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Trabalho

Trabalhando para o rato: a vida precária dos funcionários da Disneylândia

Senador Bernie Sanders critica salário de fome recebido pelos funcionários enquanto os executivos da companhia ganham milhões de dólares

Protesto de trabalhador da Disney. Foto: @GoodJobsNation
Da Redação
04 de junho de 2018, 19h56

Centenas de trabalhadores da Disneylândia (ou Disneyland Resort), em Anaheim, Califórnia, o primeiro parque da Disney, fizeram um congresso no último final de semana para denunciar as más condições de trabalho na bilionária companhia. Os salários são tão baixos que, para 68% deles, não chegam nem para comer direito. 11% dos trabalhadores do lugar se definiram como “sem-teto” ou sem um lugar para dormir nos últimos dois anos, segundo o estudo Working for the Mouse (Trabalhando para o Rato), da Universidade Occidental em parceria com a organização Economic Roundtable. 36% disseram que sacrificam outras necessidades para poder pagar um plano de saúde. E os salários vêm caindo a cada ano.

Fonte: Pesquisa Working for the Mouse

Os dados da pesquisa foram utilizados pelo senador democrata Bernie Sanders para questionar a Disney por sua “ganância”, nas palavras do ex-candidato à presidência dos EUA. “Nós estamos falando de uma empresa que recebeu enormes isenções de impostos aqui em Anaheim, além do 1 bilhão em benefícios fiscais que Trump deu para os ricos”, disse Sanders ao público.

Se a Disney consegue pagar centenas de milhões de dólares a seus CEOs, por que não consegue pagar a seus trabalhadores 15 dólares por hora?

“A Disney não pode ser uma empresa que força seus empregados a ter um segundo emprego, quando eles necessitam e merecem um trabalho em tempo integral. A Disney tem que entender que os seus empregados não são adolescentes, que a vasta maioria de seus trabalhadores tem família. Quero ouvir a defesa moral de uma companhia que tem 9 bilhões de dólares de lucro, paga 400 milhões de dólares para seus executivos e tem um trabalhador com fome”, criticou Sanders.

De acordo com o estudo, 59% dos trabalhadores da Disneylândia têm entre 30 e 54 anos e 18% têm mais de 55 anos de idade. 37% dos pais com crianças pequenas relataram não terem conseguido comprar remédios prescritos para elas no último ano e 59% deles reclamaram que a escala de trabalho não permite passar tempo com os filhos.

De acordo com a imprensa local, a Disney recebeu uma isenção de 267 milhões de dólares para construir um hotel de luxo na Disneylândia, enquanto 85% dos empregados atualmente recebem um salário de menos de 15 dólares por hora. Uma coalizão de 11 sindicatos que representam os trabalhadores afirmou ter coletado mais de 21 mil assinaturas para colocar em votação o pagamento de um salário justo.

Estou faminta a maior parte do tempo. Trabalho na sala mais bonita da Adventure Tower do Disneyland Hotel. Alimento os clientes com a mais incrível comida gourmet, que no fim do dia vai para a lata de lixo reciclável. Se eu comer, sou demitida

Os empregados da Disney, uma das companhias mais lucrativas do planeta, deram entrevistas chocantes durante o encontro.  Uma mulher que trabalha no Disney Grand California Hotel & SPA contou ao canal KTLA suas dificuldades. “Normalmente eu não como três refeições por dia e, quando eu posso, são latas de atum ou cenouras ou palitos de aipo porque são baratos o suficiente para eu poder pagar.”

Glynndana Shevlin, uma garçonete do E-Ticket Club, disse como é trabalhar na empresa. “Eu estou faminta a maior parte do tempo, faço uma refeição ao dia. Trabalho na sala mais bonita da Adventure Tower do Disneyland Hotel. Alimento os clientes com a mais incrível comida gourmet que você jamais viu e que no fim do dia vai para a lata de lixo reciclável. Se eu comer, sou demitida.” O salário de Glyndanna mal dá para ter um lugar para dormir.

“Trabalhar na Disney era meu sonho e acabei vivendo no meu carro durante três meses. Agora o meu aluguel com meu namorado, também trabalhador da Disney, é de 1900 dólares ao mês. Só conseguimos arcar com isso porque ele tem um segundo emprego”, disse Emily Bertola.

O senador Bernie Sanders mostrou indignação com os relatos. “A Disneylândia é uma fantasia. Deixe eu dar a notícia para as pessoas que estão assistindo: patos não falam! Ratos não falam. Aquilo é fantasia, isso aqui é realidade”, disse Sanders. “Se a Disney consegue pagar centenas de milhões de dólares a seus CEOs, por que não consegue pagar a seus trabalhadores 15 dólares por hora?”

Nas páginas da pesquisa há outras queixas dos trabalhadores. “Trabalho na Disneylândia há quase 28 anos e faço menos de 20 dólares por hora. Se não fosse a ajuda de meu marido para pagar as contas e outras despesas, eu estaria vivendo no meu carro, ou pior, na rua. A Disney aumentou os preços dos bilhetes, das comidas e das bugigangas. No entanto, os cast members (funcionários) estão lutando para pagar seu aluguel/hipoteca, comida, transporte e outras contas. Não estou pedindo para ficar rica trabalhando na Disney, estou falando de pagamento digno. Espero poder estar despreocupada, tendo comida e um teto sobre minha cabeça”, queixou-se uma vendedora de merchandising.

Se não fosse a ajuda de meu marido para pagar as contas e outras despesas, eu estaria vivendo no meu carro, ou pior, na rua. Não estou pedindo para ficar rica trabalhando na Disney, estou falando de pagamento digno

“Eu amava o trabalho que fazia no Disneyland Resort. Foi um dos melhores, mais divertidos e gratificantes pessoalmente que já tive. Mas fazer mágica não paga as contas. Não alimenta meus filhos, não mantêm um teto sobre as suas cabeças, não põe roupas neles nem mantém a eletricidade ligada. Como fazer mágica se não conseguimos sobreviver?”, disse um ex-empregado que trabalhou lá durante três anos.

A jornada intermitente, introduzida no Brasil pela “reforma” trabalhista de Temer, é uma das principais queixas dos trabalhadores norte-americanos, sobretudo os da indústria de fast food –não é à toa que a jornada intermitente ganhou o apelido de “jornada McDonald’s”, mas também podia se chamar “jornada Disney”. Neste tipo de jornada, o trabalhador não sabe quanto vai ganhar ao final do mês, porque nem sempre será convocado a trabalhar. Em outras palavras, é a precarização do trabalho.

Com informações do Alternet

 


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(12) comentários Escrever comentário

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Mariana em 05/06/2018 - 09h57 comentou:

E viva o capitalismo, viva a economia americana, PIB alto e a população morrendo de fome.

Menos Estado e mais economia tá aí!

Responder

Phresquin em 05/06/2018 - 11h13 comentou:

Olá. Antes de tudo, parabéns pelo site. Só uma observação, tá faltando o início da idade, quando vc apresenta a porcentagem dos trabalhadores (59%) de… até 54 anos. No 4° parágrafo, se estou certo.
Abraços!

Responder

    Cynara Menezes em 05/06/2018 - 18h14 comentou:

    ok, corrigido!

Gustavo Horta em 05/06/2018 - 16h17 comentou:

VIVA O LIBERALISMO!!!!

Responder

Andre em 05/06/2018 - 16h54 comentou:

A população americana sofre tanto que pessoas do mundo inteiro, inclusive do Brasil, matam e morrem para poder viver com menos Estado e mais economia. Ou minto?

Responder

    Cynara Menezes em 05/06/2018 - 18h13 comentou:

    quem está matando ou morrendo para viver com menos estado? as pessoas morrem por violência e vocês são os primeiros a pedir mais policiamento, ou seja, mais estado. as pessoas morrem de fome, ou seja, falta de estado. as pessoas morrem na fila do hospital, ou seja, falta de estado. excesso de estado nunca matou ninguém

Andre em 05/06/2018 - 19h23 comentou:

Concordo em parte com você, Cynara. O problema é faltar estado para policiamento, para saneamento básico e pelos outros motivos que você citou, mas por outro lado, ter excesso de estado ao abastecer nossos automóveis, ao comprar alimentos no supermercado, ao comprar um botijão de gás para cozinhar… Ou temos mais intervenção do estado nas duas extremidades, como na Europa, ou menos – nas duas pontas – como nos EUA. Na minha modesta opinião, ambos sistemas têm seus defeitos mas funcionam.
Nos EUA, vejo pessoas motivadas para trabalhar, podendo mudar de emprego com facilidade, por ter muita oferta. O sistema americano, pelo menos na parte de serviços, o que inclui as empresas da Disney, se move com gorjetas que somam muito mais que o salário nominal. Esse sistema faz com que as pessoas atendam bem e com eficiência.
Prestei consultoria para uma cadeia de academias de ginastica na Florida e os treinadores ganham apenas por aula dada, não tem 13o e todos os pseudo-benefícios que temos por aqui. Mas são ricamente bonificados se eles conseguem encher as classes de alunos. Além disso, ganham gorjetas polpudas dos alunos e ainda faturam muito mais dando personal training. Os treinadores vão trabalhar com carros novos, vivem bem e acredito que se sintam realizados profissional e financeiramente.

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Andre em 05/06/2018 - 19h28 comentou:

Apesar de não concordar com você em alguns temas, gosto de ler seu blog. Eu estava gargalhando no trabalho, lendo sobre aquele trouxa que quis esculachar as funcionárias do estabelecimento por estarem falando Espanhol em Manhattan…

Responder

    Cynara Menezes em 05/06/2018 - 23h33 comentou:

    sinal de que, apesar da agressividade de alguns de seus comentários (todos excluídos), você não é de extrema-direita

Maurícius Petrus em 06/06/2018 - 05h11 comentou:

Quando criança, quem nunca se encantou com a Disney?Mesmo sem ter ido lá, ela sempre entrou em nossos lares, ou pela TV ou pelos Gibis que tanto li na minha infância.Agora, de consciência formada fico feliz em saber que não mais contribuí para esse tipo de exploração.Não passam de exploradores e vendilhões de sonhos como qualquer capitalista nojento!!!!!

Responder

Rafael em 08/06/2018 - 08h56 comentou:

Acho q a cynara menezes ficou revoltada pq nunca foi a Disney

Responder

    Cynara Menezes em 08/06/2018 - 17h56 comentou:

    olha o tipo de comentário da direita. é muita inteligência

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