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Cultura

A vida assumidamente falocêntrica de Rocco Siffredi

Quantos homens teriam a coragem de assumir que se guiam pelo pênis, embora isso seja uma realidade para tantos deles?

Rocco no divã. Foto: divulgação
Cynara Menezes
28 de novembro de 2017, 22h00

O documentário sobre o lendário ator pornô italiano Rocco Siffredi começa com a imagem em close de seu pênis em estado de repouso debaixo do chuveiro. “Um filme chamado Rocco não poderia começar com minha cara”, o próprio reconhece sobre o membro de declarados 23 centímetros que protagoniza o documentário da Netflix e a sua vida.

Os diretores Thierry Demaizière e Alban Terlai acompanham Rocco no que seria o “último” ano de sua carreira no pornô, o que não se confirmará. A certa altura, Gabriele Galetta, primo do ator e cameraman de seus filmes, reconhece que o pau de Siffredi funcionou como um transformador da realidade de toda a família, para o bem e para o mal. “Eu sempre me perguntei como seria a nossa vida, minha e a de meus primos, se o pênis dele não tivesse chamado atenção. É uma loucura, mas é verdade. É o meu destino, a história da minha vida.”

“É ele quem decide”, já disse Rocco sobre suas decisões sexuais, dentro e fora da tela, que incluem milhares de mulheres, feias, bonitas, jovens, velhas, gordas, magras… e também homens e transexuais. “Ele” é o pênis. Um dia, a “cabeça de baixo” o leva a fazer algo que se envergonha de confessar. No velório de sua mãe, ficou excitado ao abraçar uma das amigas dela, de mais de 70 anos, abaixou a calça e pediu que a senhora fizesse sexo oral. E ela topou.

Eu sempre me perguntei como seria a nossa vida, minha e a de meus primos, se o pênis dele não tivesse chamado atenção

A sinceridade do ator, que se comporta como se estivesse no divã, é fascinante. Quantos homens teriam a coragem de assumir seu falocentrismo, de admitir que se guiam pelo pênis, embora isso seja uma realidade para tantos deles? No poema O Diário, escrito por Goethe em 1809, o escritor alemão conta a história de um homem maduro, casado, e a fracassada noite de amor com uma jovem camareira durante uma viagem, prejudicada pela negativa de seu órgão, a quem o personagem chama de “mestre”, em permitir que seja infiel. Rocco chama o pênis dele de “demônio”.

Os homens dão tanta importância ao pênis que Sigmund Freud atribuiu às mulheres sentir “inveja” de possuir um e de serem vítimas de um tal “complexo de castração” que explicaria o lesbianismo: a mulher deseja a mãe e por isso quer se colocar no lugar do pai. Bingo! À luz de hoje, a tese soa mais como uma tentativa de diminuir o potencial erótico da vagina, que afinal também conta com um órgão erétil, o clitóris, e com a vantagem de ainda poder ser penetrada…

Rocco não é feio, aos 53 anos é um coroa boa pinta, bem cuidado, mas seu pau vem literalmente na frente quando chega em algum lugar. Jovens atrizes pornôs não escondem a fascinação (e certa gulodice) pelo membro do astro, que agarram ao ser apresentadas a ele, como quem desse um aperto de mãos.

Os homens dão tanta importância ao pênis que Freud atribuiu às mulheres sentir “inveja” de possuir um e de serem vítimas de um tal “complexo de castração” que explicaria o lesbianismo

Viver à mercê dos desejos penianos pode parecer libertador, mas na coletiva de imprensa em Veneza no ano passado, Rocco chorou ao falar da culpa que sentia por ter passado 24 anos viciado em sexo. Em 2015, aceitou ir para o reality Ilha dos Famosos, em Honduras, para “curar a dependência”. Casado com uma ex-atriz pornô e com dois filhos adolescentes, ele queria ter uma vida “normal” e confessa ter pensado em suicídio.

O documentário revela os bastidores da indústria pornô e perturba ao mostrar atrizes com 18 anos de idade inteiramente dispostas a fazer tudo o que mandarem, principalmente se for Rocco Siffredi quem mandar. Um dos fetiches do ator é enfiar a mão goela abaixo de suas companheiras de cena, ao ponto de arrancar lágrimas de uma novata que resolve bancar a valentona. Um mundo onde o machismo salta aos olhos, sobretudo para quem não conhece ou curte o gênero.

Mas Kelly Stafford, parceira recorrente e espécie de alter ego feminino de Rocco, aparece para dizer que estamos enganados. “Eu não acho que submissão é humilhação, porque tenho visões muito pró-feministas. Como posso estar me humilhando se é o que quero? Eu sou uma mulher forte, preciso de um homem forte para me foder. Gosto de dar a bunda. Eu quero trepar com 50 caras. Para mim, é uma paixão na vida mostrar mulheres empoderadas”, diz a britânica de 39 anos.

Apesar de o astro cinquentão e sua atriz favorita estarem “aposentados”, Kelly e Rocco estrearam recentemente Sex Analysts, onde exploram à exaustão todo o repertório de dominação/submissão que ela diz apreciar tanto. Já no trailer, Kelly mostra a que veio: cospe, estapeia e domina homens e mulheres, inclusive Rocco. Quem precisa de um pênis, afinal?

 

 

 


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