambientais para a regularização fundiária, o que estimulará o desflorestamento. Nem parece o mesmo partido que foi apoiado pelo PV de Eduardo Jorge e por Marina Silva no segundo turno em 2014.

7. Saúde e educação: o governo PSDB-PMDB limitou, com a PEC dos Gastos, o orçamento para a saúde e para a educação pelos próximos 20 anos. Durante a campanha, Aécio dizia exatamente o contrário: que iria aumentar os gastos com saúde e educação para 10% do PIB.

8. Bancos públicos: o governo PSDB-PMDB está dilapidando os bancos públicos: o Banco do Brasil anunciou o fechamento de 402 agências e a demissão de 18 mil funcionários e a Caixa prevê o fechamento de 120 agências e a demissão de 5 mil funcionários apenas em 2017. Ao mesmo tempo, o governo perdoou uma dívida de 25 bilhões do Itaú e de 338 milhões do Santander. Em 2014, após seu principal assessor na área econômica, Arminio Fraga, ter sido flagrado prometendo fazer exatamente isso, os tucanos diziam que era “terrorismo” do PT a afirmação de que o partido iria destruir os bancos públicos e favorecer os privados.

A pergunta que fica é: em que projeto de governo estava escrito que estas medidas iriam ser tomadas? Quem aprovou estas iniciativas que estão sendo colocadas na prática pelo PMDB, com o apoio dos tucanos? O povo é que não foi.

 

 

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A volta por baixo de Aécio: sem ter o que falar, tucano apela para a “defesa” do Bolsa Família

Publicado em 4 de julho de 2017
(Foto: Lula Marques/Agência PT)

(Fotos: Lula Marques/AGPT)

Por Katia Guimarães*

De volta ao Senado após 46 dias afastado, foi preciso um acordo para Aécio Neves (PSDB-MG) se defender da tribuna do plenário. O tucano recebeu o “toque” de assumir uma postura low profile, sem distribuir ataques. Parecia outro Aécio, bem diferente do candidato derrotado à presidência que passou os últimos três anos esbravejando contra a corrupção e acusando o PT de ser uma organização criminosa. Flagrado pedindo dinheiro ao empresário Joesley Batista, da JBS, posa de vítima, dizendo que não lhe foi dado o direito à defesa.

Em um plenário esvaziado, Aécio passou pelo constrangimento de ser interrompido pela campainha que toca para chamar os senadores para as votações, que disparou por longos minutos, como um mau cantor rejeitado em um programa de calouros. Sob os holofotes da imprensa e ao vivo na TV Senado, o tucano se viu obrigado a descer do púlpito até a situação se normalizar. A maior parte dos senadores de oposição, que o considera cachorro morto, deixou o plenário no momento do discurso.

Foi preciso apelar a deputados do PSDB e da base aliada para fazer número. No início, havia apenas 22 parlamentares presentes. No final, somando os deputados que atravessaram o salão verde em direção à Câmara Alta, ainda eram menos do que a metade do total de senadores (81) . O grande número de assessores ao fundo do plenário azul apenas reforçava a sensação de desprestígio.

(Aécio chega para discursar no plenário vazio)

(Aécio chega para discursar no plenário vazio)

Logo de cara, Aécio anunciou que não daria apartes para não atrapalhar o andamento dos trabalhos da Casa. Balela, isso também fazia parte do acordo discutido entre tucanos e senadores mais próximos a ele. “Em razão da excepcionalidade deste meu pronunciamento, no meu retorno a esta Casa, entendemos que o melhor seria que não concedesse aqui apartes, para que o pronunciamento, que não será muito longo, pudesse ter aqui começo, meio e fim. Portanto, desde já, peço escusas aos ilustres Parlamentares aqui presentes”, afirmou.

Sem citar sua irmã Andreia Neves, que agora está em prisão domiciliar, Aécio se disse indignado, injustiçado e triste. Negou ter cometido crime e atacou o empresário da JBS, Joesley Batista, autor das denúncias contra ele e o presidente Temer. “Não cometi crime algum! Não aceitei recursos de origem ilícita, não ofereci ou prometi vantagens indevidas a quem quer que fosse e tampouco atuei para obstruir a ação da Justiça, como me acusaram. Fui, sim, vítima de uma armadilha engendrada e executada por um criminoso confesso de mais de 200 crimes, cujas penas somadas ultrapassariam mais de 2 mil anos de cadeia”, afirmou.

O tucano voltou a contar a história de que procurou Joesley para vender um imóvel em busca de dinheiro para pagar os advogados que o defende das diversas investigações que correm na Procuradoria-Geral da República (PGR) e no Supremo Tribunal Federal (STF). Em sua defesa disse ainda ter procurado quatro outros empresários.

“Errei, e assumo aqui esse erro, em primeiro lugar por me deixar envolver nessa trama ardilosa e, principalmente, ao permitir que meus familiares servissem de massa de manobra para atender aos propósitos espúrios daqueles que, por absoluta ausência de caráter, não se constrangeram em submeter a honra e a vida de pessoas de bem a seus nefastos interesses. Errei também, e por isso já me desculpei, ao me permitir utilizar, mesmo em conversa que deveria ser privada, vocabulário que não me é comum, como sabem aqueles, que comigo convivem diariamente”, disse, em referência aos palavrões e à frase “tem que ser um que a gente mata antes de delatar” em referência a seu primo Fred, portador do dinheiro.

O discurso foi um rosário de negativas e lamentações. Assim como combinado, Aécio não atacou ninguém. Negou  ter tentado interferir nas investigações e apelou ao direito à liberdade de expressão, citando o artigo 53 da Constituição Federal, que assegura imunidade por palavras, opiniões e votos. “Fui condenado previamente, sem nenhuma chance de defesa; tentaram execrar-me junto à opinião pública. Fui vítima da manipulação de alguns, da má-fé de muitos e, sobretudo, de julgamentos apressados, alguns feitos aqui mesmo, nesta Casa, por alguns poucos que parecem não se preocupar com a preservação dos direitos individuais e com o primado da nossa Constituição.”

Nervoso e lendo todo o discurso, Aécio se agarrou aos argumentos do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Marco Aurélio Mello, que o liberou para voltar ao Senado, repetindo vários trechos de sua decisão. O Aécio campeão de citações na Operação Lava Jato parece ter sentido, durante seu afastamento, a nostalgia do antigo Aécio, neto de Tancredo Neves e com carreira política promissora. Ele fez questão de lembrar o início de sua trajetória, como a campanha pelas eleições diretas em 1984, a Constituinte de 1988, os anos como deputado federal e aliado poderoso do governo FHC, e seus dois mandatos como governador de Minas.

“Sempre atuei na defesa do interesse público, na preservação do patrimônio dos brasileiros, na correção de injustiças que impedem o Brasil de alcançar a condição a que tem direito. Apresentei e relatei inúmeros projetos que buscavam e buscam dar mais transparência e controle às ações públicas para protegê-las da predação por interesses espúrios”, completou.

Uma servidora da limpeza do Senado, que já andou faxinando o gabinete do senador mineiro, chegou a elogiar a simpatia do Aécio, mas vaticinou: “Um acoberta o outro. É por isso que se chama ‘casa política’”, disse, quando perguntei o que achava da volta do senador. Terceirizada há 18 anos, ela levou o calote de duas empresas contratadas pelo Senado que não pagaram a sua rescisão trabalhista, e ao falar novamente de Aécio lembrou de Tancredo Neves. “Neto de quem é, né?! Porque o vô dele foi um grande homem”, completou.

Ao concluir o discurso, Aécio ainda teve a cara de pau de se solidarizar com os milhões de desempregados pela crise que ele mesmo ajudou a agravar, levando o país para o buraco com o boicote ao governo Dilma e o golpe que a tirou do cargo. No fim, sem ter o que falar, resolveu apelar para a “defesa” dos beneficiários do Bolsa Família, que tiveram o seu reajuste cortado por Temer. Sugestão dos marqueteiros e “consultores de crise”?

“Aproveito esta tribuna para, de público, apelar ao governo para que reconsidere, se realmente verdadeira for, a decisão de não conceder reajuste ao Bolsa Família. Todo esforço deve ser feito no sentido de garantir o poder aquisitivo desses benefícios e, sempre que possível, prover-lhes ganhos reais. Encerro com a constatação de que as maiores vítimas de toda essa crise por que passa o Brasil, são aqueles brasileiros que menos têm e mais precisam do apoio do Estado. E será sempre –fica, portanto, esta última mensagem– através da política, mas da boa política, feita com tolerância e respeito, que vamos conseguir encontrar um novo e virtuoso caminho para o Brasil e para cada brasileiro”, disse o tucano.

 

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Fernando Horta: PMDB e PSDB não estão pensando no povo, mas parte do PT e PSOL também não está

Publicado em 2 de julho de 2017
(O tucano Ferraço e os peemedebistas Jucá e eunício gargalham)

(O tucano Ferraço e os peemedebistas Jucá e Eunício gargalham. Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado)

Por Katia Guimarães*

Depois que a delação da JBS parecia ter colocado Michel Temer na berlinda, e ainda mais com a Globo contra o presidente, analistas, políticos e jornalistas apostavam que o fim do governo estava próximo. Com a denúncia da Procuradoria-Geral da República, também pareceu que Temer iria a reboque, mas não: ele partiu para o contra-ataque e peitou Rodrigo Janot. A despeito de tudo, deu ordens à base aliada para tocar as reformas no Congresso Nacional e para sair em sua defesa a cada artilharia da oposição.

Para tentar entender o jogo politico atual, o blog conversou com o historiador e pesquisador da Universidade de Brasília (UnB) Fernando Horta, que tem se destacado pelas análises políticas nas redes sociais e chamado atenção dos internautas de esquerda. Na sua avaliação, se a configuração política posta hoje no país continuar como está, Michel Temer fica no Palácio do Planalto até 2018. Nessa conversa, o professor faz uma análise da política brasileira, a união de forças que levaram ao impeachment, aponta rumos para os partidos de esquerda e faz um importante alerta sobre o risco de a extrema direita se tornar protagonista na política nacional e o retrocesso perdurar por muito mais tempo.

Para ele, PMDB, PSDB e parte do PT querem que Temer fique, cada um com suas razões: PMDB, para manter-se no poder e safar-se da Lava-Jato; PSDB, para tentar recompor o partido com olho em 2018; e PT, porque acha que quanto mais Temer permanecer no cargo, mais o povo vai querer o partido de volta. Setores mais radicais do PSOL, por seu lado, querem que Temer caia, mas casado com a condenação de Lula. “Nenhum desses grupos está pensando no povo brasileiro. Porque a questão é a seguinte: se passam as reformas que o Temer está tentando, nós vamos precisar de 2/3 do Parlamento no futuro para reverter, não dá pra brincar com isso.”

Segundo Horta, os militares andam irritadíssimos com o atual governo e, se o cenário se deteriorar ainda mais, podem impulsionar a onda que faz crescer o apoio a figuras de extrema-direita como o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ). O historiador afirma que o PSDB, ao ser a mola propulsora do golpe, não se deu conta de que ajudou a fazer ressurgir no país uma direita fascista e antipolítica com chances de chegar ao poder se a oposição não deixar as desavenças de lado e traçar uma estratégia inteligente de conscientização da população, em especial os mais jovens.  Ele defende que só tem uma saída para conter o avanço da direita neoliberal e da extrema-direita: uma frente de esquerda para reforçar as bancadas no Congresso.

A seguir, os principais pontos da entrevista.

Temer vai cair?

Para Fernando Horta, quatro grupos políticos não consideram a saída de Michel Temer uma prioridade. O primeiro deles são seus próprios apoiadores no Congresso Nacional e no governo; e o segundo, os caciques do PSDB, hoje chamados de cabeças brancas do partido, que veem na manutenção do presidente a única maneira de o partido se recompor. Fazem parte dessa turma os senadores Aécio Neves (MG) e José Serra (SP) e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que desejam também o enfraquecimento da Lava-Jato. Afinal, todos são citados na Operação. Com os processos envolvendo Aécio nas mãos dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, eles tentam construir o discurso de que o senador mineiro está sendo injustiçado.

Fernando Horta afirma que o presidente Michel Temer se sustenta no poder como anteparo das forças de direita que não aceitam o retorno de um governo progressista no comando do país e nem a volta ex-presidente Lula. “O Temer é uma segurança a esses grupos que estiveram muito mais unidos durante o golpe de que não vai retornar aquele momento que eles tanto abominam. Somente isso sustenta o Temer em termos políticos, fora a maioria consolidada que ele tem na Câmara dos Deputados”, afirma.

Segundo ele, as entrelinhas do discurso de Temer em reação à denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) mostram bem isso. “Chama atenção pelo fato de ele ser esse anteparo ao Lula, por isso ele diz que não sabe como Deus colocou ele ali. Quando ele diz que ‘estão querendo criar fatos contra mim, me caluniar para me tirar daqui’, na realidade ele está querendo culpar o PT. Ele deixa o ouvinte colocar nesse espaço o indivíduo que mais odeia. É o PT que está tentando tirá-lo de lá, então vamos defender o Temer. Ele arma isso”, afirma.

A postura de outros dois grupos também impressionam o professor da UnB. Um deles é assumido por uma esquerda mais radical, expressado por parte do PSOL, que deseja a saída de Temer casada com a condenação do ex-presidente Lula. “A argumentação é muito semelhante à forma do Bolsonaro, só que com o sinal invertido. Isso é pra evitar que o Lula tenha chance de coordenar um movimento de eleição democrática.”

Já o quarto grupo, diz ele, é uma parte sólida do PT, que pensa que dando mais tempo ao governo Temer, o estrago vai ser maior, abrindo chance para o discurso de volta ao poder. “Só que, nesse meio, nenhum desses grupos está pensando no povo brasileiro. Porque a questão é a seguinte, se passam as reformas que o Temer está tentando, nós vamos precisar de 2/3 do Parlamento no futuro para reverter, não dá pra brincar com isso. Mais um ano de Temer, é mais um ano de pobreza para a população, mais um ano de crise econômica”, avisa. “Se mantiverem esses atores políticos, o Temer não cai. Ele conseguiu criar um sistema em que as forças políticas que o apoiam e que são contra ele, se anulam”, observa.

Se até setembro –quando o procurador Janot deixar o cargo– Temer não cair, não cai mais, porque o presidente vai colocar um PGR ligado à turma, o que já aconteceu. Temer deixou de indicar o primeiro procurador eleito por seus colegas, fato que não acontecia desde 2003, e optou pela segunda colocada, Raquel Dodge, considerada mais afável ao governo. “Ele está mudando as configurações de forças a favor dele”, diz Horta. E se o comandante do Exército, general Villas Boas, deixar o cargo e Temer nomear um novo general aí é que não cai mesmo. Outra questão, para o professor, é a condenação e prisão do ex-presidente Lula. “No momento em que isso acontecer, se o PT souber como jogar, inflama as massas, que é uma coisa que o PT não quis fazer desde o impeachment da Dilma. Esse fator poderia fazer entrar o povo, que até agora está fora.”

Tempestade perfeita

A armação que levou ao golpe de Dilma é chamada por Fernando Horta de “uma tempestade perfeita”, que reuniu forças diferentes em torno de um inimigo comum, mas com objetivos díspares. Enquanto uma parte da direita buscava frear o governo de esquerda, o PMDB de Temer –e aí incluídos seus principais aliados, como Geddel Vieira Lima, Romero Jucá, Eliseu Padilha e Moreira Franco– queria salvar a própria pele diante do avanço da operação Lava-Jato. No fim das contas, a classe média foi usada como massa de manobra pela direita e grupos econômicos para impulsionar o pedido de impeachment nas controversas manifestações sob o manto de combater a corrupção.

“O golpe não é uma concertação maravilhosa plena de diversos atores, é uma tempestade perfeita e o próprio Temer estava com medo de assumir isso. Casou interesses de diversos atores, alguns bastante poderosos, sem deixar brechas para mais uma eleição”, avalia. “O objetivo do Temer ao assumir o governo foi salvar a sua pele e a pele de seus aliados. Nessa tempestade perfeita, existem interesses internacionais, nacionais, financeiros, mas existe também uma parcela extremamente corrupta do nosso Parlamento, que está lá há séculos e que se viu tremendamente afrontada pela possibilidade do alargamento da Lava Jato.”

Preocupação com os militares

Um dos fatores que mais preocupa o historiador é o comportamento dos militares diante da crise política e da atuação do governo Temer, que segundo ele, tem incomodado bastante a ala mais radical do Exército. “Quem está segurando a ala mais radical do Exército é o general Villas Boas, o comandante da força, evitando que eles adotem uma postura política. Esse grupo, apontado pelo professor como agressivo e protofascista, segue a linha de pensamento do deputado Jair Bolsonaro, que criminaliza, por exemplo, os movimentos sociais e pode se rebelar a qualquer momento, tornando-se protagonista no comando do país. O chefe do gabinete de Segurança Institucional, general Sérgio Etchegoyen, é visto como um dos integrantes dessa ala, e está muito próximo ao presidente Temer. “Eu participo de alguns grupos de militares e fico apavorado, eles são completamente alucinados.”

Em posição similar estão as outras duas Forças, a Marinha e a Aeronáutica, que viram seus investimentos estratégicos em pesquisa e tecnologia serem desarticulados pelo governo Temer. Uma série de projetos importantes está sob ameaça como a atuação na Amazônia Azul, área marítima considerada estratégica, e o acordo de compra de caças da FAB, que prevê troca de tecnologia e a participação brasileira na construção de outras aeronaves, além do revés no Programa Nuclear brasileiro que preocupou também setores ligados à pesquisa e ao desenvolvimento científico. Sem falar na permissão para governos estrangeiros, como os Estados Unidos, de uso da Base de Alcântara de lançamento de foguetes, e que está prestes a sair do papel. “O Temer está oferecendo tudo, terras da Amazônia para estrangeiros, o pré-sal. Hoje, a crise brasileira é majoritariamente interessante aos atores internos. Agora, o governo do Brasil não é mais só uma questão nacional e o Temer acredita que, com isso, ele se fortalece”, explica.

(O historiador Fernando Horta, da UnB. Foto: reprodução Facebook)

(O historiador Fernando Horta, da UnB. Foto: reprodução Facebook)

Governo de doação

Para sustentar tudo isso, Fernando Horta diz que Temer montou um governo de “doação”, distribuindo cargos e verbas entre seus apoiadores. “Pode olhar que tudo o que seus apoiadores exigiram ele doou. Era um ministério pra um, um ministério para outro. E com retaliação, porque é a única coisa que ele tem, ele doa uma parte do poder político e exige fidelidade. É com isso que ele está se segurando”, explica.

Para o professor, a estratégia dos golpistas, no entanto, sofreu um revés: por um lado porque a PGR de Rodrigo Janot não está sob a tutela do presidente e, por outro, porque Joesley Batista, da JBS, assistiu à prisão de outros corruptores e traçou sua própria estratégia para ficar livre. “O Joesley se antecipou porque, quando ele viu o Marcelo Oderbrecht destruído, o Eike Batista preso, aí ele pensou, eu sou o próximo da lista. E jogou de uma forma não muito leal pra se livrar disso”, analisa.

Golpe saiu pela culatra?

Para Fernando Horta, três fatores diferenciam o impeachment de Dilma de Fernando Collor. Primeiro, havia um consenso nacional em torno da culpabilidade do ex-presidente; segundo, havia maior materialidade nos crimes cometidos, apesar de as investigações terem sido superficiais; e como terceiro ponto, o vice de Collor, o ex-senador Itamar Franco, contava com maior legitimidade e fair play político do que Temer. “Ele foi de uma finesse política violenta, ele não virou o transatlântico de uma hora para outra, foi fazendo medida pontuais”, observa.

Apesar dos inúmeros erros cometidos na gestão de Dilma em relação à condução da política econômica, quando ela corrigia esse rumo e havia uma sinalização positiva para o futuro, veio o impeachment e Michel Temer assumiu e montou um ministério nada notável. A gota d’água foi a escolha de medidas neoliberais por Henrique Meirelles. “Ele realmente precisa de um senso político. A gente não pode deixar a economia decidir os rumos políticos, a politica é quem tem que decidir o que a economia vai fazer. Você tem que chegar para a economia e falar, eu quero emprego, quero aumento de renda… Agora, deixar um economista assumir os rumos políticos de um país, aí acabou o mundo”, afirma.

Outro fator que influencia no atual cenário é a composição do Congresso Nacional, que segundo Fernando, em sua maioria atua de acordo com seus próprios interesses. “Por que o Temer não cai? Não cai porque a democracia como um todo, não só a democracia brasileira, nunca está preparada para a consolidação de uma maioria venal, a democracia é feita pra você contornar venalidades pontuais. A democracia não está preparada para ter 300, 400 interessados em seus próprios bolsos, enfiados em processos de corrupção. Nosso Parlamento tem mais de 50% assim. E aí, a democracia brasileira não tem ferramentas para lidar com uma maioria venal”, completa.

Globo e o capital

“A Globo está onde está o capital, essa é a situação”, atesta Fernando Horta ao dizer que a Rede Globo, enquanto empresa, se apresenta como o terceiro grupo que está fora do controle do governo e que busca apenas o interesse econômico. Para ele, a Globo comprou a tese de que tirando a Dilma a economia voltaria a crescer, mas isso não aconteceu e acabou por prejudicar todos os setores, inclusive seus anunciantes. “A Globo agora percebeu que tudo isso não resolveu o problema, quando a economia cai, os anunciantes dela caem também e o dinheiro que ela recebe do governo para aumentar em propaganda não supre o dinheiro que uma economia aquecida faria com a mídia. Não paga o que ela perde de anunciante”, observa.

Por isso, o aumento da pressão contra Temer e horas e horas de Jornal Nacional pra cima do presidente. “A postura escancaradamente política da Globo –ela sempre foi, mas, com Roberto Marinho era política de uma forma soft– agora ela está fazendo isso de uma forma tão escancarada que as classes média e média baixa estão percebendo claramente o que está acontecendo. E os anunciantes da Globo passam a ser vistos como anunciantes contra o povo, contra o trabalhador. ‘A Globo apoia reforma que está tirando a minha aposentadoria…’”, completa. Na sua avaliação, a fissura provocada ao derrubar a estrutura política do país não foi calculada, apesar dos alertas de historiadores, economistas, sociólogos e cientistas políticos que diziam que um golpe político representaria alguns anos de incerteza que contaminaria o cenário econômico. “O depoimento do dono da Riachuelo é algo muito significativo. Eles estão queimando o capital social da Globo muito rápido”, afirma.

PSDB na mira

Segundo Fernando Horta, o PSDB de Aécio Neves deu errado quando eles se viram vítimas da própria estratégia. Acostumados a ter influência no Poder Judiciário, os tucanos ensinaram ao PT o caminho das pedras do sistema político para financiar campanhas eleitorais por meio de caixa 2 e propinas, e, quando resolveram denunciar os petistas, as mesmas forças que os ajudaram a sustentar o golpe se viraram contra eles. “O PSDB entregou para o PT o doce, o PT comprou, ‘vamos fazer como todo mundo faz, porque assim que é feita a política brasileira há seculos’. E a ideia do PSDB foi ‘quando estiver incomodando, nós mostramos que eles estão fazendo errado e eles caem’. Foi exatamente esse o plano do Aécio e a cúpula do PSDB”, diz.

O que o PSDB não imaginou é que para fazer o PT cair, foram acionadas forças de extrema-direita como os Bolsonaros, MBLs, Vem Pra Rua –vale lembrar que foram financiados pelos próprios tucanos– e que têm um discurso da antipolítica. “Não é só contra o PT, é claro que é mais contra o PT, mas é um discurso que ataca o PSDB”, diz, ao lembrar que Aécio Neves e Geraldo Alckmin foram obrigados a sair escoltados de uma manifestação pelo impeachment realizada na Avenida Paulista. “Naquele momento, eles deviam ter acendido uma luz, ‘opa, peraí, não podemos confiar nessa gente’. Porque esse protofascismo, a antipolítica vai atacar e o que o PSDB não esperava era exatamente isso. Como ele abriu os furos do PT, aí esse protofascismo olhou para o lado e disse: ‘você também fez, nós vamos atrás de você’.”

Frente de Esquerda

Fernando Horta acredita que, independente do que acontecer daqui pra frente em relação ao governo Temer, e de uma possível ou não candidatura de Lula à presidência, a esquerda só tem uma saída para conter o avanço da direita neoliberal e da extrema direita: se unir estrategicamente para reforçar as bancadas no Congresso e voltar a fazer o trabalho de base. Para ele, PT, PSOL, PCdoB e PDT devem, municiados com pesquisas acadêmicas, valorizar cada voto. “A esquerda tinha que sentar e se juntar, lançar dois candidatos a senador da Frente de Esquerda, lançar os mais cotados e fazer isso em todos os estados. Se o PT é mais forte no Rio Grande do Sul, o PSOL apoia, se o PSOL é mais forte no Rio de Janeiro, o PT apoia. Precisa organizar isso, uma inteligência política tem condições de fazer isso. Fazer o que o Suplicy fez em São Paulo. Ele é senador (tem votos), ele teve uma votação tão expressiva que colocou mais três ou quatro da bancada. Por que não estão fazendo isso?”, propõe.

Sobre o trabalho de base, Horta acredita que o PT deve voltar às suas origens e, principalmente, se reaproximar dos jovens e universitários, promover palestras e debates. “Cadê o trabalho de base do PT? Tem tanto professor de esquerda fazendo trabalho nas redes sociais que podia ser colocado dentro de um grande projeto do partido, fazendo palestras pelo país, conversar com as lideranças. Vocês acham que a direita não está fazendo nada?”, indaga. Um estudo que ele mesmo realiza desde 2014 mostra o mapa de investimentos feitos na ponta pela direita. “A direita treinou mais gente em 2016 no Brasil do que no resto do mundo inteiro. Há muito tempo, está havendo um investimento de base no Brasil, eles começaram fazendo seminários para lideranças liberais, quem assiste são guris recém formados. Esses caras compram o discurso, passam esses discursos para os seus grupos e associações e quando você vê, tem um trabalho literalmente leninista de contato que a direita vem fazendo.”

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