10 razões para amar o Cristo de Saramago (ainda que você não seja cristão)

Publicado em 22 de dezembro de 2016
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(José Saramago em Lanzarote. Foto: João Francisco Vilhena)

Tem um livrinho clássico de Miguel de Unamuno, São Manuel Bueno, Mártir, que conta a história do padre de uma cidadezinha no interior da Espanha que esconde um terrível segredo. O segredo de Dom Manuel, admirado por todos os moradores graças a sua bondade, generosidade e pelas palavras que apaziguam corações, é que ele não tem fé. Imaginem: um padre que não crê. E a maior prova de fé do padre sem fé é levar o consolo da religião aos demais, sendo que ele mesmo não o possui.

“Eu estou aqui para fazer viver as almas dos meus paroquianos, para fazê-los felizes, para que sonhem ser imortais e não para matá-los. (…) Com a verdade, com a minha verdade, não viveriam. Que vivam. E isto faz a igreja, fazê-los viver. Religião verdadeira? Todas as religiões são verdadeiras enquanto forma de fazer viver espiritualmente aos povos que as professam, enquanto lhes consolam de haver tido que nascer para morrer, e para cada povo a religião mais verdadeira é a sua. E a minha? A minha é consolar-me em consolar os outros, ainda que o consolo que lhes dou não seja o meu”, diz Dom Manuel no livro, ao revelar o segredo a seu “confessor”.

Vejo esta “fé dos que não têm fé” muito presente no livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago. Ateu, Saramago criou um Cristo maravilhosamente falível, capaz de revigorar a fé de muitos. Na época em que foi lançado, em 1991, o livro sofreu ataques da igreja católica, porque Saramago ousou mexer com os dogmas do cristianismo. O então sub-secretário de Estado da Cultura português, Antonio Sousa Lara, chegou a vetar o romance em uma lista de indicações literárias sob o argumento de que ofendia a “moral cristã”. Quando Saramago morreu, em 2010, o jornal do Vaticano o chamou de “ideólogo antirreligioso, um homem e um intelectual que não admitia metafísica alguma”.

Leram muito mal o romance, porque não há nada mais cristão do que este evangelho de um ateu: é o retrato de um Jesus Cristo humano, demasiado humano, consciente da grandeza de sua tarefa e aterrorizado por ela. Não era esta a intenção de Deus ao mandar seu filho à Terra, que ele fosse o mais próximo possível de seus semelhantes, em vez do Cristo “divino”, milagreiro e marqueteiro de si mesmo que surge nos evangelhos?

De certa forma, o escritor português melhorou o Jesus do Novo Testamento ao desnudar a complexidade (e a crueldade) do papel que lhe cabia na história. Quem lê a obra de José Saramago não sai menos cristão e sim mais solidário a Jesus. Não dá para entender como puderam ficar contra um livro que é impregnado do mais puro, verdadeiro cristianismo. Desconfio que Saramago era como o Dom Manuel de Unamuno, só que ao contrário. Sua assumida falta de fé ocultava uma fé profunda –na humanidade.

Veja abaixo 10 razões para amar o Cristo de Saramago (ainda que você seja ateu).

1. Maria, como toda mãe, não é virgem: Jesus é gerado não pela visita de um anjo, mas pela conjunção carnal entre Maria e seu marido José. A semente de Deus está misturada à de José. “Deus, que está em toda a parte, estava ali, mas, sendo aquilo que é, um puro espírito, não podia ver como a pele de um tocava a pele do outro, como a carne dele penetrou a carne dela, criadas uma e outra para isso mesmo, e, provavelmente, já nem lá se encontraria quando a semente sagrada de José se derramou no sagrado interior de Maria, sagrados ambos por serem a fonte e a taça da vida, em verdade há coisas que o próprio Deus não entende, embora as tivesse criado”.

2. Jesus nasce da mesma maneira que todo mundo: “O filho de José e de Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso de suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram chorar, e chorará por esse mesmo e único motivo.”

3. Os “reis” magos trazem presentes úteis: os três “reis magos” são, na verdade, pastores, e, em vez de trazerem ouro, incenso e mirra, presentes absolutamente inúteis naquela situação, trazem leite, queijo e pão.

4. José e Jesus têm uma relação pai-filho: ao contrário dos relatos do Novo Testamento, que praticamente ignoram a existência de relação entre Jesus e seu pai terreno, o carpinteiro José, o evangelho de Saramago mostra que eles tinham uma proximidade especial e se irmanam na morte, crucificados injustamente ambos aos 33 anos.

5. Jesus é moreno: no Novo Testamento não há alusão à aparência de Jesus, o que favoreceu a imagem europeizada que se fez dele, louro de olhos azuis, pouco condizente com a aparência de um palestino. “Os cabelos são pretos como os do pai e da mãe, as íris já vão perdendo aquele tom branquiço a que chamamos cor de leite não o sendo, tomam o seu próprio natural, o da herança genética direta, um castanho muito escuro.”

6. O demônio não é tão feio quanto pintam: o “pastor” do romance de Saramago é um dos “reis” que visitam Jesus ainda na manjedoura e lhe leva o pão. Sua função não é representar o mal e sim a consciência sobre os sofrimentos que viverão Jesus e seus seguidores em nome de Deus. Quando Jesus o encontra no deserto, não é para “tentá-lo” e sim para ensinar a ele sobre a vida. O demônio é uma espécie de preceptor para um jovem sem experiência, o alter ego do próprio Deus. “Também se aprende com o diabo”, diz Jesus.

7. Jesus conhece o amor de uma mulher: o filho do Homem, como muitos homens no passado, se inicia sexualmente com uma prostituta, Maria Madalena, Maria de Magdala. “Nesse instante soube o que em verdade queriam dizer aquelas palavras do rei Salomão, As curvas dos teus quadris são como jóias, o teu umbigo é uma taça arredondada, cheia de vinho perfumado, o teu ventre é um monte de trigo cercado de lírios, os teus seios são como dois filhinhos gêmeos de uma gazela, mas soube-o ainda melhor, e definitivamente, quando Maria se deitou ao lado dele, e, tomando-lhe as mãos, puxando-as para si, as fez passar, lentamente, por todo o seu corpo, os cabelos e o rosto, o pescoço, os ombros, os seios, que docemente comprimiu, o ventre, o umbigo, o púbis, onde se demorou, a enredar e a desenredar os dedos, o redondo das coxas macias, e, enquanto isto fazia, ia dizendo em voz baixa, quase num sussurro, Aprende, aprende o meu corpo.”

8. Jesus tem noção que é um sacrifício o que Deus lhe destina: ao encontrar Deus no deserto, Ele não diz que Jesus é seu filho, e sim que lhe dará glória e poder em troca de sua vida. Quem diz a Jesus que Deus é seu pai é o diabo. É só ao se aproximar a hora da crucificação que Jesus é informado do tamanho sacrifício que fará para alargar a influência no mundo de um Pai vaidoso, que desejava ser admirado por muito mais gente. “E qual foi o papel que me destinaste no teu plano”, pergunta Jesus a Deus. “O de mártir, meu filho, o de vítima, que é o que de melhor há para fazer espalhar uma crença e afervorar uma fé.”

9. Jesus tem dúvidas: ao ser informado de seu sacrifício por Deus, Jesus se comporta como qualquer ser humano naquela situação e pensa em desistir. “Rompo o contrato, desligo-me de ti, quero viver como um homem qualquer”, ele diz a Deus, mas este faz troça: “Palavras inúteis, meu filho”. O raciocínio divino é que, sendo ele um deus, não acreditariam em sua palavras; na de um homem, sim. Daí o envio do filho à Terra. “Serás a colher que eu mergulharei na humanidade para a retirar cheia dos homens que acreditarão no deus novo em que me vou tornar.”

10. Jesus se apieda dos que morrerão em seu nome: Jesus questiona Deus sobre o futuro da humanidade após sua morte, se serão mais felizes, e o Pai responde que, pelo contrário, muitos morrerão por conta desta fé, a começar por seus melhores amigos. “Será uma história interminável de ferro e de sangue, de fogo e de cinzas, um mar infinito de sofrimento e de lágrimas”, diz o Todo Poderoso, desfiando os horrores das perseguições aos cristãos e das mortes na Inquisição, a marteladas, queimados vivos, decapitados, crucificados, empalados. Tudo em nome de Deus. “Jesus compreendeu que viera trazido ao engano como se leva o cordeiro ao sacrifício, que a sua vida fora traçada para morrer assim desde o princípio dos princípios, e, subindo-lhe à lembrança o rio de sangue e de sofrimento que do seu lado irá nascer e alagar toda a terra, clamou para o céu aberto onde Deus sorria, Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez.”

 

 

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“Eu vim para trazer a divisão”, disse… Jesus

Publicado em 23 de agosto de 2016

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Uma das coisas que mais me perturbam na atual situação brasileira é a ilusão de certos setores de que o PT “inventou” a divisão entre ricos e pobres, entre negros e brancos, entre esquerda e direita, entre mulheres e homens, entre hetero e homossexuais. O chamado “Fla-Flu”. Tem gente que fica chateado porque brigou com amigos, colegas e familiares por causa de política e isso é “culpa do PT”. Será?

O primeiro ponto a se perguntar é: a divergência é mesmo algo ruim? Balela. Se o embate fosse entre brancos e brancos, ricos e ricos, direitistas e direitistas aposto como seria visto com mais normalidade: uma disputa entre iguais. O que incomoda é que a tal “divisão” é, na verdade, uma reação dos historicamente oprimidos, dos “de baixo”, às injustiças. Incomoda que as chamadas “minorias” estejam divergindo com mais força, em alto e bom som.

Os negros estão denunciando o racismo; as mulheres estão denunciando o machismo; os pobres estão denunciando o preconceito de classe; os gays estão denunciando a homofobia. Antes, todas estas cidadãs e cidadãos hoje em processo célere de empoderamento estavam mudas, resignadas com sua situação. A esquerda tampouco tinha acesso aos meios de comunicação para conscientizar a população –e hoje temos a internet.

Esta divisão é positiva para evoluirmos enquanto sociedade. Não acredite quando dizem que é ruim. Fiquei impressionada ao conhecer trechos do Novo Testamento onde Jesus Cristo fala justamente de divisão e não de união. “Vós pensais que eu vim trazer a paz sobre a Terra? Pelo contrário, eu vos digo, vim trazer divisão” (Lc, 12, 51-52). Na Bíblia utilizada pelos protestantes, é ainda mais veemente: “Não penseis que vim trazer paz à terra. Não vim trazer paz, mas a espada” (Mt, 10, 34-35). 

Em Lucas, complementa: “Daqui em diante, numa família de cinco pessoas, três ficarão divididas contra duas e duas contra três: ficarão divididos o pai contra o filho e o filho contra o pai, a mãe contra a filha e a filha contra a mãe, a sogra contra a nora e a nora contra a sogra”. Diz ainda Jesus: “Eu vim para lançar fogo sobre a Terra; e como gostaria que já estivesse aceso!” (Lc 12,49-53).

Estes trechos dos evangelhos de Lucas e Mateus são considerados controversos porque indicariam que Jesus seria a favor do uso de violência. Não necessariamente. Do que Jesus não é a favor, sem sombra de dúvidas, é do conformismo. Se ele veio à Terra, não foi para transmitir uma mensagem pacificadora, isso está claro. Ou não teria expulsado os vendilhões do templo.

Aliás, imaginem o rebuliço que seria hoje se Jesus voltasse, como os cristãos esperam, e encontrasse vendilhões falando em seu nome em emissoras de TV e igrejas espalhadas pelo mundo… Com certeza seria acusado de “incitar a divisão” entre ricos e pobres ao pregar que “é mais fácil um camelo passar por um buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”.

Cristo foi um revolucionário. E revolucionários não vêm a este mundo para lançar uma mensagem de obediência e subserviência ao sistema –ou não seriam revolucionários. O que o revolucionário quer é abalar as estruturas. Foi o que Cristo fez, ou não? E acabou morto por isso, assim como Maomé, perseguido por criar uma dissidência religiosa do judaísmo e do cristianismo, o islã. Martinho Lutero foi excomungado pela igreja Católica por dividi-la e houve luta armada em favor de suas ideias reformistas.

Fora do campo religioso, Nelson Mandela abriu os olhos do mundo ao absurdo regime que existia na África do Sul, que colocava os negros, originais moradores do país, em um gueto, dominados por supremacistas brancos de origem europeia. Pois é: para quem critica a “divisão” no sentido de conflito, que tal o apartheid? Os donos do poder pretendiam que os negros sul-africanos se subjugassem àquela situação para sempre. Mandela os fez se levantar contra ela. E que bom que tenha sido assim.

Com tantos erros cometidos sob a ótica do campo da esquerda, o PT teve o inegável mérito de dar voz a quem não tinha voz. Por isso agora eles gritam. Pare de reclamar da “divisão” que há em nosso país, preocupe-se em entender por que ela existe –e por que é bom que ela exista. Se não houvesse divisão, significaria que estamos conformados. E conformistas não movem o mundo.

 

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A médica holandesa que envia Cytotec pelo correio a grávidas com zika

Publicado em 21 de fevereiro de 2016
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(A médica Rebecca Gomperts, ativista pró-aborto)

A organização holandesa Women on Web anunciou no princípio do mês que enviará gratuitamente comprimidos de mifepristona e misoprostol (no Brasil vendido como Cytotec, medicamento para úlcera largamente utilizado como abortivo clandestinamente) a todas as mulheres contagiadas com zika que queiram abortar em países atingidos pelo vírus onde não é permitido por lei interromper a gravidez. A ONG já atua neste sentido, independentemente do mosquito. No Brasil, mais de mil mulheres escrevem para lá mensalmente pedindo que enviem os comprimidos para que possam abortar, mas, segundo a médica Rebecca Gomperts, criadora do site, os correios interceptam qualquer correspondência contendo abortivos. “Women on Web exorta o governo brasileiro e a Anvisa a suspender a interceptação de pacotes com medicamentos abortivos durante a duração da epidemia de zika”, pede a organização.

O blog pediu um parecer ao advogado Rodrigo Machado sobre possíveis sanções para quem recorre à Women on Web em busca dos comprimidos. “A prática é bastante controvertida em razão do artigo 273 do Código Penal, já que a norma criminaliza a importação de remédios sem as características exigidas para a sua comercialização. E a regulamentação vem, necessariamente, dos órgãos brasileiros. Em tempos de excessivo punitivismo, não dá para afirmar que as pessoas estão seguras quando escolhem participar dessa prática. Em relação às mulheres, o direito de decidir o que fazer com o seu próprio corpo não é verdadeiramente respeitado no Brasil. Uma das maiores incongruências do nosso Estado”, declarou Machado.

O misoprostol (princípio ativo do Cytotec) é considerado a forma mais segura de abortar, mais do que a curetagem, e é utilizado inclusive na rede pública nos casos de aborto legal ou quando o feto morre, mas continua retido no útero. Em outros países, como a França e o Reino Unido, onde o aborto é legalizado, o misoprostol é comercializado com esse fim nas farmácias. Em Cuba, o governo entrega o medicamento para a mulher e ela só retorna, após o abortamento, para avaliação médica. No Brasil, o que acaba por acontecer é que as mulheres que querem abortar procuram vendedores clandestinos e compram o remédio, muitas vezes falsificado, porque é vendido em comprimidos avulsos, fora da embalagem.

Em 2011, o Facebook bloqueou por alguns dias o perfil da médica Rebecca Gomperts por publicar o meme abaixo, onde ensina como abortar com segurança usando Cytotec, que só é vendido com receita médica. O que Rebecca envia pelo correio é uma combinação do misoprostol com mifepristona, chamada por ela de “m&m” (como o confeito de chocolate) e que, afirma, é ainda mais seguro. “Você toma a primeira pílula, que bloqueia o hormônio que permite que a gravidez prossiga. 24 horas depois, toma a segunda, o misoprostol, que produz contrações uterinas e permite expulsar o feto. Basicamente, a combinação destes comprimidos causa um aborto espontâneo”, assegura a cirurgiã.

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O jornal chileno The Clinic entrevistou a médica sobre as razões pelas quais promove o aborto medicinal pelo mundo –antes de distribuir os medicamentos, Rebecca utilizava um navio, que parava nas águas continentais e fazia abortos em países onde não era permitido. “É um direito, porque as pessoas devem ter direito a proteger sua saúde e sua vida”, diz Gomperts, que também fala sob uma perspectiva de classe. “As mulheres casadas com ministros, doutores ou gente no poder podem ter um aborto quando queiram; podem viajar para fazer um aborto em outro país ou pagar milhares de dólares a um médico que as ajude em seu país. A lei cria injustiça social, o aborto ilegal cria injustiça social e as leis e as sociedades democráticas têm a obrigação de proteger os direitos de cada pessoa, de permitir acessos iguais a viver saudavelmente e a mesma oportunidade de permanecer vivas. Ou seja, a lei está violando o princípio de uma sociedade democrática.”

Leiam a entrevista, adaptei e traduzi para vocês.

***

A cruzada da médica que envia por correio comprimidos para abortar onde a prática é ilegal
Por Mariana Arellano Goldsack, no The Clinic

Rebecca Gomperts é uma médica holandesa de 49 anos que se especializou em aborto cirúrgico, fez PhD em aborto medicinal, um master em Políticas Públicas na Universidade de Princeton e luta para que toda mulher seja livre para abortar quando decida.

Por isso, em 1999 fundou Women on Waves (Mulheres sobre Ondas), uma organização sem fins lucrativos que promove o aborto libre e que, como parte de suas campanhas, ofereceu durante 11 anos um serviço de aborto seguro “em domicílio”.  Tratava-se de um barco que, convertido numa clínica móvel, navegava por diferentes países com profissionais de saúde e voluntários, entregando comprimidos abortivos –mifepristona e misoprostol– às mulheres que o requeriam e que eram ilegais em seus países. Como isto escapava da lei, o barco se instalava a 322 quilômetros da costa, onde começam as águas internacionais, um espaço onde as leis que regem são às do país ao qual pertence o navio. Neste caso era a Holanda, onde o aborto é permitido.

As mulheres eram transladadas em bote para fazer o aborto quando não tinham mais que seis semanas e meia de gravidez. Há 15 anos, instalou seu barco no Chile. Segundo lembra a médica, este foi “um dos primeiros países onde quis fazer uma campanha de aborto”. Lá se reuniu com varias organizações pró-aborto que já existiam na época. Em 2009, uma visita ao Brasil acabou cancelada.

A partir desta iniciativa, muitas mulheres ao redor do mundo contactaram o site por email pedindo que visitassem seus países para fazer um aborto seguro. Foi aí que Gomperts se deu conta de que era um problema mundial que não poderia resolver só com um barco.

Por isso decidiu criar Women on Web, um site de consultas e apoio onde todas as mulheres que queiram abortar podem encomendar estas pílulas e recebê-las pelo correio em troca de uma doação sugerida de 70 a 90 euros. Mas, se a mulher não tem meios para custear, os comprimidos são enviados gratuitamente.

Recorrem ao site milhares de mulheres que vêem nele uma solução para sua gravidez não desejada –seja por estupro, inviabilidade fetal, risco da mãe ou simplesmente por não querer ter o filho–, um número que triplicou nos países onde o vírus zika aparece, já que significa um sério risco para as grávidas por produzir microcefalia nas crianças que estão para nascer.

Há um tempo se debate no Chile sobre o aborto terapêutico em três casos: estupro, inviabilidade do feto e risco para a mãe. O que acha dessa discussão?

Olhando a história da legalização do aborto em diferentes países, o que aprendemos é que isto não vai ajudar a nenhuma mulher, só a algumas. E não resolverá o problema dos abortos ilegais. Só quando os abortos forem permitidos em todos os casos –quando as mulheres necessitam fazê-lo–, aí sim vai afetar à saúde e os direitos da mulher. Honestamente, acho um desperdício de energia só legalizá-lo nestes casos. Além do mais,  no Brasil, por exemplo, onde é legal em caso de estupro, é muito difícil o acesso ao aborto. As mulheres têm que ir à polícia, onde são investigadas e humilhadas. Sem contar que, das mulheres que querem abortar, muito poucas o fazem por estas três razões. A única maneira de resolver realmente o problema é liberar totalmente o aborto, torná-lo disponível para todas as mulheres, e que ele seja feito dentro do atendimento básico. Isso é o que Women on Waves pretende conseguir, aconselhando aos governos que o incluam em suas políticas; as mulheres deveriam poder abortar na rede pública de saúde.

Por que você acha que o aborto é um direito?

Tenho um ponto de vista bem pragmático. Basicamente, toda gravidez é um risco para a saúde da mulher; na Holanda, 10 mil mulheres morrem dando à luz anualmente, e este número aumenta em outros países. Isto quer dizer que as mulheres são obrigadas a arriscar sua saúde para ter um bebê. Sobretudo se há risco para a mãe, o aborto medicinal é mais seguro do que continuar a gravidez. Elas têm maiores possibilidades de morrer quando dão à luz do que quando fazem um aborto medicinal. Creio que essa é a base fundamental: porque isto é um direito, porque as pessoas devem ter direito a proteger sua saúde e sua vida.

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Por que você acha que o aborto é ilegal?

Há muitas teorias sobre isso. O que vemos em geral é que o corpo da mulher e sua reprodução são sempre ferramentas políticas, então o direito a abortar é restrito. A capacidade de se reproduzir sempre foi uma ferramenta política.

Por que você luta contra as leis de cada país?

Porque creio que há muitas leis injustificadas em muitos países, como as leis que permitem torturar gente, e creio que nós, como cidadãos, quando cremos na humanidade, nos direitos e na justiça social, é algo pelo que devemos lutar.  E também sob a perspectiva de classes: as mulheres que não têm dinheiro nem acesso à informação e que são, desde o início, as pessoas mais vulneráveis da sociedade, são as mais afetadas por este tipo de leis. As mulheres casadas com ministros, doutores ou gente no poder podem ter um aborto quando queiram; podem viajar para fazer um aborto em outro país ou pagar milhares de dólares a um médico que as ajude em seu país. A lei cria injustiça social, o aborto ilegal cria injustiça social e as leis e as sociedades democráticas têm a obrigação de proteger os direitos de cada pessoa, de permitir acessos iguais a viver saudavelmente e a mesma oportunidade de permanecer vivas. Ou seja, a lei está violando o princípio de uma sociedade democrática.

Como surgiu seu interesse pelo aborto?

O que me interessa é a injustiça, e creio que no aborto ocorrem as injustiças sociais mais fundamentais. Para mim, tem a ver com o direito de autonomia e dignidade. Creio que estes valores são realmente importantes.

Você abortou alguma vez?

Eu abortei, como muitas outras mulheres. Também tive um aborto espontâneo, mas agora tenho dois filhos. Sou uma mulher muito normal, em minha vida reprodutiva experimentei tudo o que uma mulher pode experimentar, mas a razão de atuar nisso não é porque eu fiz um aborto.

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Como surgiu a idéia de criar Women on Web?

Foi em resposta a todos os emails que estávamos recebendo depois da primeira campanha em barco que fizemos. As mulheres começaram a nos escrever: ‘Quando o barco estará por aqui? Necessito fazer um aborto’. Nos demos conta de que tínhamos de resolver o problema; daí o site. Achei fascinante que, depois disso, na América Latina se começou a produzir um forte movimento de resistência, muitos grupos de mulheres locais começaram a distribuir soluções abortivas. Claro que não se pode generalizar, porque cada país é muito diferente.

Quando as mulheres solicitam os comprimidos, você simplesmente confia que estão dizendo a verdade quanto às razões, condições e possíveis doenças que possam gerar contra-indicações nesta forma de abortar?

Sim, toda relação médico-paciente pressupõe confiança, não se pode trabalhar de outra maneira. Os pacientes estão aí por interesse próprio e pedem ajuda aos médicos dizendo-lhes quais são seus problemas. Se alguém tem uma infecção e quero lhe prescrever penicilina, por exemplo, pergunto se é alérgico à penicilina e me diz que não, mas em realidade, é, está agindo contra seus próprios interesses. Não é diferente com a gravidez.

Os comprimidos são entregues às mulheres sem importar a razão pela qual quer abortar?

Perguntamos a razão do aborto, mas basicamente sim. Cremos que a única pessoa que pode decidir se necessita fazer um aborto ou não é a própria mulher, porque ninguém mais vai dar à luz e ela é a única que será afetada por isso.

Vocês lançaram uma campanha solidária para as grávidas contagiadas com o vírus zika, entregando-lhes as pílulas para abortar de forma gratuita. Por que decidiram fazer isto?

O que notamos quando se soube que o zika produzia microcefalia nas crianças foi um incremento nas solicitações de aborto vindas dos países mais afetados pelo vírus. Aí nos demos conta de que há muitas, muitas mulheres que estão realmente assustadas e que estão buscando uma forma de abortar. Muitas delas fariam abortos inseguros e perigosos, porque o aborto é muito restrito em seus países, por isso anunciamos que as ajudaríamos de forma gratuita. De todas formas, Women on Web atualmente trabalha desta maneira: é uma organização sem fins lucrativos. Pedimos uma doação, mas há mulheres que não podem pagar pelos comprimidos. Uma gravidez não desejada é uma emergência médica, não se pode negar cuidados a esta mulher.

Segundo você, o aborto medicinal é a forma mais segura de abortar?

O British Journal of Obstetrics and Gynaecology diz que o aborto medicinal é sempre a melhor opção. Mas um aborto feito em um ambiente limpo por uma enfermeira ou médico capacitado também é muito seguro. O problema é que muitas mulheres querem esconder sua gravidez e, com os comprimidos, podem abortar elas mesmas, não necessitam um médico, só acesso a eles e saber como tomá-los.

Como funcionam estes comprimidos no corpo?

Há duas formas de fazer um aborto medicinal: a primeira, que é a melhor opção, é tomar as duas pílulas – uma é a mifepristona e a outra o misoprostol, as chamamos m&m. Você toma a primeira pílula, que bloqueia o hormônio que permite que a gravidez prossiga. 24 horas depois, toma a segunda, o misoprostol, que produz contrações uterinas e permite expulsar o feto. Basicamente, a combinação destes comprimidos causa um aborto espontâneo. A segunda forma é só tomar misoprostol, provocando só as contrações para expelir o feto, mas é menos eficiente.

Existem doenças que podem impedir a mulher de tomar a mifepristona e o misoprostol?

Muito poucas. As companhias farmacêuticas dizem que os comprimidos não podem ser ingeridos em caso de alergia a algum destes compostos, mas é extremamente raro, porque as alergias acontecem por doenças muito raras, como a porfíria.

Quais são os riscos deste método?

Os mesmos de um aborto espontâneo: 20% das gestações terminam em um aborto espontâneo. O risco ocorre quando você não tem suficientes contrações uterinas ou quando sangra demais. Aí é preciso ir a um hospital.

 

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