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Vende-se otimismo: como em todo golpe, o derrotismo virou ufanismo

Depois de três anos bombardeando a todos com pessimismo, ódio e com a percepção de um país em frangalhos, destruído, derrotado, não deixa de ser curioso observar a súbita guinada da mídia brasileira, com o auxílio providencial dos Jogos Olímpicos. O Brasil de repente parece outro lugar, com mais humor, energia e esperança no futuro. […]

Cynara Menezes
08 de agosto de 2016, 18h08

manchetes

Depois de três anos bombardeando a todos com pessimismo, ódio e com a percepção de um país em frangalhos, destruído, derrotado, não deixa de ser curioso observar a súbita guinada da mídia brasileira, com o auxílio providencial dos Jogos Olímpicos. O Brasil de repente parece outro lugar, com mais humor, energia e esperança no futuro. “Este é um país que vai para a frente” seria o lema perfeito para os tempos que vivemos, se não tivesse sido um dos slogans utilizados pela ditadura militar para ludibriar os incautos. Ops.

Como em todo golpe que se preza, o derrotismo explícito da velha mídia e de seus sabujos a soldo se transformou rapidamente em um ufanismo rastaquera, vulgar. Exatamente como em 1964, agora os (de)formadores de opinião reconhecem que este é um país incrível, capaz de espantar o mundo com seus feitos, como a abertura de uma Olimpíada. Ora, e quem é que não sabia disso? Somente os vira-latas da imprensa e os que vestiam camisetas da CBF para protestar até outro dia apostavam no vexame, que seríamos incapazes de fazer uma festa daquelas. Pois eu acho até que foi fraca para o potencial que temos.

A festa idealizada por Fernando Meirelles, Daniela Thomas e Andrucha Waddington foi bonita, mas infelizmente contribuiu para este clima ufanista, ao pintar um país onde brancos, negros e índios convivem pacificamente e onde se respeita a natureza exuberante como nenhum outro. Nada mais oposto ao que vivemos e viveremos com os golpistas no poder. OK, faz parte do espetáculo, ninguém mostra suas desgraças e incoerências em eventos como este, mas que foi irônico assistir aquilo neste momento, foi.

O otimismo está à venda nas manchetes e nos telejornais, que se igualam enquanto versões replicadas do Jornal Nacional da época da ditadura. As Olimpíadas são a nova Copa de 1970, usada pelos militares para convencer os brasileiros de que o país ia bem. O apresentador da TV Globo Galvão Bueno chegou a mentir aos telespectadores dizendo que o presidente ilegítimo Michel Temer tinha sido “vaiado e aplaudido” na abertura. Que papo furado, Galvão! Temer foi apenas vaiado. O jornal italiano La Repubblica fez o dever de casa e mostrou a quem quiser ouvir.

Assistir às transmissões dos jogos ao vivo pelas emissoras de televisão é para quem tem estômagos fortes, e não me refiro aos embates entre os atletas. São vomitivos os comentários exagerados, falsamente contaminados por um otimismo recém-inventado para enganar trouxas. Aliás, é só isso que a mídia brasileira tem feito nos últimos tempos: enganar trouxas. Só um trouxa acreditaria que o país “catastrófico” de menos de seis meses atrás se transformou em um paraíso de uma hora para outra e que isso se deve ao “novo” governo imposto por um mal disfarçado golpe apoiado mais uma vez pelos meios de comunicação.

Claro, é fácil sorrir diante das câmeras quando se almeja apenas o lucro e é principalmente isso que as emissoras querem com os jogos, uma forma de ajudá-las a sair da bancarrota em que se encontram. Para obter audiência, é preciso transmitir a imagem de um país “vencedor” e as Olimpíadas caem como uma luva. Cheguei a ouvir um comentarista dizendo que a abertura dos jogos “resgatou a auto-estima dos brasileiros”. E quem a destruiu?

Comparemos com o clima reinante na Copa do Mundo em 2014, com Dilma Rousseff ainda no poder e candidata à reeleição. A velha mídia torceu contra desde o primeiro momento. Falou-se inclusive na possibilidade de alguma das novas arenas simplesmente desabar, matando gente, o que felizmente não aconteceu. Derrota para a Alemanha à parte, a Copa do Mundo foi um sucesso, a maior de todos os tempos, apesar do derrotismo constante da mídia, que só larga o complexo de vira-latas quando interessa, como agora.

Com Temer na presidência, a palavra de ordem nas redações da mídia golpista é “otimismo”, o que não chega a ser uma novidade: o otimismo como instrumento do golpe é mais uma novela reprisada pela Globo e suas cópias. O roteiro é o mesmo: enquanto o povo celebra o delírio de que o Brasil “melhorou”, nossa pátria-mãe é subtraída em tenebrosas transações… Só falta agora ressuscitarem a “Semana do Presidente” para o clima de revival da ditadura se instalar de vez.

 


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