“Mito” do amor romântico? Tô dentro

Publicado em 26 de maio de 2017
(O Beijo, de Gustav Klimt)

(O Beijo, de Gustav Klimt)

De uns tempos para cá, virou moda falar mal do amor romântico. Coloca-se na fatura do “mito” do amor romântico muitas das frustrações, sofrimentos e angústias dos seres humanos. Dizem que se não déssemos tanta importância ao amor romântico evitaríamos tais frustrações, sentimentos e angústias. Será? Ou será que as frustrações, sofrimentos e angústias fazem parte da vida e tentar “evitá-los” nos faria viver como autômatos, fugindo dos riscos?

Sim, amar é arriscado. Eu tenho um amigo que diz que toda vez que pretende entrar num novo relacionamento precisa começar a malhar. Não para ficar atraente, bonitão, mas porque amar dá um trabalho danado e ele quer se preparar fisicamente para enfrentar a “batalha”. Faz sentido. Apaixonar-se por alguém é uma explosão hormonal, sensorial, uma extravagância de emoções desencontradas. Amar é como correr uma maratona pelado, é gostoso para caralho, mas você vai se esfalfar, suar, e pode levar umas boas quedas no caminho.

Sou uma romântica incorruptível. Desde que me entendo por gente, se eu não tivesse um amor, inventava um. Me lembro que quando tinha 15 anos e escrevia poemas num caderninho vermelho, morri de amores pelo primo de uma amiga. Ela me contava como ele era, meio parecido com Castro Alves, cabelo desalinhado, oclinhos, um certo ar sexy de desalento. Passei uns bons meses imaginando o dia que eu o veria, coisa que nunca aconteceu. Mas, durante aquele tempo, era como se tivesse um parceiro dentro de mim, me acompanhando naqueles anos difíceis da adolescência.

O que seria dos poetas, aliás, se não fosse o amor romântico? Quantas cartas de amor ridículas teriam morrido antes da tinta tocar o papel? Ai, meu Fernandinho Pessoa, ele não existiria! As canções de amor… E o cinema, então? Ficaríamos livres das comédias românticas, é verdade, mas ora pipocas, elas também nos divertem. Os detratores do amor romântico culpam estas obras por criar em nós a ilusão de que podemos encontrar alguém com quem compartilhar esta vida, e que esta ilusão não é nada além de uma ilusão. Puxa, mas e se essa ilusão nos alimenta? Se é ela, afinal, que nos mantém vivo?

O problema, para mim, não está em romantizar o amor, e sim em idealizá-lo em fórmulas: tem que ser entre homem e mulher, tem que ser pelo casamento, tem que ser para sempre. Sendo que a única regra que pode valer num verdadeiro amor romântico é a existência de… romance. Fazer daquele jeito que alguns diriam “antigo”,  eu digo “fazer direitinho”: ser gentil, fazer pequenos agrados cotidianos, surpreender. Nada disso envolve necessariamente dinheiro ou truques do comércio, e sim fazer valer a pena ficar junto, ou então não vale a pena ficar junto. Para quê, gente?

Mais que achar o “homem ideal” ou a “mulher ideal” que os críticos do amor romântico dizem que buscamos, o que na verdade um romântico amoroso deseja é alguém que esteja a fim de investir na mesma viagem que ele. É tipo um “barato” que se sente junto, uma “onda” a dois. Já o “para sempre”, hoje em dia (que ninguém mais é obrigado), virou quase uma mega-sena. O tempo, na verdade, é o que menos importa, já dizia o poeta. E Vinicius de Moraes sem o amor romântico, hein? Pelamor.

Também ao contrário do que dizem de nós, românticos amorosos, não condicionamos a felicidade à presença de alguém do lado, nada disso. Só quem não tem um mundo interior vasto teme a solidão. Ser solteiro é tão bom quanto estar casado, e tão ruim quanto. Às vezes é só uma pausa, um intervalo entre amores, sem pressa. Tempo de estio. O que a gente curte, no fundo, é amar o amor.

Fico pensando qual seria a graça de viver sem pensar que tem alguém neste mundão por quem a gente possa se apaixonar e amar. Só de imaginar que isso pode acontecer já enche o coração de palpitações, é tão gostoso, aquece por dentro. O mundo já é solitário demais, individualista demais, pra gente querer matar o amor romântico –ou o desejo de que ele aconteça, como um pequeno milagre. I believe in miracle.

Se vai doer, se vai trazer frustração, se vamos nos machucar… E o quê na vida não nos causa tudo isso, e sem as delícias que o amor traz?

P.S. : Se você também é um romântico assumido, não deixe de assistir Paterson, de Jim Jarmusch.

 

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Coisas que tenho aprendido sobre o tempo

Publicado em 9 de junho de 2016
rachelmaos

(As mãos de Rachel de Queiroz por Eder Chiodetto)

A primeira coisa que eu descobri é que o tempo é igual ao joelho. Com sorte, você não vai se lembrar dele até os 40 anos, mais ou menos. Durante a infância e a juventude, o tempo e o joelho são indolores. Como o joelho, a gente só sente o tempo quando começa a doer.

Tenho 49 anos e nunca tinha me preocupado com a passagem do tempo antes. Quando a gente é criança ou adolescente não fica olhando para trás, né? A gente vive, simplesmente, às vezes ligado no futuro, mas totalmente desligado do passado – a não ser por traumas, raramente por nostalgia. Depois dos 40 é que o tempo passa a ser uma questão.

Dentro da gente, o tempo do tempo é outro e cada um tem o seu. Tanto é que é mais fácil enxergar que o tempo passou no outro do que na gente mesmo. Por dentro, é possível ter 20 anos para sempre ou ser sexagenário aos 17. O tempo de fora só encontra com o de dentro quando morre alguém que a gente ama.

A saudade é diretamente proporcional ao tempo: quanto mais tempo a gente vive, mais saudade a gente sente. Viver mais é superar o desafio de conviver diariamente com a ausência dos seres queridos.

Mesmo que, por dentro, o tempo só passe se a gente quiser, inevitavelmente a infância fica cada vez mais longínqua. Não temo as rugas, os cabelos brancos algum dia assumirei, mas pensar que poderei, no final dos dias, não recordar minha infância me apavora.

O tempo, ao contrário da crença geral, não faz todo mundo ficar mais sábio e sim mais verdadeiro consigo mesmo. Acho que a “sabedoria” surge justamente daí, de se dar o direito de ser o mais verdadeiro consigo mesmo possível.

A juventude passa lentamente e a idade madura passa rápido. Mas quando a gente chega à idade madura tem a sensação de que tudo passou rápido, e rápido demais. Aquela sensação de “parece que foi ontem” é constante.

O tempo é muito relativo e pessoal. Tem gente que pensa em envelhecer para se aposentar. E tem gente que só enxerga a velhice trabalhando. Eu sou assim.

Num mundo ideal, a aposentadoria não deveria ser por idade, mas de acordo com o pique de cada um. Eu, por exemplo, gostaria de ter estado “aposentada” até os 30 e ter começado a trabalhar a partir daí. Agora estou a mil e não penso em parar tão cedo. Sinto que, em movimento, o tempo faz o cérebro da gente ficar mais e mais afiado. E que, parado, ele perde o fio.

O bom do tempo é quando ele é sinônimo de aprendizado, e isso não tem tempo para acabar.

 

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Nise, o gato e eu. Por José Carlos Peliano

Publicado em 8 de abril de 2016
(Nise da Silveira. Foto: Sebastião Barbosa)

(A psiquiatra Nise da Silveira. Foto: Sebastião Barbosa)

O economista José Carlos Peliano conta com exclusividade para o blog sobre sua amizade com a psiquiatra alagoana Nise da Silveira (1905-1999), que passou à história por se rebelar contra as “terapias” agressivas que eram utilizadas para “tratar” pessoas com distúrbios mentais: eletrochoques, camisa de força, isolamento. “Isto é tortura”, denunciou Nise, que partiu para abordagens alternativas, como a terapia ocupacional e a arte.

Os ateliês de pintura e modelagem fizeram com que muitos artistas fossem descobertos entre os “loucos” que eram tratados por ela no Centro Psiquiátrico do Hospital Pedro II, no Rio de Janeiro. No final da década de 1940, grandes exposições de arte apresentaram ao país nomes descobertos nos ateliês, como o do pintor Emygdio de Barros (1895-1986). A pioneira Nise, única mulher em sua turma de 157 formandos da Faculdade de Medicina da Bahia em 1926, foi a grande inspiradora do movimento antimanicomial e da reforma psiquiátrica.

Além das artes, Nise da Silveira também introduziu cães e gatos na vida de seus pacientes, para que se apegassem a eles, criando um elo com o mundo real. “Observei que os resultados terapêuticos das relações afetivas entre o animal e o doente eram excelentes. Mas era difícil que essa idéia tivesse campo para desenvolver-se. No Brasil a aproximação entre doente e animal, infelizmente, ainda não era cultivada. Amigos distantes foram solidários: Boris Levinson, psicanalista americano, comentou por carta: ‘Sem dúvida, para muitos desses doentes, os animais eram a sua única linha de vida para a saúde mental'”, escreveu Nise no livro Gatos, A Emoção de Lidar, dedicado ao último dos seus bichanos, Carlinhos (em homenagem a Carl Jung) e atualmente fora de catálogo. Uma pena.

Ela dizia que os gatos são “excelentes companheiros de estudos, amam o silêncio e cultivam a concentração” e admirava a independência dos felinos, sempre ronronando ao seu redor no escritório. “Cultivo muito a independência. Por isso gosto do gato. Muita gente não gosta pela liberdade de que ele precisa para viver. No circo você vê tigre e urso, mas não vê um gato. O gato é altivo, e o ser humano não gosta de quem é altivo.” Em 1934, durante o governo Getúlio Vargas, Nise da Silveira chegou a ser presa durante 15 meses, acusada de comunismo, e ficaria oito anos na clandestinidade.

Neste post, além do texto de Peliano e fac-símiles de duas cartas enviadas por Nise da Silveira ao amigo, algumas fotos da psiquiatra com os gatos que tanto amava (se vocês souberem os autores de todas, me ajudem a identificar). Boa leitura.

***

Encontros com Nise
Por José Carlos Peliano

Segui o que queria e ganhei o que alumia. Foi desse jeito que cheguei a Nise da Silveira e dela fiquei amigo por alguns anos de encontros, aprendizados e encantamentos.

Meados dos anos 1980 até fins dos 1990. Vivia meus saudosos 30 e 40 anos. Trabalhava no IPEA na área social, que cuidava do mercado de trabalho. Em 1992 defenderia minha tese de doutorado em economia pela Unicamp/Campinas.

Conheci primeiro o marido de Nise, Mário Magalhães da Silveira, de fato seu primo, médico sanitarista, vigoroso marxista, humanista de primeira hora. Com ele aprofundei meus conhecimentos do marxismo, história da humanidade e importância da relação entre o ser humano e o ter humano.

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(Foto: Sebastião Barbosa)

Fui pela primeira vez à casa de Mário na rua Marquês de Abranches no Rio de Janeiro, perto do Largo do Machado, a seu convite, para estar mais uma vez com ele, jogar conversa fora ou dentro, dependendo do assunto. Ao lhe perguntar como ia passando, ele respondeu “atravessando”.

Pois atravessamos oceanos, países, regimes políticos, sistemas econômicos, desde a perspectiva marxista, abrangente, histórica, materialista. Aprendi tanto com ele quanto com meu curso de doutorado na Unicamp em 1982/83, guardadas evidentemente as justas proporções. Sua visão ainda clareia as alamedas por onde atravesso diariamente minhas perguntas e respostas.

Numa dessas visitas a sua casa eis que surge Nise, pequenina em tamanho, imensa em presença. Apresentados por ele, exibi meus parcos conhecimentos de psicologia, matéria que sempre me interessou. Ele se ausentava quando ela começava a abordar o tema. Ou não gostava ou não devia se sentir confortável. Não sei se era assim, mas a mim parecia, pois nunca lhe perguntei.

Sempre que chegava ao Rio fazia o que tinha de fazer e ia para a casa deles. Não, melhor dizendo, dela, porque, de repente, a partir da apresentação, ficava conversando mais com ela -ou só com ela, a depender da ocasião. Para mim, era uma apoteose, estar com uma gigante da psicologia analítica, mais escutando e aprendendo do que dando opiniões ou palpites.

A pequena grande mulher me tomou pelo afeto, desprendido, generoso e disponível, embora fosse direta, objetiva, sem rodeios. Ela sempre me teve como amigo de coração, conforme a dedicatória feita em seu livro Imagens do Inconsciente estampa para a minha vida afora: “Ao querido amigo Peliano sempre bem perto do coração”, em 13 de janeiro de 1983.

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Marx combina com Jung? Um marxista junguiano ou um junguiano marxista? Sim, mais ou menos isso. E se encaixa bem. Seja nas contradições da ordem capitalista, seja nos eventos numinosos do marxismo. O fato é que é uma combinação saudável de vida e trabalho. Principalmente a maneira de ver e ir desvelando o segredo da vida.

Minha amizade com ela era e foi uma imensa bênção espalhada em pelo menos quatro grande momentos distintos. Resumirei brevemente sem sequenciar em ordem datada. Encontros tidos sempre em seu apartamento do segundo andar ou em seu escritório logo acima no terceiro andar, o gatil, onde moravam seus gatos prediletos, segundo ela, amigos e conselheiros.

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Depois de algum tempo e vários encontros, um dia ela me perguntou se eu não gostaria de ficar no Rio trabalhando com ela e aprendendo a lidar com os meandros da psicologia analítica. Não só na Casa das Palmeiras e no Museu de Imagens do Inconsciente, mas também nas aulas por ela ministradas aos seus alunos no escritório do terceiro andar.

Emoção como essa nunca me bateu tão forte, querida e tentadora, na área vocacional ou profissional. Abracei-a emocionado, agradeci-lhe imensamente, mas não lhe respondi na hora. Ela sabia de minhas dificuldades e não me pressionou. Disse-me que pensasse com calma.

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Eu poderia ser hoje um psicólogo analítico junguiano. Poderia. Não aceitei, lamentavelmente, o maravilhoso convite porque, recém-separado, cabia-me dar uma pensão para minha filha e não poderia ficar sem o trabalho que tinha fora do Rio. Busquei alternativas, mas nada consegui. Perdi o bonde, mas não a esperança.

Por conta desse acontecimento dediquei a ela um poema feito em 1985, Estrela Guia, como agradecimento, admiração e encantamento:

estrela, estrela guia
estrela que me alumia
tem a mim como aprendiz


curva-se a sua guia
o universo que se cria
milhões de anos luz feliz

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Uma outra vez, às voltas com meu processo de individuação, sem saber como coordenar as coisas dentro e ao meu redor, falei com ela sobre isso. Calma e mansamente, ela me olhava dentro dos olhos procurando uma guia. Foi, então, que me disse para eu deixar de levar a vida só nos pensamentos. Mais ou menos assim: “deixe a mente de lado, siga em frente, toque nas coisas, faça sempre algo com as mãos, construa seu lado de dentro pelo lado de fora”.

Não sei se foi o que ela me disse ou se sua forte presença, mesmo à distância, o fato foi que aos poucos as coisas começaram a se encaixar, a tomarem outras formas, a me deixarem liberto. Na época, construía minha casa e passei a ajudar os pedreiros, carpinteiros e pintores. As mãos de minha casa me acolheram e me puseram em pé.

Uma terceira vez, enquanto ela me jogava o I Ching (quando conheci o oráculo), um de seus gatos prediletos pulou em meu colo e ficou amassando pão, como fazem. Ela se encantou e comentou: “não se mexa, não tire-o do colo, o gato só vem a você se ele percebe seus sentimentos. Ele gostou de você”.

Durante todo o tempo em que estive com ela aquele dia, o gato permaneceu comigo, ronronando. O resultado do oráculo foi igualmente surpreendente, deu o hexagrama número 1, as 6 linhas inteiras, chamado O Criativo. A mensagem fundamental é “o criativo opera sublime sucesso, amplia-se pela perseverança”. Pensativa, ela adicionou: “pode ter sido o gato que influenciou o I Ching ou este ao gato, mas é ainda possível que os dois se juntaram aqui por você”.

(Foto: Nilton Claudino/CorreioBraziliense)

De fato, o oráculo foi consultado por conta de um sonho que tive, onde caixas coloridas de vários tamanhos se movimentavam sozinhas em minha direção. Eu, menino, me assustava de medo até que uma mulher me dizia: “por que você vê as coisas pelo lado errado?”. Nise disse que o oráculo me apontava abrir as caixas que me chegassem na vida sem temor. Devia sempre crer para ver para só então ver para crer.

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A última vez foi dias antes de sua despedida desta vida. Fiquei pouco tempo com ela, no quarto, em cadeira de rodas, ela bem abatida, mal falou. De tempos em tempos, no entanto, me olhava profundamente como fizera outras vezes e apenas pronunciava meu nome: Peliano. Um agradecimento, um lamento, um acolhimento, uma exclamação, um adeus?

Pois eu agradeço incansavelmente sua amizade, lamento irreparavelmente sua perda, exclamo abertamente sua sabedoria, mas não lhe aceno um adeus por ela estar sempre comigo, em imagens e no inconsciente.

***

Vai estrear agora uma cinebio dirigida por Roberto Berliner sobre Nise da Silveira com Gloria Pires no papel principal: Nise- O Coração da Loucura. Veja o trailer:

Tem também um documentário inédito de Jorge Oliveira, Olhar de Nise:

 

 

 

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