Norte-americano é libertado após passar 32 anos preso por um crime que não cometeu

Publicado em 17 de março de 2017
wilson

(Andrew Wilson deixa a cadeia. Foto: divulgação)

Quando Andrew Wilson foi preso, acusado de esfaquear até a morte um jovem de 21 anos que dormia no carro com a namorada, o presidente dos Estados Unidos era Ronald Reagan, as pessoas ouviam We Are The World e usavam mullets e ombreiras. Ontem ele foi finalmente liberado da prisão após um projeto de checagem de DNA e investigação independente conseguir provar que Andrew jamais cometeu o crime pelo qual passou 32 anos encarcerado. Ele sempre afirmou que era inocente. Ao sair da cadeia, Andrew já era avô; quando entrou, tinha acabado de entrar nos 30.

Os advogados de Andrew Wilson, membros do Project for the Innocent da Loyola Law School, disseram que elementos-chave das provas nunca foram disponibilizadas para a defesa durante o julgamento. A namorada da vítima, Saladena Bishop, é, na verdade, a maior suspeita de ter cometido o crime. Para mandá-lo para a cadeia, bastou ela simplesmente apontar uma foto de Andrew após um policial perguntar: “E este aqui?” Saladena foi a única testemunha do crime.

Mais tarde, a própria polícia a consideraria uma testemunha pouco confiável depois que acusou falsamente outro homem de sequestro e tentativa de estupro. Além disso, um amigo da vítima chegou a declarar à promotora Laura Aalto, na época, que Saladena já havia esfaqueado o jovem no passado e era provavelmente a autora. Aalto ignorou o testemunho.

A juíza da Suprema Corte Laura F. Priver decidiu na quarta-feira que, ao reter esta evidência, Aalto privou Andrew de seu direito constitucional a um julgamento justo e ordenou que ele fosse solto imediatamente. Uma audiência está marcada para o dia 3 de maio para ratificar a inocência de Wilson, o que determinará de que forma será compensado pelo Estado pelas mais de três décadas que passou atrás das grades. A promotoria, no entanto, já anunciou que não pretende julgar Wilson novamente.

“Foi um pesadelo, mas eu sobrevivi e cheguei ao fim do caminho. Sou um homem livre”, disse Andrew, que, de acordo com os jornais locais, Andrew Wilson planeja se mudar para St.Louis para estar mais perto de sua mãe Margie Davies, de 96 anos, que nunca se cansou de defender a inocência do filho desde a prisão. Durante estes 32 anos, Margie enviou cartas a tudo quanto é autoridade dizendo: “Meu filho, Andrew Wilson, foi condenado erroneamente por assassinato. Por favor, ajude”. Ninguém o fez. “Eu sabia que ele era inocente”, disse Davis ao Los Angeles Times. “Não é novidade para mim. Ele é uma pessoa honesta. Eu sabia que não iria mentir.”

Os projetos para provar a inocência de condenados por crimes que não cometeram já libertaram centenas de pessoas inocentes nos Estados Unidos, a maioria delas pobre e negra. O Brasil está precisando de uma iniciativa destas. Quantas pessoas negras e pobres temos em nossas cadeias falsamente acusadas de ter cometido crimes e que poderiam estar soltas?

(Com informações do Innocence Project)

 

 

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Exclusão pela prisão: como o racismo judicial pode ajudar a eleger Donald Trump

Publicado em 8 de novembro de 2016
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(“Há mais negros presos hoje do que havia escravos em 1850″. Ilustração: Billy Dee)

Os negros representam 13% da população dos Estados Unidos, mas representam 40% da população carcerária do país, a maior do mundo. Um em cada 9 afro-americanos entre os 20 e os 34 anos estão presos. Estatísticas indicam que os negros são duas vezes mais parados pela polícia no trânsito do que os brancos; são mais presos por porte de droga do que os brancos; permanecem mais tempo presos aguardando julgamentos do que os brancos; e recebem penas maiores do que os brancos. Levando-se em consideração que, em 12 Estados norte-americanos, as pessoas condenadas pela Justiça não podem votar nunca mais e que os negros preferem Hillary Clinton, é possível que Donald Trump seja beneficiado pelo racismo judicial nestas eleições.

A lei dos EUA em relação ao voto por condenados varia de Estado para Estado. No Brasil, 61,6% dos detentos são negros, mas os presos provisórios, ainda sem condenação definitiva, podem votar dentro da cadeia mesmo; após cumprir a pena, também podem retomar seus direitos políticos e votar. Em alguns Estados norte-americanos, no entanto, a perda de direitos pode ser perpétua e, dadas as estatísticas prisionais, prejudica e exclui diretamente os negros. Só em dois Estados, Maine e Vermont, não existem restrições para os condenados votarem. E, nos Estados onde eles podem votar após a condenação, a demora é enorme para que os direitos sejam restituídos por causa da burocracia.

Um levantamento feito pelo Sentencing Project, organização da sociedade civil que atua para melhorar a Justiça criminal dos EUA, chegou a números impressionantes: nada menos que 6,1 milhões de norte-americanos estão impedidos de votar nestas eleições por conta das restrições aos condenados, ainda que estejam fora da cadeia. Na verdade, o número de pessoas impedidas de votar é maior entre os que estão fora do que os que estão detrás das grades. 10% dos eleitores da Flórida não poderão votar porque um dia foram condenados à prisão, embora cerca de 600 mil já tenham cumprido sua pena.

(Vídeo: apoiadores de Trump empurram moça negra no Kentucky)

Entre os negros a situação é ainda mais dramática: 1 em cada 13 afro-americanos não se encontra apto a votar em todo o país, mas em cinco Estados este percentual sobe para mais de 1 em 5. No Kentucky, por exemplo, 26,1% dos negros não estão aptos a votar porque foram condenados e ainda não tiveram seus direitos políticos restaurados. Em Wyoming, 17,2% dos afro-americanos não têm o direito de eleger o presidente do país. Na Virginia, Florida e Tennessee, mais de 21% dos negros foram banidos de participar das eleições. Ou seja, além de sofrer com o racismo do sistema, ao ser presos os negros ainda perdem o poder de interferir no destino da nação. Se transformam literalmente em cidadãos de segunda classe.

São números que contam muito em favor de Trump, que não possui a mesma preferência que Hillary entre os negros e é frequentemente acusado de defender a supremacia branca. De acordo com uma pesquisa da conservadora Fox News, 99% dos afro-americanos preferem a candidata democrata. Já entre os brancos, a preferência por Trump é maior, em torno dos 49%, informa outra pesquisa recente. Já a maioria esmagadora dos latinos declararam voto em Hillary Clinton: 58% contra 18% de Donald Trump, segundo pesquisa do Pew Institute.

É importante lembrar que uma diferença de apenas 537 votos na Florida fez Al Gore perder para George W. Bush em 2000.

 

 

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