Pedro Juan Gutiérrez: contra a depilação e o sexo “limpinho”

Publicado em 15 de agosto de 2013

(O saleroso Pedro Juan em foto do alemão radicado em Cuba Sven Creutzmann)

Evoco um dos meus autores contemporâneos favoritos, o cubano Pedro Juan Gutiérrez, para jogar a pá de cal na “polêmica” em torno da depilação da atriz Nanda Costa nas páginas da Playboy. Vivemos tempos coxinhas, em que a beleza desnuda de uma moça vira coadjuvante diante da moda, exportada pelo Brasil, de arrancar a cera os pelos genitais –quase todos, atualmente. Graças à ditadura da perereca pelada, homens (e mulheres) deixaram de apreciar a suavidade e o mistério dos pelinhos pubianos… O selvagem monte de pelos negros encaracolados da atriz acabaria rejeitado, com certo nojinho, por supostos amantes do sexo feminino.

O querido Xico Sá já defendeu brilhantemente o bosque de Nanda em uma crônica no seu blog. De minha parte, declarei o que pensava sobre o tema no twitter: “Quem gosta mesmo de manga não implica com fiapo”. E prometi publicar aqui essa entrevista curta que fiz com Pedro Juan em agosto de 2005, quando ele veio ao Brasil lançar seu livro O Ninho da Serpente (Companhia das Letras). O cubano, que se gaba de ter transado com mais de 200 mulheres, explica por que depilar e se perfumar em excesso não combinam com o bom sexo. “Às vezes esquecemos que somos animaizinhos”, diz. E não é?

***

Abaixo a depilação*

Desde Trilogia Suja de Havana, seu primeiro livro, Pedro Juan Gutiérrez vem guiando leitores pelo lado P&B da ilha de Fidel Castro: em vez de praias paradisíacas, miséria, violência, prostituição e sexo, muito sexo. O Ninho da Serpente, lançado agora no Brasil, traz o rito de passagem do adolescente Pedro Juan, um relato autobiográfico que inclui a perda da virgindade do anti-herói com uma puta velha e repleta de varizes… De tão crus e cínicos, os relatos causam gargalhadas. O autor de 55 anos, que esteve em São Paulo para divulgar o livro, se mostra revoltado (na ficção e na realidade) com o “excesso de civilização” que obriga a mulher a se depilar e perfumar demais.

A fêmea mais limpinha do seu livro é uma bezerra. Gosta de mulheres sujas?
É que em Cuba se sua tanto! E o suor, o cheiro do corpo humano, me excitam muitíssimo… Digo a minha mulher: não use desodorante! Quando ela limpa a casa e está mais suada, fico louco. Ela se deixa levar e curte muito… Às vezes esquecemos que somos animaizinhos. O cheiro nos excita, não é só a visão.

Acha as mulheres de hoje excessivamente depiladas e perfumadas?
Sim. Gosto das axilas e do sexo sem depilar… E muito perfume paralisa a minha parte animal. Creio que a maioria dos humanos funciona igual, mas lhes dá vergonha dizê-lo. Estamos tão protegidos dentro da nossa faceta civilizada que nos envergonhamos de gostar do sexo sujo, com alguém que cheira normal. Há um excesso de civilização cosmético, de sabão.

Há quatro anos você me disse que já tinha estado com 200 mulheres (leia aqui). A conta aumentou?
Chegou a 230, não muito mais… Já tenho 55 anos, filha. Até quando poderia continuar nesse ritmo? Vou ser sincero: estou com uma mulata com a qual me sinto muito bem sexualmente, emocionalmente. E, quando você se sente bem, não necessita ser infiel.

Isso é algo novo em sua vida, não?
Não, sempre tive etapas de fidelidade, não fui um infiel permanente… Mas agora estou mais tranqüilo.

Já começou a falhar, a usar Viagra?
Tenho um medo do Viagra! Vou te confessar: ainda posso fazer sexo uma vez ao dia, normalmente. Há dias que estou mais estimulado e faço duas, três vezes… Se fico dois, três dias sem transar, já fico de mau humor. Parece que tenho um excesso de testosterona.

*Texto originalmente publicado na revista VIP de setembro de 2005

Publicado em

Em Vintage

10 Comente

Comunistas transam melhor?

Publicado em 4 de agosto de 2013

 

O documentário Liebte der Osten Anders? (“Comunistas transam melhor?”, na tradução do título em inglês), dirigido em 2006 por Andre Meier, parte da premissa, comprovada estatisticamente, de que no lado comunista do muro de Berlim as pessoas faziam mais e melhor sexo que do lado capitalista, e tenta explicar por quê. É surpreendente descobrir que, apesar da censura e da proibição da pornografia, os alemães orientais (e sobretudo as alemãs) tinham mais liberdade sexual do que os ocidentais. Mais orgasmos, inclusive.

A principal razão, defende Meier, é que, até a descoberta da pílula, as comunistas eram mais independentes do que as comportadas alemãs do lado capitalista. Durante a Segunda Guerra, com os homens no front, as mulheres alemãs foram obrigadas a ir à luta para sustentar a família e aprender tarefas consideradas “masculinas”, como construir casas. Depois que eles voltaram, porém, enquanto na República Federal da Alemanha (capitalista) as mulheres retornaram às prendas domésticas, na República Democrática da Alemanha (comunista) elas continuaram trabalhando fora. No final dos anos 1960, uma em cada três mulheres trabalhava fora na Alemanha Ocidental; do lado Oriental eram 70%. Historiadores e sexólogos defendem no documentário que este papel protagonista da mulher influía positivamente em sua vida sexual.

“Em nenhuma área a emancipação feminina avançou tanto quanto na sexualidade. As mulheres davam as regras na cama. Isso era muito típico da Alemanha Oriental”, diz um especialista ouvido no filme. “Mais tarde as alemãs orientais foram reduzidas a caricaturas, mas eram elas que usavam as calças”, afirma outro. Ele fala isso e eu penso imediatamente em Angela Merkel, a toda poderosa chanceler que cresceu do lado comunista. Merkel foi beneficiada por uma emancipação que começara já no pós-guerra. Ou seja, quando as ocidentais passaram a lutar para conquistar espaço no mercado de trabalho, a maioria das orientais já possuía uma carreira.

Outros fatores para a liberação, por incrível que pareça, partiram do Estado comunista. Se do lado capitalista não houve educação sexual nas escolas até meados dos anos 1960, em 1962 os alemães orientais já assistiam programas sobre o assunto na televisão, voltados para crianças. Na Alemanha Oriental o casamento perdeu muito cedo a função de legitimar a sexualidade. Homens e mulheres também dividiam as tarefas do lar, bem antes de que isto se tornasse uma questão no Ocidente. O aborto foi legalizado na Alemanha comunista em 1972! Os alemães orientais sofriam a repressão do Estado, mas não a da igreja como os ocidentais, com efeito enorme sobre a sexualidade. Livres da religião, os/as comunistas se dedicavam sem culpa aos prazeres da carne. A alcova não era alvo da Stasi, a temida polícia secreta.

De acordo com o documentário, nos anos 1970 e 1980 os heterossexuais gozavam de liberdade sexual quase plena na Alemanha Oriental. O mais importante sexólogo do lado comunista, Siegfried Schnabl, deu a deixa em uma entrevista: “Lenin disse que sob o comunismo não deveríamos aspirar ao ascetismo e sim aos prazeres da vida. Isso inclui uma vida amorosa satisfatória”.

Outro aspecto interessante é que, do lado comunista, a prática do nudismo era amplamente aceita e começava no seio familiar (leia aqui uma reportagem sobre o tema publicada pelo jornal britânico The Telegraph). Isso explicaria a foto que circulou na rede da senhora Merkel nua numa praia da Alemanha Oriental durante a juventude –há dúvidas se é ou não a chanceler, mas que parece, parece.

Angela Merkel nua em pelo (e com um corpitcho de arrasar) numa praia comunista. Será?

Tudo muda com a queda do muro, em 1989, e a chegada da pornografia e da prostituição. Mas será que, pelo menos sexualmente, os comunistas eram mais felizes e não sabiam? Clique aqui para assistir, é imperdível. Infelizmente não está disponível na rede com legendas em português, só em inglês.

Entendo que o diretor quis focar no mundo hetero e no feminismo, mas faço um reparo à ausência no filme do tema da homossexualidade, bastante reprimida pelos regimes comunistas de maneira geral –que o digam os cubanos. Outro documentário, Unter Männern — Schwul in der DDR (Entre homens – gay na RDA), de Ringo Rösener e Markus Stein, aborda o tema e conta que houve repressão à homossexualidade também na Alemanha Oriental. Mas não foi, parece, tão grave como o que ocorreu na URSS ou em Cuba. Pelo contrário, houve certa liberdade para os gays nos primeiros anos da Alemanha comunista, que descriminalizou a homossexualidade um ano antes que a Alemanha Ocidental. O próprio sexólogo Schnabl publicou textos onde defendia a existência dos homossexuais como “normal”.

Sem contar que aqueles beijaços na boca que o presidente alemão oriental Erich Honecker gostava de sapecar nos colegas comunistas eram meio homoafetivos, né não? Dizem que a comunistada saía correndo quando o Honecker aparecia. Bem, nem todos.

Foto clássica do líder soviético Leonid Brejnev recebendo um beijaço de Honecker, aquele safadeenho

Veja um trailer do filme (em alemão):

Publicado em

Em Blog

147 Comente