Jimi Hendrix por Moebius

Publicado em 18 de setembro de 2015

jimimoebius

Em março de 1967, o jornalista francês Jean-Nöel Coghe acompanhou Jimi Hendrix (1942-1970) em uma turnê na França e na Bélgica e tirou muitas fotos do guitarrista na intimidade, enquanto jantavam juntos ou no camarim. Oito anos depois, a gravadora Barclay convida o jovem desenhista Moebius (1938-2012) para desenhar a capa da versão francesa de Are You Experienced?, o álbum de estreia de Hendrix. Moebius recria, então, uma foto feita por Coghe naquela viagem em seu estilo surrealista, com a cabeça de Hendrix em chamas. O jornalista fica furioso por sua fotografia não ter sido citada nos créditos, mas deixa passar.

Em 1994, quando se realiza na França uma exposição em homenagem a Hendrix, Moebius já é um artista famoso: desenhara o cowboy Blueberry usando o codinome Gir (seu nome verdadeiro é Jean Giraud), publicara sua série A Garagem Hermética, havia colaborado com Alejandro Jodorowsky na série Incal, e também com a Disney. Descobre a autoria da foto em que se inspirou para o desenho, mas continua a ignorar Coghe. Desta vez, o jornalista não deixa barato e recorre à Justiça. Acusa Moebius de “plágio” e pede 1,5 milhão de francos de indenização. Moebius ganha na primeira instância: o tribunal evoca a “exceção da paródia”. Os advogados de Coghe apelam.

fotojimi

(A foto original de Jean-Nöel Coghe)

No ano seguinte, o desenho é utilizado novamente na capa de Voodoo Soup, a compilação póstuma de músicas de Jimi Hendrix que seria lançada no mundo inteiro, mais uma vez sem nenhum crédito à foto original. Moebius não autoriza, mas seus direitos estão cedidos à gravadora. Coghe não se importa com a utilização.

Incrivelmente, a história tem final feliz: em 1996, Moebius e o jornalista são apresentados um ao outro. “Este assunto me fez sofrer. Estou realmente contente que eu e você possamos conversar, cara a cara”, diz Moebius. Eles simpatizam um com o outro, entram em acordo e resolvem fazer um livro em parceria para acabar com o imbróglio. Moebius sai da casa de Coghe com uma pasta de fotos inéditas feitas pelo jornalista naquele tour, e as recria, desta vez com autorização, claro.

O resultado é um livro belíssimo, Émotions Életriques, que conta toda essa história, relata a amizade de Coghe (algumas vezes sob o pseudônimo de Noeghan Jelcoe) com Hendrix e ainda traz as maravilhosas ilustrações de Moebius. Publicado em uma edição de luxo, com 1500 exemplares apenas, o trabalho também se transformou em uma exposição. Os direitos autorais foram repartidos entre o desenhista e o repórter.

Para lembrar os 45 anos da morte de Jimi Hendrix, reproduzo abaixo alguns dos desenhos do livro.

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De quebra, uma das minhas favoritas de Jimi Hendrix, para mim, além de tudo, uma das pessoas mais estilosas de todos os tempos: Foxy Lady.

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Freak show: as novas aberrações

Publicado em 3 de maio de 2013

(Tod Browning e os atores de Freaks)

Em 1932, o cineasta Tod Browning (1880-1962) causou escândalo em Hollywood ao lançar o filme Freaks, hoje um clássico. Para criticar um costume horrível da época, de exibir pessoas com deformidades em shows e circos, Browning escolheu um elenco de atores com vários problemas na vida real. Alguns tinham microcefalia, outro não tinha metade do corpo, um terceiro era um tronco, sem pés nem braços. O protagonista é anão. Eles se rebelam e acabam realizando uma vingança contra os seres humanos “normais” que os escravizavam. Hollywood não entendeu, a Inglaterra baniu o filme durante 30 anos e a brilhante carreira de Browning como diretor de filmes de terror como Drácula (1931) já era.

Felizmente os tempos de “feira de horrores” ficaram no passado. O que era considerado “aberração” já não é. Se houvesse um show de horrores hoje em dia não seria para rir de alguém com uma deficiência física ou mental, embora alguns pseudohumoristas brasileiros talvez desejassem, até porque atualmente as aberrações são outras. Nada a ver com anomalias congênitas, mas com deformidades de pensamento. Prodígios da natureza que a gente nunca podia imaginar que pudessem existir andam por aí assombrando o mundo.

Senhoras e senhores, alguns destes freaks do mundo moderno:

– O jovem direitista: é um espanto. Em vez do rapaz e moça que faziam de tudo para contrariar o conservadorismo dos pais, são jovens que concordam em tudo com o que eles pregam. “Sim, mamãe”, repete o jovem direitista bem nascido. A não ser que os pais sejam moderninhos demais, aí eles preferem se mirar nos avós fãs da ditadura. Em sua visão, os governos militares foram uma época de prosperidade à qual o Brasil deve muito, e o desrespeito às liberdades individuais e aos direitos humanos, apenas um detalhe. Já os guerrilheiros que foram presos, torturados e que deram a vida para lutar contra a ditadura são terroristas sanguinários. Os bizarros jovens de direita são radicalmente contra a maconha, “coisa de vagabundo”. Na faculdade, basta sentir o cheiro de um baseado que eles deduram para a polícia que circula pelo campus –sim, eles se mobilizaram para conseguir que o campus, antes um espaço de livre expressão, passasse a ser policiado. Os jovens direitistas estudam, é claro, Direito. E adoram ir à missa.

– A mulher machista: é assombrosa. Trata-se de uma mulher, geralmente jovem, que cospe em todas as realizações da liberação feminina. Acha, aliás, que não deve nada ao feminismo, pelo contrário. Defende que o feminismo é a razão de toda a “infelicidade” e “frustração” das mulheres de hoje. Por causa do feminismo, brada, se uma mulher optar por ser dona-de-casa será execrada! É muito triste, diz a mulher machista, não poder abdicar da profissão para cuidar da casa e dos filhos, pois se sentiriam constrangidas pelos olhares de reprovação das feministas, estas desalmadas, péssimas mães que não sabem nem fritar um ovo. Elas odeiam que uma mulher esteja na presidência, acham um desserviço, já que todo mundo sabe que os homens são superiores nestas tarefas. Lugar de mulher é sendo primeira-dama. Muito mais elegante, inclusive, tipo Jackie Kennedy. Mesmo porque todo mundo sabe que as feministas são todas horrorosas e nem se depilam, não é mesmo? Qualquer hora as mulheres machistas sairão em marcha pela aprovação da lei José da Penha, para reivindicar o direito de apanhar do marido.

– O palhaço sem graça: é de chorar. Eles sobem no picadeiro para supostamente serem engraçados, mas não conseguem causar nenhuma risada nem fazendo cosquinhas. A reação da platéia ao que eles falam beira a depressão. Quando o palhaço sem graça faz uma piada, tem gente que sente até vontade de vomitar. O formato favorito deles é o stand-up comedy, uma fórmula norte-americana de fazer humor do qual copiaram o nome, não a criatividade. Mas há também palhaços de circo engomadinhos que se apresentam na tevê com o único objetivo de vender produtos para as crianças, com suas musiquinhas chatas e repetitivas. Ah, gente, fazer rir é tão século 20…

– O roqueiro a favor do status quo: é de arrepiar os cabelos. Acabou-se o tempo do roqueiro que criticava a burguesia e o sistema. Hoje a onda é falar bem de quem tem grana, um “vencedor”, e elogiar a direita “progressista” –esta, sim, sabia o que era bom para o povo, este imbecil. O maior alvo do roqueiro reaça não é a estrutura social injusta ( “injusta por quê? para quem?”) ou as desigualdades, mas os esquerdistas, estes provocadores de ditaduras militares. Se fossem gravar músicas hoje em vez de escrever manifestos de direita, como preferem, os roqueiros escreveriam letras como “você é pobre porque não trabalhou, uou, uou”, “os milicos são gente mal-compreendida, di-da, di-da”, “saudades da ditadura, yeah, yeah, yeah”, “a favor do status quo quo quoooooo”. Não se espantem se qualquer dia começarem a gravar duetos com ídolos sertanejos em suas fazendas. O lado bom de terem surgido roqueiros assumidamente de direita é que não há mais lugar para os hipócritas que ganhavam dinheiro como rebeldes sem causa, com canções que nada tinham a ver com sua origem burguesa, às custas da rebeldia genuína alheia.

Venham, venham ver as aberrações! O espetáculo não tem hora para acabar.

 

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Janis Joplin, 70 anos: Mercedes Benz

Publicado em 20 de janeiro de 2013

Janis Joplin faria 70 anos ontem, 19 de janeiro. Uma das minhas favoritas é esta. Acho que tem tudo a ver com o blog.

Mercedes Benz

I’d like to do a song of a great social and poetical import
It goes like this

Oh Lord, won’t you buy me a Mercedes-Benz?
My friends all drive Porsches, I must make amends
Worked hard all my lifetime, no help from my friends
So Lord, won’t you buy me a Mercedes-Benz?

Oh Lord, won’t you buy me a color TV?
‘Dialing for Dollars’ is trying to find me
I wait for delivery each day until three
So Lord, won’t you buy me a color TV?

Oh Lord, won’t you buy me a night on the town?
I’m counting on you, Lord, please don’t let me down
Prove that you love me and buy the next round
Oh Lord, won’t you buy me a night on the town?

Everybody
Oh Lord, won’t you buy me a Mercedes-Benz?
My friends all drive Porsches, I must make amends
Worked hard all my lifetime, no help from my friends
So Lord, won’t you buy me a Mercedes-Benz?

That’s it!

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