Forró nu de Massarandupió: eu fui!

Publicado em 25 de junho de 2017

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Por Joana Rizério, de Massarandupió-BA*

Colagem Ana Persona

Quando li, num periódico local, uma matéria que anunciava o Segundo Forró Nu de Massarandupió –famosa praia naturista, 93 quilômetros ao norte de Salvador–, pensei logo em quem eu gostaria de ver pelado.

A festa só permitia a entrada de casais, seguindo uma antiga resolução de ambientes nudistas, forjada para proteger os peladões e peladonas dos homens covardes que vão só para espreitar, com a mão no pinto.

“Mesmo com essa regra, sempre aparece algum, depois que os guardas vão embora, pra olhar o povo nu”, revelou Jorge, naturista há dez anos, que conheci logo no início desta inesquecível empreitada.

Eu tinha uma modesta lista de bem apessoados mancebos cujas vergonhas eu queria conferir –além da velha tabela de suplência formada por ex-namorados e bons amigos. Primeiro eu chamei Mário, um branquelo bem gato. Mas, em cima da hora, o desalmado cancelou.

Dias depois, com a pele coberta só por tatuagem e cabelos, eu me veria bebericando uma caipirinha de mangaba enquanto olhava para Juan, meu eleito acompanhante, que não demonstrava nem um pingo de pudor. Pensei, feliz, no quão boa foi a ideia de convidá-lo. Juan é engraçado.

Em 2010, fiquei pelada em público pela primeira vez. Estava na Alemanha, no verão, e margeei um lago em busca de um canto sem ninguém –não sem antes cruzar com toda a aleatoriedade de gente nua tomando seu banho de sol.

Velhos amigos de mais de 80 anos, famílias inteiras com cachorros e crianças, grupos de colegas em horário de almoço, jovens estudantes em bando… Como se empudorar diante de tamanho despudor?

Nós, brasileiros, não temos a menor maturidade para lidar com órgãos sexuais balançantes ou ostensivas cicatrizes de cesárea, pelos pubianos em flor, peitos finos como papel ou duros, com o último tipo dos silicones.

Chegamos a Massarandupió meio derrotados. Eu, cabeça ansiosa pensando no rala-bucho, não tinha conseguido dormir direito. Juan tomou cana na sexta e acordou passando mal no sábado de manhã. Esperando sentada, como cantou Caymmi, eu ouvia gemidos de ressaca vindos do banheiro do estúdio de fotografia dele. “O Sonrisal não ficou no estômago.” “Vomitei de novo, Jojô, vou tentar Dorflex.”

Chegamos por volta de meio-dia ao sugestivo “Espaço Liberdade”, propriedade identificada apenas por uma inscrição pichada sobre uma placa de madeira destruída pelo sol e pela chuva.

Uma moça com um microfone de TV estava lendo alto um texto e andando pra lá e pra cá. Ela e o cinegrafista tinham voado de Recife só para cobrir o evento. Ainda não sabíamos, mas veríamos aquela dupla pelada mais tarde. Eu já tinha visto imagens do lugar pela televisão, em uma matéria que falava da controvérsia entre os membros da Associação Massarandupiana de Naturismo (Amanat) e os fomentadores do forró nu.

Enquanto a entidade acreditava que uma festa noturna e com bebidas alcoólicas aumentaria a confusão que já se faz entre naturismo e práticas sexuais em grupo, no vídeo de apresentação, Davi, criador do evento, garantia que se tratava de uma “festa de respeito”, sem um pingo de surubência.

Em outra reportagem (apesar de queixar-se constantemente da imprensa, Davi parece ter divulgado o evento num mailing do Oiapoque ao Chuí), ele contou ter sido intimado, na edição de 2016 do forró nu, pelo “senhor seu delegado”, para prestar esclarecimentos. “Eu disse: ‘Se for ilegal, proíba!’. Mas tava tudo certo. Fiz meu evento e foi um sucesso”, respondeu o cabra corajoso.

Juan, cada poro do corpo fedendo a cachaça, foi dormir tão logo chegamos. Morrendo de frio –chovia e ventava–, eu desisti da cerveja no primeiro copo e fui pegar uma dose de licor de jenipapo. Voltei para a cadeira e me abriguei com a única manta possível –minha própria toalha. Os braços pra dentro, como se eu tivesse seis anos e minha mãe me enrolasse na saída da piscina.

—Boa tarde, menina, você já comeu mangaba?

Era Jorge, na sua dança de apresentação. Aceitei o fruto que se parece, na textura, com o cruzamento entre uma pera muito madura e uma pinha. O gosto é difícil de descrever: forte, quase amargo, mas delicioso.

Jorge parecia pregar em nome de uma seita. Só falava das vantagens de andar sem roupa. Aproveitei para apurar o medo número um entre todos os homens para quem eu contei do forró de cabo a rabo.

Enquanto as mulheres temem olhares analíticos, longos demais, a maior preocupação dos machos é não poder esconder com a calça uma inadequada ereção. O medo número dois, não da maioria, mas –vamos lá– de todos os caras, é a diminuição longitudinal provocada pelo frio. A velha metamorfose do fazedor de xixi num “amendoinzinho com casca”, tão junino e pequenino.

“Mas você consegue imaginar alguém exibindo feliz um pau duro, sozinho, diante de uma praia naturista? Não rola, nem precisa mandar: o cara mesmo fica com vergonha, se senta ou entra na água”, garantiu Jorge. E partiu para o relato de própria punheta –quero dizer, punho: “Em dez anos de naturismo, só fiquei excitado duas vezes.”

A primeira, ele deu a entender, foi “motivada” por uma namorada. Mas a segunda ereção ele garantiu ter sido despertada por acidente: “Eu estava olhando pro mar quando vi uma bunda maravilhosa na minha frente, balançando, a espuma branca batendo nas carnes. Não deu pra segurar.”

Ainda decidindo se prestigiaria o polêmico arraial, meditei por semanas sobre a apresentação do meu próprio corpo nu. Deixei crescer a mata: tinha a impressão de que a depilação em dia evocaria sensualidade. De quebra, deixei os cabelos do sovaco com um centímetro e meio de comprimento. Tentei me cobrir com as armas que podia.

Ainda à tarde, chegou um casal coroa. A cara da mulher lembrava a de Dona Florinda do Chaves, mas as pernas eram as de uma adolescente –e alguns minutos depois, ela comprovou, levantando a camisa até o pescoço e sorrindo de prazer com os elogios de Jorge, que sua bunda, barriga e peitos também pareciam ser da seleção dos sub-20.

O marido deitou na rede e ficou no celular. Não ficariam para o forró, ela contou. Tinham viajado de longe para prestigiar a “festa liberal” na pousada de Priscila, a poucos metros dali. “Liberal como?”, perguntei, fingindo inocência. “Suingue. Troca de casais”, ela me respondeu, naturalmente.

Juan acordou quando todas essas pessoas já eram um só grupo amistoso em torno de uma mesma mesa, no pequeno pátio de alvenaria e telhado que, em um par de horas, seria palco do rala-bucho desavergonhado.

“Já pode ficar nu?”, ele perguntou, mostrando 32 dentes de pura gaiatice. Em vez de resposta, uma ação: Davi começou a tirar a blusa de Rosália, sua esposa, que colaborou levantando os braços e exibindo um sorriso meio tímido. “A mais gata vai ser a primeira pelada”, anunciou ele. Eu esperei que ele fosse ficar pelado também.

Mas aquelas muito bem feitas tetas quarentonas ficaram expostas solitariamente. Davi esqueceu-se de qualquer solidariedade conjugal e permaneceu de camiseta e bermuda. Um prenúncio de desconforto se formava em minha imaginação.

Num rompante mais político do que exibicionista, tirei o vestido azul que me cobria até o joelho, ficando apenas com uma calçolona amarela que minha tia me deu. Segurei o impulso de me cobrir com as mãos. Senti alguns olhares medindo o que a minha roupa até então escondia. Me lembrei das palavras de Jorge: “São só 30 segundos de estranheza. Depois, passa, você vai ver”, ele me preparou.

Jorge também contou a história de uma amiga que viajava de Aracaju quase todo mês para ficar pelada em Massarandupió, até um dia encontrar o gerente de seu banco. “Ela ficou chocada. Mas meia hora depois estavam todos sentados à mesma mesa, já combinando de repetir a viagem juntos”, contou.

Chuva, vento, céu coberto: o frio estava implacável. O pessoal, enquanto arrumava a festa, perguntava: “Quem é que vai ter coragem de tirar a roupa com um tempo desses?”. Mas, às 9 da noite, estávamos quase bêbados, o que deixou o clima ameno.

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O trio de forró ainda passava o som, os primeiros convidados chegavam. Onde estavam os 40 casais que pagaram antecipado? Nem sinal. Resolvemos explorar a cidade. Fomos para a tal pousada de Priscila, o antro da perdição, de acordo com os nativos.

Priscila nos recebeu com um tour “vamos dar uma olhadinha” através de sua festa vazia. Em resumo, era uma série de cômodos improvisados –basicamente camas de casal separadas por malhas esticadas e lençóis de poliéster. A moça tinha pressa em fechar negócio e não fazia questão de ser simpática: queria receber nossos 80 conto, e logo. “Vocês não vão ficar, né? Vão simbora, me deixem trabalhar.” Gostei da honestidade.

Enxotados de volta à nossa querida festa, vimos um carro da Polícia Militar deixando o Forró Nu. Era a vigilância prometida pela seção local do Ministério Público, que averiguaria os “termômetros” da festa. Estacionamos na vaga deles, feito posseiros.

O clima já era bem melhor. Mesas e cadeiras de plástico vermelho espalhadas pelo terreno abrigavam casais mais discretos, e perto do bar contei umas vinte pessoas. Vi a maior bunda masculina no planeta, quadrada e chulada, e acredito que vou levar essa imagem por muitos anos na memória.

Passando pela penumbra, Juan reconheceu pessoas. Era a repórter, Maria, e Gil, seu fiel cinegrafista. Juan gostou tanto de Maria que, horas antes, no arriar de nossas malas, mesmo desafeito a depoimentos, chegou a conceder uma entrevista a ela, falando baboseiras de 30 segundos que a ajudariam mais tarde na edição.

Eu perguntei quem queria caipirinha e saí. Quando voltei, com três copos servidos pelo barman mais lento do planeta, minha turma não estava mais lá.

Procurei-os no pátio e nada. O trio nordestino aguardava o direito de começar o forrobodó com sua placidez sertaneja, enquanto Davi atrasava, infinito, a arrumação do som. Contei que era DJ e me ofereci para ajudar. Não entendo nada de som, mas um milagre aconteceu e fiz as caixas funcionarem.

Como um prêmio que eu não queria ter ganhado, um homem me tirou pra dançar. Obriguei-me a meditar sobre o porquê de estar ali. Ralar a coxa com um desconhecido, nu? Pra quê? Por quê? Mas, estando aqui, como não? Aceitei.

Só que ele sorria demais. Era empertigado demais. E usava um par de tênis fluorescentes de corrida como único acessório ao corpo broxantemente desenhado em academia. Tocava “O Cheiro da Carolina” quando ele deslizou a mão pelo meu cofrinho. Foi demais pra mim: larguei o cara e resgatei meu copo de caipimangaba.

Achei, finalmente, Juan, Maria e Gil atrás do bar, perto da piscina. Foi então que eu percebi as luzes coloridas e a fumaça de máquina que davam um clima de boate sobre aquelas bandas anuviadas.

Vi um grupo indistinto de gente meio embolada.. Um cara gemia, outro equilibrava um cigarro, uma banda de bunda e um copinho de licor na mão esquerda. Uma mulher xingava, e eu finalmente entendi: meu deus, uma suruba.

Davi tentou coibir. Sou testemunha de três fracassadas investidas de dissuasão dessa cópula conjunta. Mas a sede de amor era tamanha que o pessoal se esgueirou mais ao longe, se escondeu, dissimulou. Com olhos de complacência, decretei pra mim mesma que o forró nu fez tudo o que pôde para manter a decência.

Nos reagrupamos, eu e a trupe jornalística, na mesma mesa. Finalmente –e feito um pugilista que derrota o adversário pelo cansaço, na base do ponto–, Juan conseguiu deixar só de calcinha a linda Maria e levá-la até o miolo do rala-coxa. A música era Sala de Reboco, mas, se você reparasse no meu animado amigo, a trilha sonora ideal seria o clássico de Lindolfo Barbosa:

“O senhor tá dançando armado, o senhor tá dançando armado

O senhor tá dançando armado, nós vamos dizer pro delegado”

No meio da madrugada, a festa acabou. Não dormimos: desmaiamos. Se Juan pegou Maria? Não sei. Certas coisas que acontecem em Massarandupió, ficam em Massarandupió.

“Valeu a pena”, repetíamos no caminho de volta. Corri para escrever este texto já no domingo, temendo esquecer detalhes tão pequenos de nós todos. Foi bonito, foi, como canta o rei do arrocha Pablo.

O que eu fui fazer num forró nu? A resposta pronta é que tenho um nome a zerar. A verdadeira é que achei que daria um bom texto. E que, como a última boia num naufrágio, esta seria uma lembrança risonha a ser carregada com leveza até o derradeiro de meus dias.

E o que acho da nudez? Continua me sendo indiferente. Continuo preferindo tirar a roupa para uma pessoa de cada vez. Mas, depois de enxergar beleza na simplicidade, voto até o fim pelo fim da ilegalidade do corpo humano. Como diz o libertário Mark Twain: “Se fosse a vontade de Deus que nós vivêssemos nus, teríamos nascido assim”.

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*PAGUE A ILUSTRADORA: Para doar à ilustradora Ana Persona: Ana Paula Cerqueira, banco Santander, agência 0642, conta corrente 01.025.128-9, CPF 028.045.236-59. Obrigada por colaborar com uma nova forma de fazer jornalismo no Brasil, bancada pelos leitores.

 

 

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A hipersexualização do corpo do homem negro, a face “aceita” do racismo

Publicado em 30 de abril de 2017
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(Ajitto, Robert Mapplethorpe, 1981)

Por Weudson Ribeiro*

“Você é preto e pobre. Uma cova e uma cela decorada com o seu nome te aguardam. Então, mostre o seu melhor!”

Com essas palavras, dona Lucinária costumava acordar o filho Rodrigo Amaro, 23 anos, todas as manhãs, para levá-lo à escola. O tom assustava. Dado o pouco entendimento sobre questões sociais na infância, o rapaz conta ter crescido sob a impressão de que estaria condenado. “Eu tinha cerca de sete anos quando ouvi aquela frase pela primeira vez. Aprendi cedo sobre o peso que acompanha o homem negro desde o nascimento”, diz ele. “Andar dois passos atrás do homem branco em termos de oportunidades e auto-estima e precisar aceitar a objetificação do próprio corpo como um dos poucos meios de tratamento favorável é algo com que lidamos diariamente.”

O jovem acredita que a hipersexualização projetada sobre a tez de ébano revela uma face cruel do racismo. “Eu recebo tratamento distinto em relação a amigos de pele clara. Com eles, cogitam casar e ter filhos. Comigo, apenas sexo casual… Dizem que pareço ser bom de cama”, conta. A politização, reflete Rodrigo, deu um quê de amargura ao que antes parecia lisonja: “É como se nenhuma virtude, além de um presumido vigor sexual, fosse digna de reconhecimento ou atenção”.

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(Foto: Weudson Ribeiro)

Na avaliação da etnógrafa negra norte-americana Yaba Blay, a herança escravagista alimenta uma série de mitos e estereótipos presentes na ontologia (a “ciência do ser”) do homem de cor, como a naturalização da “criminalidade negra” por parte da mídia. “A constante animalização de seus corpos não os afeta tanto porque a espécie masculina necessita de validação sexual. Serem vistos como fortes e bem-dotados os desencoraja de discutir sobre o abuso implícito que os vitimiza há mais de 500 anos”, explica.

Gênero popular no mercado pornográfico, o roteiro Cuckold retrata maridos brancos como entusiastas de esposas que procuram sexo extraconjugal com “machos alfa” de pele escura, também chamados de “touros” por praticantes de BDSM (sadomasoquismo). O livro A Vênus das Peles (1870), a obra mais conhecida de Leopold Ritter von Sacher-Masoch, aborda a fantasia de forma despudorada, embora eurocêntrica.

Um século mais tarde, o assunto ganharia viés étnico no cinema: em 1975, o boxeador Ken Norton estrelou o filme de blaxploitation Mandingo. A obra conta a história de Mede, um africano de corpo escultural que é forçado a transar com Blanche, sinhá da plantação em que ele trabalhava, sob a ameaça de ser acusado de tê-la estuprado. Após dar à luz o filho do escravo, Blanche e o bebê mulato são sacrificados pelo marido, Hammond. Numa cena emblemática do conceito contemporâneo de “privilégio masculino”, o assassino caucásico lava o túmulo da ex-esposa com um “caldo” feito a partir da carcaça do negro, também morto por Hammond.

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(Cena do filme Mandingo, 1975)

Cleber Arlequim, 29 anos, conta que sai com mulheres casadas desde os 23, quando deixou a casa dos pais, em Barreiras (BA), para morar no interior do Rio de Janeiro. Ele relata que os maridos são os primeiros a estabelecer contato, a fim de garantir que a aventura não afete o vínculo primário dos cônjuges. O rapaz acredita que, quando há consenso, a fetichização interracial é aceitável: “Não vejo nada de errado nisso. São casais estáveis ​​em busca de adrenalina e prazer. Admiro a atitude de quem me procura para saciar essa curiosidade”, diz. “Todos se divertem.”

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(Cleber Arlequim. Foto: Weudson Ribeiro)

O protagonismo de homens negros no cerne das grandes bilheterias tem se tornado cada vez mais comum. Numa época focada na exposição feminina, o nu frontal masculino também se prova constante na tevê paga. Esses avanços, porém, raramente se manifestam no mesmo corpo. O thriller de verão da HBO, The Night Of (2016), é um reflexo dessa realidade: na cena mais memorável do episódio The Season of the Witch, o primeiro pênis negro a aparecer no canal famoso por exibir séries carregadas de volúpia pertencia a um cadáver. Por outro lado, o personagem negro mais sexual da atração era um estuprador convicto.

“Por toda parte, a sexualidade de pessoas negras é mais imaginada do que, de fato, vista. Isso dá fôlego ao longo histórico de fetichismo reproduzido sobre homens e mulheres negros. Não há nada de errado com a sexualidade do homem negro inerentemente, mas sim com o vício que alguns dos maiores roteiristas demonstram ao demonizar, negar ou distorcê-la em suas criações”, explica o cineastra paulista Jeferson De. Sociólogo e professor de estudo de mídias da Universidade Federal de Campinas, Noel Carvalho compara a sub-representação da nudez negra à censura ao beijo gay na teledramaturgia tupiniquim.

“Apesar de o meio audiovisual ter dado uma guinada progressista, parte da sociedade não mudou o bastante para permitir que aos personagens negros seja oferecida a mesma gama de seriedade, safadeza e romance presente na retratação comercial da sexualidade branca. Essa exclusão mostra um desconforto geral em relação à ideia conservadora do que é tabu. Conforme artistas, escritores, diretores e produtores negros ganham espaço e voz, esse contexto ganha ares de igualdade”, diz o estudioso, que aponta o premiado Moonlight (2017) como divisor de águas para o cinema negro e queer contemporâneo.

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(Robert Mapplethorpe, Retrato de Ken Moody, 1973)

Bissexual declarado, Robert Mapplethorpe (1946-1989) foi o principal artista da “geração Warhol” a celebrar o sexo negro por meio da fotografia. Em 1986, The Black Book ganhou notoriedade por enquadrar um anônimo cujo pênis cruzava a braguilha de um terno de poliéster. Há quem acuse o clique erótico de encapsular um problema, uma vez que, ao pôr gênero e raça lado a lado, a representação reforçaria estereótipos, podendo distorcer a compreensão sobre negritude e sexualidade afro. Fotógrafa e professora do Instituto de Artes da Universidade de Brasília, Denise Camargo discorda da tese, que considera “reducionista”.

“Por meio da imagem, o próprio fotógrafo desconstrói a ideia do sexo potente que lhe querem impingir.  Assim, pouco importa se é um pênis negro, homo ou heterossexual, por exemplo”, diz Denise. “O corpo negro transcende a questões de gênero. Trata-se de um corpo identitário  –nem masculino, nem feminino, mas cultural… Uma referência às matrizes ancestrais africanas. Esse é o corpo que deu voltas numa árvore do esquecimento, deixando para trás suas memórias para se reconfigurar em terras desconhecidas. Escravizado, precisou aprender a driblar, gingar, suingar e atravessar encruzilhadas. Os corpos negros não se separam do que, de fato, representam.”

 

*PAGUE O AUTOR: O repórter Weudson Ribeiro colabora com o blog pelo sistema de “vaquinha posterior”: todas as doações para este post irão para ele. Contribua!

 

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Luana, a Rainha da Lapa: “A Copa e as Olimpíadas foram excelentes para fazer dinheiro”

Publicado em 9 de outubro de 2016
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(Fotos: Alejandro Olivares/The Clinic)

Imperdível esta entrevista livre de puritanismo com a travesti carioca Luana Muniz, a Rainha da Lapa, feita pelo jornal chileno The Clinic. Ouvir as travestis é sempre rico, uma quebra de paradigmas. E elas são tão pouco ouvidas por nossa mídia… Eu traduzi para vocês, leiam.

***

Por Desirée Yépez, no The Clinic

Luana Muniz nasceu varão há 58 anos. Quando pequeno, abriu um livro e se encontrou com “Luana”, a personagem de uma guerreira africana. Assim queria ser: mulher, linda, rica e amada. Era 1969 e a ditadura militar estava instalada no Brasil. A repressão e a proibição atentavam contra toda forma de diversidade, mas ninguém pôde inocular medo nessa menina que nascia em um corpo não correspondente.

Há 47 anos que ela está nas ruas se prostituindo. Foram tempos difíceis, viu milhares de travestis morrerem agredidas nos postes –entre urina e merda– e também outras a quem a Aids não deu trégua. Apesar disso, não tem sido ruim para ela. Em cima do salto, percorreu mais de 39 países e participou de programas de televisão, filmes e obras de teatro. Fama que há vários anos a levou a se autoproclamar como a chefona de um dos bairros mais boêmios do Rio: se intitulou a Rainha da Lapa.

Segundo estatística do Transgender Europe’s Trans Murder Monitoring (TMM) Project, 50% dos crimes contra a população trans no mundo são cometidos no Brasil. Mas Luana passeia tranquila pelas ruas. Desde 2002 que, além de exercer o comércio sexual, preside a Associação dos Profissionais do Sexo do Gênero Travesti, Transexuais e Transformistas do Rio de Janeiro, organização que funciona em um casarão em pleno bairro da Lapa. Até ali chegam dezenas de garotas que buscam um teto ou algum tipo de ajuda. Ela lhes cobra algum valor pela diária e podem receber seus clientes. O álcool, a droga e os roubos são proibidos.

– Com que idade você começou a se prostituir?

Comecei muito jovem, nos tempos da ditadura no Brasil, aos 9 anos. Com essa idade saí de casa. Antigamente os lugares onde ficavam as prostitutas e as travestis eram os postes, cheios de urina, merda e pedras, eu enfrentei isso. Logo veio a época do HIV, que não tinha esse nome, era o ‘câncer gay’. Aos 20 anos fui viver em Paris e começou minha carreira internacional. O que ganhei investi. Assim se passaram 48 anos de prostituição e 37 de carreira artística. Tenho tripla cidadania, brasileira, italiana e portuguesa.

– Por que você saiu de casa aos nove anos?

Porque ninguém manda em mim. Eu era uma força da natureza que ninguém controlava. Nunca quis obedecer a ninguém. Vesti uma minissaia e saí para viver a vida. A maioria das travestis não quer seguir regras… Quando era pequena queria ser rica, famosa, linda, casada, mulher. Agora não quero ser mulher, quero ser travesti. Sou tratada como uma dama, mas se me ofendem, me transformo num macho, num diabo.

– Quem te levou para a prostituição?

A rua, os homens, conheci as travestis dessa época, quando tudo era precário. Os hormônios eram proibidos e a maquiagem para homem também. Eram tempos muito difíceis, mas se ganhava muito dinheiro.

– No começo, você trabalhava onde?

Tiradentes, Lapa, Copacabana, Ipanema. Ao voltar da Europa compreendi que era preciso trabalhar pelos direitos das travestis. Reuni algumas que também trabalharam na Europa e em 2002 criei a associação, porque o tempo da navalha e da faca já passou. Agora devemos lutar, falar de nossos problemas, cumprir com nossos deveres para exigir nossos direitos, ainda que sempre apareça alguma que envergonha a categoria.

– Como é ser travesti no Rio de Janeiro?

Sou uma representante da comunidade LGBTI e as pessoas me respeitam pela minha história como profissional do sexo, artista e empresária. Há outras pessoas que também trabalham por nossos direitos. O índice de criminalidade no Brasil, principalmente no Norte e Nordeste, é muito alto. Os preconceitos e a intolerância ainda são fortes. Neste país a vida em geral está banalizada. Todos os dias se mata um policial, uma mulher, uma travesti. Segundo as estatísticas a cada 30 minutos morre uma mulher no Brasil. Uma travesti é assassinada a cada 24 horas, e com os homossexuais é a mesma coisa. O Brasil se diz um país democrático, sem preconceito, mas é uma grande mentira. Agora, no Rio a situação é muito melhor que antes. A Lapa é um ponto turístico, muitas pessoas vêm para cá, há muitos restaurantes e bares. Mas também atrai a marginalidade. Muitas travestis, sobretudo de outros lugares do país, vêm a esta região e, infelizmente, cometem delitos como roubos. 20% das travestis do mundo se perdem nas drogas e morrem prematuramente.

– Falando de trabalho, segundo as estatísticas, 90% das travestis estão nas ruas.

Estes são os dados. A prefeitura diz que a maioria não quer estar na rua, mas isso é mentira. O sonho de uma travesti é ser O Nascimento de Vênus, ser linda, bela e ganhar dinheiro facilmente. Mas na realidade não é assim, tem que ter capacidade para suportar quem chega, ser simpática. Agora o mercado de trabalho está se abrindo em todo o mundo. Barack Obama pensou numa transexual para ser senadora. Há advogadas, médicas. Existem programas de organizações que dão oportunidades e projetos para estudar. Minha exigência é que exista acesso ao estudo. Não faço apologia da prostituição, nem apoio a prostituição infantil. Incentivo quem queira um trabalho convencional a se preparar, mas o problema é que não querem.

– Que oportunidades de trabalho reais tem uma travesti?

Há aquelas que se dedicam à área de estética e trabalham em salões de beleza, e incentivo que façam isso. Também há cursos de corte e costura. Abri uma loja de roupas, no térreo do edifício onde funciona a associação, e uma travesti trabalha ali. É uma minoria que oferece essas oportunidades. Não se abre o jornal e se veem ofertas de trabalho para as travestis e se passará muito tempo antes de que isso aconteça.

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– O Brasil é o segundo destino de turismo sexual depois da Tailândia. Como funciona o mercado de trabalho vinculado ao sexo?

Cada uma das meninas toma conta de seu trabalho. Cada uma que se preocupe com sua bunda, eu só não quero problemas. Eu as incentivo para que estudem uma carreira paralela, porque em algum momento isto vai acabar. A juventude é importante em qualquer área profissional. Eu vivo da prostituição. As propriedades que tenho comprei com dinheiro da prostituição. Fiz espetáculos em Paris, Ibiza, Ilhas Canárias, mas o que me deixou mais dinheiro foi a prostituição. Sempre tive estrela para ganhar sem negociar. Cuido da minha aparência. Durante o dia estou cansada porque tenho que resolver todos os meus assuntos, mas de noite me transformo em uma deusa. Apesar de a crise também ter afetado a prostituição, ninguém deixa de comer nem de trepar. Quando deixar de ser puta vou ser cozinheira.

– Qual é o perfil dos seus clientes?

Pode ser qualquer pessoa: desde quem vive na rua até de maior nível socioeconômico. Não existe um termômetro do sexo.

– Como é a relação com a polícia?

No Rio nos respeitam muito. Até me chamam na delegacia para resolver problemas de travestis.

– Quais são os problemas mais comuns?

Discussão com a polícia ao fazer abordagem dos clientes. O trabalho na rua é conquistar os homens, não me interessa o que acontece. Mas há outras que se metem em problemas, porque o que falta no Brasil é educação.

– Os policiais procuram seus serviços?

Também. No momento de fazer o programa não me interessa nada a vida do outro, vamos fazer o que queremos fazer: como, me comem, chupo, me chupam. Dou o serviço e quero a grana. Todo mundo conhece Luana Muniz e se criaram mitos ao redor de mim. Quem me conhece profundamente sabe que tenho um bom coração, mas se me tratam mal, trato mal.

Quanto custa o programa?

Depende da negociação. Por exemplo, podem ser 50 reais por meia hora. Mas se pode fazer um programa de 20 reais e sair dali com 2 mil. Isso depende da negociação, do poder de sedução. Sophia Loren dizia que a maior arma do sexo, de ser mulher, feminina, é o mistério. Sou uma enciclopédia viva.

– O negócio melhorou com a Copa do Mundo e as Olimpíadas?

Foi excelente para fazer dinheiro, só não ganhou quem não quis. Houve muitos clientes. Três vezes mais.

– Até quantos clientes você atende numa noite?

Depende. Na minha época de ouro, atendi até 50 homens numa noite.

– O que é mais complicado de ser uma travesti profissional do sexo?

Para mim é uma felicidade plena, um sucesso, uma soma de felicidades e satisfações.

– Você se apaixonou alguma vez?

Me casei oito vezes, mas deixei os oito porque sou como Marilyn Monroe, valorizo mais os diamantes do que os homens. Diamonds are forever. Eu gosto mais do dinheiro do que do pau, o pau é um complemento.

– Mas teve um grande amor?

Sim, tive. Mas fiz como a maioria das mulheres, pus todos os meus sentimentos na sua mão e ele fez o que quis. Depois disso aprendi e nunca mais. Isso foi nos anos 1970, depois me casei com um francês, um italiano… Só dinheiro. E além disso tenho a maior riqueza do mundo, educação, gentileza e amigos.

– Você está com alguém agora?

Com todos e com ninguém. Quem paga mais me leva.

– Há disputas entre as travestis?

No centro, não. Eu apelo à união e ao respeito. A razão principal pela qual as travestis brigam é pela beleza. Ninguém é melhor do que ninguém, todos merecem respeito.

– Você é querida pelas pessoas?

Sou considerada e respeitada pelas pessoas. Creio que 70% gostam de mim, 20% fingem que gostam e 10% não gostam. Sou considerada a Rainha da Lapa.

– De onde veio este título?

Me foi concedido.

– E o que representa?

Respeito, união, dignidade. Para esta Luana existir foram muitos anos de construção.

– Quantas cirurgias plásticas você fez?

Várias. Só não fui operada da cintura, das panturrilhas, dos pés, das mãos e do pau. Meu pau está aqui, eu o amo, e, se pudesse, o aumentaria.

 

 

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