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Vai um desmatamento aí? ONG liga Burger King ao desaparecimento de florestas

Por Charles Nisz* Onze milhões de sanduíches vendidos por dia. Tal feito faz do Burger King a segunda maior cadeia de hambúrgueres do mundo –só perde para o McDonald’s. Qual o impacto ambiental para produzir toda essa carne?, questiona o grupo ambientalista Mighty Earth. O Burger King não dá muitas informações sobre sua cadeia produtiva […]

Cynara Menezes
13 de março de 2017, 10h54
burgerking

(Ingredientes: pão, carne, queijo alface, cebola, molho especial e desmatamento)

Por Charles Nisz*

Onze milhões de sanduíches vendidos por dia. Tal feito faz do Burger King a segunda maior cadeia de hambúrgueres do mundo –só perde para o McDonald’s. Qual o impacto ambiental para produzir toda essa carne?, questiona o grupo ambientalista Mighty Earth. O Burger King não dá muitas informações sobre sua cadeia produtiva e se os insumos usados em suas refeições são produzidos de forma ambiental e socialmente correta. Mas a ONG descobriu um ingrediente muito especial dos Whoppers: o desmatamento no Brasil e na Bolívia.

Com 15 mil restaurantes em mais de 100 países, a cadeia de fast food norte-americana tem impacto na agricultura e na indústria de alimentação. O Burger King é administrado pela 3G Capital, de propriedade do brasileiro Jorge Paulo Lemann. Ou seja, apesar de ser uma empresa global, o Burger King e suas atividades estão fortemente ligados ao Brasil, seja pelo lado produtivo, seja pelos investimentos.

A Mighty Earth conectou os elos entre o Burger King e os seus fornecedores alimentícios e descobriu que, entre 2011 e 2015, mais de 1 milhão de hectares de floresta desapareceram a cada ano, em média, para dar lugar a plantações de soja, no cerrado e na Amazônia, no Brasil e na Bolívia. A soja é o combustível básico da produção de carne e este número só cresce: antes eram 650 mil hectares por ano.

Cerca de 75% da produção mundial desse grão é utilizada na alimentação bovina. Quanto mais se come carne, mais soja precisa ser plantada. Isso aumenta a chance de expansão das fronteiras agrícolas e, por consequência, do desmatamento no Brasil. Segundo o mesmo relatório da Mighty Earth, um milhão de quilômetros quadrados –equivalente ao total das áreas da França, Alemanha, Bélgica e Países Baixos somadas– são dedicados à produção de soja aqui e na Bolívia.

Após visitar 28 localidades nos dois países, cobrindo uma área de 3000 km e fazendo uso de imagens de satélite, a ONG norte-americana mapeou o desmatamento dessa produção de soja feita de modo não sustentável. Depois, com entrevistas de campo e ferramentas de análise de cadeia, a Mighty Earth foi fazendo as conexões entre a gigante da comida rápida e seus fornecedores alimentícios.

Empresas como Cargill, Bunge, ADM, compram soja, constroem silos e providenciam a infraestrutura de transporte como estradas e caminhões, de modo a escoar a produção de soja nesses locais. A Cargill vai além: patrocinou a convenção anual do Burger King em 2015 e doou mais de cinco dígitos (US$ 100 mil) para McLamore Foundation, o instituto educacional da cadeia de fast food norte-americana.

A empresa norte-americana não é a única a esconder os detalhes sobre sua produção, o que é um problema, pois como milhões de pessoas adoram hambúrguer e batata frita (ou só têm tempo de comer coisas assim), o exorbitante consumo desse tipo de alimentação causa impactos ambientais consideráveis. No mundo ideal, não consumiríamos fast food, mas mesmo que queiramos continuar consumindo, precisamos e devemos saber qual o caminho que esses alimentos fazem até chegar à nossa mesa.

Mesmo o criticado McDonald’s é mais aberto a prestar esclarecimentos sobre sua cadeia de produção do que o Burger King. O McDonald’s se comprometeu a eliminar o desmatamento por parte de seus fornecedores. Já os fornecedores do Burger King estão associados a desmatamento, ações predatórias contra animais silvestres e outras atitudes ambientalmente danosas. Esses problemas afetam diretamente o Brasil e a América do Sul.

soja

(Foto: Aldemar Ribeiro/Fotos Públicas)

O Cerrado brasileiro tem 200 milhões de hectares, abrigando 5% da biodiversidade mundial. Espécies ameaçadas, como o lobo-guará, vivem nesse bioma. O solo da região contém quantidades significativas de carbono e esses gases são liberados durante o preparo agrícola –o que ajuda a piorar outro problema climático, o aquecimento global. Não bastasse isso, a região é estratégica por outro motivo. A água que sai das bacias hidrográficas do Cerrado gera a energia elétrica utilizada por 90% dos brasileiros.

Muitas empresas estão na região, mas as duas companhias que atuam na região são a Cargill e a Bunge. Somente essas duas empresas são responsáveis pelo desmatamento de 800 mil hectares no Centro-Oeste brasileiro entre os anos de 2011 e 2015. O uso de queimadas para derrubar a floresta espalha fumaça tóxica no Oeste da Bahia. A Bunge alega ter adotado uma política de veto ao desmatamento em sua cadeia produtiva. Já a Cargill é bastante falha nesse aspecto e deu a si mesma o prazo até 2030 para eliminar o desmatamento em sua produção. Mantido o ritmo atual de 26 mil hectares desmatados por ano, até 2030, a Cargill vai derrubar 350 mil hectares até 2030.

Relatório da ONG Global Witness apontou que o Brasil é o país onde mais ativistas ambientais são mortos. Somente em 2015, foram 50 assassinatos de ambientalistas, quase todos em áreas de criação de gado ou plantio de soja. Interromper esse ciclo de violência no campo exigirá medidas ativas do governo, dos produtores agrícolas e dessas multinacionais do agronegócio que abastecem as cadeias de fast-food.

O desmatamento não é inevitável. Com a pressão dos consumidores, os compradores de soja anunciaram uma moratória: não comprariam mais grãos cultivados em terras desmatadas após 2008. A pressão funcionou: em 2006, 30% das novas plantações de soja vinham de áreas recentemente desmatadas. Após a moratória, esse índice caiu para 1%. Acordo semelhante foi feito no setor pecuário e o Brasil reduziu o desmatamento da Amazônia em dois terços. Tal feito fez com que o Brasil fosse o maior redutor da poluição climática no planeta.

Mesmo com a significativa redução do desmatamento, a produção agrícola dobrou entre 2001 e 2010. O exemplo da soja mostra a necessidade e a viabilidade de uma produção agrícola de larga escala com viés ambientalmente menos danoso. Com a moratória da soja na Amazônia, chegou a hora de fomentar uma iniciativa semelhante para o Cerrado.

 

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