O Petralha: um conto de Natal

Publicado em 22 de dezembro de 2015

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(Ilustra exclusiva do Cris Vector)

Dia de Natal na Paulista. Manjadas versões de músicas estrangeiras, canções natalinas de Frank Sinatra e o disco da Simone se revezam nas caixas de som ao longo da avenida. Pinheiros de plástico com luzes, neve artificial, trenós e renas decoram as áreas externas de bancos e prédios comerciais. Criancinhas posam para fotos ao lado de um urso polar em pleno verão brasileiro. Pela primeira vez em muitos anos não há engarrafamento de carros para ver a decoração: a avenida Paulista está aberta para os pedestres.

Em frente à Fiesp, um pequeno grupo de pessoas está acampado nas ciclofaixas no último protesto do ano pelo impeachment da presidenta, berrando as palavras de ordem de sempre.

– Fora, filha da puta! Vaca! Vadia! Vai tomar no cu!

Um repórter da Globo News faz transmissões ao vivo do local a cada dez minutos. Em uma das inserções, o líder intelectual dos protestos, um magricela com traços orientais recém-saído da adolescência, dá entrevista.

– Por que vocês acamparam em cima da ciclofaixa?

– Achamos que é simbólico dos desmandos deste partido. Quem precisa de ciclofaixas, mano? Fala sério! Queremos derrubar o governo e acabar com essa palhaçada de bicicleta. São Paulo é para os carros! Estamos reivindicando também o aumento da velocidade nas pistas, que o atual prefeito vermelho diminuiu.

– Mas isto fez cair o número de mortes…

– O número de vidas poupadas é insignificante diante do tempo no trânsito que o paulistano está tendo que passar. Tá ligado no que é ficar horas dentro de um carro parado ouvindo os comentaristas da Jovem Pan? É de deixar qualquer um louco! Estes comunistas só pensam nos pobres! Como se rico também não sofresse… Abaixo o preconceito com a burguesia!

Diante da câmera, atrás do entrevistado, um homem barbudo, vestido de vermelho dos pés à cabeça, passa caminhando tranquilamente, no meio da minifestação. Um sujeito de roupa camuflada segurando um cartaz com os dizeres “intervenção militar já!” dá o alarme:

– Olha o petralha! Provocação, não!!! Vamos quebrar esse cara!

O barbudo de vermelho desce a avenida em direção ao Paraíso, correndo como louco, com uma dúzia de fortões atrás. Eles o alcançam na esquina com a rua Pamplona e começam a distribuir safanões, socos e pontapés.

– Calma, calma! É um engano, deixa eu falar!

– Que falar o quê, rapaz! Vamos te encher de porrada para você aprender a não se meter com cidadãos de bem.

– Pára! Pára! Eu sou Papai Noel, porra!!!!

– Hahahahaha. Conta outra.

– Vocês não têm espírito de Natal, não?

– Espírito de Natal uma ova, seu petralha!!

– É sério! Tô vestido assim para a festa dos meus sobrinhos, pô!

– Ah, tá! E a estrela aí na sua camisa?

– É a estrela de Belém, caralho!!!

– Mas e essa barba, mané???

– Barba… Papai Noel… Barba… Ahn? Ahn? Sacaram?

Finalmente, a turba titubeia e se acalma.

– Pô, truta, foi mal.

– Desculpa aí o mau jeito.

– Feliz Natal, hein? Hehehe.

– Vão se fuder, animais.

Papai Noel ajeita a roupa e desce a Pamplona caminhando. Na esquina com a Jaú, ele entra numa vilinha estreita, muito bem escondida ao lado da padaria Flor dos Jardins. Pára diante de um sobrado com o número 13 e toca a campainha. Três toques curtos, ritmados. A porta abre. Ele entra pelo portão lateral, desce dois lances de escada e chega a uma sala no subsolo, onde um grupo de homens e mulheres está reunido.

– Camaradas, vocês nem imaginam do que me livrei agora. Menos mal que esqueci em casa a boina do Che…

 

 

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Os cartões de Natal egoístas de Ayn Rand, a filósofa favorita da “nova” direita

Publicado em 14 de dezembro de 2015

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(Este é um post traduzido e adaptado de um texto originalmente publicado no Alternet)

Já falei aqui algumas vezes de como a direita brasileira adora copiar a direita norte-americana. Pois bem: vem de lá a filósofa favorita do “novo” conservadorismo, seja “libertário” ou abertamente reaça. Russa radicada nos EUA, padroeira do Objetivismo, a santa atéia Ayn Rand (1905-1982) tem fiéis seguidores entre nós. Sua ideia de mundo é que todos devem amar para satisfazer a si próprios e não aos demais. Rand advogava o capitalismo, mas, acima de tudo, o egoísmo. Seu hino poderia ser aquela música do Raul, Carpinteiro do Universo: “o meu egoísmo é tão egoísta que o auge do meu egoísmo é querer ajudar”.

A própria Ayn Rand recusava para si mesma o epíteto de “conservadora”. E fez críticas públicas a outro ídolo dos direitistas, o ex-presidente Ronald Reagan, por algo que lhe parecia abominável: misturar política com religião, o que, para ela, era uma ameaça a seu Deus, o capitalismo. “Reagan é um conservador no pior sentido da palavra”, escreveu. Anos após sua morte, porém, e mesmo com estas nuances, Rand virou uma das principais referências intelectuais da direita Tea Party (ultra-conservadora) dos EUA.

É muito curioso que, apesar de deplorar valores cristãos como a caridade e de ser favorável ao aborto, Rand seja adorada por uma direita (que se diz) cristã! Talvez isso se explique por uma razão: a mulher era ateia e desprezava a pregação humanista de Jesus; preferia louvar as virtudes do dinheiro. Não é a cara de alguns pastores neopentecostais do Brasil, principalmente dos que estão na política? Deve ser de dar um nó na cabeça de muito reaça carola por aí, admirar uma filósofa que acha sua religião uma bobagem…

Trago aqui alguns cartões de Natal que Ayn Rand escreveria. Tudo a ver com o espírito da época, não acham?

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Tem uma ótima animação sobre a forma como Ayn Rand via as relações amorosas: como era possível, por exemplo, ser egoísta e ao mesmo tempo sustentar financeiramente o marido artista, já que ela era totalmente contrária a se sacrificar pelos outros? Para os fãs de Ayn Rand e também para os haters, não deixa de ser interessante.

 

 

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Como as espanholas derrotaram a direita

Publicado em 11 de dezembro de 2015

(As mulheres espanholas na luta contra a proibição do aborto. Foto: CCOO)

As mulheres da Espanha têm uma lição para ensinar a nós, brasileiras, neste momento em que a Câmara dos Deputados, sob o comando do fundamentalista religioso Eduardo Cunha, pretende dificultar até mesmo a interrupção da gravidez em caso de estupro (projeto do próprio Cunha).

Em 2014 elas conseguiram vencer uma luta-de-braço com o conservadorismo espanhol, que planejava um retrocesso na lei do aborto, permitido livremente no país desde 2010. A jornalista baiana Neyse Cunha Lima, radicada em Barcelona, conta com exclusividade para o blog como foi essa luta inspiradora.

***

O feminismo vai de trem

Por Neyse Cunha Lima
exclusivo para o Socialista Morena, de Barcelona

No dia 1º de fevereiro do ano passado, 150 mulheres usando coletes e echarpes lilás subiram em um trem em Gijón rumo à capital da Espanha. Durante a viagem, houve quem tricotasse, quem gravasse as companheiras com o celular, quem só quisesse andar pra lá e para cá, falando com todo mundo. Eram mulheres de vários tipos, mas todas, absolutamente todas, cantaram pelo menos um pouquinho durante o trajeto de quase 5 horas até Madri. A canção, escrita especialmente para a data, tinha uma métrica estranha. As vozes também deixavam um pouco a desejar, mas nada disso importava. Aquela era uma canção de guerra e cumpria o seu papel –dar força e levantar o moral.

Como ocorre atualmente com as brasileiras, as passageiras do trem se aferravam a direitos adquiridos a duras penas, que agora eram ameaçados por um projeto de emenda da lei do aborto. O “Eduardo Cunha espanhol” atendia pelo pomposo nome de Alberto Ruiz-Gallardón, católico, ex-prefeito de Madri e então ministro da Justiça do governo de direita do Partido Popular (PP). Sua proposta era derrubar a lei de 2010, a chamada Lei de Prazos, que permite o aborto livre e universal até 14 semanas de gravidez, e voltar a criminalizar a prática. As exceções seriam apenas duas: estupro ou ameaça à saúde física ou psíquica da mãe, sendo que este último deveria ser atestado por dois médicos diferentes.

Graças ao Trem da Liberdade, como foi batizado o alegre comboio lilás, não só o projeto de lei foi engavetado como seu autor papa-hóstias se retirou definitivamente da vida pública, decepcionado.

É verdade que o Trem da Liberdade não viajou sozinho. Ao chegar a Madri, com um documento de repúdio para entregar ao governo, milhares de mulheres – 700 mil, segundo a central sindical Comisiones Obreras, “dezenas de milhares” segundo El País – as esperavam. Elas (e também muitos “eles”) vinham da Andaluzia e do País Basco, da Catalunha, da Extremadura, de todas as partes. O apoio também chegava de outros países europeus, não só através de grupos de mulheres que viajaram de carro e avião, mas também na forma de manifestações em grandes cidades como Roma, Amsterdã, Bruxelas ou Paris. Nesta última, a marcha em favor do #YoDecido reuniu 30 mil mulheres, segundo as organizadoras. Até a Argentina entrou na dança, com uma manifestação em Buenos Aires.

“Trata-se de tornar visível o invisível, e neste sentido, foi fundamental a união”, diz a socióloga e crítica cinematográfica feminista Pilar Aguilar, para quem “a solidariedade é um princípio inapelável do feminismo”.“O movimento feminista não é um partido, não tem um cabeça. As coisas ocorrem por meio de contatos e apoios”, diz Pilar, que vive entre a Espanha e a França e funciona como uma espécie de embaixadora não oficial do movimento. Ela também chama a atenção para o fato de que, em paralelo às manifestações públicas, houve um importante trabalho de bastidores junto às parlamentares europeias.

A proposta, à medida que o movimento evoluiu, era criar uma lei única para toda a Europa, ideia que acabou não vingando. Mas o apoio de parlamentares de outros países da União Europeia deixou claro que não se via com bons olhos que um de seus membros fosse associado a práticas retrógradas, especialmente depois de ter figurado alguns anos como o país mais avançado do continente nessa matéria, em termos de legislação.

Não será por acaso que, desde então, o aborto se tornou uma espécie de commodity política na Espanha. Por exemplo, a lista de candidatos do PP ao Congresso nas próximas eleições gerais de 20 de dezembro não inclui nenhum dos deputados que continuaram defendendo uma lei mais dura para o aborto depois da retirada do projeto. E a menos de um mês das eleições, o partido ainda evita se pronunciar sobre qual será a sua postura em relação ao único item da lei de Gallardón que continua em pauta – a exigência de autorização paterna para menores de idade que queiram abortar.

“A corda acabou arrebentando do lado mais frágil”, diz Begoña Piñero, presidente da Tertulia Feminista Les Comadres, que organizou o Trem da Liberdade e o movimento #YoDecido. “É preciso se colocar no lugar de uma menina de 15 anos – há questões de religião, etnia, violência doméstica… Às vezes o autor da violação é o próprio pai, como essa menina vai poder ter o apoio paterno?”, argumenta Begoña, que com seu fervor característico não pretende repousar sobre os louros da vitória. “Ainda precisamos pactuar o tema das adolescentes, e as listas de todos os partidos para essas eleições mostram que o movimento feminino perdeu espaço”.

Begoña sabe o que diz. Aos 59 anos, já leva mais de 30 na luta, e sua percepção da condição da mulher vem de muito antes. Nascida e criada na pequena localidade mineira de Barredos, e filha de operário, ela trazia inevitavelmente no código o gene da consciência social. A questão feminina, no entanto, surgiu a partir da observação. Mesmo sendo criada “em uma família livre de violência”, como faz questão de frisar, sempre teve muito claro que as mulheres eram colocadas por tabela em um plano inferior. “Para começar, via como meu irmão era educado de forma diferente de mim e de minha irmã”, conta.

Em 1985, surgiu a Tertulia, cuja primeira ação foi reivindicar que as ruas de Gijón, até então dominadas pelos homens, pudessem também ter nomes de mulheres. Gritaram tão alto que acabaram sendo ouvidas pelo novo prefeito socialista, e muitas placas que ostentavam nome e valores do franquismo foram substituídas. Pode parecer bobagem, mas se a gente pensa melhor, é uma questão de semiótica – e também uma questão de marketing, matéria na qual a mulherada parece cada vez mais versada.

O Trem da Liberdade pode ter surgido de forma singela, em um almoço de Natal que as Comadres fizeram em 26 de dezembro de 2013. A organização foi informal, concentrada na floricultura de Begoña. Mas o filme que resultou da jornada foi uma superprodução que envolveu 80 profissionais de diversos segmentos do mundo do cinema. E essa foi apenas uma entre muitas ações de conteúdo simbólico que ajudam essas mulheres a serem ouvidas.

Ainda em 2008, durante a luta pela Lei de Prazos, 1600 asturianas foram às delegacias de polícia entregar-se como criminosas, por terem cometido abortos em um ou outro momento. A ação se repetiu em 2014, dessa vez com mulheres e homens se apresentando à Guarda Civil de Barcelona. Também foi “montada” uma clínica fictícia, a Abortion Travel, que oferecia pacotes para ir abortar no exterior, evitando as clínicas clandestinas, que seriam a única opção, se aprovado o projeto de Gallardón. As mulheres também registraram o próprio corpo nas juntas comerciais e se vestiram de aeromoças, invadindo os trens de Catalunha para explicar, com gestos, como o Ministro da Justiça pretendia sabotá-las.

Claro, marketing só não basta. “Cada ação provoca uma reação do patriarcado, e às vezes se avança, e outras se retrocede”, diz Pilar Aguilar. Em nível individual e comunitário também existe muita ambiguidade e desconhecimento. A Igreja Católica, cuja expertise em marketing ultrapassa qualquer meta que as feministas possam ter, tem uma influência tremenda no governo e na sociedade, especialmente considerando-se que se trata de um estado que se proclama laico.

E mesmo quem se considera progressista pode cair em armadilhas. “Aprendemos muita coisa e muitos pais acreditam que educam melhor, mas ainda estão aí a cantora do grupo pop espanhol Amaral cantando que “sin ti no soy nada”, e a mocinha da saga Crespúsculo deixando tudo, até mesmo a condição humana, para seguir um homem”, diz Begoña. Em outras palavras, é preciso educar para a igualdade.

No início do ano passado, surgiu no Facebook um grupo chamado Claustro Virtual de Coeducación, encabeçado por uma professora de ensino secundário chamada Marian Moreno Llaneza. O grupo, atualmente com 1800 membros, se dedica a intercambiar ideias e materiais para utilizar em sala de aula, estimulando uma educação inclusiva. “Abordamos coisas como a falta de visibilidade das mulheres nos livros e materiais didáticos, a falta de espírito crítico diante do machismo, a escassa educação afetivo-sexual e a falta de perspectiva de gênero”, diz Marian.

Outra de suas preocupações é o uso da linguagem e como as palavras podem tornar a mulher invisível. O tema da linguagem é recorrente entre as feministas, que, entre outras coisas, dirigem suas reivindicações à mídia. “Não se pode, por exemplo, dizer que a violência de gênero é um crime passional, porque não tem nada a ver com paixão nem com amor; é um crime ideológico, um terrorismo no qual se mata em nome do machismo”, diz Begoña Piñero.

O mesmo ocorre com a questão da invisibilidade, também atacada por diferentes grupos. Como o Club de las 25, que reúne jornalistas, artistas e empresárias que se uma vez por mês no Hotel Palace de Madri para discutir temas relacionados à luta pelos direitos femininos. Como parte das comemorações do Dia da Mulher este ano, elas realizaram uma maratona da qual participaram mulheres de mais de 70 cidade de todo o mundo com o objetivo de editar a Wikipedia. Segundo dizem, somente 10% dos editores do wiki são mulheres, e isso se nota nos verbetes.

O grupo também oferece prêmios anuais a mulheres que se destacam por suas contribuições. Em novembro, foi a vez de Begoña, que no seu estilo low-profile de sempre, passa a bola para o movimento. “O prêmio, na verdade, foi para o trem”.

Mas este trem não foi o último que passou. No último dia 7 de novembro, mais de 150 organizações feministas e milhares de simpatizantes, homens e mulheres, tomaram outra vez as ruas de Madri. Dessa vez, a reivindicação máxima era o fim da violência machista. Como sempre, houve controvérsias sobre o número de manifestante, mas as organizadoras falavam em meio milhão. A empresa de análise de mídias sociais Topsy contabilizou 13.000 menções no twitter durante a marcha, fora as dezenas de milhares que a antecederam. Ainda assim, dois dias depois El Pais noticiava: “Quatro mulheres assassinadas após a grande marcha contra a violência machista”.

 

 

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