8 medidas contra o povo que o PSDB apoia, mas dizia antes que era “terrorismo” do PT

Publicado em 24 de julho de 2017

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Ao longo dos últimos anos, em época eleitoral, os petistas vinham apontando uma série de medidas contra o povo que seriam tomadas pelos tucanos se voltassem ao poder. O PT dizia que o PSDB iria acabar com todas as conquistas sociais dos governos Lula e Dilma. E os marqueteiros e candidatos tucanos, com o apoio explícito da mídia comercial, diziam que o PT fazia “terrorismo” e que queria colocar “medo” nas pessoas.

Quase quatro anos se passaram desde a última campanha presidencial. Aécio Neves, o candidato favorito da imprensa e então baluarte da ética na política, foi flagrado pedindo dinheiro ao empresário Joesley Batista. Mas as mentiras ditas pelos tucanos não se resumem a essa. De volta ao governo do país ao lado do PMDB graças a um golpe, o PSDB está fazendo exatamente o que o PT dizia que faria, e em apenas um ano no cargo.

Confira.

1. Bolsa Família: o governo PSDB-PMDB reduziu o número de beneficiados do programa e suspendeu o reajuste acima da inflação. Os tucanos sempre disseram que iriam preservar o Bolsa Família e que eram “boatos” as afirmações de que pretendia acabar com o programa, considerado essencial para combater a pobreza pela ONU.

2. Minha Casa Minha Vida: o governo PSDB-PMDB reduziu em 10% os recursos orçamentários para o programa habitacional. Em 2014, Aécio batia o pé dizendo que era mentira do PT que iria fazê-lo se chegasse à presidência.

3. CLT: o governo PSDB-PMDB aprovou uma “reforma” trabalhista que destrói a CLT e precariza a vida do trabalhador. Em um dos últimos debates, Aécio mentiu aos brasileiros dizendo que não faria a flexibilização da CLT se fosse eleito.

4. Previdência: o governo PSDB-PMDB pretende acabar com a aposentadoria dos brasileiros com sua “reforma”, prevista para ser votada pelo Congresso no segundo semestre. Se ela for mesmo aprovada, as pessoas precisarão trabalhar 49 anos para conseguir se aposentar integralmente. Nas últimas campanhas, nenhum eleitor do PSDB foi informado que isso iria acontecer.

5. Privatização da Petrobras: o governo PSDB-PMDB já está vendendo vários setores da Petrobras e transformando-a numa empresa pequena. Aécio Neves, no entanto, dizia em campanha que iria fazer o contrário: reestatizar a empresa, que segundo ele tinha sido “privatizada” pelo PT.

6. Meio ambiente: o governo PSDB-PMDB sancionou a MP da Grilagem, que legaliza massivamente áreas públicas invadidas, e agravará o desmatamento e os conflitos de terras, principalmente na Amazônia. A MP retira ainda exigências ambientais para a regularização fundiária, o que estimulará o desflorestamento. Nem parece o mesmo partido que foi apoiado pelo PV de Eduardo Jorge e por Marina Silva no segundo turno em 2014.

7. Saúde e educação: o governo PSDB-PMDB limitou, com a PEC dos Gastos, o orçamento para a saúde e para a educação pelos próximos 20 anos. Durante a campanha, Aécio dizia exatamente o contrário: que iria aumentar os gastos com saúde e educação para 10% do PIB.

8. Bancos públicos: o governo PSDB-PMDB está dilapidando os bancos públicos: o Banco do Brasil anunciou o fechamento de 402 agências e a demissão de 18 mil funcionários e a Caixa prevê o fechamento de 120 agências e a demissão de 5 mil funcionários apenas em 2017. Ao mesmo tempo, o governo perdoou uma dívida de 25 bilhões do Itaú e de 338 milhões do Santander. Em 2014, após seu principal assessor na área econômica, Arminio Fraga, ter sido flagrado prometendo fazer exatamente isso, os tucanos diziam que era “terrorismo” do PT a afirmação de que o partido iria destruir os bancos públicos e favorecer os privados.

A pergunta que fica é: em que projeto de governo estava escrito que estas medidas iriam ser tomadas? Quem aprovou estas iniciativas que estão sendo colocadas na prática pelo PMDB, com o apoio dos tucanos? O povo é que não foi.

 

 

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É na marra! Mesmo com crise institucional, trator de Temer continua em ação no Congresso

Publicado em 24 de maio de 2017
24/05/2017- Brasília- DF, Brasil- Segurança é reforçada no Palácio do Planalto  Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

(Soldados do Exército em frente ao Palácio do Planalto. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

Por Katia Guimarães*

O Brasil está (literalmente) pegando fogo, mas Temer não arreda o pé do cargo e sua base no Congresso continua a todo vapor, trabalhando para aprovar as “reformas” que tiram direitos dos trabalhadores e dos aposentados. Com o país de ponta-cabeça desde que o presidente ilegítimo foi flagrado numa conversa nada republicana com o dono da JBS, Joesley Batista, o governo Temer apela para a força, dentro e fora do Congresso.

A violência policial marcou a manifestação desta quarta-feira-24 em Brasília contra as reformas trabalhista e previdenciária, pela saída do peemedebista e por Diretas Já. O dia tenso culminou com o governo colocando as Forças Armadas de prontidão nas ruas da capital por uma semana. No Congresso, a oposição resiste, mas a base aliada está pronta para aprovar a pauta neoliberal das “reformas” trabalhista e previdenciária. Com o apoio da mídia, querem vencer na marra, mesmo que o presidente não dure por muito mais tempo.

Trabalhadores de todo o país vieram à capital federal em centenas de ônibus e ocuparam a Esplanada num protesto que reuniu cerca de 150 mil manifestantes, segundo os organizadores. Logo no começo do Ocupa Brasília, a Polícia Militar partiu para violência, com forte repressão da Tropa de Choque, que usou bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo e foi flagrada usando armamento de verdade. Uma pessoa foi baleada. A Esplanada parecia uma praça de guerra. Prédios de ministérios tiveram vidraças quebradas, banheiros químicos foram virados, placas derrubadas, um cenário de destruição. Todos os ministérios foram evacuados por segurança.

Parlamentares que estiveram na manifestação denunciaram no plenário da Câmara e do Senado que pessoas infiltradas tumultuaram o protesto para desqualificar o movimento. “Ninguém prende os 50 e dispersa toda a passeata jogando bomba para tudo que é lado. Esse é o equívoco da condução policial. Eu fico preocupado porque eu acho que isso, às vezes, ajuda a construir a narrativa que eles querem. Qual é a narrativa? Que os manifestantes vieram aqui fazer quebra-quebra, vieram dos Estados fazer baderna e quebra-quebra”, reagiu o senador Lindbergh Farias (PT-RJ).

Enquanto os manifestantes apanhavam da polícia lá fora, a tensão repercutia do lado de dentro do Congresso e a oposição na Câmara voltou a ocupar a Mesa Diretora do plenário para obstruir a sessão de votação de medidas provisórias. O deputado que comandava a sessão na hora, Carlos Manato (SD-ES), se negou a interromper a ordem do dia e saiu sob gritos de “Fora, Temer” e “Diretas já, o povo quer votar”. Uma faixa com Fora Temer foi esticada e retirada à força por deputados aliados do Planalto.

O presidente Rodrigo Maia (DEM-RJ) foi cobrado por fugir à responsabilidade de criar a comissão de impeachment de Michel Temer e impedir a votação da proposta que prevê eleições diretas. “Será que nesse momento vossa excelência vai virar as costas para o que está acontecendo fora do Parlamento, tentando mostrar um clima de normalidade que não existe? Tem pessoas feridas. Esta mesa está ocupada por um conjunto de parlamentares não é à toa. A Câmara não pode dar as costas ao que esta acontecendo na Esplanada”, questionou o líder do PSOL, Glauber Braga (RJ).

O anúncio da convocação das Forças Armadas pelo ministro da Defesa, Raul Jungmann, no Palácio do Planalto, agravou ainda mais a situação no Congresso. O decreto da Garantia da Lei e da Ordem, que só foi acionado em casos de grandes eventos internacionais como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas 2016 ou em ações extremas como a tomada da Maré, assustou a todos. Nem no auge dos protestos de 2013, quando manifestações tomaram conta do país e em Brasília ocuparam o prédio do Congresso, a presidenta Dilma Rousseff tomou essa iniciativa.

Especialistas e juristas afirmam que o decreto é inconstitucional e que Temer cometeu novo crime de responsabilidade. O Planalto afirmou que atendia a pedido de Rodrigo Maia, que negou haver solicitado as Forças Armadas, e sim a Força Nacional para proteger a Esplanada. A temperatura subiu no plenário quando o deputado Paulo Pimenta (PT) questionou sobre convocação do Exército em Brasília.

No Senado, a oposição também se insurgiu e cobrou explicações do presidente Eunício Oliveira (PMDB-CE) e o líder do PMDB, Renan Calheiros (AL), considerou que a iniciativa do Planalto “beira a insensatez” e afirmou que não serão as Forças Armadas que irão salvar o governo Temer.

“Isso é gravíssimo, é gravíssimo”, disse o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), ao afirmar que o decreto, neste momento, é um decreto que busca restabelecer a ordem, mas, na verdade, é travestido de um decreto de estado de defesa. “Não há, Sr. Presidente, calamidade de grandes proporções ou instabilidade institucional para haver decretação de estado de defesa, e, para o decreto de estado de defesa, conforme preceitua o art. 136 da Constituição, ter validade, é necessário que o Congresso Nacional seja convocado em 24 horas.”

Ontem, o Senado já havia sido palco de enfrentamento entre governo e oposição, que tentava barrar outro golpe do governo de fazer avançar a tramitação da reforma trabalhista. A sessão da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado contou com vários atropelos regimentais comandados por senadores do PSDB, PMDB e DEM, que resolveram blindar Temer. O senador Paulo Paim (PT-RS) deu uma aula do que é a vida de trabalhador de fábrica, contando a sua própria experiência como operário no sul. Ele disse ter confiado plenamente em Ferraço. “O Congresso virou um verdadeiro ovo da serpente”, afirmou Paim, em vídeo no twitter.

Após mais de 7 horas de discussões acaloradas para impedir a da leitura do relatório da reforma, a confusão tomou conta da comissão quando Tasso Jereissati (PSDB-CE), presidente da CAE, se negou colocar em votação o segundo recurso dos oposicionistas para suspender a matéria e quis dar início à leitura do relatório. Os senadores se levantaram, houve gritos, acusações e quase chegaram as vias de fato. No fundo da comissão, manifestantes gritavam Fora Temer, Diretas Já e cadeia para Aécio e Jucá. No meio da confusão, o senador Ataídes Oliveira (PSDB-TO) partiu pra cima de Randolfe Rodrigues (Rede-AP) e o chamou pra briga.

Fechado no Planalto, Temer passou os últimos dias recebendo aliados. Em sua última declaração no início da semana, parece ter desafiado o povo brasileiro e a oposição ao afirmar, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo: “Não renunciarei, se quiserem que me derrubem”. Nas ruas, novas manifestações estão sendo organizadas e no Rio já está previsto evento similar ao das Diretas de 1984, com a participação de diversos artistas, como Caetano Veloso e Criolo.

Em Brasília, a oposição promete também não arredar o pé e continuar a obstruir votações. A ideia é subir o tom. Vale observar o que disse hoje o senador Lindbergh: Temer é um presidente fraco, que pode cair a qualquer momento, e, enquanto o país vive uma grave crise política, um acordo está sendo costurado por cima para eleger um presidente de forma indireta. A ordem é aprovar as “reformas”, com Temer ou sem Temer.

 

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Renan vira o “Malvado Favorito” da oposição para barrar reformas de Temer no Senado

Publicado em 14 de maio de 2017

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(Ilustra do Cris Vector)

Por Katia Guimarães*

Um ano após o golpe parlamentar contra a presidenta Dilma, o país vive um de seus piores momentos na História, sob ameaça de venda das riquezas nacionais e assalto aos direitos dos trabalhadores e aposentados. A cartilha do sistema financeiro tem sido fielmente rezada todos os dias pelo governo Temer e o retrocesso na área social salta aos olhos. As projeções para os mais pobres são as piores e, pela primeira vez, o índice que mede o orgulho de ser brasileiro desceu a patamares nunca vistos –o Datafolha mostrou que 34% de pessoas têm vergonha do país. Com a popularidade do governo lá embaixo, 85% da população querem novas eleições para presidente da República.

Na resistência, movimentos sociais e sociedade civil prometem ocupar Brasília no dia 24 de maio depois de uma bem-sucedida greve geral. Fragilizada, a esquerda é numericamente inferior, ainda mais com o Palácio do Planalto comprando parlamentares com cargos e emendas. A oposição que restou luta bravamente, como numa batalha de Davi e Golias, na tentativa de barrar o avanço implacável das reformas previdenciária e trabalhista. Sem chance na Câmara, onde tudo passou a toque de caixa, a saída para os oposicionistas no Senado foi se agarrar à controversa figura do líder do PMDB, Renan Calheiros (AL), o “Malvado Favorito” da vez.

A oposição enxerga em Renan o único aliado com munição para fazer frente ao rolo compressor de Temer e conseguir impedir que as reformas passem no Senado. Sempre com o pé atrás, pois o PT e aliados tinham a mesma esperança antes do impeachment, frustrada por Renan, que acabou votando pela saída de Dilma e a favor da fatídica PEC dos gastos públicos, que cortou recursos para a saúde e educação pelos próximos 20 anos. Por outro lado, foi Renan quem articulou a votação no Senado para garantir à presidenta Dilma o direito a se candidatar a cargos públicos.

Enquanto o processo de impeachment corria a galope na Câmara, Renan dizia aos mais próximos que não desejava que chegasse ao Senado. Nunca foi da turma de Temer, pelo contrário. Mesmo sem morrer de amores por Dilma, nem por isso concordava com o golpe. Depois que as traições na Câmara suplantaram os cálculos do PT, Renan era o último resquício de esperança para alguns. Ele deu mais tempo aos aliados de Dilma para tentar mudar os votos na Casa, relutou, mas chegou uma hora que cedeu. A pressão do governo interino e das ruas era demais até mesmo para o então presidente do Senado. O instinto de sobrevivência política pulsava de novo.

Com Lula, Renan sempre se entendeu e até hoje os dois se falam, principalmente quando as reformas começaram a correr pelo Congresso. A oposição enxergou uma oportunidade em Renan e se apega a ela, embora o governo seja maioria absoluta no Senado. O impeachment de Dilma foi aprovado na Casa por 61 votos favoráveis e 20 contrários e a PEC do teto dos gastos públicos por 61 votos favoráveis e 14 contrários. Mas, sem dúvida, o senador tem irritado o Palácio do Planalto com sua verve “oposicionista”, sobretudo em sua página no Facebook.

De olho nas eleições de 2018, o líder do partido de Temer mede cada passo que dá e não quer parecer um aliado tão fiel de um presidente tão impopular, principalmente porque a imagem de Temer é ainda pior no Nordeste, ao contrário de Lula. Para Renan, estão em jogo a sua reeleição ao Senado e a de seu filho ao governo de Alagoas. Sondagem do Instituto Paraná Pesquisas, encomendada pelo portal Poder 360, mostrou que o ex-presidente do Senado aparece em terceiro lugar na corrida eleitoral alagoana e, levando-se em conta que cada Estado elegerá dois senadores no ano que vem, ele cai para a na quarta colocação. Com um pé em cada canoa, Renan se equilibra para não ser catapultado do cargo nem por subir o tom contra as reformas nem por apoiá-las.

Já comparou o governo à seleção de futebol treinada pelo técnico Dunga e chegou a dizer que esse é um governo da vingança. “O último governo que guarda alguma relação com o que está acontecendo hoje no Brasil foi o governo do Artur Bernardes, considerado o governo da vingança. No século 21 isso não pode mais se repetir no Brasil”, disse, referindo-se ao presidente que comandou o país sob estado de sítio. O líder peemedebista incitou a mobilização popular contra as reformas e chegou a colocar sua posição em jogo. Ao site Poder360, afirmou: “Você só é líder de bancada quando verbaliza o pensamento majoritário. Agora, se for incompatível defender os trabalhadores com o exercício da liderança, vocês não duvidem o que vai acontecer”.

Sua atuação nas redes sociais se intensificou e Renan tem se reunido com centrais sindicais e a oposição para articular mudanças no texto da reforma trabalhista. O tom duro incomodou senadores peemedebistas fieis ao Planalto. A chapa esquentou na bancada após Renan aparecer em transmissão ao vivo no Facebook ao lado de sindicalistas e senadores da oposição como Roberto Requião (PMDB-PR), Gleisi Hoffmann (PT-PR) e Randolfe Rodrigues (Rede-AP). A tensão no PMDB, que tem 22 senadores, subiu e uma guerra interna se instaurou. Minoria, Renan foi enquadrado e proibido de falar em nome da bancada ao criticar o governo e ao encaminhar votações terá que seguir a vontade da legenda e não suas posições pessoais.

Dia sim, dia não, corre a informação que a liderança de Renan está perigando, mas aliados dizem que não há chance dele ser destituído. Seria só uma questão de espaço, pois, como líder, ele pode indicar seus colegas para posições de destaque no Congresso e atrapalhar o governo como já fez atrasando a aprovação de uma importante MP para o caixa federal e os trabalhos da Comissão do Orçamento. O senador Dário Berger (SC), por exemplo, recebeu, nessa semana, a presidência do colegiado, cargo de relevância no Legislativo. À frente da Comissão de Constituição e Justiça, Renan conta com Edison Lobão (MA).

O líder do governo, Romero Jucá, tem contemporizado o lado “oposicionista” de seu colega de legenda. Eduardo Braga (AM) tem sido companheiro nas críticas ao “pacote de maldades” comandado pelo presidente Temer e conta com o apoio de Jader Barbalho (PA) e Hélio José (DF). Kátia Abreu (TO) e Marta Suplicy (SP), que é presidente da Comissão de Assuntos Sociais do Senado, também andam insatisfeitas com o Planalto. Enquanto o governo apressa a reforma trabalhista na Casa, Marta nem sequer indicou o relator da comissão de mérito do projeto e mandou recado: o Senado não é uma Casa carimbadora.

Natural de Murici, em Alagoas, o estudante universitário Renan Calheiros começou a carreira política no PCdoB, presidiu o diretório acadêmico da área de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal de Alagoas no final da década de 70 e se filiou ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB), hoje PMDB, no início dos anos 1980. O Brasil vivia os estertores do regime militar e o sistema político era bipartidário. De lá para cá, foi deputado estadual, federal, senador por três mandatos e presidente do Senado.

Serviu a todos os governos federais desde que se aliou ao conterrâneo Fernando Collor, em 1989. Ocupou nada menos que o cargo de ministro da Justiça no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso e se tornou aliado de primeira hora de Lula. Sua relação mais difícil foi com Dilma, de quem se queixava não convidá-lo ao Palácio com frequência.

No meio político, é considerado um estrategista perspicaz e com forte instinto de sobrevivência. Um dos episódios mais emblemáticos do atual mandato de Renaan ocorreu quando o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello concedeu liminar à Rede, que pedia que réus não estejam na linha sucessória da presidência da República. Em 48 horas, Renan driblou o oficial de justiça que levava a notificação, reverteu a situação e o plenário do STF rejeitou seu afastamento, proibindo o senador de ocupar a presidência da República em caso de ausência de Michel Temer.

Renan já avisou que não vai aceitar goela abaixo nem o calendário do Planalto nem o texto da reforma trabalhista aprovado pela Câmara dos Deputados. Nessa semana, esteve com policiais civis contrários à reforma previdenciária, defendeu a garantia dos direitos e voltou a receber sindicalistas. Não se sabe ainda como ele irá agir, mas está colhendo sugestões de modificações ao texto da reforma trabalhista. O conteúdo está sendo pilotado por Jucá e as centrais sindicais, com exceção da CUT, que não tem participado das conversas.

Um dos pontos a ser modificados é proibir a terceirização da mão de-obra nas atividades-fim. Outro ponto a ser mudado pode ser a prevalência do acordo negociado entre patrão e trabalhador sobre a CLT. Com receio de a matéria voltar para nova votação dos deputados, o que atrasará ainda mais seus planos tenebrosos, Temer disse a ele que poderia editar as mudanças em uma medida provisória, o que é rechaçado pela oposição.

Essa construção foi a saída política encontrada pelo Planalto para atender Renan e não comprometer a aprovação da matéria. Na Câmara, o governo intensificou o toma-lá-dá-cá de cargos e a liberação de emendas e retaliou os “traidores” da reforma trabalhista. Preocupados em ficar sozinhos com o ônus de aprovar o pacote de maldades, deputados fazem chantagem com o governo e retardam a votação da reforma previdenciária.

O líder do PMDB, no entanto, tem sido ambíguo em suas declarações mais recentes. Num primeiro momento, Renan Calheiros disse não concordar com a edição de uma MP. Mas evitou atacar o Planalto e baixou o tom nas redes sociais e nas entrevistas. Renan garante não ter mudado de opinião sobre os temas, mas há, entre os oposicionistas, quem ache que o senador peemedebista poderá trair seus novos aliados. Para a esquerda, ainda vale a frase dita esta semana pelo líder do MTST, Guilherme Boulos: “Não importa o que esse ou aquele fez no verão passado, quem resistir às reformas é aliado objetivo”.

É difícil prever qual será o próximo passo do enxadrista Renan. Mais vale confiar, desconfiando. Enquanto a oposição parlamentar se apega a seu novo Malvado Favorito, resta à resistência popular a Temer ocupar as ruas contra as reformas macabras do governo ilegítimo.

 

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