12 coisas banais que podem fazer você levar um tiro se for negro nos EUA

Publicado em 21 de julho de 2016

negra

Por Narjas Zatat, no Independent

1. Carregar um caminhão de brinquedo

Charles Kinsey, um terapeuta que estava tentando ajudar seu paciente autista, foi baleado pela polícia na quarta-feira 20. O paciente dele estava segurando um caminhão de brinquedo que a polícia confundiu com uma arma. Kinsey felizmente sobreviveu e denunciou o caso no hospital.

2. Brincar com uma arma de brinquedo

A polícia foi chamada em um parque por pessoas que não tinham certeza se a arma com a qual Tamir Rice, de 12 anos, estava brincando, era real ou não. Os policiais pediram para ele colocar as mãos para cima e quando elas passavam na altura da cintura, atiraram duas vezes. O menino não ameaçou o policial nem apontou a “arma” para ele.

3. Segurar cigarros na rua

Eric Garner foi imobilizado no chão por dois policiais que se aproximaram dele com a suspeita de que estivesse vendendo cigarros ilegalmente. Garner negou, mas a polícia tentou prendê-lo de qualquer jeito. Garner morreu após receber uma gravata -o que é proibido pela polícia de Nova York. Suas últimas palavras, “Não posso respirar”, junto com #BlackLivesMatter (Vidas Negras Importam), viraram símbolo dos protestos anti-armas em todo o país.

4. Andar por uma área residencial

Em 2012, Trayvon Martin foi baleado e morto pelo segurança voluntário George Zimmerman. Martin estava caminhando ao telefone numa rua residencial junto com sua namorada quando Zimmerman se aproximou dele, perguntando por que estava lá. Após uma discussão, Zimmerman atirou e o matou. Ele foi absolvido por assassinato em segundo grau. Em maio, a arma que matou o adolescente de 17 anos de idade foi leiloada por mais de 100 mil dólares.

5. Segurar um celular

Em 2015, Keith Childress, de 23 anos, foi baleado e morto pela polícia após eles confundirem o telefone celular em sua mão com uma arma.

6. Abrir uma porta

Em Chicago, Bettie Jones, de 55 anos, estava desarmada quando abriu a porta da frente após denúncias de violência doméstica. A polícia atirou e matou-a “acidentalmente”.

7. Ter problemas mentais

Em 2014, o policial Christopher Manney atirou em Dontre Hamilton 14 vezes após uma chamada sobre seu comportamento. Apesar de ele não estar fazendo nada ilegal nem sendo violento, resistiu no momento de ser revistado e isso o levou a ser morto. Sua família disse que ele sofria de esquizofrenia, mas não era violento.

8. Usar a escada

Akay Gurley, de 28 anos, estava descendo a escada com a namorada no edifício onde morava quando foi baleado e morto pelo policial de Nova York Peter Liang.

9. Tomar analgésico

Rumain Brisbom foi baleado e morto após um policial se aproximar de seu carro suspeitando que estivesse envolvido em tráfico de drogas. O policial disse a ele para sair e apontou a arma em sua direção. Quando aproximou a mão da cintura, e após uma breve luta, Brisbon foi fatalmente baleado. Depois se descobriu que ele estava procurando por um frasco de oxycodone -um analgésico.

10. Correr

Freddie Gray, de 25 anos, foi parado porque correu após ver a polícia nas proximidades. Eles o pegaram e o prenderam por alegadamente possuir um canivete ilegal. Ele morreu morreu uma semana depois, sob custódia da polícia, de uma lesão na medula.

11. Andar de bicicleta

Em agosto de 2015, Dante Parker andava de bicicleta em seu bairro. A polícia, respondendo a uma denúncia de roubo, usou uma taser (arma de choque) 25 vezes nele e é acusada de negar ajuda médica. Aparentemente a aparência dele era similar à descrição do acusado de roubo.

12. Pedir socorro

Em 2013, Johathan Ferrell bateu seu carro e tentou conseguir socorro. Uma mulher chamou a polícia e quando o policial chegou não se identificou nem deu nenhum comando, apenas atirou nele 12 vezes.

Este artigo foi inspirado no vídeo abaixo: 23 formas de ser morto se você for negro nos EUA

 

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40 anos do assassinato de Carrero Blanco: quando a violência justifica a violência

Publicado em 20 de dezembro de 2013

(O almirante Carrero Blanco observado pelo ditador espanhol Francisco Franco)

Não se sabe até hoje quantas pessoas foram torturadas, mortas ou desapareceram sob o regime ditatorial de Francisco Franco na Espanha, que durou nada menos que 39 anos. Quase quatro décadas em que o país ficou isolado do mundo, sob o jugo de um genocida. Fala-se entre 150 mil e 200 mil desaparecidos, o que deixa a Espanha na triste condição de segundo país do mundo com maior número de desaparecidos, atrás apenas do Camboja. A terra natal do poeta Federico García Lorca, ele próprio um desaparecido da guerra civil, nunca passou sua história a limpo porque, em 1977, como fez o Brasil, deu uma anistia geral a todos, sem punições.

Em novembro passado, a Anistia Internacional denunciou o governo de direita espanhol à ONU por se recusar a investigar as dezenas de milhares de desaparecimentos durante a guerra civil e a ditadura de Franco. O Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas já conclamara o país, em 2008, a rever sua lei de anistia. O governo do PP se resumiu a criticar a ONU por “prestar excessiva atenção no passado”. A Lei de Memória Histórica aprovada pelo PSOE no governo José Luis Zapatero foi abandonada após a eleição de Mariano Rajoy em 2011. Desde que assumiu o poder, Rajoy reduziu os recursos para as atividades de localização e exumação dos corpos praticamente a zero.

Dos poucos detalhes que se sabem sobre aquele período sombrio, veio à tona, por exemplo, a especial predileção do regime pela tortura de mulheres, alvo do documentário Del Olvido a la Memoria (Do Esquecimento à Memória), de 2007. Dirigido por Jorge Montes Salguero, o filme descreve o sofrimento das presas do franquismo, baseado nas gravações feitas por uma ex-militante do Partido Comunista, uma das encarceradas injustamente pelo regime.

Pois há 40 anos, em dezembro de 1973, o regime franquista estava em seus estertores –o ditador morreria dois anos depois. A redemocratização do país se avizinhava, mas esbarrava na figura do almirante Luís Carrero Blanco, presidente de governo e apontado como o sucessor de Franco. Supunha-se que Carrero Blanco, que se situava ideologicamente ainda mais à direita que o ditador (!!!), fosse capaz de atrasar os planos de trazer de volta a monarquia e iniciar a transição. Foi quando o grupo separatista basco ETA planejou e concretizou uma das mais espetaculares ações terroristas da história.

Sabia-se que Carrero Blanco, católico fervoroso, ia todas as manhãs, em seu Dodge Dart negro, à igreja de São Francisco de Borja, acompanhado do motorista e de um policial. O que ele não desconfiava é que na metade do caminho, sob um bueiro da rua Claudio Coello, no bairro de Salamanca em Madri, os separatistas haviam colocado mais de 75 kg de explosivos repartidos em forma de T. Por volta das 9h30 do dia 20 de dezembro de 1973, no exato momento em que Carrero Blanco passava, os etarras acionaram a bomba que fez o automóvel voar 35 metros, passar por cima de um edifício e cair no pátio de um convento.

Os três ocupantes do veículo morreram. Em 1979, o cineasta italiano Gillo Pontecorvo filmou uma versão da história, Operação Ogro, nome do plano elaborado pela ETA. Aqui a cena que reconstitui o momento da explosão:

Longe de ter sido lamentado, atribui-se ao assassinato de Carrero Blanco pelos separatistas a interrupção da ditadura franquista, com a eliminação de seu possível sucessor. Nas ruas do país circulava a frase cruel: “Arriba Franco, mais alto que Carrero Blanco!”. Para muitos que viveram o período, a morte de Carrero significou a morte do franquismo, e chegou a ser celebrada pela oposição no exílio. O próprio Franco reagiria de maneira sinistra, com uma frase nunca explicada em seu discurso de Natal, dias depois: “Há males que vêm para o bem”.

Hoje circulam algumas teorias em torno do assassinato. Uma delas assegura ter havido participação da CIA no atentado, porque o governo dos EUA teria perdido o interesse na continuidade da ditadura. Os indícios em favor desta tese seriam a inexperiência dos etarras que executaram o plano, jovens com menos de 25 anos de idade. O chefe do grupo, José Miguel Beñaran Ordenãna, o Argala, seria morto exatamente da mesma maneira 5 anos depois: em 21 de dezembro de 1978, um capitão da guarda civil colocou dinamite embaixo de seu Renault, no País Basco francês, e o fez também voar pelos ares. Olho por olho, dente por dente. Todos os envolvidos no assassinato já haviam sido anistiados.

Ninguém é a favor de atentados, de matar gente. Considero injustificáveis os atos terroristas (aí, sim) perpetrados pela ETA após a restauração da democracia na Espanha –alguns deles covardes, como o sequestro e o assassinato de Miguel Ángel Blanco em 1997 (veja aqui). O cessar-fogo definitivo da ETA só veio em 2011. Mas eliminar o sucessor de um ditador genocida não pode ser considerado condenável naquele momento, porque o regime era infinitamente mais condenável. Contra o terror de Estado é justificável, sim, que alguns optem por recorrer ao uso de força. Como seria possível reagir se não assim? Violência gera violência, e não se pode comparar o número de vítimas de um Estado repressor e cruel com as ações isoladas de um grupo. O fato é que o assassinato de Carrero Blanco chamou a atenção do mundo para os horrores de um regime sanguinário. Aquele estrondo que abriu uma gigantesca cratera na rua ecoou por todas partes como um grito de “Basta!” à ditadura.

No Brasil de hoje, para vilanizar a esquerda e os guerrilheiros que lutaram contra a ditadura militar, a direita trata de convencer as pessoas de que violência é sempre injustificável. Na democracia, concordo. Contra a tirania, depende. Acho que atualmente é possível fazer protestos inteligentes e pacíficos, mas quem sou eu para condenar quem recorre à violência por sentir na pele a discriminação, o preconceito, a repressão, a desigualdade, a miséria, a fome? Acaso não são também eles vítimas cotidianas de violência?

Para “funcionar”, o capitalismo necessita que as pessoas aceitem as injustiças pacificamente. Conta com isso. Aposta em encontrar a solução para a violência “numa ‘educação’ que os tranquilize e transforme em seres domesticados e inofensivos”, como advertiu o papa. Mas as vítimas da violência e da opressão, seres humanos, podem reagir de duas maneiras: ou curvar a cabeça ou partir para o confronto. Assim foi na ditadura de Franco e assim foi na ditadura brasileira. Alguns foram embora, muitos se curvaram, e outros pegaram em armas. As três opções se justificam perfeitamente pelas circunstâncias. São legítimas.

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Para refletir nos 21 anos do massacre do Carandiru: O Prisioneiro da Grade de Ferro

Publicado em 2 de outubro de 2013

Hoje, 2 de outubro, o massacre do Carandiru completa 21 anos. Neste dia, em 1992, 111 presos foram barbaramente assassinados pelos policiais que invadiram a Casa Detenção de São Paulo a pretexto de conter uma rebelião. Este ano, os policiais envolvidos na ação foram julgados, mas as autoridades responsáveis –o governador de então, Luiz Antonio Fleury, e o secretário de segurança pública, Pedro Franco– nem sequer foram acusados judicialmente. O comandante da operação, coronel Ubiratan Guimarães, havia recorrido de sua condenação quando foi assassinado, em 2006. No julgamento deste ano, 25 PMs foram condenados a 624 anos de prisão, mas ainda cabem recursos. A despeito das condenações, as vidas das vítimas jamais serão devolvidas.

Além da falta de punição, o que me incomoda também é que, nestes anos todos, fomos incapazes, a partir do triste exemplo do Carandiru, de repensar o sistema prisional no Brasil. Há, infelizmente, quem ache bem-feito o que houve na Casa de Detenção, hoje quase inteiramente desativada. Há quem ache que “bandido bom é bandido morto”, como o coronel Ubiratan, e que “lugar de bandido é na cadeia”. Mas será que é mesmo? Encarcerar, durante anos a fio, pessoas que cometeram um erro é a melhor solução para conter a violência? Tenho minhas dúvidas, porque até hoje, em milênios de existência das prisões, a sensação de insegurança no mundo só aumentou. O próprio objetivo da prisão é questionável: a intenção é mesmo recuperar a pessoa ou apenas isolá-la do convívio com a sociedade?

“Eles falam que cadeia é para reeducar, mas não é nada disso, não. Não reeduca ninguém, muito pelo contrário, faz a pessoa ficar mais traumatizada, com mais ódio, mais raiva da Justiça, por ser lenta demais”, diz uma travesti da “rua das flores”, ala do Carandiru onde ficavam os homossexuais. Ela é uma das entrevistadas do documentário O Prisioneiro da Grade de Ferro (2003), de Paulo Sacramento, premiado em vários festivais de cinema, que retratou, com imagens feitas pelos próprios presos, o dia-a-dia do Carandiru sete meses antes de sua demolição, em 2002. Desfilam diante de nossos olhos, vivendo como animais num zoológico, homens, em sua maioria negros e de origem humilde, trancafiados em celas fétidas ou circulando por corredores úmidos e sombrios. Quando sairão dali? Como sairão dali?

Com cerca de 550 mil presos, a população carcerária no Brasil é a quarta maior do mundo –só fica atrás, em número de presos, dos EUA (2,2 milhões), China (1,6 milhão) e Rússia (740 mil). Destes, 35,6% nem foram julgados. Durante a CPI do Sistema Carcerário, em 2008, foram encontrados presos dormindo junto com porcos, no Mato Grosso do Sul, e em meio a esgoto e ratos, no Rio Grande do Sul. “Em todo o país, há denúncias de agressões físicas e até tortura contra detentos praticadas tanto por outros presos quanto por agentes penitenciários. Um levantamento da Pastoral Carcerária mostra que a maior parte dos detentos tem baixa escolaridade, é formada por negros ou pardos, não possui emprego formal e é usuária de drogas”, informou uma reportagem da BBC em maio do ano passado. Alguém vai organizar manifestações contra essa injustiça?

A superpopulação carcerária é uma realidade que não mudou nada desde que os presos foram assassinados no Carandiru. O ministro da Justiça do governo do PT, no poder há 10 anos, chegou a dizer que “preferia morrer” a ir para uma das cadeias “medievais” do Brasil. Não mudou também a política de encarceramento em massa inspirada no modelo norte-americano. No documentário de Sacramento, um jovem Geraldo Alckmin aparece orgulhoso por ter aumentado de forma recorde o número de vagas em cadeias em São Paulo. Adiantou? Pelo contrário, os latrocínios (assalto seguido de morte), por exemplo, têm alta contínua desde 2010 no Estado novamente governado por Alckmin. É preciso prender? Sim. Prender todo mundo? Não acho, existem outras medidas punitivas possíveis e com maior sucesso na recuperação de criminosos, como a prestação de serviços à comunidade.

O sociólogo francês Loïc Wacquant, autor de Punir os pobres: a nova gestão da miséria nos Estados Unidos, relaciona diretamente a concepção do encarceramento em massa exportada pelos norte-americanos ao sistema capitalista neoliberal. Wacquant denuncia que a política de bem-estar social, de amparo ao pobre, vem sendo substituída pela criminalização da pobreza. Não é à toa que, nos EUA, os negros são 40% da população prisional do país, embora sejam apenas 13% da população. É esse modelo que copiamos: prisões transformadas em depósitos de excluídos pelo capitalismo. Quantos Carandirus serão necessários para que façamos alguma coisa contra isso?

Não deixe de assistir ao documentário de Paulo Sacramento. Quer você queira, quer não, são seres humanos que estão detrás daquelas grades de ferro.

 

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