Lenin: Sobre as Greves, 1899

Publicado em 1 de maio de 2017
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(“Sob a bandeira, diante de Lenin, miro Outubro”)

“Quando a ruína do povo chega a tal ponto que nas cidades e nas aldeias há sempre massas de desempregados, quando os patrões amealham enormes fortunas e os pequenos proprietários são substituídos pelos milionários, então o operário isolado transforma-se num homem absolutamente desvalido diante do capitalista. O capitalista obtém a possibilidade de esmagar por completo o operário, de condená-lo à morte num trabalho de escravos, e não só ele, como também sua mulher e seus filhos. Com efeito, vejam as indústrias em que os operários ainda não conseguiram ficar amparados pela lei e não podem oferecer resistência aos capitalistas e comprovarão que a jornada de trabalho é incrivelmente longa, de até 17 e 19 horas, que criaturas de cinco ou seis anos executam um trabalho extenuante e que os operários passam fome constantemente, condenados a uma morte lenta. Exemplo disso é o caso dos operários que trabalham a domicílio para os capitalistas; mas qualquer operário se lembrará de muitos outros exemplos! Nem mesmo na escravidão e sob o regime de servidão existiu uma opressão tão terrível do povo trabalhador como a que sofrem os operários quando não podem opor resistência aos capitalistas nem conquistar leis que limitem a arbitrariedade patronal.”

“Que significado têm as greves na luta da classe operária? Para responder a esta pergunta devemos nos deter primeiro em examinar com mais detalhes as greves. Se o salário do operário se determina —como vimos— por um convênio entre o patrão e o operário, e se cada operário por si só é de todo impotente, torna-se claro que os operários devem necessariamente defender juntos as suas reivindicações, devem necessariamente declarar-se em greve para impedir que os patrões baixem os salários, ou para conseguir um salário mais alto. E, efetivamente, não existe nenhum país capitalista em que não sejam deflagradas greves operárias. Em todos os países europeus e na América, os operários se sentem, em toda parte, impotentes quando atuam individualmente e só podem opor resistência aos patrões se estiverem unidos, quer declarando-se em greve, quer ameaçando com a greve. E quanto mais se desenvolve o capitalismo, quanto maior é a rapidez com que crescem as grandes fábricas, quanto mais se veem deslocados os pequenos pelos grandes capitalistas, mais imperiosa é a necessidade de uma resistência conjunta dos operários, porque se agrava o desemprego, aguça-se a competição entre os capitalistas, que procuram produzir mercadorias de modo mais barato possível (para o que é preciso pagar aos operários o menos possível), e acentuam-se as oscilações da indústria e as crises. Quando a indústria prospera, os patrões obtêm grandes lucros e não pensam em reparti-los com os operários; mas durante a crise os patrões tratam de despejar sobre os ombros dos operários os prejuízos. A necessidade das greves na sociedade capitalista está tão reconhecida por todos nos países europeus, que lá a lei não proíbe a declaração de greves.”

“Quando os operários enfrentam sozinhos os patrões continuam sendo verdadeiros escravos, que trabalham eternamente para um estranho, por um pedaço de pão, como assalariados eternamente submissos e silenciosos. Mas quando os operários levantam juntos suas reivindicações e se negam a submeter-se a quem tem a bolsa de ouro, deixam então de ser escravos, convertem-se em homens e começam a exigir que seu trabalho não sirva somente para enriquecer a um punhado de parasitas, mas que permita aos trabalhadores viver como pessoas. Os escravos começam a apresentar a reivindicação de se transformar em donos: trabalhar e viver não como queiram os latifundiários e capitalistas, mas como queiram os próprios trabalhadores. As greves infundem sempre tal espanto aos capitalistas porque começam a fazer vacilar seu domínio.”

“Quando um patrão que acumulou milhões às custas do trabalho de várias gerações de operários não concede o mais modesto aumento de salário e inclusive tenta reduzi-lo ainda mais e, no caso de os operários oferecerem resistência, põe na rua milhares de famílias famintas, então os operários veem com clareza que toda a classe capitalista é inimiga de toda a classe operária e que os operários só podem confiar em si mesmos e em sua união. Acontece muitas vezes que um patrão procura enganar, a toda custa, os operários, apresentar-se diante deles como um benfeitor, encobrir a exploração de seus operários com uma dádiva insignificante qualquer, com qualquer promessa falaciosa. Cada greve sempre destrói de imediato este engano, mostrando aos operários que seu ‘benfeitor’ é um lobo com pele de cordeiro.”

“Cada greve lembra aos capitalistas que os verdadeiros donos não são eles, e sim os operários, que proclamam seus direitos com força crescente. Cada greve lembra aos operários que sua situação não é desesperada e que não estão sós.”

(Trechos de artigo escrito por Lenin em 1899 e publicado pela primeira vez em 1924, na revista Proletarskaia Revoliutsia – A Revolução Proletária. Íntegra aqui)

 

 

 

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Luther King: de perseguido por ser “comunista” a garoto-propaganda de camiseta reaça

Publicado em 4 de abril de 2017
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(A camiseta onde o MBL compara o vereador Fernando Holiday a Martin Luther King)

De 1963 até seu assassinato há 49 anos, em 4 de abril de 1968, Martin Luther King Jr. foi perseguido e investigado pelo FBI sob a acusação de ser “comunista” e de ter atividades “antiamericanas”. Ideologicamente situado à esquerda do Partido Democrata, o reverendo King passou a vida tendo que desmentir a todo momento ser comunista, embora nunca tenha demonstrado publicamente simpatia pelos soviéticos. A desculpa do governo dos Estados Unidos para espioná-lo durante anos foi sua amizade com um homem que teria ligações com o Partido Comunista Americano.

Todas as falsas “descobertas” do FBI eram fornecidas a repórteres com a intenção de desacreditar King. As fitas com todas as gravações feitas com ele só viriam à tona em 2002. Em 2014, o jornal The New York Times revelou na íntegra uma carta de 1964 em que o FBI chamava o reverendo de “besta do mal” e lhe fazia toda sorte de insultos racistas, inspirado pelo chefão da agência, J. Edgard Hoover, para quem King era “o mais notável mentiroso da nação”.

A carta vinha acompanhada de uma fita onde os agentes o chantageavam com gravações de supostos casos extra-conjugais. A intenção, o reverendo disse a amigos, era fazer com que ele se matasse. “Há algo que você tem de fazer, já sabe o que é. Não se pode crer em Deus e agir assim”, dizia um trecho. Quatro anos depois, King seria assassinado em circunstâncias que permanecem suspeitas.

Em 1965, bem no clima “escola sem partido” da direita brasileira atual, o reverendo teve de se explicar a jornalistas por ter ido a um colégio no Tennessee acusado de ser uma “escola de treinamento de comunistas”. Em cartazes espalhados pelo Alabama durante as marchas pelos direitos humanos de Selma a Montgomery, em 1965, Martin Luther King aparece sentado na tal escola, que ele defendeu como um local apoiado por “grandes norte-americanos”, a exemplo da ex-primeira-dama Eleanor Roosevelt.

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(Foto: William Lovelace)

Mas afinal: Martin Luther King era ou não comunista? Não, não era. King tinha várias discordâncias com Marx, a quem leu com atenção, mas preferia Cristo enquanto ideal de revolucionário. “Li O Capital e o Manifesto Comunista anos atrás, quando era aluno de faculdade. E muitos movimentos revolucionários do mundo nasceram como resultado daquilo que Marx discutiu. A grande tragédia é que a cristandade não conseguiu ver que ela tinha a prerrogativa revolucionária. Não é preciso recorrer a Marx para aprender a ser um revolucionário. Eu não me inspirei em Karl Marx; inspirei-me num homem chamado Jesus.”

De fato, 20 anos antes, o jovem Martin Luther King fez algumas anotações sobre a leitura de Marx e do Manifesto. “Durante os feriados de Natal de 1949, decidi passar meu tempo de folga lendo Karl Marx para tentar entender a atração que o comunismo exerce sobre muitas pessoas. Pela primeira vez examinei cuidadosamente O Capital e o Manifesto Comunista. Também li alguns trabalhos interpretativos sobre o pensamento de Marx e Lenin. Ao ler esses textos comunistas, extraí certas conclusões que até hoje têm me acompanhado como convicções.”

O resultado de suas leituras foi que, por um lado, King desprezava parte do pensamento de Marx e sobretudo no que os regimes ditos comunistas se transformaram, mas admirava, e muito, as ideias da doutrina em relação aos pobres e a justiça social. “Apesar do fato de que minha reação ao comunismo foi e é negativa, e de eu o considerar basicamente maligno, há aspectos em que o considero desafiador. Com todos os seus pressupostos e métodos perversos, o comunismo surge como um protesto contra as agruras dos desprivilegiados. O comunismo, em teoria, enfatizava uma sociedade sem classes e uma preocupação com a justiça social (…). O cristão deveria sentir-se sempre instigado por qualquer protesto contra o tratamento injusto em relação aos pobres.”

E prosseguia: “Marx levantou algumas questões fundamentais. Desde minha adolescência, eu tinha uma preocupação profunda com o abismo entre a riqueza supérflua e a pobreza abjeta, e minha leitura de Marx me tornou mais consciente desse abismo. (…) Além disso, Marx tinha revelado o perigo do motivo lucro como base única de um sistema econômico: o capitalismo corre sempre o perigo de inspirar os homens a se preocuparem mais em ganhar a vida do que em construir uma vida. Tendemos a avaliar o sucesso de acordo com nossos salários ou com o tamanho de nossos carros, e não pela qualidade de nosso serviço à humanidade e de nossa relação com ela.”

Todo o oposto do que a direita defende. Assim como o pacifismo de King é a antítese da defesa do armamento da população que fazem os que querem lucrar com camisetas trazendo sua efígie, na falta de ídolos bacanas para chamar de seus. O reverendo se inspirava em Gandhi. “A satisfação intelectual e moral que não conseguira obter do utilitarismo de Bentham e Mill, dos métodos revolucionários de Marx e Lenin, da teoria do contrato social de Hobbes, do otimismo da ‘volta à natureza’ de Rousseau, da filosofia do super-homem de Nietzsche, encontrei na filosofia da resistência não violenta de Gandhi.”

Martin Luther King conclui de suas leituras que não gosta do marxismo, mas tampouco do capitalismo. “Minha leitura de Marx também me convenceu de que a verdade não está nem no marxismo nem no capitalismo tradicional. (…) O capitalismo do século 19 não conseguiu ver que a vida é social e o marxismo não conseguiu, nem consegue ver, que a vida é individual e pessoal”.

Se vivesse hoje em dia, certamente o reverendo seria um eleitor de Bernie Sanders e de seu “socialismo democrático”, como antevê, escrevendo para sua futura esposa, Coretta, em 1952: “Eu sou muito mais socialista em minha teoria econômica do que capitalista. No entanto, não sou tão oposto ao capitalismo que não possa ver seus relativos méritos.”

Imaginem o que Martin Luther King diria ao ver seu rosto estampado em camisetas vendidas por um bando de reacionários brasileiros, comparado a um vereador negro que atenta contra a liberdade de pensamento nas escolas de São Paulo? Morreria de novo, de desgosto.

Pior é saber que tem trouxa que paga 50 reais numa porcaria dessas.

Leia mais em A Autobiografia de Martin Luther King, Clayborne Carson (org.), editora Zahar, 480 págs., R$69,90.

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Um ano depois, franceses voltam às ruas contra governo “socialista” e violência policial

Publicado em 3 de abril de 2017

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(Fotos: Manuca Ferreira)

Por Manuca Ferreira, de Paris*

O Nuit Debout (pronuncia-se “nuí debú”; em tradução literal, “de noite em pé”), movimento francês semelhante ao Occupy Wall Street e ao 15-M espanhol, encerrou no domingo, 2 de abril, com uma ocupação na Place de la République, em Paris, as comemorações de um ano de sua criação e das manifestações contrárias à nova lei trabalhista francesa. A lei, aprovada pelo governo do “socialista” François Hollande em julho de 2016, permite, entre outras medidas, a possibilidade de até 60 horas semanais de trabalho, em casos de emergência e após negociação com os sindicatos.

As alterações foram suficientes para uma série de manifestações contra o governo Hollande, que ganhou corpo após a criação do Nuit Debout, mas que arrefeceu após a aprovação da lei. A legislação foi aprovada com o desacordo de parte do Partido Socialista, partido de Hollande, após a utilização pelo governo de um artifício constitucional que desobrigou a votação no parlamento. O presidente da França (como pretende Michel Temer no Brasil) também ampliou o tempo de contribuição dos trabalhadores para se aposentar para 43 anos –Temer quer 49 anos de contribuição.

O Nuit Debout surgiu em 31 de março de 2016, após o diretor do documentário Merci, Patrón! (Obrigado, patrão!), François Ruffin, editor da revista Fakir, ter sugerido que a discussão sobre seu filme continuasse na praça da República, cenário de diversas manifestações na capital francesa, no meio de uma das mobilizações contra a lei trabalhista. As pessoas ocuparam o restante da noite e as que se seguiram, originando o movimento político anti-institucional francês.

Para os participantes do Nuit Debout, aquele mês de março não teve fim. Em vez de se referir a 1º de abril, eles começaram a chamá-lo, em vocabulário próprio, de 32 mars (32 de março), data em que as manifestações do Nuit Debout se espalharam para outras cidades francesas.

Merci, Patrón!

Em Merci, Patrón!, Ruffin critica um dos homens mais ricos da França, Bernard Arnault, diretor da LVMH, holding que atua em seis setores de atividade, e que tem a Louis Vuitton, a Christian Dior, a Sephora, a Tag Heuer, a Moët & Chandon entre suas marcas. O filme mostra, de forma irônica, Ruffin atuando como porta-voz de pessoas afetadas pelas transferências de unidades de produção do grupo para países que ofereçam maiores vantagens financeiras.

Após um ano de sua criação, os nuitdeboutistas voltaram à Praça da República, divididos em suas muitas frentes que propõem um novo mundo. Há o Nuit Debout feminista, o ecologista, a comissão pela Educação popular, de economia, de política… Desta maneira, o movimento que surgiu atrelado à luta contra a lei trabalhista reproduziu esta forma de organização que tem caracterizado os diversos movimentos ao redor do mundo, como o Occupy e o 15-M: especialização de temas, sem hierarquias, com uma forte rejeição às formas mais institucionalizadas de formas políticas, como sindicatos e partidos, com reuniões em que as pessoas sentadas no chão aprovam ou rejeitam o que está sendo dito agitando as mãos, em vez de aplausos e vaias, e com uma atuação forte nas redes sociais.

Há perfis e páginas do Nuit Debout no facebook, twitter, instagram (instagram), além de um canal no youtube, a TV Debout, grupos no telegram e o jornal online Gazette Debout. Um arsenal midiático para fazer frente à cobertura mais tradicional da imprensa francesa. Cópias impressas da Gazette Debout foram distribuídas na tarde de domingo e nelas o movimento se apresenta como “uma referência cultural, um estandarte que brande com orgulho”.

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Violência policial

Se, no seu início, o Nuit Debout fez ressoar as críticas à lei trabalhista, no domingo o movimento convergiu com uma grande manifestação da comunidade franco-chinesa contra o assassinato de Shaoyao Liu, chinês de 56 anos, pela polícia francesa em março, no 19º distrito de Paris, em circunstâncias ainda não esclarecidas. A polícia diz que foi atacada pelo chinês ao chegar à sua residência, mas a família nega a agressão.

Foram várias as pessoas que se alternaram nos microfones disponibilizados por integrantes do Nuit Debout, com críticas às autoridades policiais, que estavam presentes e chegaram a lançar bombas de gás lacrimogêneo, insuficientes para dispersar quem estava presente na République. O caso gerou um protesto oficial do governo chinês, que pediu proteção para seus cidadãos na França. A comunidade chinesa no país chega a 300 mil pessoas.

 

*PAGUE O AUTOR: Gostou da matéria? Contribua com o autor. Todas as doações para este post irão para o repórter Manuca Ferreira. Se você preferir, pode depositar direto na conta dele: Thiago Emanoel Ferreira dos Santos, Banco do Brasil, agência 2976-9, conta corrente 11934-2, CPF 019472405-01. Obrigada por colaborar com uma nova forma de fazer jornalismo no Brasil, sustentada pelos leitores.

 

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