31% das mulheres presas no país são chefes de família, diz estudo da Fiocruz

Publicado em 6 de junho de 2017
(Presa em Bangu com seu bebê. Foto: Tania Rêgo/Agência Brasil)

(Presa em Bangu com seu bebê. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Em maio, o “Mês das Mães”, causou polêmica nas redes sociais a história de uma mulher que teve o pedido de habeas corpus negado pelo ministro Nefi Cordeiro, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), por ter roubado ovos de Páscoa, chocolate, dois peitos de frango e quatro vidros de perfume no interior de São Paulo. Mãe de quatro filhos, ela havia sido condenada a mais de três anos de prisão em regime fechado pelo roubo em um supermercado. Seu filho mais novo, recém-nascido, está com ela na cela que divide com outras 18 detentas.

Ainda assim, o ministro tampouco cedeu ao pedido feito pela Defensoria Pública de que passasse a cumprir a pena em regime aberto -bem ao contrário de outra ré famosa, a mulher de Sergio Cabral, Adriana Ancelmo, que recebeu, em março, o direito de “cuidar dos filhos” de 11 e 14 anos em prisão domiciliar. Adriana não roubou ovos de Páscoa, mas é acusada de corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa pela Lava-Jato.

Um estudo realizado pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) reforça a impressão de que a situação da mulher pobre que não consegue deixar a cadeia para cuidar dos filhos é bem mais comum do que a da mulher rica com bons advogados que consegue cumprir a pena em casa, ao lado das crias. De acordo com a análise, 31% das mulheres presas no Brasil são chefes de família, ou seja, não têm marido e são responsáveis pela casa e filhos. Além disso, mais de um terço delas relataram o uso de algemas na hora que vão ser internadas para o parto, e que o tratamento que recebem também está relacionado a sua condição social e racial.

“O estudo mostrou que havia diferença na avaliação da atenção recebida durante a internação para o parto de acordo com a condição social das mães. Foi menor a satisfação para as pobres, as de cor de pele preta ou parda”, relatou a pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), Maria do Carmo Leal, que coordenou o estudo ao lado da pesquisadora Alexandra Roma Sánchez.

A análise da Fiocruz descreve pela primeira vez, em nível nacional, o perfil da população feminina encarcerada que vive com seus filhos em unidades prisionais femininas das capitais e regiões do Brasil, assim como as características e as práticas relacionadas à atenção, à gestação e ao parto durante o encarceramento. 3% das detentas têm pelo menos um filho, 55% tiveram menos consultas de pré-natal do que o recomendado, 32% não foram testadas para sífilis e 4,6% das crianças nasceram com sífilis congênita.

O estudo foi feito a partir de uma série de casos provenientes de um censo nacional, realizado entre agosto de 2012 e janeiro de 2014. Foram ouvidas 241 mães e 200 grávidas, sendo que 45% com menos de 25 anos de idade, 57% de cor parda, 53% com menos de oito anos de estudo e 83% com mais de um filho. O acesso à assistência pré-natal foi inadequado para 36% das mães. Durante o período de hospitalização, 15% afirmaram ter sofrido algum tipo de violência (verbal, psicológica ou física).

“Visitamos todas as prisões femininas de todas as capitais e regiões do Brasil que recebem grávidas e mães. Verificamos que foi baixo o suporte social e familiar recebido, e foi frequente o uso de algemas na internação para o parto, relatado por mais de um terço das mulheres. Piores condições da atenção à gestação e ao parto foram encontradas para a mães encarceradas em comparação as não encarceradas, usuárias do SUS”, disse Maria do Carmo Leal.

Estima-se que haja 10,2 milhões de pessoas presas no mundo, dos quais as mulheres são uma minoria, embora com a participação crescente nesse contingente de pessoas detidas. Os principais motivos que levam as mulheres à prisão são crimes relacionados ao tráfico de drogas e crimes contra o patrimônio, como estelionato e roubo, respectivamente 21% e 9,7% no Brasil. Entre 2005 e 2014, houve um aumento de 118% da população carcerária feminina brasileira.

Na maioria dos estados brasileiros, a mulher grávida é transferida no terceiro trimestre de gestação de sua prisão de origem para unidades prisionais que abriguem mães com seus filhos, geralmente localizadas nas capitais e regiões metropolitanas. Essas mulheres são levadas ao hospital público para o parto e retornam à mesma unidade onde permanecem com seus filhos por um período que varia de seis meses a seis anos: a maioria entre seis meses e um ano. Depois desse período, geralmente as crianças são entregues aos familiares maternos/paternos, ou, na ausência destes, vão para abrigos e a mãe retorna à prisão de origem.

Com base no estudo e entrevistas com mães e profissionais de saúde realizadas durante a pesquisa, a Fiocruz produziu o documentário Nascer nas prisões, que será lançado brevemente. O filme sairá pelo selo Fiocruz Vídeo e tem direção de Bia Fioretti.

(Com informações da agência Fiocruz)

 

 

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Carta aos xenófobos do Brasil: a história de uma baiana em São Paulo

Publicado em 25 de maio de 2017
(Xilogravura do pernambucano J.Borges)

(Xilogravura do pernambucano J.Borges)

Por Fernanda Lelles*

Sou baiana, criada em São Paulo, filha de uma baiana e um paulista, muito prazer.

Hoje, para minha tristeza, me deparei com duas notícias que encheram meu coração de desesperança. Em meio à triste tragédia que aconteceu em Manchester, quando um homem-bomba causou a morte de 22 pessoas, a maioria delas crianças e adolescentes, uma mulher chamada Nelma Baldassi, de Curitiba, comentou em sua página no Facebook: “Só lamento que tenha sido em Manchester e não na Bahia. Seria lindo ver aquela gente nojenta e escurinha da Bahia explodindo. Kkkkkkkkkkkk”.

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Parece que o ódio saiu do armário no Brasil. A mulher não só odeia pessoas pelo Estado em que nasceram, como, ainda mais grave, odeia negros, e deseja a essas pessoas uma morte brutal. Uma chuva de protestos se seguiu e alguém que se identificou como “marido” dela atribuiu o racismo e o preconceito com os baianos ao uso de “remédios controlados”. O perfil foi apagado.

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Depois de denunciar o post racista, a próxima notícia que leio é sobre a vereadora gaúcha Eleonora Broilo, do PMDB de Farroupilha, que afirmou que “nordestinos sabem se unir para roubar”. Como falas assim se tornam comuns sem que a gente faça nada para parar?

Eu tinha a sensação de que a xenofobia havia diminuído no Brasil, mas estava iludida em minha bolha. Comecei a pensar em quando eu era pequena, e de como ser baiano ou “nordestino” era mal visto pelas pessoas ao meu redor. Quando eu estava por nascer, minha mãe fez questão de ir para a Bahia, onde estavam os seus: sua base, seu alicerce, nossa família baiana. Nasci em um lugar de gente guerreira, lutadora e querida, em Bom Jesus da Lapa, interior da Bahia.

Dias depois já estava em São Paulo, onde minha mãe e meu pai viviam juntos, de modo que me criei, durante quase toda a vida, nesse estado e cidade. Mas desde muito pequena, aprendi que ser baiana em São Paulo era algo muito ruim. Quando voltava das férias na casa da minha vó falando baianês, as outras crianças riam de mim. E até cantavam “baiana, baiana, baiana”, como um modo de ofender, e perdi as contas de quantas vezes eu chorei. Também foi ensinado a essas crianças que ser baiano era ser menos gente.

Como resultado, quando eu tinha uns 12, 13 anos, me esforçava para não “pegar sotaque” ao voltar de férias da Bahia. Na escola, o bullying, que na época não tinha esse nome, era pesado. Assim como os colonizadores arrancam a cultura e crença do colonizado, os paulistas foram arrancando a Bahia que havia em mim. Cresci vendo meus colegas apontarem todas as coisas feias e bregas dizendo que era “muito baiano”.

Sempre me perguntei, de onde surgiu que baiano é feio ou brega? Todo mundo ia passar férias por lá e voltavam dizendo que era um lugar lindo, meus tios são lindos, minha mãe, minha vó, meus primos são todos lindos. Meus melhores amigos eu fiz foi lá, e eles são incrivelmente lindos. As cores, a comida e a música da Bahia são lindas, o Caetano é lindo de chorar de emoção. Não conseguia entender, não. A verdade é que até hoje não entendo.

Os anos passaram e sem perceber, quando notei, já tinha a postura e sotaque paulistano, já quase pensava como eles, quando votei pela primeira vez no Geraldo Alckmin. Mas quando eu revelava minha origem, eu via a xenofobia quase velada aparecer. Me diziam coisas como se pensassem ser elogios: “Você não parece baiana”, deve ser porque não tenho sotaque de lá, eu respondia. “Não, é que você é bonita”, ou “Você não tem cabeça chata”, ou ainda: “mas você é tão inteligente”. Quando eu questionava, eles nunca “queriam dizer” o que de fato diziam.

Na época de eleições presidenciais ouvi de um colega de trabalho que a culpa do Brasil estar afundado eram dos malditos nordestinos, que não queriam trabalhar e votavam no PT para viverem de esmolas. A opinião não era só dele, vi diversos comentários do tipo nas redes sociais, enquanto movimentos separatistas do Sul (de novo eles), viravam notícia ao dar sinais de que queriam se separar do Nordeste. Grande senso democrático, não, senhores? Àquela época eu ainda não sabia do pouco apreço que o brasileiro tinha pela democracia. Em 2016 fiquei sabendo.

Vi a Bahia mudar ano após ano, e, quando eu tinha 17 anos fui viver lá e trabalhei numa empresa de energia elétrica, que fazia inscrição para o “Luz para Todos”, projeto do governo Lula. Esse projeto levava luz para áreas rurais em que a eletricidade ainda não havia chegado, notem que aqui era 2004(!) e ainda existia um monte de lugar sem energia elétrica no Brasil. Assim como ainda existia um monte de gente passando fome no mesmo país em que a gente jogava comida fora.

Não é difícil entender o motivo do alto apoio na região às políticas sociais que chegaram com os governos petistas. Gente que até então não tinha energia elétrica, comida ou qualquer auxílio e muito menos oportunidade de emprego, de repente viram a vida melhorar. Se nunca ninguém havia olhado pela região, como não ser agradecido ao primeiro partido que fez isso? Não estou com isso querendo canonizar Lula e/ou o PT, apenas ressaltando mudanças práticas que ocorreram na vida de muitos brasileiros.

Quando alguém de São Paulo, do Rio ou do Sul do Brasil atribui à preguiça o baiano votar em determinado partido como sinal de não QUERER trabalhar, sempre me pareceu muito simplista, coisa de quem não conhece a realidade do próprio país, e com isso, reproduz discurso também racista. Isso mesmo: a preguiça atribuída a nós nordestinos é uma falácia racista, que já foi inclusive contestada em tese de doutorado na USP, pela antropóloga Elisete Zanlorenzi, que defende que o preconceito contra baiano e/ou nordestino tem origem na elite escravocrata, que tentava depreciar os negros, maioria na população da Bahia, e se propagou com uma reação à Lei Áurea. Ou seja, como eles queriam deixar de serem escravos, não gostavam de trabalhar.

Em sua pesquisa, Zanlorenzi comprovou justamente o contrário: ao analisar o calendário de festas e comparecimento ao trabalho em uma empresa com sede em Salvador e em São Paulo, constatou maior número de faltas na capital paulista. A autora também comparou horas trabalhadas e os baianos também saíram na frente. Até a fama de festeiro do povo baiano ficou para trás: a festa é para os de fora, para muitos baianos o momento é de trabalho em dobro para ganhar com o turismo.

Então, é bom pensar bem na próxima vez em que forem tentados a repetir essas frases de ódio à população seja do Norte ou do Nordeste do país. Vocês não são melhores e nem piores que ninguém, talvez vocês tenham nascido em uma região com mais recursos, em que pelo fácil acesso aos portos, foi mais irrigada por investimentos, e, consequentemente, teve mais desenvolvimento. Isso não é mérito seu, você não fez nada para isso. Então, por favor, parem de desqualificar pessoas por preconceito.

Enquanto vocês fazem isso, os nordestinos “burros” reverberam a variedade da nossa cultura mundo afora. Olhem para os geniais Jorge Amado e para João Ubaldo Ribeiro; para o talentoso Wagner Moura; para o próprio Caetano, Gil e Novos Baianos; olhem para o Ariano Suassuna, para as retadas Gal e Maria Bethânia. Tem para todos os gostos, de Pitty a Ivete Sangalo. Poderia citar muitos outros, mas me contento com esses.

A gente está em 2017, mas como parece 1964, achei que era preciso dizer. Melhoremos, Brasil!

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O Trumpismo vem da pequena burguesia: racismo, fascismo e a classe trabalhadora

Publicado em 16 de maio de 2017
(Negros e brancos juntos com Martin Luther King em 1963)

(Negros e brancos na Marcha sobre Washington em 1963. Foto: Paul Schutzer)

Por Jesse A. Myerson* na The Nation

Tradução Mauricio Búrigo*

Durante toda a campanha de 2016, no meio do choque dos seus resultados e nas várias recapitulações de suas lições, grandes fileiras da imprensa hegemônica e liberal têm se mostrado uníssonos sobre quem culpar por Donald Trump e sua administração de ultra-direita: a classe trabalhadora branca. “É este o jogo que Trump está jogando”, disse George Parker, da New Yorker, a Terry Gross, da NPR (National Public Radio), dias antes da eleição. “É um jogo realmente perigoso, volátil, mas essa talvez seja a maior história desta eleição.”

Nas semanas após a eleição, a estrela liberal do ano passado, Markos Moulitsas (fundador do Daily Kos e da Vox Media), achou apropriado, do seu luxuoso escritório em Berkeley, Califórnia (valor médio da moradia: 1 milhão de dólares), cacarejar sobre os mineiros de carvão aposentados que perderam sua cobertura de saúde. Ainda hoje, o desprezo permanece óbvio: líder autonomeado da “resistência”, (o apresentador) Keith Olbermann não poderia encontrar melhor maneira de insultar seus companheiros multimilionários Sarah Palin, Kid Rock e Ted Nugent do que chamando-os de “trailer park trash” (“gentinha do estacionamento de trailers”).

Mesmo de acordo com as autoridades da direita tradicional, pode-se achar a razão do sucesso de Trump em comunidades brancas de baixa renda, as inimigas do progresso racial e social, onde política reacionária e racismo caipira seguem desenfreados. “A classe baixa branca americana”, segundo Kevin D. Willianson, da National Review, “é escrava de uma cultura viciosa, egoísta, cujos principais produtos são miséria e agulhas de heroína usadas. Os discursos de Donald Trump os fazem se sentir bem, assim como o (medicamento opioide) OxyContin“. De acordo com esta análise, o fascismo de Trump não é mais que um reflexo das preferências degradadas da gente pobre.

Mas fazer os brancos pobres de bode expiatório mantém a conversa distante da base real do fascismo: a pequena burguesia. Esta é uma amostra do jargão usado normalmente por marxistas para denominar donos de pequenas propriedades, cujos equivalentes mais próximos em nossos dias podem ser a “classe média alta” ou os “pequenos empreendedores”. O FiveThirtyEight noticiou em maio passado que “a renda doméstica média de um votante de Trump até agora, nas primárias, é de cerca de $72.000″, ou mais ou menos 130 por cento da média nacional.

A base real de Trump, a verdadeira espinha dorsal do fascismo, não são os votantes pobres e da classe trabalhadora, mas brancos de classe média e emergentes. Muitas vezes autônomos, possuidores de um fundo de pensão e uma casa como um pé-de-meia: este é o estrato contido nos romances de Horatio Alger. Conseguem se enxergar operando na bolsa de valores tranquilamente com o objetivo de se tornarem os próximos Trumps. Não chegaram à “primeira divisão”, mas ganharam o suficiente para se sentirem investidos na hierarquia a que aspiram escalar. Se ao menos a América viesse a ser grande de novo, poderiam tornar-se alta burguesia –o famoso “1%”.

A base da classe média mais institucionalmente entrincheirada de Trump inclui sindicatos da polícia e da guarda de fronteira, os quais agradou com prontidão após sua posse, permitindo-lhes rédeas soltas em impor suas vagas mas apavorantes ordens de imigração, e nomeando um Procurador Geral que suspendesse as investigações nos departamentos de polícia mais problemáticos. Por mais desumanas que tenham sido as atrocidades aos direitos humanos nos anos que prepararam o caminho à era Trump, os agentes de polícia já estão fazendo sua conduta anterior parecer um modelo de restrição. São os partidários mais exaltados de Trump e concretizam o desprezo deste por qualquer um que não seja branco, homem e rico.

Sempre e em toda parte, essa espécie de pequeno burguês constituiu o âmago do fascismo. Em A Psicologia das Massas do Fascismo, seu olhar sobre a economia e ideologia alemãs nos cinco anos que precederam a ascensão de Hitler ao poder, Wilhelm Reich argumentou que o motivo disso era principalmente a dependência que a pequena burguesia possui da unidade familiar patriarcal, que ele chamava de “célula germinativa reacionária central” do “estado autoritário”. Enquanto “cabeças” de suas famílias, homens donos de pequenos negócios frequentemente exploravam suas mulheres e crianças, e impunham-lhes uma moralidade patriarcal com o intuito de proteger suas empresas um tanto vulneráveis. Isso orientou estruturalmente a pequena burguesia na direção da política reacionária.

Se os subúrbios pequeno-burgueses americanos personificam uma hierarquia sexista, eles existem para impor uma hierarquia racista. Em meados do século 20, citadinos brancos do Norte e do Oeste se defrontaram com uma escolha: ficar nas cidades para onde as leis segregacionistas de Jim Crow estavam conduzindo uma “Grande Migração” de milhões de negros ou fugir para os novos loteamentos residenciais suburbanos baseados em estatutos de exclusão racistas.

(New Kids in the Neighborhood , Norman Rockwell, 1967)

(New Kids in the Neighborhood , Norman Rockwell, 1967)

A Administração Federal de Habitação tornava a escolha fácil: sua política discriminava vizinhanças onde negros estavam se assentando como se tivessem baixa “segurança residencial”, tornando assim inacessíveis os planos de financiamento. Contudo, nas comunidades suburbanas de brancos somente, a FHA tinha prazer em garantir hipotecas de casas. “Lá se vai a vizinhança”, diziam milhões, e fugiam.

Com sua segurança material inseparavelmente vinculada ao valor de seus bens imobiliários, os brancos suburbanos tiveram poderosos incentivos para manter brancas suas vizinhanças. Apenas por estar próximos, os negros tornariam suas vizinhanças menos desejáveis a futuros compradores de casas brancos, depreciando, assim, o valor do bairro. Sendo a localização o primeiro critério dos bens imóveis, os proprietários de casas suburbanos nutriam atitudes racistas, ao mesmo tempo que se iludiam de que não excluíam os negros por razões além do dinheiro em seus bolsos.

Nas décadas recentes, o aumento de aluguéis urbanos tem empurrado pessoas de baixa renda para localidades mais periféricas. Conforme os subúrbios têm empobrecido, os proprietários de casas mais abastados têm fugido para as pastagens ainda mais verdes da exurbia (região além dos subúrbios; equivalente ao “entorno” das grandes metrópoles no Brasil). Para onde quer que se voltem, sua ansiedade econômica os acompanha.

E, no entanto, “entre as pessoas com quem converso, ‘ansiedade econômica’ tornou-se uma espécie de slogan de gozação”, disse o colunista do New York Times Paul Krugman a Christiane Amanpour, da CNN, para explicar a ascensão de Trump. “Quero dizer, existe dificuldade econômica real. West Virginia não é um lugar alegre. Mas… na maior parte, é mesmo uma questão de raça”.

A transição automática de “ansiedade” para “dificuldade” feita por Krugman e Amanpour trai a admissão que assombrava toda a discussão: de que a única forma de ansiedade econômica é a privação. Mas, pelo contrário, a forma de ansiedade econômica que impele o racismo dos partidários devotos de Trump está associada a pagar impostos, guardar com zelo suas modestas economias, impedir negros de se mudarem para perto, diminuindo o valor de sua propriedade e consequentemente a qualidade das escolas de seus filhos, e preservar a estrutura familiar patriarcal que facilita tudo isso.

Onde então a classe trabalhadora branca se enquadra? Quando uso a expressão “classe trabalhadora” aqui, quero dizer “dentro e adjacente à pobreza”. A primeira coisa a se entender acerca da participação política dessa gente é que, como notou Bernie Sanders durante as primárias dos Democratas, “os pobres não votam” –não somente por causa de sua alienação da política, mas também por causa da restrição de votantes, carência de educação e de transporte, e todos os outros males da pobreza. Quanto mais baixo se desce a ladeira econômica na América, tanto menos provável que um eleitor qualificado a votar compareça às urnas.

Nem é preciso dizer, há muitos brancos da classe trabalhadora inteiramente a bordo do programa de Trump. Mesmo a parte que simplesmente tolera seu racismo e xenofobia desde que ele distribua contratos para se construir oleodutos, apresenta um grande desafio político. Mas quando consideramos, pós-eleição, quem pertence à “resistência”, estamos fazendo uma alegação de alto risco se olharmos os brancos da classe trabalhadora como tão irremediavelmente fanáticos que não devessem fazer parte dela.

(Negros e brancos viajam juntos ao Mississippi contra o racismo em 1964)

(Negros e brancos viajam juntos ao Mississippi contra o racismo em 1964. Foto: )

Qualquer alinhamento político capaz de corrigir a profunda desigualdade econômica que fortifica e exacerba todos os outros problemas na vida americana vai requerer a unidade da classe trabalhadora através de categorias raciais, de gênero e sexuais, e em torno de interesses compartilhados. Ao mesmo tempo que atrair brancos da classe trabalhadora para esta coalizão requer uma luta política formidável, excluí-los dela torna impossível dispor dos números necessários para se alcançar e exercer o poder.

A cor branca em si confere um grau de propriedade, como descreveu a especialista na área jurídica Cheryl I. Harris, e os brancos pobres e da classe trabalhadora, que carecem de outras formas de propriedade, têm, portanto, razão em tentar protegê-la. Isso levou W.E.B. du Bois a observar: “Na mesma medida que os operários sulistas brancos pudessem ser induzidos a preferir a pobreza à igualdade com o negro, se impossibilitaria um movimento operário no Sul”.

O pecado original da América criou assim um enorme empecilho para se organizar trabalhadores negros e brancos em conjunto. Para conseguir fazê-lo, os trabalhadores brancos devem se convencer a desistir de uma forma de privilégio –o que é oferecido pelo mito da superioridade racial– para lutarem ao lado dos trabalhadores negros. A solidariedade, como resultado, tem sido um desafio monumental, e o racismo branco tem frequentemente ganhado a parada. A história americana, todavia, nos oferece vários exemplos de trabalhadores que escolheram a solidariedade, muitas vezes devido à liderança e perseverança de trabalhadores e pensadores negros.

Em 1894, uma aliança entre trabalhadores agrícolas, os Populistas brancos pobres e os Republicanos negros pobres, ganhou o controle do poder Legislativo da Carolina do Norte e começou a fazer reformas, incluindo a nomeação de funcionários negros. Quatro anos mais tarde, uma eleição supremacista branca devolveu o poder Legislativo à “classe plantadora” apoiada pelos Democratas. Dois dias após a eleição, turbas de brancos alinhados aos Democratas perambulavam por vizinhanças negras, atirando, matando e incendiando.

Durante a Grande Depressão, comunistas foram a Birmingham, Alabama, para se organizarem por direitos econômicos com a classe trabalhadora desempregada; a princípio, pensaram que os trabalhadores brancos iriam ser predominantes, mas no fim das contas foram os trabalhadores negros que o fizeram, e acabaram organizando negros e brancos juntos. Transformando em causa nacional o caso de Scottsboro em 1931, no qual nove adolescentes negros foram acusados, sem provas, de estuprar duas mulheres brancas no Alabama, os comunistas formaram uma série de organizações.

Estas incluíam o Congresso da Juventude Negra Sulista, que prenunciou o Comitê Estudantil de Coordenação Não-Violenta, e um sindicato de meeiros que no seu auge ostentava 12 mil membros, inclusive brancos. Como comissário de segurança pública, Bull Connor travou uma batalha com eles nos anos 1940, e, embora tivesse sido capaz de esmagar o Partido Comunista do Alabama, não pôde esmagar o fundamento que este havia colocado para a revolução dos direitos civis contra Jim Crow –incluindo a ação política pioneira de Rosa Parks.

No fim dos anos 1960, tanto Martin Luther King Jr. como o líder dos Panteras Negras de Chicago, Fred Hampton, reuniram coalizões interraciais de pessoas da mais baixa renda. Em 1967, quando iniciava sua Campanha dos Pobres, King sugeriu que, uma vez que “a questão econômica [é] fundamental para negros e brancos de modo semelhante, ‘Poder para os Pobres’ seria muito mais apropriado que o slogan ‘Poder Negro'”.

Hampton não se afastou do “Poder Negro”, mas emparelhou-o com outras concepções: “Poder Branco para os brancos, Poder Pardo para os pardos, Poder Amarelo para os amarelos, Poder Negro para os negros, Poder X para aqueles que deixamos de fora e Poder das Panteras para o Partido de Vanguarda”. Por seus esforços, ambos foram assassinados Hampton pelo Departamento de Polícia de Chicago e o FBI, e King por um assassino “branco da classe trabalhadora”, o qual sua família e camaradas afirmam que foi um joguete numa conspiração envolvendo o Departamento de Polícia de Memphis, o FBI e outros.

Em todos estes casos, o racismo que destruiu tais esforços não viera da classe trabalhadora branca, mas de brancos ricos e da imposição da lei.

Sem dúvida, os brancos que participavam destas coalizões não estavam livres de suspeição e desprezo pelos negros, mas não eram tão incorrigivelmente odiosos para que fossem cegos quanto aos importantes pontos de unidade que compartilhavam. Estes brancos da classe trabalhadora eram capazes de ver os negros da classe trabalhadora como companheiros de time.

Isto é essencial: as pessoas encontram maneiras de se entusiasmar com aqueles que consideram no mesmo time. A historiadora Judith Stein, por exemplo, cita o caso de Jim Cole, que se recordava do tempo em que trabalhava nos armazéns de Chicago organizados pelo CIO (Congress of Industrial Organization): “Não me importo se o sindicato não fizer mais um bocadinho de trabalho para aumentar nosso pagamento ou resolver queixas quanto a qualquer coisa, sempre acreditarei que fizeram uma ótima coisa no mundo ao reunir toda gente que trabalha nos armazéns, e dissolver o ódio e sentimentos ruins que se mantinham contra o negro”.

“O sentimento racial igualitário”, conclui Stein, “é frequentemente a consequência, não a causa, da sindicalização”.

(Jovem negro desafia a vizinhança branca)

(O jovem ativista negro Dion Diamond desafia a vizinhança branca em Maryland, 1960. Foto: Walter Oates)

Tratar patologicamente a classe trabalhadora branca como inerentemente fanática serve a duas funções: desencoraja a organização da classe trabalhadora além de limites raciais e dá aos liberais brancos um conveniente bode expiatório a quem, sendo branco, não pode culpar o racismo. Como advertiu Malcolm X. “Se você não tomar cuidado, os jornais o farão odiar as pessoas que estão sendo oprimidas e adorar os opressores”.

Se você está procurando o apoio incondicional a Trump, os estacionamentos de trailers do Texas e as cabanas do Kentucky são os lugares errados para encontrá-lo. O fascismo se desenvolve nas mãos que jogam pôquer em porões mobiliados, nas grelhas ao lado da piscina no quintal, nas cervejas na viagem de trem de volta do jogo de bola –e nas delegacias de polícia e radiopatrulhas.

A fim de superar o fascismo, temos de parar de fetichizar a classe média e começar a unir a classe trabalhadora. Com este objetivo, a plataforma do Movement for Black Lives (Movimento pelas Vidas dos Negros) fornece um plano para a emancipação não apenas dos negros, mas da classe trabalhadora como um todo. Com ênfase em se despojar da imposição da lei e do encarceramento e investir na garantia dos direitos humanos quanto a renda, habitação, saúde pública, educação e um meio-ambiente salutar, sua agenda fornece uma ampla cobertura que pode acomodar as visões que impelem muitos dos movimentos sociais da atualidade: grupos operários, ambientais, de paz e de imigração, entre muitos outros, já a aprovaram.

Enquanto beneficiários do racismo sistêmico, os brancos têm uma obrigação especial de se organizar para a realização deste programa, e reconhecer que a relutância dos negros em trabalhar com aqueles que mantém atitudes intolerantes é compreensível, e que a necessidade de organização negra independente é urgente. Ainda assim, a única força política capaz de fazer avançar a agenda do Movement for Black Lives está arraigada nos interesses compartilhados da classe trabalhadora. O fracasso em seguir a liderança de Fred Hampton e Martin Luther King e engajar os brancos da classe trabalhadora na luta pelo socialismo e pela liberação negra só continuará a minar tal combate e a sacrificar aquelas mesmas pessoas ao fundo do poço dos camisas marrons com o revoltante demagogo em seu leme.

*Jesse A. Myerson é ativista e escritor e vive em Nova York.

 

*PAGUE O TRADUTOR: Gostou da matéria? Contribua com o tradutor. Todas as doações para este post irão para o tradutor Mauricio Búrigo. Se você preferir, pode depositar direto na conta dele: Mauricio Búrigo Mendes Pinto, Banco do Brasil, agência 2881-9, conta corrente 11983-0, CPF 480.450.551-20. Obrigada por colaborar com uma nova forma de fazer jornalismo no Brasil, sustentada pelos leitores.

 

 

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