Gleisi Hoffmann, candidata a presidenta do PT: “Nós erramos. Entramos no sistema”

Publicado em 19 de abril de 2017
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(A senadora Gleisi em seu gabinete)

Por Cynara Menezes e Katia Guimarães*

Em maio, a senadora paranaense Gleisi Hoffmann, de 51 anos, poderá se tornar a primeira mulher à frente da presidência do PT, partido no qual milita desde 1989. Não será exatamente o momento mais glamouroso, já que os petistas vivem um inferno astral interminável desde que começou a operação Lava-Jato, três anos atrás.

Ao contrário de alguns membros do partido, a senadora não se esquiva de falar nos erros cometidos e de fazer autocrítica sobre o fato de o PT ter se unido às práticas da velha política em vez de enfrentá-las. Tampouco quer continuar nesta toada para sempre. “A melhor autocrítica é a que se faz na prática. Não adianta a gente ficar se auto-açoitando sem mudar a prática. E nós estamos mudando”, diz.

Gleisi também falou da necessidade de movimento nas ruas contra as reformas de Temer e do machismo na política. “A política ainda é um ambiente quase exclusivamente masculino, com códigos masculinos. É muito difícil para a mulher fazer política. E na desconstrução da presidenta Dilma foi usado muito machismo.”

A senadora recebeu o blog em seu gabinete, com exclusividade, para um bate-papo. Confira.

Socialista Morena – Por que Lula escolheu a senhora como candidata à presidência do partido?

Gleisi Hoffmann – (risos) Não sei. Tem que perguntar para ele. Estou brincando, na realidade a gente começou a conversar dentro do partido e o presidente Lula achou que o meu nome, até por ter proximidade política com o senador Lindbergh, poderia caminhar para uma composição.

Tem a ver com o fato de ser mulher?

Sim, o presidente falou “tá na hora de esse partido que sempre defendeu as cotas, políticas de gênero, ser presidido por uma mulher”. Para mim claro que é uma honra, milito no PT desde 1989. Nunca sonhei em presidir meu partido. Vou me dedicar ao PT e ao mesmo tempo continuar me dedicando ao mandato e ao Paraná, que represento. Não faz sentido renunciar.

A senhora é candidata à presidência do PT e foi citada na Lava-Jato. Como este fato pode atrapalhar o discurso de reconstrução que o partido precisa ter neste momento?

O PT tem sido sistematicamente atacado na Lava-Jato. E na lista da Odebrecht você vê outras personalidades e outros partidos envolvidos, inclusive com denúncias mais graves, como ter conta no exterior, enriquecimento ilícito. Mas continua o Lula e o PT sendo alvos prioritários da grande mídia. É como se quisessem ainda desconstruir o PT, como se houvesse um risco forte de o Lula voltar a governar o Brasil, isso fica muito claro para mim. Nós temos que estar unidos para defender o PT e Lula. Isso não quer dizer que sejamos coniventes com coisas erradas, com os problemas que tivemos, os erros que cometemos. Mas o que estamos vendo é que há um ódio de classe em cima do PT e de Lula, em cima do legado do governo dele e da Dilma.

A Lava-Jato confirma que a corrupção é sistêmica na política brasileira?

Confirma que temos um problema sistêmico no financiamento das campanhas eleitorais. Há delatores que falam de doações na campanha do Fernando Henrique, coisa que aconteceu há mais de 20 anos. O próprio Emilio Odebrecht diz que isso acontece há 30 anos e que fica estarrecido como a imprensa agora está cobrando medidas e criticando isso se eles sempre souberam. E ele sabe do que fala, tem relação com esses setores. Então tinha uma grande hipocrisia em tentar colocar para cima do PT e do Lula a pecha de precursores da corrupção, quando era uma prática sistêmica. Isso não quer dizer que o PT não tenha que fazer uma autocrítica. Acho que o grande erro nosso foi não ter enfrentado essa situação. Não sei se teríamos correlação de forças para mudar o modelo de financiamento, mas tínhamos a obrigação de enfrentar, de fazer a disputa política. E eu lembro que nem o presidente Lula nem a presidenta Dilma quiseram enviar um projeto de reforma política para o Congresso porque achavam que era do Legislativo a iniciativa. Nesse ponto, nós erramos. Teríamos que ter enviado e brigado, lutado contra isso. Entramos no sistema como ele era, jogamos o jogo como era jogado, para poder fazer a disputa. Este foi o nosso grande erro. Espero agora fazer a autocrítica na prática, oferecer ao país uma reforma política, lutar por ela junto a outros setores da sociedade, para ter um sistema mais limpo, mais aberto, mais transparente. Já conseguimos proibir o financiamento privado de empresas, mas tem que deixar mais claro. Tem que ter uma redução dos custos, também. Não há por que existir campanhas caríssimas, superproduções de televisão.

O problema é que a sociedade não acredita que este Congresso seja capaz de fazer esta reforma.

Nós vamos ter que lutar. Eu acho que este Congresso não podia fazer a reforma da Previdência, por exemplo, ou a reforma trabalhista. Esse Congresso não podia ter votado a terceirização. O mínimo que podemos fazer é uma autocrítica para oferecer uma saída à sociedade. Eu particularmente defendo a antecipação das eleições, talvez um outro Congresso tivesse mais condições de fazer isso. Antecipar as eleições de 2018, não só para presidente, gerais. Mas enquanto isso não acontece nós precisamos discutir a realidade do país, não podemos ficar olhando, sob pena de grassar o discurso da antipolítica e nós termos uns engraçadinhos fazendo política enquanto dizem que não são políticos.

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Cobra-se muito um mea culpa do PT. O partido já chegou ao final nessa autocrítica que a senhora está citando? Porque o PT perdeu uma boa parte do eleitorado, inclusive na periferia, onde estão os maiores beneficiados pelas políticas públicas dos governos petistas. Como recuperá-la sem este mea culpa?

A melhor autocrítica é a que se faz na prática. Não adianta a gente ficar se auto-açoitando sem mudar a prática. E nós estamos mudando, vendo os erros. Não disputamos mentes e corações, não fizemos a disputa política na sociedade, achando que simplesmente o governo que fizemos, positivo, de conquistas sociais, de avanço na inclusão, por si só traria consciência. Mas na realidade nós não disputamos essa consciência, não mostramos que tinha uma determinação política por trás disso. Assim como temos que fazer algumas reformas. O presidente Lula tem consciência disso e tem dito uma coisa: ‘nós já governamos, sabemos o que fizemos de bom e o que precisamos fazer a mais’. Temos que fazer uma reforma tributária, para tributar os de cima, quem ganha mais tem que pagar mais, e a democratização da mídia.

A proposta da lista fechada, uma pauta histórica do partido, está sendo apontada como tentativa de acobertar delatados na Lava-Jato. O PT mantém o apoio à ideia?

Antes a proposta era criticada porque diziam que ia beneficiar o PT, porque o partido tem muito voto de legenda… Mas nós defendemos a lista fechada desde sempre porque achamos que a política deve ser feita com base em programas, não no voluntarismo. Quando eu entro no Congresso, represento uma proposta que foi construída. As pessoas sabem como me posiciono em relação à economia, valores… O que acontece com a política hoje é que ela é personalizada, fazem a política do ‘eu mesmo’ e votam ao sabor dos movimentos. Candidatura avulsa, por exemplo, acho uma loucura. Como saber as políticas daquela pessoa? Eu continuo defendendo a lista fechada. Se não fortalecermos os partidos políticos, vamos continuar tendo a política como ela é feita hoje.

O que mais chamou a atenção na pesquisa da Fundação Perseu Abramo divulgada no mês passado é que o discurso do empreendedorismo, do mérito, está bem entranhado no jovem da periferia, a direita conseguiu isso. A esquerda errou em não transmitir a estas pessoas que ser empreendedor não os situa automaticamente à direita?

Errou em não mostrar que o empreendedorismo se concretiza desde que as oportunidades sejam dadas. Porque mesmo o Lula teve oportunidades, de estudar, entrar para o sindicato. Foi difícil a vida dele, mas ele acabou tendo oportunidades que o ajudaram nessa trajetória. O que a gente questiona neste discurso é de que parece que a simples vontade das pessoas pode suprimir todas as dificuldades e não é assim. Não temos nada contra o empreendedorismo, pelo contrário. Foi Lula que fez a lei do microempreendedor, a lei do Simples, a Previdência para o microempreendedor. O que nós perdemos foi a narrativa política. Isso é o que se tem de disputar na sociedade.

Como o PT pretende fazer isso?

Precisamos ter uma política ousada de comunicação que não seja aquela que usamos anteriormente e aí também vale uma autocrítica. Nós achamos que a mídia tradicional seria um veículo de transmissão das nossas ideias e eram exatamente contrários às ideias que sempre professamos. Houve tentativas muito boas no governo Lula que temos de recuperar, as mídias regionais, as mídias alternativas. Isso é o que faz a disputa da narrativa, até porque a direita possui os meios de comunicação, tem mais condições do que a esquerda ou até mesmo do que nós tínhamos no governo, para fazer isso.

A senhora e o senador Lindbergh vão disputar até o fim a eleição à presidência do partido ou ele vai abrir mão?

Eu jamais vou fazer uma disputa com o Lindbergh, mesmo porque gosto muito dele e pensamos muito parecido em muitas coisas, inclusive na dinamização que achamos que deve ser dada ao partido. Vai ser mais uma construção conjunta do que uma disputa e as teses do partido vão ser defendidas por cada tendência. Até porque tem várias tendências que eu apoio, cada uma tem uma tese. Não só a CNB (Construindo um Novo Brasil, majoritária), mas outras tendências têm vindo conversar e me apoiam.

O que a senhora achou das mudanças que Temer fez na reforma da Previdência?

São pontuais, ele está fazendo isso para não perder. Mas nas questões essenciais, que dão proteção social, eles não vão mexer. Fico assustada porque ele fez a reunião dizendo que, independente da questão da lista da Odebrecht, tem que seguir a vida e fazer as reformas. Ocorre que essa lista jogou uma cortina em cima de todos os outros temas. Parou-se de discutir a reforma da Previdência, a reforma trabalhista. O Congresso está acuado, a câmara com um monte de nomes envolvidos, vão acabar votando com o governo. Se não tivermos uma movimentação de rua forte, vamos ter um retrocesso na Previdência, uma das piores reformas dos últimos tempos porque mexe em questões fundamentais de distribuição mínima de renda que conseguimos fazer. Espero que no dia 28 a gente consiga fazer uma grande manifestação no Brasil para sensibilizar deputados e senadores.

Não seria o caso de os partidos mais à esquerda apresentarem um projeto alternativo?

Não neste momento, em que não se tem uma correlação de forças para fazer uma reforma que poderia descambar contra os trabalhadores. Não faz sentido, num momento de crise, mexer naquilo que é fundamental para ter um cinturão de proteção social.

A senhora fala em renovação do PT. Como pretendem atrair os jovens, as feministas, os militantes negros e os LGBTs, que estão preferindo o PSOL?

Este é um desafio que temos. O PT tem essa consciência e um dos compromissos que tenho é exatamente dar essa arejada, para melhorar a relação do partido com estes setores da sociedade. Por que estão preferindo o PSOL quando eu acho que o PT, por mais problemas que tenha, é o maior partido de esquerda da América Latina e o único que tem condições de ser alternativa de poder e governo? Estes movimentos são muito importantes, porque conversam com setores da classe média dos quais a gente acabou se afastando.

Como a senhora viu o deputado Chico Alencar, do PSOL, se lançando candidato a presidente para, segundo ele, “combater o lulismo”?

Nós temos que conversar com o Chico Alencar. Gosto muito dele, tenho muito respeito. A gente tem de combater a direita neste país, o sistema financeiro, aqueles que estão tirando as riquezas do povo, o desmonte do Estado. Aí que está o inimigo. Nós podemos ter divergências de como fazer, podemos disputar, mas daí a dizer que tem de ser combatido é jogar água no moinho da direita.

Um ano após o golpe, a senhora acha que se confirmou que o machismo teve um papel fundamental na derrubada da presidenta Dilma?

Ah, sim. Ajudou bastante, não tenho dúvidas. A gente via aqui, nas discussões, quando fazíamos a defesa dela, o comportamento dos senadores: ‘vocês estão histéricas’, ‘vocês estão loucas’. Eles gritavam, sapateavam, berravam, mas aí estava tudo normal porque parece que é da natureza deles… Mas a gente não podia fazer o enfrentamento. A política ainda é um ambiente quase exclusivamente masculino, com códigos masculinos. É muito difícil para a mulher fazer política. E na desconstrução da presidenta foi usado muito machismo. Faziam aqueles adesivos misóginos, uma coisa baixa que infelizmente espelha nossa sociedade.

Sobre a senhora, há sempre críticas alusivas à sua aparência, a procedimentos estéticos. O prefeito de São Paulo, João Doria Jr., claramente fez alguns, mas ninguém fala nada…

Ninguém fala. E ele está com a pele lisinha, né? Todos os políticos homens são conservados no formol.

 

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Ao abraçar o caixa 2, o PT aniquilou o sonho de ganhar eleição apenas com ideias

Publicado em 15 de abril de 2017
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(“Feito de povo”. Cartaz de Lula em 1989)

“O meu partido é um coração partido” (Cazuza)

Não acredito em metade dessas delações premiadas. Em primeiro lugar, porque o delator é um criminoso e não se deve confiar em criminosos. E as delações me parecem amarradinhas demais para serem verdadeiras. Tudo se encaixa, perceberam? A delação de Emílio Odebrecht sobre Lula, por exemplo, “confirma” a reforma no sítio de Atibaia, o suposto tráfico de influência junto ao BNDES, o “pedido” de Hugo Chávez para fazer o porto de Cuba… Como se fizesse parte de um roteiro previamente traçado.

Já em relação a Michel Temer, Marcelo Odebrecht limpa a barra do presidente ao dizer que o então candidato a vice “levantou-se da mesa” onde jantavam justo no momento em que iam discutir uma doação de 10 milhões de reais ao PMDB. Ou seja, não viu nada. Que conveniente para quem está se submetendo neste momento a um julgamento no TSE junto com Dilma, não?

Mas, verdadeiras ou falsas, as delações confirmam aquilo que todo mundo sabia: que o julgamento do mensalão não foi suficiente para acabar com o caixa 2 nas eleições brasileiras, que a “forma de financiamento” continuou acontecendo adoidado, em todos os partidos (tem até um candidato que era do PSOL no rolo). O caixa 2 é uma prática institucionalizada nas campanhas políticas, como disse Emílio Odebrecht em um dos trechos mais aparentemente espontâneos de seu depoimento. E o PT se refestelou nela, não há sombra de dúvidas.

Para os eleitores de esquerda, mais uma vez se dar conta disso não é bem uma surpresa, mas o aniquilamento de um sonho. Cada vez que lemos que o PT precisou recorrer a caixa 2 para se eleger, um panda morre no mundo ideal do esquerdista. Quer dizer que não era possível ganhar sem tanto dinheiro, apenas movidos pela força das ideias? Quer dizer que o trabalhador chegou ao poder somente porque se aliou aos donos da grana, à elite que tanto criticamos? Ou era isso ou nunca o PT tiraria milhões da miséria? Tenho cá minhas dúvidas.

Não estou dizendo aqui que teríamos de virar as costas para quem dá emprego aos trabalhadores. A classe produtiva faz parte da sociedade e é preciso sempre saber lidar com ela. Mas é dura de engolir, para um cidadão de esquerda, a aproximação excessiva de Lula com a Odebrecht e seu dono. O mesmo Lula que denuncia, com tanta propriedade, o egoísmo e a ganância de nossas elites. Por acaso a Odebrecht não faz parte da elite?

Hoje sabemos, segundo seu próprio dono, que a empreiteira baiana atuava de forma corruptora no país (e em outros) há pelo menos 30 anos. Aliar-se a uma empresa com este perfil só reforça a acusação de que, para o PT, os fins justificam os meios. Não, Emílio Odebrecht não é o “bom burguês”, um cara rico preocupado com a desigualdade social, com as injustiças, um patriota que se aliou a Lula. É só um empreiteiro interessado em negócios, em ganhar muito dinheiro, e Lula deixou-se iludir.

Não acredito e nunca vou acreditar que Lula tenha se utilizado de nada ilícito para enriquecer. Não fez nada diferente, por exemplo, do que Fernando Henrique Cardoso fez – e esta constatação não alivia em nada, é incômoda para nós. Mas o PT deve reconhecer que iludiu o povo ao dizer que fazia um governo “do trabalhador”. Não era. Era um consórcio entre um líder carismático de centro-esquerda com a elite construtora do país. A aliança feita com o PMDB incluía não só apoio político no Congresso mas herdar toda a simpatia pelas empreiteiras que os peemedebistas e os demais partidos sempre nutriram. Lula, de quem as empreiteiras fugiam como o diabo da cruz em 1989, virou o amigo delas.

No poder, o PT perdeu a oportunidade de estabelecer uma relação de fato republicana com as empresas que realizam as grandes obras no Brasil, em vez de se unir aos que se utilizavam delas para se manter no comando. Traiu, sim, as expectativas de seu eleitorado mais consciente. Mostrou que só é possível governar se for se unindo aos maiores crápulas da política e do empresariado. Uma facada nas costas dos que acreditavam e acreditam na força das palavras, dos ideais, para construir um país melhor para todos. “Não, precisa de milhões para pagar o marqueteiro.” Ora, esta postura destrói os sonhos dos jovens de que outro mundo é possível.

Espero que desta tragédia nacional saia a lição de que, se a esquerda quer de fato chegar ao poder, tem um serviço ainda mais hercúleo pela frente, trabalho de formiguinha para construir uma alternativa à direita que se fortalece. O PT preferiu o atalho e foi devorado pelo lobo mau. Pior: juntou-se a ele.

 

 

 

 

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Randolfe Rodrigues: “Pelo visto o PSOL amadureceu”

Publicado em 29 de março de 2017
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(A foto que foi o estopim da saída de Randolfe do PSOL)

Há quase três anos, em plena pré-campanha de 2014, o senador do Amapá Randolfe Rodrigues, escolhido candidato à presidência pelo PSOL, resolveu presentear seu colega de parlamento e também presidenciável do PSDB Aécio Neves com um livro: 1964 – O Verão do Golpe, de Robert Sanders. Aécio postou a foto dos dois posando com o livro em seu facebook e foi aquele auê. Achincalhado pelos próprios colegas de partido como “a esquerda que a direita gosta”, Randolfe desistiu da candidatura e acabou abandonando o PSOL meses depois.

Março de 2017. Um dos fundadores do partido, o deputado federal Chico Alencar foi à festa de 50 anos de jornalismo de Ricardo Noblat no restaurante Piantella, em Brasília, onde foi flagrado em animada roda de conversa com… Aécio Neves. Chico foi muito cobrado nas redes sociais pela proximidade demonstrada com o senador tucano, mas pelos petistas. Não se viu dos psolistas a reação furiosa que a foto de Randolfe com o mesmo Aécio desencadeou. Mudou Aécio, mudou Chico, mudou Randolfe ou mudou o PSOL?

“Pelo visto o PSOL amadureceu. Percebi que a polêmica em torno do Chico não chegou nem perto da minha. Ainda bem, gosto muito dele. Não gostaria que passasse pelo que passei”, afirma o senador amapaense, que foi para a Rede. Randolfe não acompanhou de perto a história do que a imprensa chamou de “beija-mão” de Chico Alencar em Aécio, mas não esconde que, para ele, o imbróglio teve um certo sabor não de vingança, mas de “o mundo dá muitas voltas”…

Por que Randolfe resolveu dar o livro a Aécio? “Sempre tive uma relação de carinho e respeito com Aécio. Dei o livro a ele porque tinha lido e gostado e porque o autor citava várias vezes o avô dele, Tancredo”, conta o senador. “Ele me pediu para tirar uma foto comigo para postar no facebook e seria indelicado de minha parte recusar.” A foto continua na página do senador tucano. Aécio também postou a dedicatória na íntegra: “Querido Aécio, este livro apresenta as habilidades de políticos que fazem e faziam da política a arte da paixão e da sensibilidade, entre eles seu avô. Isto em tempos de tormentas e autoritarismo. Que as benfazejas lembranças do passado nos inspirem, políticos do presente, para fazermos o melhor pelo Brasil.”

Mas o que foi apenas uma gentileza entre adversários se transformou num vendaval. Randolfe recebeu todo tipo de mensagem insultuosa e as maiores ofensas vieram de gente do próprio PSOL. Algumas das manifestações eram, conta, inquisidoras, como a do presidente do partido, Luiz Araújo, que na época trabalhava em seu gabinete; outras eram francamente agressivas. Um dos que criticaram Randolfe na época foi o jornalista Milton Temer, quadro histórico do PSOL no Rio, que classificou a foto e sobretudo a dedicatória como um “erro grave” do colega de partido.

“Inaceitável, meu caro Randolfe. Um senador do PSOL, cujo mandato tem sido excelente na defesa do mundo do trabalho, não pode exercer o ‘melhor pelo Brasil’ da mesma forma que um senador conhecido como porta-voz do grande capital multinacional, e de seus sócios-sabujos no Brasil. Trata-se de insuperável antagonismo de representação”, escreveu. Temer também criticou a presença de Chico Alencar no jantar do Piantella, mas foi mais suave: “um deslize”, “equívoco”.

Luciana Genro, que substituiu Randolfe na candidatura à Presidência, chegou a cometer a indelicadeza de dizer que ele estava “praticamente fora do partido”, muito antes de qualquer posicionamento do senador neste sentido. Sobre o jantar de Chico Alencar com Aécio, nada. O ex-deputado João Batista Araújo, o Babá, e sua corrente dentro do PSOL, a CST (Corrente Socialista dos Trabalhadores), pediram a expulsão imediata de Randolfe do partido após a bendita foto. Sobre Chico no Piantella com o tucano, nenhuma palavra.

“Até a corrente que eu integrava, a Ação Popular Socialista, me criticou. Não tenho nenhuma mágoa, mas a verdade é que não recebi a solidariedade de ninguém. A reação foi muito maior do que eu imaginava e foi uma das principais razões para eu desistir da candidatura à presidência”, diz Randolfe. “Acho que essa história do Chico mostra que o PSOL evoluiu e também que a história me absolveu. Aquela foto, assim como a presença dele no jantar, são provas de que se pode conviver com as diferenças e não vergar um milímetro nas convicções.” Após deixar o partido, o senador anunciaria apoio a Dilma no segundo turno, não a Aécio.

Hoje, Randolfe lamenta enxergar não só no PSOL, mas em toda a esquerda brasileira uma enorme intolerância com a divergência interna, entre grupos que desejam, afinal, a mesma coisa. “Isso infelizmente vem do stalinismo, essa tendência de vigiar, de atacar o outro. É como se existisse um ‘esquerdômetro’ apontando o tempo todo quem é mais de esquerda e quem é menos”, critica o senador, que, mesmo na Rede (“o partido da Marina”) continua se considerando “de esquerda” tanto quanto se sentia no PSOL. “Sigo a máxima de Lenin: as palavras convencem, o exemplo mostra. A pessoa tem de ser quem é pelo que faz.”

 

 

 

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