Socialista Morena
Cultura

Wakanda, o Eldorado africano cuja existência o homem branco roubou

Terra fictícia do Pantera Negra estaria mais perto da realidade se os países ocidentais não tivessem saqueado o continente

Wakanda, a terra do Pantera Negra. Foto: divulgação
Cynara Menezes
12 de abril de 2018, 22h30

Uma nação africana negra desenvolvida, com um rei justo, e avançada tecnologicamente, graças a um mineral valiosíssimo. Esta é a história da fictícia Wakanda, nação governada pelo rei T’Challa no filme Pantera Negra, mas poderia ser do Zimbábue, do Congo ou mesmo da África do Sul se os brancos não tivessem saqueado, ao longo da história, o continente africano, que detêm 30% de todas as riquezas minerais do mundo, incluindo petróleo, gás, cobalto, urânio, diamantes e ouro.

Pelo menos cinco países africanos estão entre os maiores produtores de diamantes do planeta –Botswana é o 7º exportador mundial atualmente. Ao mesmo tempo, este país da África meridional detém o triste recorde de ser também o terceiro em número de infectados pelo HIV: uma em cada três pessoas está contaminada com o vírus. Com 2 milhões de habitantes e PIB per capital pouco menor que o do Brasil, Botswana é o exemplo mais próximo de uma Wakanda que poderia ter sido. Wakanda é a Botswana “que deu certo”.

Os diamantes são a riqueza e a maldição da África. Em 1999, veio à tona que o dinheiro do tráfico financiava a guerra civil e os conflitos em Angola, Serra Leoa, Libéria, Costa do Marfim e Congo

Com 60% das reservas mundiais, os diamantes são a riqueza e a maldição da África. Em 1999, veio à tona que o dinheiro do tráfico de diamantes estava financiando a guerra civil e os conflitos em Angola, Serra Leoa, Libéria, Costa do Marfim e Congo. Uma só empresa, a britânica De Beers, fundada pelo colonizador britânico Cecil Rhodes e que se fortaleceu sob os auspícios do apartheid, domina o cartel que explora os diamantes no continente.

Da África do Sul, as pedras iam parar diretamente na Inglaterra, as mais vistosas delas na própria coroa da rainha Elizabeth II. Considerado o maior diamante lapidado do mundo até 1985, o Cullinan I orna o cetro da monarca britânica, que recebeu dezenas de diamantes sul-africanos de presente desde a juventude.

Foto: Museu do Diamante da Cidade do Cabo

Na vida real, o povo San, considerado o povo mais antigo da África, com pele clara e traços orientais, teve seu acesso à água cortado pelo governo de Botswana e foi proibido de caçar para forçá-los a deixar suas terras, localizadas sobre uma das maiores reservas de diamantes do mundo, no deserto de Kalahari. Vivem agora reassentados em lugares onde não há trabalho, à mercê do alcoolismo, embora tenham ganhado na Justiça o direito de retornar.

Crianças do povo San. Foto: Nicholas M. Perrault

Na África do Sul, desde os anos 1970 os San viviam à míngua, até que entraram na Justiça e foram realocados em 2002. Hoje vivem como favelados, em barracas, sem nenhum traço de sua cultura original.

Remanescentes do povo San na África do Sul. Foto: Thom Pierce

Agora imaginem se toda a riqueza da África, de Botswana em particular, tivesse sido revertida para o próprio povo de lá em vez de levada para fora. Botswana seria Wakanda, o Eldorado africano de Pantera Negra –sem os efeitos especiais, claro. O segredo da Wakanda do cinema foi justamente proteger seu mineral precioso, o vibranium, da invasão e da exploração pelos estrangeiros. Nada de corporações multinacionais sanguessugas: o Estado mantém total controle sobre o metal, que possui a capacidade de absorver toda a energia vibratória ao redor.

Com um holograma escondendo sua capital ultra-moderna, o país “finge” para o resto do mundo ser uma nação pobre, de criadores de ovelhas. Sob a camuflagem bucólica, avenidas suspensas, um transporte público revolucionário e elegantes cidadãos e cidadãs de pele cor do ébano, metidos em figurinos de inspiração afrofuturista (a figurinista se inspirou justamente na região do delta do rio Okavango, em Botswana, para as padronagens) e sem sinal de fome e pobreza. Os atores, aliás, estão todos bem, mas são as mulheres do elenco que se destacam, sobretudo a divertida cientista Shuri (a guianesa Letitia Wright), irmã do rei.

Tão logo perdem a possibilidade de lucrar escravizando os africanos, os impérios do Ocidente dividem o continente entre eles e começam a espoliar as riquezas minerais e a impedir que uma Wakanda surja

A ação do filme começa justamente quando o traficante branco quer tirar de Wakanda o vibranium para vender a potências estrangeiras. No mundo em carne e osso, esse roubo aconteceu há muito tempo, sobretudo a partir da partilha da África, no  século 19. Tão logo perdem a possibilidade de ganhar dinheiro escravizando os africanos, os impérios do Ocidente dividem o continente entre eles e começam a espoliar as riquezas minerais e a impedir que uma Wakanda surja: Inglaterra, França, Bélgica, Alemanha e Portugal pegaram cada qual o seu quinhão. Botswana, nossa Wakanda da vida real, pertenceu à Inglaterra até 1966.

O colonizador Cecil Rhodes. Ilustração: Edward Linley Sambourne, Punch

É uma pena que a Marvel não tenha aprofundado mais a simetria entre o vibranium e o diamante. Trata-se, afinal, de entretenimento e, mesmo com um elenco quase 100% negro, o filme dá apenas pistas sutis de seu fundo político, nas entrelinhas. Como quando o homem branco é impedido de falar no grupo de negros, indicando com toda clareza que aquele não era o seu “lugar de fala”. Ou quando Killmonger, o primo e adversário do rei T’Challa, diz, legítimo Black Panther: “Enterre-me no oceano com meus ancestrais que saltaram de navios, porque eles sabiam que a morte era melhor que a servidão”.

Não é à toa que T’Challa perde, em conteúdo e fúria, em relação a Killmonger, que parece saber exatamente o que foi arrancado dele e de seus antepassados. T’Challa, de forma inocente, prefere abrir Wakanda para o mundo e compartilhar sua tecnologia, sob a “proteção” dos Estados Unidos. Menos mal que é um super-herói e não permitirá que o homem branco da ficção seja tão ganancioso quanto o da África real.

 


Apoie o site

Se você não tem uma conta no PayPal, não há necessidade de se inscrever para assinar, você pode usar apenas qualquer cartão de crédito ou débito

Ou você pode ser um patrocinador com uma única contribuição:

Para quem prefere fazer depósito em conta:

Cynara Moreira Menezes
Caixa Econômica Federal
Agência: 3310
Conta Corrente: 23023-7
(6) comentários Escrever comentário

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião da Socialista Morena. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Sergio Souza em 13/04/2018 - 10h25 comentou:

Tristeza 🙁

A novidade agora é que, somando-se aos exploradores americanos e europeus, temos os chineses querendo descontar os anos que ficou de fora dessa “boquinha”.

Responder

Andre em 13/04/2018 - 11h47 comentou:

Os chineses também têm comprado a África no ‘cash’ e através de esquemas de corrupção.

Responder

PAULO em 13/04/2018 - 14h46 comentou:

Excelente analise, parabéns.

Responder

Luiz em 13/04/2018 - 20h52 comentou:

Temos nossa Wakanda na América do Sul, chama-se Brasil, totalmente espoliada, roubada, chegou na fase adulta sofrendo de nanismo

Responder

Kang em 14/04/2018 - 18h39 comentou:

NOS ÉRAMOS REIS em não apenas Botswana, mas como no Egito, e o homem branco insiste em esconder isso até hoje!

Responder

    Rafael Caruccio em 20/04/2018 - 11h43 comentou:

    Os faraós do Egito não foram derrubados pelos europeus, e sim pelos Aquemênidas da Pérsia.

Deixe uma resposta

 


Mais publicações

Cultura, Direitos Humanos, Politik

O nem tão sutil homoerotismo dos filmes de gladiador e das lutas de MMA


A ultra-virilidade aparenta ser a antítese da homossexualidade, mas no final das contas se encontra com o homoerotismo. Me dei conta disto pela primeira vez ao rever o filme Ben-Hur, que havia assistido na infância.…

Cultura

ACM Neto não será um bom prefeito


Três letras em política me causam calafrios: ACM e DEM, por exemplo. Jamais votaria no neto de ACM para nada, mas ele foi eleito prefeito de Salvador, a capital da minha terra natal. Desejo sinceramente…