Luana, a Rainha da Lapa: “A Copa e as Olimpíadas foram excelentes para fazer dinheiro”

Publicado em 9 de outubro de 2016
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(Fotos: Alejandro Olivares/The Clinic)

Imperdível esta entrevista livre de puritanismo com a travesti carioca Luana Muniz, a Rainha da Lapa, feita pelo jornal chileno The Clinic. Ouvir as travestis é sempre rico, uma quebra de paradigmas. E elas são tão pouco ouvidas por nossa mídia… Eu traduzi para vocês, leiam.

***

Por Desirée Yépez, no The Clinic

Luana Muniz nasceu varão há 58 anos. Quando pequeno, abriu um livro e se encontrou com “Luana”, a personagem de uma guerreira africana. Assim queria ser: mulher, linda, rica e amada. Era 1969 e a ditadura militar estava instalada no Brasil. A repressão e a proibição atentavam contra toda forma de diversidade, mas ninguém pôde inocular medo nessa menina que nascia em um corpo não correspondente.

Há 47 anos que ela está nas ruas se prostituindo. Foram tempos difíceis, viu milhares de travestis morrerem agredidas nos postes –entre urina e merda– e também outras a quem a Aids não deu trégua. Apesar disso, não tem sido ruim para ela. Em cima do salto, percorreu mais de 39 países e participou de programas de televisão, filmes e obras de teatro. Fama que há vários anos a levou a se autoproclamar como a chefona de um dos bairros mais boêmios do Rio: se intitulou a Rainha da Lapa.

Segundo estatística do Transgender Europe’s Trans Murder Monitoring (TMM) Project, 50% dos crimes contra a população trans no mundo são cometidos no Brasil. Mas Luana passeia tranquila pelas ruas. Desde 2002 que, além de exercer o comércio sexual, preside a Associação dos Profissionais do Sexo do Gênero Travesti, Transexuais e Transformistas do Rio de Janeiro, organização que funciona em um casarão em pleno bairro da Lapa. Até ali chegam dezenas de garotas que buscam um teto ou algum tipo de ajuda. Ela lhes cobra algum valor pela diária e podem receber seus clientes. O álcool, a droga e os roubos são proibidos.

– Com que idade você começou a se prostituir?

Comecei muito jovem, nos tempos da ditadura no Brasil, aos 9 anos. Com essa idade saí de casa. Antigamente os lugares onde ficavam as prostitutas e as travestis eram os postes, cheios de urina, merda e pedras, eu enfrentei isso. Logo veio a época do HIV, que não tinha esse nome, era o ‘câncer gay’. Aos 20 anos fui viver em Paris e começou minha carreira internacional. O que ganhei investi. Assim se passaram 48 anos de prostituição e 37 de carreira artística. Tenho tripla cidadania, brasileira, italiana e portuguesa.

– Por que você saiu de casa aos nove anos?

Porque ninguém manda em mim. Eu era uma força da natureza que ninguém controlava. Nunca quis obedecer a ninguém. Vesti uma minissaia e saí para viver a vida. A maioria das travestis não quer seguir regras… Quando era pequena queria ser rica, famosa, linda, casada, mulher. Agora não quero ser mulher, quero ser travesti. Sou tratada como uma dama, mas se me ofendem, me transformo num macho, num diabo.

– Quem te levou para a prostituição?

A rua, os homens, conheci as travestis dessa época, quando tudo era precário. Os hormônios eram proibidos e a maquiagem para homem também. Eram tempos muito difíceis, mas se ganhava muito dinheiro.

– No começo, você trabalhava onde?

Tiradentes, Lapa, Copacabana, Ipanema. Ao voltar da Europa compreendi que era preciso trabalhar pelos direitos das travestis. Reuni algumas que também trabalharam na Europa e em 2002 criei a associação, porque o tempo da navalha e da faca já passou. Agora devemos lutar, falar de nossos problemas, cumprir com nossos deveres para exigir nossos direitos, ainda que sempre apareça alguma que envergonha a categoria.

– Como é ser travesti no Rio de Janeiro?

Sou uma representante da comunidade LGBTI e as pessoas me respeitam pela minha história como profissional do sexo, artista e empresária. Há outras pessoas que também trabalham por nossos direitos. O índice de criminalidade no Brasil, principalmente no Norte e Nordeste, é muito alto. Os preconceitos e a intolerância ainda são fortes. Neste país a vida em geral está banalizada. Todos os dias se mata um policial, uma mulher, uma travesti. Segundo as estatísticas a cada 30 minutos morre uma mulher no Brasil. Uma travesti é assassinada a cada 24 horas, e com os homossexuais é a mesma coisa. O Brasil se diz um país democrático, sem preconceito, mas é uma grande mentira. Agora, no Rio a situação é muito melhor que antes. A Lapa é um ponto turístico, muitas pessoas vêm para cá, há muitos restaurantes e bares. Mas também atrai a marginalidade. Muitas travestis, sobretudo de outros lugares do país, vêm a esta região e, infelizmente, cometem delitos como roubos. 20% das travestis do mundo se perdem nas drogas e morrem prematuramente.

– Falando de trabalho, segundo as estatísticas, 90% das travestis estão nas ruas.

Estes são os dados. A prefeitura diz que a maioria não quer estar na rua, mas isso é mentira. O sonho de uma travesti é ser O Nascimento de Vênus, ser linda, bela e ganhar dinheiro facilmente. Mas na realidade não é assim, tem que ter capacidade para suportar quem chega, ser simpática. Agora o mercado de trabalho está se abrindo em todo o mundo. Barack Obama pensou numa transexual para ser senadora. Há advogadas, médicas. Existem programas de organizações que dão oportunidades e projetos para estudar. Minha exigência é que exista acesso ao estudo. Não faço apologia da prostituição, nem apoio a prostituição infantil. Incentivo quem queira um trabalho convencional a se preparar, mas o problema é que não querem.

– Que oportunidades de trabalho reais tem uma travesti?

Há aquelas que se dedicam à área de estética e trabalham em salões de beleza, e incentivo que façam isso. Também há cursos de corte e costura. Abri uma loja de roupas, no térreo do edifício onde funciona a associação, e uma travesti trabalha ali. É uma minoria que oferece essas oportunidades. Não se abre o jornal e se veem ofertas de trabalho para as travestis e se passará muito tempo antes de que isso aconteça.

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– O Brasil é o segundo destino de turismo sexual depois da Tailândia. Como funciona o mercado de trabalho vinculado ao sexo?

Cada uma das meninas toma conta de seu trabalho. Cada uma que se preocupe com sua bunda, eu só não quero problemas. Eu as incentivo para que estudem uma carreira paralela, porque em algum momento isto vai acabar. A juventude é importante em qualquer área profissional. Eu vivo da prostituição. As propriedades que tenho comprei com dinheiro da prostituição. Fiz espetáculos em Paris, Ibiza, Ilhas Canárias, mas o que me deixou mais dinheiro foi a prostituição. Sempre tive estrela para ganhar sem negociar. Cuido da minha aparência. Durante o dia estou cansada porque tenho que resolver todos os meus assuntos, mas de noite me transformo em uma deusa. Apesar de a crise também ter afetado a prostituição, ninguém deixa de comer nem de trepar. Quando deixar de ser puta vou ser cozinheira.

– Qual é o perfil dos seus clientes?

Pode ser qualquer pessoa: desde quem vive na rua até de maior nível socioeconômico. Não existe um termômetro do sexo.

– Como é a relação com a polícia?

No Rio nos respeitam muito. Até me chamam na delegacia para resolver problemas de travestis.

– Quais são os problemas mais comuns?

Discussão com a polícia ao fazer abordagem dos clientes. O trabalho na rua é conquistar os homens, não me interessa o que acontece. Mas há outras que se metem em problemas, porque o que falta no Brasil é educação.

– Os policiais procuram seus serviços?

Também. No momento de fazer o programa não me interessa nada a vida do outro, vamos fazer o que queremos fazer: como, me comem, chupo, me chupam. Dou o serviço e quero a grana. Todo mundo conhece Luana Muniz e se criaram mitos ao redor de mim. Quem me conhece profundamente sabe que tenho um bom coração, mas se me tratam mal, trato mal.

Quanto custa o programa?

Depende da negociação. Por exemplo, podem ser 50 reais por meia hora. Mas se pode fazer um programa de 20 reais e sair dali com 2 mil. Isso depende da negociação, do poder de sedução. Sophia Loren dizia que a maior arma do sexo, de ser mulher, feminina, é o mistério. Sou uma enciclopédia viva.

– O negócio melhorou com a Copa do Mundo e as Olimpíadas?

Foi excelente para fazer dinheiro, só não ganhou quem não quis. Houve muitos clientes. Três vezes mais.

– Até quantos clientes você atende numa noite?

Depende. Na minha época de ouro, atendi até 50 homens numa noite.

– O que é mais complicado de ser uma travesti profissional do sexo?

Para mim é uma felicidade plena, um sucesso, uma soma de felicidades e satisfações.

– Você se apaixonou alguma vez?

Me casei oito vezes, mas deixei os oito porque sou como Marilyn Monroe, valorizo mais os diamantes do que os homens. Diamonds are forever. Eu gosto mais do dinheiro do que do pau, o pau é um complemento.

– Mas teve um grande amor?

Sim, tive. Mas fiz como a maioria das mulheres, pus todos os meus sentimentos na sua mão e ele fez o que quis. Depois disso aprendi e nunca mais. Isso foi nos anos 1970, depois me casei com um francês, um italiano… Só dinheiro. E além disso tenho a maior riqueza do mundo, educação, gentileza e amigos.

– Você está com alguém agora?

Com todos e com ninguém. Quem paga mais me leva.

– Há disputas entre as travestis?

No centro, não. Eu apelo à união e ao respeito. A razão principal pela qual as travestis brigam é pela beleza. Ninguém é melhor do que ninguém, todos merecem respeito.

– Você é querida pelas pessoas?

Sou considerada e respeitada pelas pessoas. Creio que 70% gostam de mim, 20% fingem que gostam e 10% não gostam. Sou considerada a Rainha da Lapa.

– De onde veio este título?

Me foi concedido.

– E o que representa?

Respeito, união, dignidade. Para esta Luana existir foram muitos anos de construção.

– Quantas cirurgias plásticas você fez?

Várias. Só não fui operada da cintura, das panturrilhas, dos pés, das mãos e do pau. Meu pau está aqui, eu o amo, e, se pudesse, o aumentaria.

 

 

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O empoderamento de Patrícia, a acusadora de Feliciano: “Só tem homem burro no PSC”

Publicado em 22 de setembro de 2016

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Quando encontro Patrícia Lélis, a garota de 22 anos que acusa o pastor Marco Feliciano de estupro, em um café de Brasília, ela acaba de vir de uma reunião no CFEMEA (Centro Feminista de Estudos e Assessoria), uma das entidades que a auxiliam na denúncia contra o deputado federal do PSC. Patricia chega acompanhada pela mãe, Maria Aparecida, que, desde julho, quando a história veio à tona, acompanha a caçula por toda parte, que nem mãe de miss. Patricia é pequena e muito bonita, apesar da maquiagem excessiva que usa no rosto, com muita base escondendo as pintinhas e as sobrancelhas marcadas com kajal.

Patrícia vem com um sorriso estampado no rosto e brilho no olhar. Está encantada com a recepção que teve no CFEMEA. Nem parece a mesma garota que, em abril, atraiu a atenção do partido de Feliciano com vídeos cujo principal alvo eram as feministas. “Não conheço uma feminista bonita”, disparava, em um vídeo de abril deste ano, fazendo chacota da campanha que pipocou nas redes sociais contra os adjetivos “bela, recatada e do lar” utilizados por uma revista semanal para definir a sra. Michel Temer, Marcela.

Ou a mesma menina arrogante que, em maio, publicou um texto no facebook chamando uma professora, com quem havia se desentendido em um debate em Gurupi (TO), de “feminazi” e “feinha” e zombando dos cabelos cacheados da moça. Após ter denunciado o abuso, virado alvo da direita e encontrado apoio justamente em quem atacava, Patrícia não esconde o entusiasmo com as novas aliadas e a, bem… sororidade demonstrada por elas.

– Elas são lindas. Eu não conhecia o feminismo, acreditava que feminismo era o oposto de machismo. Engano meu! Conheci mulheres fortes, inteligentes, independentes, trabalhadoras, amáveis e que realmente têm o intuito de ajudar. Achei todas muito inteligentes, com conceitos muito concretos e embasados. As feministas só querem seus direitos. Todas nós, mulheres, queremos respeito, queremos poder denunciar um estupro e não ser chamadas de ‘loucas’, com laudos falsos.

A mãe intervém na conversa:

– Elas são preocupadas com a mulher. Se a mulher sofreu um abuso, não importa se é de esquerda, de direita, se a mulher está ali fazendo programa, não importa: ela não é obrigada a ter relações.

Não se pode dizer que a experiência de Patricia com a direita representada pelo PSC e os Bolsonaros e Felicianos da vida tenha sido longa. Seu primeiro vídeo foi postado no facebook no início do ano e bombou. Em abril, conta, foi procurada pela Juventude do PSC.

– Fui procurada pela Sara Winter, que me mandou mensagem pelo face. A Sara veio a Brasília e me levou até a sede do partido. Quando cheguei lá, me trataram superbem e me pediram para eu me filiar. Acharam que meu discurso tinha muito a ver com o PSC. Depois que me filiei, gerou mais audiência ainda, tanto para o partido quanto para mim. Tenho vídeos que tiveram quase 1 milhão de acessos. Foi quando eles me colocaram como líder da Juventude e me disseram que eu seria candidata a deputada em 2018.

Sara Winter é aquela garota que se tornou famosa mostrando os seios em protestos como representante brasileira do grupo radical ucraniano Femen, do qual foi desligada sob acusações de desonestidade; desde então, se tornou uma ferrenha ex-feminista e antiabortista. Atualmente, também se dedica a detonar a ex-amiga em suas redes sociais com um argumento que se tornou a principal linha de ataques à estudante de jornalismo após a denúncia de tentativa de estupro: dizer que Patricia tem “distúrbios psicológicos”. Só a chamam nas redes sociais de “Patricia Lelé”, além de espalharem o boato de que a jovem seria garota de programa, o que fez com que homens passassem a enviar emails para ela perguntando quanto cobra por hora.

Em um hangout no início do mês, transmitido ao vivo no facebook, Sara Winter, Kelly Bolsonaro (fã do clã reaça que adotou o sobrenome, mas sem parentesco) e a psicóloga da “cura gay”, Marisa Lobo, candidata a vereadora pelo Solidariedade em Curitiba, “analisam” Patricia de todas as formas. Marisa, sem qualquer exame prévio, “diagnostica” a jovem como “mentirosa compulsiva”, “doente, que precisa de ajuda” e que “pode parar num hospital psiquiátrico”.

A “avaliação” de que Patrícia é “louca”, “desequilibrada”, comum entre machistas (fizeram o mesmo com a presidenta Dilma Rousseff). é “embasada” em um laudo encomendado pela polícia civil de São Paulo afirmando que a jornalista seria “mitomaníaca”. A conclusão se choca com outro parecer, elaborado por psicólogas do IML (Instituto Médico-Legal) de Brasília, que não encontrou evidências de qualquer alteração “psicopatológica” na jovem.

Os advogados de Patrícia Lélis pediram o afastamento do caso do delegado Luiz Roberto Hellmeister, de São Paulo, que a rigor nem deveria ter entrado, já que Marco Feliciano, como parlamentar, possui foro privilegiado e a investigação deveria ter sido feita desde o princípio pela Procuradoria-Geral da República, como acontece agora. No início do mês, Hellmeister pediu a prisão preventiva de Patrícia por “extorsão e denunciação caluniosa”. Os defensores de Patrícia também solicitaram a anulação do inquérito.

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Patrícia acusa o titular do 3º DP, na Santa Ifigênia, de ter preparado o depoimento dela antes de chegar à delegacia e de estar ligado ao grupo de Feliciano, já que aparece em uma foto no facebook posando com Kelly e Emerson Biazon, autor da filmagem em que Patricia supostamente tenta “extorquir” a turma de Feliciano (ela diz que o vídeo foi editado e que o valor citado teria sido oferecido a outro envolvido no imbróglio, Arthur Mangabeira, para filmá-la negando tudo). Aliás, Talma Bauer, o chefe de gabinete do deputado que aparece no vídeo, também é policial civil em São Paulo. Em agosto, Bauer chegou a ser preso sob a acusação de manter a jornalista em cárcere privado.

– Quando eu cheguei à delegacia, minha oitiva já estava pronta. O delegado ficava falando para mim: “você é criminosa, você é pior do que a Suzane von Richthoffen! Você tem duas alternativas para sair daqui bem: a primeira é assinar um atestado dizendo que tudo isso é uma mentira, tudo invenção da sua cabeça, e daqui eu te encaminho direto para um manicômio; e a outra, se você quiser brincar com a minha cara, é você assinar e vou te indiciar e você vai ser presa.’ Falei para ele: ‘não sou louca, não estou mentindo. Quero assinar o que vou ser indiciada’. E aí começou um bafafá, uma gritaria… Quando saímos, ele falou: “Vou te prender, sua bandida.” Eu não sou bandida, não peguei nem um real de ninguém. No histórico deste delegado na internet tem vários casos absurdos, pode olhar.

De fato, Hellmeister é o mesmo delegado que, em 2015, apareceu na mídia como o titular do 2º DP, no Bom Retiro, em São Paulo, onde a travesti Veronica Bolina foi barbaramente espancada e ficou com o rosto desfigurado. Hellmeister também foi acusado por uma jornalista da rede Record de agressão.

Após Patricia ter denunciado Feliciano, o PSC passou a negar que ela tivesse se filiado, mas não é difícil achar fotos da estudante em eventos públicos do partido, inclusive com Sara Winter, segurando uma ficha de filiação. Além disso, no próprio site do PSC Patrícia é citada como uma das líderes da juventude do partido.

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É importante dizer que Patricia se aproximou do PSC contra todos os conselhos da mãe, Maria Aparecida, que, apesar de ser evangélica, teve algumas más experiências com pastores das igrejas que frequentava. Hoje Aparecida prefere orar em diversos templos para não criar vínculos.

– Eu falei para ela não se aproximar de pastores. Já pertenci a uma igreja por muito tempo, mas me decepcionei com um pastor, que acabou me expulsando de lá. O cara tinha ‘ene’ mulheres, enganava todo mundo. Também conheço caso de pastor que tem relações com a própria enteada de 13 anos, mas a gente tem medo de denunciar, porque além de pastor ele é PM… Ou seja, vivendo a minha vida de evangélica nessas igrejas vi muitas coisas absurdas. Frequento várias hoje, porque já vi de tudo, também no sentido financeiro, de pastor que pede dinheiro para comprar casa, carro… Por isso que eu não queria que ela se aproximasse deles, sempre avisei.

As desconfianças de Patrícia e de sua mãe em relação ao PSC não vieram depois da alegada tentativa de estupro por parte de Feliciano. A estudante se queixa que o pastor Everaldo, presidente do PSC, vivia tentando lhe empurrar pretendentes entre os homens do partido.

– Sempre o pastor Everaldo falava: ‘esse é o homem perfeito para você, um homem de Deus’. Uma coisa muito estranha. Cheguei no pastor e falei para ele: ‘Olha, pastor Everaldo, eu não quero. Acho que só tem homem burro aqui no PSC’.

– Ele ria quando você falava isso?

– Não, ele não ria, não. Ele dizia que eu ia acabar sozinha.

Um dos “homens de Deus” que Everaldo teria insistido para Patricia namorar foi o filho de Bolsonaro, Eduardo, deputado federal do partido. Que, como os demais, a jornalista achou burro, burríssimo, e se recusou a sair com ele.

– O Eduardo é um asno, uma mula. É do tipo que, se vê uma menina na Câmara um pouco mais bonita, ele passa a mão na bunda, chama de gostosa. Ele tem altos casos na Câmara, porque tem mulher que gosta. O Eduardo não tem voz nenhuma: o pai dele fala ‘você vai fazer isso’ e ele vai lá e faz. Ele mesmo não tem opinião de nada, coitado, não sabe de nada. O Jair deve ter dito pra ele: ‘essa é uma menina bonitinha pra aparecer com você nas fotos’. ‘Ajeitadinha’, porque ele chama assim, né? Aí o coitado vai lá e faz umas coisas bizarras…

– Tipo o quê?

– Tipo vai conversar com a gente e não tem assunto nenhum, começa por aí. Ele joga umas coisas assim: ‘você é jornalista? Gosto tanto de dar entrevista… no motel’. É disso pra baixo, é muito burrinho. Conheço outros deputados, tipo o Glauber Braga (do PSOL), e você vê outra postura. O cara é inteligente, é respeitoso. Então eu tenho um parâmetro.

Outra coisa que ela diz ter estranhado, ainda dentro do partido, são as advertências feitas pelo PSC aos jovens que engrossam suas fileiras para que não tenham nenhuma espécie de contato com feministas ou pessoas de esquerda em geral. Como se tivessem medo de que virassem vermelhos por osmose –ou por conhecer melhor as ideias que são compelidos a combater.

– O PSC pedia para a gente não ter contato. Dizia que quando você conhece a esquerda, eles fazem alguma lavagem cerebral e você acaba questionando as coisas, o feminismo, o casamento gay. Então sempre pediram para a gente manter distância mesmo. Eu conhecia a advogada do PSOL, sempre foi muito educada. Mas nunca sentei para conversar… E eles pedem nitidamente para não se envolver com esquerdistas, porque são tipo os anticristos do mundo. Eles faziam reuniões explicando por que ser contra o feminismo, por que ser contra os gays, segundo a Bíblia… A gente sentava para montar estratégias de como criar confusão em alguma sessão do Congresso, para tentar tirar a credibilidade. E hoje vejo o Bolsonaro invadindo o plenário, colocando o dedo na cara da Maria do Rosário… Coisas absurdas. Eu sou nova, nunca imaginei que as coisas eram desse jeito.

– O nível intelectual das pessoas que você está conhecendo agora é melhor?

– Nossa… Muito maior. Muuuuuito. É outra coisa, até o jeito de falar. Todo dia é uma surpresa diferente. Ao mesmo tempo que a direita me massacra –porque eles me odeiam, né?, me chamam de esquerda infiltrada, falam que o Jean Wyllys me pagou… Eu cumprimentei o Jean no máximo cinco vezes! Falam que eu ganho dinheiro do PT, do PSOL… Então, ao mesmo tempo que a direita me massacra, o pessoal do outro lado –não só de esquerda, mas muito de centro também– me manda várias coisas, tipo textos de autoconhecimento mesmo. ‘Aproveita que agora você não pode trabalhar, vamos ler, vamos estudar’. E são coisas que, nossa… fazem sentido. Até então, a gente sempre entendeu que o outro lado é que é culpado. A filosofia do PSC é o Estado intervir diretamente na vida da pessoa. É uma intervenção do Estado mesmo na vida pessoal. Quantas vezes eu escutei o pastor Everaldo falar: ‘o Estado não pode deixar as mulheres abortarem. O Estado não pode deixar os gays adotarem’. É ridículo.

Patrícia admite que, como muitos jovens que se definem de direita para “zoar” nas redes, começou a postar vídeos dizendo barbaridades para ficar famosa. Ela sempre quis trabalhar na televisão, razão pela qual topou ir contar sua história em programas como o Superpop, de Luciana Gimenez, e o programa de Roberto Cabrini, dos quais saiu mais desacreditada do que entrou.

Continua, porém, repetindo a mesma versão que deu no princípio de agosto ao blog Coluna Esplanada, do portal UOL: que foi até o apartamento de Marco Feliciano em junho para participar de uma reunião sobre a CPI da UNE; que, chegando lá, não havia reunião alguma e ficou a sós com o deputado, que teria tentado beijá-la à força e arrastá-la para o quarto; que ela teria recusado o assédio e recebido um chute na perna e um soco na boca; que teria gravado dois vídeos negando tudo sob ameaça de morte; e que não aceitou nenhuma das ofertas de dinheiro que teriam sido feitas pelos assessores do pastor Feliciano e pelo pastor Everaldo. Ambos rechaçam as acusações.

Tudo isso será alvo de investigação pela Polícia Federal, que entrou no caso na semana passada, por decisão do STF (Supremo Tribunal Federal). O ministro Edson Fachin atendeu ao pedido da Procuradoria-Geral da República e determinou abertura de inquérito para apurar a denúncia. Até que se comprove ou desminta, fica a palavra de Patrícia contra a de Feliciano.

Pergunto a Patrícia Lélis qual seu objetivo ao prosseguir com a acusação.

– Meu objetivo principal é que Feliciano pague por tudo aquilo que me fez, por tudo que me prejudicou, pois é uma pessoa que se faz de santo em frente a milhares, mas que nos bastidores tem um caráter terrível; que as pessoas alienadas entendam que existem pessoas ruins em todos os lados, que entendam que crime não tem partido político; que o nome de Deus não seja usado de forma tão banal; e principalmente que as pessoas parem de votar em pessoas por conta de religião.

 

 

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56% dos homens dos EUA acham que o machismo acabou; 63% das mulheres discordam —inclusive Hillary Clinton

Publicado em 22 de agosto de 2016

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Há alguns dados sobre as diferenças de gênero que são impossíveis de contestar: os homens ganham mais que as mulheres, ocupando cargo idêntico, sem nenhuma justificativa; as mulheres são o principal alvo da violência doméstica e do estupro; as mulheres têm dupla jornada (dentro e fora de casa) e trabalham, em média, cinco horas a mais que os homens. No entanto, uma pesquisa revela que a maioria dos homens nos EUA acha que o machismo acabou. Alguém acredita que no Brasil seja diferente?

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Nada menos que 56% dos homens norte-americanos disseram que os obstáculos que tornavam mais difícil para uma mulher vencer na vida são coisa do passado. 63% das mulheres do país, é claro, discordaram.

Os números são resultado de uma pesquisa do conceituado instituto Pew, que ouviu 4702 adultos nos EUA sobre o machismo, num momento em que a candidata democrata Hillary Clinton vivencia uma enxurrada de insultos associados à condição feminina: é chamada de “puta”, “vadia”, “galinha”…

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(A “piadinha” de um seguidor de Trump retuitada por ele: “Se hillary não consegue satisfazer seu marido, o que faz ela pensar que pode satisfazer a América?”)

Sem mencionar que vários jornais norte-americanos, ao darem a notícia de que uma mulher se tornou candidata por um partido majoritário pela primeira vez na história dos EUA, publicaram na primeira página a foto… do marido dela, o ex-presidente Bill Clinton. E isso porque o machismo acabou por lá. Imaginem se não tivesse acabado!

Confira nas fotos deste post algumas das pérolas, similares ao que viveu Dilma Rousseff desde que se candidatou à presidência, em 2010.

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Além do machismo latente na sociedade norte-americana, a pesquisa feita pelo Pew Research Institute evidencia as diferenças entre democratas (progressistas) e republicanos (conservadores) em relação ao tema. Enquanto 68% dos homens que votam no partido Democrata opinaram que as diferenças entre os gêneros persiste, 63% dos republicanos disseram que o machismo não existe mais.

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Entre os republicanos que votam em Donald Trump, é ainda maior o número dos que consideram que os obstáculos que tornavam a ascensão da mulher mais difícil ficaram para trás: 91%. Entre os eleitores em geral que dizem que os obstáculos não existem mais, 67% votam em Trump, contra 29% que apoiam Clinton.

Os homens mais jovens, mesmo entre os democratas, são mais propensos a acreditar que o machismo acabou: 47% dos democratas entre 18 e 34 anos disseram acreditar que os obstáculos que impedem a ascensão da mulher na sociedade continuam ali; mas a maior parte deles acha que não existem mais. Os homens maduros, principalmente os idosos, se mostraram mais conscientes das diferenças entre os sexos.

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E aqui? Quando teremos uma pesquisa similar?

 

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