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Maconha

Tapa na Pantera: cada vez mais idosos buscam a maconha para aliviar a dor

Baseados em intuição, não em evidências científicas, homens e mulheres acima dos 45 anos recorrem à cannabis como analgésico

Cena do filme "O Barato de Grace" (2000). Foto: divulgação
The Conversation
05 de março de 2018, 17h05

Por Tony Rao e Ian Hamilton no The Conversation

Tradução Cynara Menezes

Quando a maioria das pessoas pensa em usuários de maconha, provavelmente a imagem que lhe vem à cabeça é a de jovens. Mas, no Canadá, onde o uso medicinal é liberado, a maior proporção de usuários habituais de maconha em casa está na faixa entre 45 e 64 anos.

Dados recentes sobre o uso de cannabis no Canadá mostram que aproximadamente 5 milhões de pessoas entre os 15 e os 64 anos gastaram cerca de 5,7 bilhões de dólares em maconha em 2017. Um em cada cinco destes maconheiros todos tem entre 45 e 64 anos, e o uso nesta faixa etária está em ascensão. A maioria fumou mais com fins recreativos (o que é atualmente ilegal no país) do que medicinais. Não surpreende ninguém que a indústria da cannabis no Canadá seja agora maior que a da cerveja e a do tabaco.

Bem, é só o Canadá, você diria, mas está errado. Na Austrália, o uso contínuo de cannabis mais que dobrou entre 2004 e 2013 entre as pessoas acima de 50 anos. O Reino Unido tem dados similares, com o uso entre a faixa etária de 65 a 74 anos crescendo mais que sete vezes entre 2000 e 2014. Nos EUA, o relato de uso de cannabis nos últimos 12 meses por pessoas com mais de 65 explodiu entre 2003 e 2014.

Esta faixa etária amadureceu nas décadas que testemunharam a crescente popularidade do uso recreativo de maconha. Estão familiarizados com a erva e talvez menos inibidos sobre usá-la à medida que desenvolvem problemas de saúde relacionados à idade.

Na Austrália, o uso contínuo mais que dobrou entre pessoas acima de 50 anos. No Reino Unido, o uso na faixa etária de 65 a 74 anos cresceu mais que sete vezes. Nos EUA, o relato de uso de maconha nos últimos 12 meses por pessoas com mais de 65 explodiu

Não espanta que uma pesquisa recente mostre que pessoas mais velhas estão adotando a cannabis para alívio da dor à medida que desenvolvem problemas relacionados à idade –e também para os cuidados do final da vida. Na Inglaterra, dores lombares e no pescoço são a causa mais comum de invalidez, particularmente em Baby Boomers (nascidos entre 1946 e 1964).

Com o potencial crescente de danos à saúde de analgésicos como os opioides e gabapentinoides, é bastante possível que o uso de cannabis entre as pessoas idosas cresça ainda mais nos próximos anos. Será um desafio facilitar o uso e abuso cotidiano do pescoço, quadris e joelhos de uma população que, espera-se, dobrará de tamanho nos países desenvolvidos.

Não passa um mês sem que um país do mundo ou Estado norte-americano anuncie planos para mudar sua política em relação à maconha. 30 Estados agora permitem acesso à cannabis de um jeito ou de outro. Mas o conjunto de modelos regulatórios mostra que não é simplesmente o caso de apenas “legalizar” a maconha, já que alguns locais só darão acesso à maconha por razões medicinais.

O que é necessário agora são evidências científicas sobre os benefícios assim como sobre os reais riscos da cannabis entre pessoas mais velhas. Até lá, o jeito como ela irá afetar ou não alguém está baseado apenas em sorte

Há restrições em relação ao tipo de problema de saúde para o qual a maconha para fins medicinais é aprovada ou que pode ser prescrita. Até o momento, os remédios que contém cannabis são licenciados apenas para um limitado número de problemas de saúde. Um deles é a dor decorrente de danos nos nervos, mas somente nos casos de esclerose múltipla.

Mas ainda é frágil a evidência para o tratamento desta dor em outros distúrbios médicos dolorosos. E há a questão dos riscos adicionais à saúde que podem advir do uso de cannabis, o que pode fazer dela uma escolha arriscada como analgésico, particularmente em idosos.

A maconha está associada a uma série de problemas, tanto físicos quanto mentais. Outro fator é que pessoas mais velhas estão mais inclinadas a usar vários medicamentos ao mesmo tempo, e ainda não se sabe como eles interagem com a cannabis. O risco de desenvolver problemas cardiovasculares também pode ser maior entre os usuários.

Combinados com um número de outras condições de longo prazo em pessoas mais velhas, os riscos de usar cannabis como analgésico parecem pesar mais que as atuais evidências de benefícios. O que é necessário agora são evidências científicas sobre os benefícios, assim como sobre os reais riscos da cannabis entre pessoas mais velhas. Até lá, o jeito como ela irá afetar ou não alguém está baseado apenas em sorte.

*Tony Rao é professor visitante em Psiquiatria do Idoso no King’s College

*Ian Hamilton é professor em Saúde Mental na Universidade de York

***

P.S.: O Brasil tem uma precursora em uso de maconha na idade madura: a protagonista do curta Tapa na Pantera, de Esmir Filho, Mariana Bastos e Rafael Gomes, de 2006, com a atriz Maria Alice Vergueiro em um monólogo que já entrou para a história.

 

 


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