“Bronca” uma ova: o que Silvio Santos fez com Sheherazade foi machismo e assédio moral

Publicado em 10 de abril de 2017
rachelsilvio

(Foto: divulgação)

Não suporto Rachel Sheherazade. Ideologicamente, estamos em campos opostos. Para mim, ela é uma das mais legítimas representantes da direita que mais desprezo: a que vocifera, baba de raiva, principalmente contra minorias, contra feministas e a esquerda em geral. Mas não posso me calar diante do que o apresentador Silvio Santos fez com ela no domingo, diante de milhões de espectadores do seu Troféu Imprensa. Mexeu com uma, mexeu com todas, mesmo. Não só com quem a gente gosta.

O apresentador, que à medida que fica mais velho tem assumido livremente seus preconceitos, como se a idade fosse lhe conceder salvo-conduto, humilhou Rachel para o Brasil inteiro ver. O “patrão”, como muita gente o trata no SBT, ordenou que ela não volte a fazer comentários políticos em sua emissora. “Mas quando você me chamou foi para dar a minha opinião”, disse uma constrangida Rachel, ao que o patrão retrucou com a mais machista das frases: “Não, eu te chamei para você continuar com sua beleza, com sua voz, para ler as notícias, e não dar sua opinião”.O apresentador ainda falou do noivo de Sheherazade: “Ele deixa você trabalhar na televisão? Você merece (o prêmio), e merece ficar quietinha. É melhor pensar no seu novo casamento”.

Não satisfeito, e aproveitando-se do fato de estar acima dela em termos hierárquicos, Silvio apelou para o assédio moral descarado: “Se quiser falar sobre política, compre uma estação de TV e faça por sua própria conta”. Ou seja, claramente ameaçou a moça de colocá-la no olho da rua se não se comportar como ele manda. Rachel, com medo de perder o emprego (o que também é compreensível, todo mundo tem filhos para sustentar), baixou a cabeça. Já a “bronca” no também boquirroto e reacionário Danilo Gentili foi muito mais suave: “Você não deve falar sobre política porque me complica”.

A imprensa comercial noticiou o caso brandamente, como se fosse apenas mais um acontecimento pitoresco na lista de anedotas do lendário apresentador: “Rachel leva bronca de Silvio”, “Silvio enquadra Rachel”, “Sheherazade leva chamada de Silvio”. Não foi. Pode ser que nem a jornalista tenha se dado conta, mas foi vítima do machismo de um apresentador que tem protagonizado cenas lamentáveis nos últimos tempos, como agarrar por trás mulheres da plateia de seu programa, fazer piada com o cabelo de uma criança negra ou chamar o filho do cantor Leonardo de “bichinha”. Quer dizer: ele pode, os empregados, não. E todo mundo passa a mão na cabeça de Silvio Santos por ser quem é, o apresentador-mito.

Rachel estava coberta de razão ao dizer que foi contratada para opinar. Em 2011, ela foi “descoberta” por Silvio Santos quando, numa afiliada da emissora na Paraíba, um vídeo seu criticando o carnaval bombou no youtube, com mais de um milhão de acessos. O próprio apresentador contou a Sheherazade que estava em Los Angeles quando viu o vídeo e imediatamente pediu para que ela fosse contratada. Em suma: Rachel foi mesmo contratada para dar opiniões como aquela, e estreou no SBT como âncora E comentarista.

Seus problemas começaram quando, em 2014, aplaudiu um grupo de justiceiros no Rio que tinham acorrentado um menor infrator a um poste. A rejeição à opinião de Rachel foi enorme, ao ponto de ela fazer um segundo comentário “esclarecendo” seu ponto de vista. O patrão, que sempre foi amigo dos governos, qualquer um, mostrou que não tinha a coragem para bancar o verbo da jornalista que aparentou ao contratá-la. Arregou. Desde então, Sheherazade virou uma leitora de notícias. Silvio a amordaçou. No Troféu Imprensa, o apresentador foi além e colocou-a “no seu devido lugar”: a moça paraibana cheia de opiniões foi reduzida por ele a apenas “uma moça bonita”.

Me parece absurdamente contraditório que gente de esquerda aplauda o que aconteceu ali por representar um “revide” pelos tantos ataques que sofremos dela. Está errado. Uma pessoa de esquerda nunca pode aplaudir que uma mulher seja “colocada em seu lugar” e julgada pelas aparências, nenhuma mulher. Uma pessoa de esquerda nunca pode aplaudir que uma trabalhadora seja alvo de assédio moral do patrão, nenhuma trabalhadora. Mesmo que Rachel Sheherazade não a queira, tem aqui a minha solidariedade.

 

 

 

 

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O golpe da “pluralidade” da Rede TV!

Publicado em 16 de maio de 2016

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No início de fevereiro deste ano, o superintendente de jornalismo da Rede TV!, Franz Vacek, entrou em contato comigo para me convidar para ser comentarista política no telejornal da casa, o Rede TV! News. A ideia, segundo me disse, era ter “pluralidade” no telejornalismo da emissora, e por isso eu estava sendo convidada, como uma jornalista que tem um pensamento de esquerda, para servir de contraponto às opiniões do blogueiro reacionário Reinaldo Azevedo, que também iria estrear no telejornal.

Poucos dias depois, Vacek me enviou por email a cópia do contrato, que previa aparições diárias no telejornal, com liberdade total de temas de minha parte. Achei a proposta interessante, porque me proporcionaria atingir um público, das classes C, D e E, que não tem tanto acesso à internet e sim à TV aberta.

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No dia 22 de fevereiro, a secretária de Vacek  me enviou as passagens aéreas para que eu me deslocasse de Brasília até São Paulo, onde teria um almoço com o presidente da Rede TV!, Amilcare Dallevo, e assinaria o contrato.

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No dia 25 de fevereiro embarquei para São Paulo. Um motorista da Rede TV! me apanhou no aeroporto de Congonhas e me levou até a sede da emissora, em Osasco. Almocei com Dallevo e Vacek, que ratificaram que eu teria total liberdade de comentar o que quisesse no telejornal da emissora, em contraponto ao reaça Azevedo. “Nós queremos pluralidade em nosso telejornalismo”, me disse pessoalmente o presidente da Rede TV!. Fiz fotos em frente à bancada do telejornal e assinei o contrato, com validade a partir de 1 de março. Voei de volta para Brasília, onde moro.

Aguardei até que a emissora se pronunciasse oficialmente, para só então publicar no blog a notícia de que eu estrearia na TV aberta como comentarista. O post que publiquei saiu no mesmo dia que a nota da emissora em seu site oficial. Portais jornalísticos como o Comunique-se e o Portal Imprensa também deram a notícia da contratação.

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portalimprensa

Para minha surpresa, porém, dias mais tarde, a matéria sumiu do site da Rede TV!. Decidi aguardar. Vacek entrou em contato comigo apenas um mês depois, para dizer que eu precisava aguardar ainda um pouco mais. A matéria voltou a aparecer no site da emissora.

Enquanto isso, Reinaldo Azevedo estreava sozinho como comentarista do Rede TV! News, expondo suas ideias de direita sem nenhum contraponto, como está fazendo até hoje. A “pluralidade” da Rede TV! foi apenas um golpe de marketing. Ou será que alguém, sentindo-se ameaçado por mim, vetou o meu nome? Não sei.

Três meses se passaram e o superintendente de jornalismo da Rede TV! nunca mais fez contato. E a matéria sobre a minha contratação voltou a desaparecer do site. Não ficou nem o “cache”.

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Escrevo isso apenas para dar satisfação aos meus leitores e seguidores, que têm perguntado o que aconteceu. Faz parte da política de transparência do blog mantê-los informados sobre tudo que ocorre em relação a ele. Mas sempre tendo a achar que há males que vêm para bem: nos últimos dias, foi noticiado que a Rede TV! se uniu a Silvio Santos e a Edir Macedo para produzir conteúdo em parceria. E não me interessa trabalhar para a Igreja Universal.

Estou estudando com meu advogado entrar com uma ação por danos morais contra a Rede TV!. Continuarei informando os desdobramentos a vocês com toda a transparência.

 

 

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Por que mulher “adora” novela? Masoquismo?

Publicado em 7 de maio de 2015
babilonia

(Regina e Beatriz vão às vias de fato em Babilônia)

Dizem que mulher adora novela. Eu não sei, porque não assisto. Não tenho paciência de ver uma coisa seriada, que tem de ver todo dia. Mas não tenho preconceito com o gênero em si. Já tivemos novelas incríveis, o que não acho que seja o caso dos últimos dez anos, com honrosas exceções. Me parece que os autores estão exauridos e se repetem, repetem, repetem… Quando por casualidade vejo trechos de novelas, reconheço tramas de outras que já vi e de filmes que assisti. Como dizia Chacrinha: “em TV nada se cria, tudo se copia”.

Me incomoda particularmente um truque para alavancar audiência utilizado em absolutamente todas as últimas novelas das nove globais: o momento em que mocinhas e vilãs saem na mão. “Piranha!” “Vagabunda!” “Vadia!” “Prostituta!” Os xingamentos são sempre os mesmos e os mais machistas possíveis. Na tela, duas mulheres se engalfinham, puxam o cabelo e, de preferência, rolam no chão. Diante da TV, o espectador vibra: “É isso aí! Bate mesmo nessa vagabunda que ela merece!” A razão é quase sempre a mesma: disputa por homens.

Me parece tão deprimente, enquanto mulher, que nos agredirmos umas às outras em rede nacional aumente a audiência de um programa. Caiu o Ibope? Bota mulher para se xingar e se agredir que sobe. Mal começou e Babilônia, patinando no Ibope, já teve três cenas de mulheres se estapeando.  Se tem uma coisa que me incomoda é essa ideia de que mulheres são inimigas, invejosas e estão loucas para roubar o homem umas das outras. O arquétipo da “megera” é um clássico, mas acho tão datado e repetitivo… Como se não tivéssemos muito mais o que fazer na vida.

Minhas amigas noveleiras que me perdoem, mas não entendo porque mulher gosta de novela. Mesmo a mais bela das atrizes sempre aparece nelas de maneira subalterna: ou é a boazinha, indefesa e vítima (a vingativa surradora do futuro); ou é a egoísta, invejosa, mau caráter e psicopata. Os homens, por mais cafajestes que sejam, são os coitadinhos por quem elas se digladiam. Tem novela onde o mesmo homem (muitas vezes um galã da terceira idade) é disputado por umas cinco beldades diferentes, da jovenzinha à loba.

A novela global faz muito mal à autoestima feminina. E, no entanto, tudo que as mulheres das novelas usam vira moda: as roupas, os acessórios, os cabelos… Já os homens saem muito bem na foto. Charmosos, sedutores, bem-sucedidos e disputados por mulheres a tapa, mesmo quando são os vilões da trama. E ainda tem “cat fight”, um clássico do fetiche masculino!

Quem deveria adorar novela é o homem.

Assista a seguir: 14 cenas de mulher surrando mulher nas últimas oito novelas das nove da Globo.

 

 

1. Insensato coração, de Gilberto Braga e Ricardo Linhares

2. Fina Estampa, de Aguinaldo Silva

3. Avenida Brasil, de João Emanuel Carneiro

4. Salve Jorge, de Glória Perez

5. Amor à Vida, de Walcyr Carrasco

6. Em Família, de Manoel Carlos

7. Império, de Aguinaldo Silva

8. Babilônia, de Gilberto Braga e Ricardo Linhares

 

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