Os dez livros que abalaram o mundo

Publicado em 6 de junho de 2017
(Pôster do filme Outubro, de Sergei Eisenstein, 1927)

(Pôster de Yakov Ruklevsky para o filme Outubro, de Sergei Eisenstein, 1927)

Por Luiz Philippe Torelli*

No hoje longínquo e lendário ano de 1968, Nelson Rockfeller, herdeiro de uma das mais ricas e predadoras famílias do mundo, veio ao Brasil em uma das clássicas visitas de “boa vizinhança” à ditadura militar. Os ventos da revolta já estavam assanhando corações e mentes.

A guerra do Vietnã exibia a escalada de violência americana, despejando mais bombas do que em toda a Segunda Guerra Mundial. Os estudantes franceses convulsionavam o país e traziam consigo os operários. Naqueles dias, dois livros caíram em minhas mãos: Meu Amigo Che, de Ricardo Rojo, e O Manifesto Comunista, de Marx e Engels. A fracassada aventura do Che em terras bolivianas e a luta de classes atearam, literalmente, fogo em minhas ideias.

amigoche

manifestoboitempo

Dias antes da chegada do magnata americano, fui ao banheiro da escola e havia um pequeno cartaz com os seguintes dizeres: “Rockfeller vem aí. Pau nele!”. Nos dias seguintes, houve protestos e passeatas por todo o país. Nossa antes movimentada e algo feérica W3 (avenida de Brasília) era o palco das batalhas campais com a polícia. O ano de 1968, todos sabem como terminou: edição do AI-5, acirramento da ditadura, fechamento do Congresso, prisões, tortura e morte.

A curiosidade despertada pela leitura é um novelo inesgotável, um livro puxa o outro. Nessa fiada, vieram A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, de Engels, e Eros e Civilização, de Herbert Marcuse. O primeiro, para mim, à época, tal qual o Manifesto Comunista, explicava tudo. Era a chave para o entendimento do mundo. O segundo, uma mistura explosiva de sexo, psicanálise, filosofia e marxismo, abria portas até então lacradas para um “calango” de Brasília. Era o mundo da chamada contracultura.

origemengels

erosmarcuse

A entrada na Universidade multiplicou as leituras e interesses. Mas já havia uma “picada aberta” por onde vieram As Três Fontes e as Três Partes Constitutivas do Marxismo, de Lênin, dissecando as principais influências do pensamento socialista: o socialismo utópico francês, que mais tarde pude estudar com detalhes nas aulas de Teoria da História da Arquitetura e do Urbanismo; a filosofia alemã, especialmente Hegel; e a economia política britânica de Ricardo e Adam Smith. O Contrato Social, de Rousseau, foi muito importante para um posicionamento na linha do tempo e para a percepção dos conflitos entre os direitos individuais e os coletivos e do quanto injusta era a nossa sociedade. Deu para ver também que o caminho era mais longo e conflituoso do que eu pensava.

tresfontes

contratorousseau

Fui brevemente seduzido pelas ideias anarquistas, ao ler Anarquismo: Roteiro da Libertação Social, de Edgard Leuenroth, tipógrafo revolucionário que liderou as primeiras greves proletárias no Brasil. Um dos maiores centros de documentação dos movimentos operários, localizado na Universidade de Campinas (Unicamp), leva seu nome, em homenagem a sua dedicação e pioneirismo. Por esse tempo, também tive um flerte prolongado com o trotskismo. A História da Revolução Russa, uma monumental resenha crítica daqueles dias de outubro de 1917, narrada na terceira pessoa, tornou Leon Trotsky alvo da minha admiração permanente, revivida recentemente com a leitura de O Homem que Amava os Cachorros, de Leonardo Padura. A descrição da tomada do Palácio de Inverno pelos revolucionários, depois retratada por Sergei Eisenstein, é inesquecível. Além disso, a Libelu –tendência trotkista do movimento estudantil nos anos 1970– tinha festas ótimas, onde as socialistas eram mais bonitas.

anarquismoedgard

historialeon

Rumo à Estação Finlândia, do crítico americano Edmund Wilson, embora demasiado objetiva e algo desapaixonada, é uma obra essencial para quem quer estudar a História do Socialismo. Rigorosa e bem construída, ajuda a entender afinal o que é materialismo histórico e materialismo dialético. De Babeuf, revolucionário 45 francês guilhotinado pelo Diretório, passando por Saint-Simon, Fourier, Proudhon, Marx, finalmente chegando ao desembarque de Lênin em São Petesburgo e à Revolução Russa, a leitura desse livro foi fundamental para entender o encadeamento das ideias socialistas e como se chegou a 1917. Embora escrito no início dos anos 1940, também anunciou as origens da desagregação do socialismo “real” que ocorreria cinquenta anos depois.

rumowilson

Fecho esta crônica, escrita mais pela saudade do tempo em que fiz essas leituras do que qualquer outra coisa, com um dos livros mais emocionantes de todos os tempos: os Dez Dias Que Abalaram o Mundo. A epopeia do jornalista e revolucionário John Reed através da Rússia, até chegar ao epicentro da revolução comandada por Lênin, não é só uma grande obra de história e literatura, mas sobretudo uma aventura existencial e filosófica. Se tiverem que escolher um dos livros que citei para ler, escolham os Dez Dias… Vocês não se arrependerão.

dezdias

Caros leitores, não pensem que sou um revolucionário ou algo do gênero. Embora as ideias da juventude continuem vivas em um avô que já começou a “subir a montanha” à procura de uma visão panorâmica que ajude a entender a vida e o passar célere do tempo. Penso como Camus: “Feliz é quem foi jovem em sua juventude e feliz quem foi sábio (pretensão) em sua velhice”.

Confesso que tenho saudade de um tempo em que alguns faróis ideológicos nos eximiam da angústia das escolhas e eliminavam nossa perplexidade. Mas, ao mesmo tempo, me sinto desapegado para pensar a esmo e valorizar minha experiência. Parafraseando Ítalo Calvino, acho que trouxemos para o século XXI muitas coisas que deveríamos ter deixado no passado, a crença em um progresso perpétuo, consumo, guerra, preconceitos étnicos e religiosos, exclusão e pobreza.

* Luiz Philippe Torelly é arquiteto. Trecho do livro Memória e Patrimônio: Crônicas e Outros Escritos, Verbena Editora, 168 págs., 35 reais.

memoriatorelly

 

Publicado em

Em Blog

0 Comente

Trump encontra clone de Gorbachev (e outras histórias de sua longa relação com a Rússia)

Publicado em 17 de maio de 2017
(O falso Gorbachev e Trump, atrás)

(O falso Gorbachev e Trump, atrás)

A revista de esquerda norte-americana Mother Jones publicou em março o histórico completo do longo relacionamento do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com a Rússia, antes e depois do fim da União Soviética. A parte mais engraçada, sem dúvida, foi o encontro entre Trump e um falso Mikhail Gorbachev em Nova York em 1988.

Trump só conheceria o verdadeiro Gorbachev no dia seguinte, convidado pelo presidente Ronald Reagan para uma recepção na Casa Branca onde o último líder soviético era homenageado.

(Trump cumprimenta o verdadeiro Gorbachev. Foto: Doug Mills)

(Trump cumprimenta o verdadeiro Gorbachev. Foto: Doug Mills)

E a timeline publicada pela Mother Jones sobre a relação de Trump com os russos não pára de crescer desde que o The Washington Post publicou, na segunda-feira, 15 de maio, que o presidente dos EUA revelou informações altamente confidenciais ao embaixador russo e ao ministro das Relações Exteriores de Vladimir Putin. O próprio Trump defendeu seu direito de compartilhar informações “sobre o terrorismo” com a Rússia.

Na terça-feira, 16 de maio, o New York Times acusou Trump de ter pedido ao diretor do FBI, James Comey, que encerrasse uma investigação sobre a suposta ligação de Michael Flynn, ex-assessor de Segurança Nacional, com a Rússia. Comey foi demitido na semana passada. Agora, Trump está sendo acusado de obstrução de justiça e pode sofrer um processo de impeachment.

Leia abaixo um resumo do histórico do relacionamento de Trump com a Rússia. O original da Mother Jones você pode ler aqui, vale a pena.

1. 1986: aos 40 anos e já um executivo de sucesso, Donald Trump e o embaixador russo conversam sobre a possibilidade de o norte-americano construir um hotel de luxo em frente ao Kremlin em parceria com o governo soviético.

2. Janeiro de 1987: Intourist, a agência estatal de turismo soviética, manifesta interesse em conhecer Trump.

3. Julho de 1987: Trump e sua então esposa, Ivana, viajam a Moscou, onde tem encontros com membros do governo soviético no Politburo.

4. 1 de dezembro de 1988: a missão soviética nas Nações Unidas comunica o interesse oficial do líder Mikhail Gorbachev de conhecer a Trump Tower em sua visita a Nova York.

5. 7 de dezembro de 1988: Trump cumprimenta um clone de Gorbachev e lhe dá as boas-vindas a Nova York pensando que fosse o líder soviético.

6. 8 de dezembro de 1988: Trump encontra o verdadeiro Gorbachev na Casa Branca.

7. 5 de novembro de 1996: sai na imprensa que Trump procura parceiros para um hotel em Moscou.

8. 23 de janeiro de 1997: Trump se encontra com o general reformado Alexander Lebed, candidato à presidência da Rússia, na Trump Tower. Eles planejam fazer algo grande na Rússia, e Lebed brinca que um arranha-céu mais alto que o Kremlin seria impossível, porque não se poderia permitir que alguém no alto do edifício cuspisse no palácio. Lebed ficou em terceiro na eleição.

9. 2005: Trump continua planejando erguer um hotel em Moscou.

10. 22 de novembro de 2007: Trump lança a sua própria marca de vodca na Rússia durante a “Feira de Milionários de Moscou”. No comercial de lançamento, aparecem Trump, tigres, o Kremlin e… Lenin.

11. 19 de junho de 2013: Trump, detentor dos direitos do miss Universo, anuncia que o concurso será transmitido ao vivo de Moscou.

Ele inclusive se pergunta se Putin irá assistir ao concurso e se tornará, assim, seu melhor amigo.

12. 17 de outubro de 2013: Em entrevista a David Letterman, Trump diz que fez vários negócios com os russos e encontrou Putin pessoalmente. Em várias oportunidades mais tarde Trump se gabaria de ter encontrado Putin e membros de seu governo pessoalmente.

13. 2015: Trump é candidato a presidente, com direito a elogios de Putin, e começa o disse-me-disse sobre sua aproximação com a Rússia.

14. 22 de julho de 2016: O Wikileaks vaza emails de Hillary Clinton que prejudicam sua imagem e beneficiam Trump. A entidade é acusada pela campanha democrata de ter recebido a informação do governo russo.

15. 10 de janeiro de 2017: a imprensa norte-americana revela a existência de um dossiê feito pelos russos sobre o presidente eleito Trump, que teria participado de orgias com prostitutas com direito a “chuva dourada”. Trump grita: “fake news!”

16. maio de 2017: O agora presidente Donald Trump continua jurando que a história de sua relação com a Rússia é uma invenção.

Continua…

 

 

 

 

Publicado em

Em Blog

0 Comente

Imperdível: exposição, filmes e seminário sobre os 100 anos da Revolução Russa no Rio

Publicado em 10 de maio de 2017

6_baixa

O Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFRJ está promovendo até julho a exposição A Revolução em Imagens, com cerca de 30 fotografias e cartazes impressos, além de outras 50 em mídias audiovisuais, sobre a Revolução Russa de 1917. Também haverá dois seminários, nos dias 7 e 21 de junho, com a presença de professores, pesquisadores e especialistas como Anita Leocádia Prestes, Mauro Iasi, Graziela Schneider, José Paulo Neto, Juliano Medeiros, Carlos Eduardo Martins, Luiz Eduardo Mota e Carlos Serrano Ferreira, entre outros.

exporevo

Neste post, você pode conferir alguns dos cartazes exibidos, bem ao estilo soviético.

18_baixa

Todas as Quartas Vermelhas acontecem sessões de filmes sobre a Revolução Russa, com a exibição de clássicos como Outubro e Encouraçado Potemkin, de Serguei Eisenstein, seguidas de debates. Nesta quarta-feira, dia 10 de maio, será exibido o filme Caparaó, de Flávio Frederico, seguido de um debate com a presença do sargento Daltro Jacques Dornellas (ex-guerrilheiro na Serra do Caparaó, exilado político e ex-deputado federal); Esther Kuperman, doutora em História e professora de História do Colégio Pedro II. A mediação será do professor Ivan Capeller, da Escola de Comunicação (ECO) da UFRJ.

5_2_baixa

Serão realizadas visitas guiadas com estudantes da rede estadual nos períodos da manhã e da tarde. Programação completa aqui.

exporevo2

Exposição: A Revolução em Imagens

Quando: de 3 de maio a 28 de julho

Onde: Campus Universitário da Praia Vermelha da UFRJ

revocartaz

Publicado em

Em Blog

0 Comente