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Vai pra Argentina! Macri faz país bater às portas do FMI após 15 anos

Governo de direita passou os últimos dois anos dizendo que volta ao Fundo não passava de "terrorismo" da oposição

O ministro da Fazenda em 2016, dizendo que volta ao FMI era "terrorismo" da oposição. Foto: reprodução
Cynara Menezes
09 de maio de 2018, 18h16

Apenas 29 meses depois de Mauricio Macri assumir como presidente, a Argentina vive mais uma vez um pesadelo dentro de seu próprio pesadelo econômico: voltamos a bater às portas do tristemente célebre Fundo Monetário Internacional.

Quando, em dezembro de 2005, o ex-presidente Néstor Kirchner liquidou antecipadamente a dívida com o FMI de 9,8 milhões de dólares, muitos dos argentinos não souberam valorizar aquele momento histórico, o que apresentava saldar uma dívida de 50 anos e se livrar dos juros sobre os juros. Neste dia, pelo qual nunca iremos agradecer ao “flaco”, como era chamado Kirchner, recuperamos não só a independência econômica como nossa dignidade como povo.

Vale recordar que, dois antes de a Argentina liquidar sua dívida, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva fazia o mesmo no Brasil. Os dois países mais importantes da América do Sul, desendividados e independentes. Quem poderia imaginar isso 20 anos antes?

“É um Fundo Monetário Internacional muito diferente ao dos anos 1990. O FMI aprendeu com as lições do passado”, disse o ministro da Fazenda, ignorando as fracassadas experiências de “austeridade” na Europa

Lula hoje está preso. Escrever “Lula preso” me gera muita tristeza, a injustiça sempre dói. Não perdoam Lula por ter tirado 30 milhões da pobreza. Por isso hoje nos governa Macri. Por isso hoje Temer governa o Brasil.

Não é difícil enxergar o futuro da Argentina. As receitas do FMI sempre foram as mesmas. Por acaso há algum país que tenha sido “salvo” pelo FMI? Veja o caso recente da Grécia, com seu salva-vidas de chumbo. Portugal só retomou o caminho depois de se livrar da tal “austeridade” imposta pelos burocratas do Fundo.

Nesta terça-feira, o discurso de Macri, que já não é alguém que se destaca nem por seu léxico e muito menos pela retórica, foi extremamente curto no anúncio desagradável que foi logo comparado ao desastroso presidente Fernando de la Rúa no idêntico anúncio em 2000, decisão que levou a Argentina à bancarrota.

Pior ainda foi a entrevista coletiva que concedeu o ministro da Fazenda, Nicolás Dujovne, assegurando que o FMI de hoje é diferente do FMI do passado. “É um Fundo Monetário Internacional muito diferente ao dos anos 1990. O FMI aprendeu com as lições do passado”, disse o ministro, ignorando as fracassadas experiências de “austeridade” na Europa.

Curiosamente, é o mesmo ministro que repudiava o organismo, qualificando-o de “vergonhoso”, e que, para tirar onda da oposição liderada por Cristina Kirchner, foi capaz de segurar um cartaz em 2016 dizendo: “Não voltemos ao Fundo”.

Dujovne chegou a comparecer a um programa de televisão com o cartaz na mão dizendo que era “terrorismo” dos kirchneristas que isto iria acontecer, tal como fizeram os tucanos no Brasil todos estes anos em relação aos direitos trabalhistas e a privatização da Petrobras.

Em março de 2017, afirmou, com todas as letras: “Não não temos nem teremos vamos um programa com o Fundo Monetário Internacional. Ministro, até Pinóquio ficaria vermelho de vergonha. Por último, o orçamento projetado para os próximos quatro anos não podia ser mais disparatado. Na projeção para o dólar do ano 2021, vemos que o dólar está a 21,90 pesos, sendo que hoje a moeda norte-americana já está em 22,98 pesos e subindo. Nos adiantamos três anos nas mentiras.

A metade do povo argentino que votou iludida em Macri se parece à metade do povo brasileiro que saiu às ruas pedindo a saída de Dilma. Não sei o que estamos esperando para nos unir, já que estamos completamente dominados

Nesta quarta-feira, o chefe de gabinete do presidente, Marcos Peña, foi ainda mais longe na cara de pau: “Não é verdade que a história se repete e que estejamos condenados a repetir os acontecimentos”, disse, tentando fugir ao vaticínio de Marx de que a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa.

Sem querer ser pessimista, a realidade e o futuro são sombrios para a Argentina e o Brasil. Como diria Borges, “não nos une o amor, mas o espanto”. A metade do povo argentino que votou iludida em Macri se parece à metade do povo brasileiro que saiu às ruas pedindo a saída de Dilma. O poder midiático, sem dúvida alguma, fez estragos em nossas sociedades. A falta de empatia, de solidariedade e principalmente o egoísmo de setores da classe média foram cúmplices dessa trama, deste plano.

Nos anos 1950 perguntaram a Juan Domingo Perón como imaginava a América do Sul no ano 2000, e ele respondeu: “O ano 2000 nos encontrará unidos ou dominados”. Não sei o que estamos esperando para nos unir, porque dominados já estamos.

 

 

 


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(3) comentários Escrever comentário

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Sergio em 09/05/2018 - 18h54 comentou:

Pobre Argentina!

Responder

Admar em 10/05/2018 - 16h37 comentou:

Pobre Brasil, nação de habitantes que são meros expectadores dos fatos que destroem a Mãe que os gerou…!

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Hélio César em 11/05/2018 - 12h13 comentou:

Quando a sombra da Argentina atingir o Brasil, como negam nossos falsos analistas econômicas, que não sofreremos com essa tragédia. Ai filho, já era Brasil. O Caminho seguido em ambos – MACRI-TEMER -, é o mesmo. Venda da soberania, congelamento dos investimentos e ajuste administrativos e fiscal. Tchau Queridos Coxinha! Brasil FMI já estão abrçaados.

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