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Zoroastrismo, a religião ancestral de Freddie Mercury

O líder do Queen tinha origem indiana, se chamava Farrokh Bulsara, e professava uma das religiões mais antigas do mundo

Freddie Mercury em 1982. Foto: Steve Wood
The Conversation
10 de novembro de 2018, 14h43

Por Vasudha Narayanan, no The Conversation

Tradução Cynara Menezes

No filme sobre Freddie Mercury, Bohemian Rhapsody, há uma cena em que um membro da família repreende Mercury. “Então o nome da família não é bom o suficiente para você?”. “Eu mudei legalmente”, Mercury responde. “Não há volta.”

Deve ser uma surpresa para alguns que Freddie Mercury tenha nascido Farrokh Bulsara. Ele vem de uma família Parsi com origem na Índia e professava a religião zoroastrista. Nos cursos de religião que ensino na Universidade da Flórida, nós discutimos o zoroastrismo.

Fugindo da perseguição religiosa dos muçulmanos na Pérsia entre os séculos 17 e 10, os zoroastristas se fixaram na Índia, onde são chamados “Parsis”. Como Freddie Mercury, eles fizeram questão de se integrar a seus novos ambientes, mesmo permanecendo fiéis aos valores, crenças e práticas de sua religião, que muitos estudiosos dizem ter tido influência sobre o cristianismo, o islamismo e o judaísmo.

Zaratustra (ou Zoroastro, para os gregos), um profeta que viveu no atual Irã, é visto como o fundador do zoroastrismo. Acredita-se que ele escreveu os hinos que formam uma significativa parte dos textos litúrgicos dos zoroastristas

A fé zoroastriana é uma das mais antigas religiões do mundo, cujas origens remontam a 1200 antes de Cristo. Zaratustra (ou Zoroastro, para os gregos), um profeta que viveu no atual Irã, é visto como o fundador do zoroastrismo. Não se tem certeza sobre quando Zoroastro viveu, embora alguns situem ao redor de 1200 A.C. Acredita-se que ele escreveu o Gathas, os hinos que formam uma significativa parte do Yasna, que são os textos litúrgicos dos zoroastristas.

De acordo com a tradição zoroastriana, Ahura Mazda é o deus supremo e criador; ele representa o bem. Neste aspecto, a religião é um dos mais antigos exemplos de monoteísmo ou a crença em um único deus.

Azulejo com o deus zoroastriano Ahura Mazda na cidade de Taft, Irã. Foto: A.Davey/CC

Os princípios da religião se centram na oposição entre Ahura Mazda e as forças do mal personificadas por Angra Mainyu, o espírito da destruição, da maldade e do caos. O espírito do mal cria uma serpente chamada Azi Dahaka, um símbolo do inferno, não tão diferente das serpentes da tradição judaico-cristã.

Dentro dessa batalha cósmica nós vemos a tensão entre “asha”, que podemos traduzir como “verdade”, “justiça” ou “o bem”, e “druj”, ou engano. A verdade é representada pela luz, e os Parsis sempre se voltarão para uma fonte de luz quando rezam, com o fogo, o sol e a lua todos simbolizando luz espiritual.

Muitos estudiosos apontaram a forte influência histórica que o zoroastrismo teve sobre conceitos do judaísmo, cristianismo e islamismo, tanto no monoteísmo quanto na dualidade entre Deus e o demônio, ou Satã. Hoje o zoroastrismo tem um pequeno mas devoto grupo de fiéis, apesar de estar encolhendo. Em 2004, se estimava entre 128 mil e 190 mil zoroastristas ao redor do mundo, com 18 mil residindo  nos EUA.

O zoroastrismo teve forte influência sobre conceitos do judaísmo, cristianismo e islamismo, tanto no monoteísmo quanto na dualidade entre Deus e o demônio, ou Satã

O Qissa-i Sanjan, ou “A História de Sanjan”, foi escrito ao redor do século 17. Ele descreve como os zoroastristas, fugindo da perseguição religiosa das invasões muçulmanas em sua Pérsia natal muitos séculos antes, foram parar em Guzerate, na Índia ocidental. Quando chegaram eles encontraram o rei local, a quem chamaram de Jadi Rana. Ele concordou em lhes dar terra se adotassem as roupas, a língua e alguns costumes locais. Mas nunca houve nenhuma condição sobre fé religiosa: eles continuam a praticar sua religião, e Jadi Rana ficou exultante de que os recém-chegados pudessem adorar como quiserem.

A história Parsi tem duas versões sobre o que aconteceu. Numa delas, quando Zoroastro se refugia em Guzerate, o rei envia a eles uma jarra de leite cheia até a borda –um modo de dizer que o reino está cheio e que não há mais espaço para mais gente. Em resposta, os recém-chegados colocam uma colher de açúcar no leite e enviam de volta para o rei. Em outras palavras, não somente eles prometem se integrar à população local, mas também que irão enriquecê-la com a sua presença.

Na outra versão, eles jogam um anel de ouro dentro do pote para mostrar que eles irão conservar sua identidade e cultura, mas que também irão agregar imenso valor à região.

Ambas são narrativas convincentes, apesar de mostrar pontos levemente diferentes. Uma exalta a integração dos imigrantes, enquanto a outra destaca o valor de diferentes culturas vivendo juntas em harmonia. Os Parsis na Índia e em outras partes fizeram os dois: adotaram alguns dos costumes da terra onde vivem, ao mesmo tempo que mantinham sua cultura distinta, seus rituais religiosos e crenças.

Eles também deram contribuições culturais que a onda inicial de refugiados em Guzerate nunca poderia imaginar. Apesar de poucos, os Parsis têm entre eles famosos músicos, cientistas, acadêmicos, artistas e empreendedores. Além de Freddie Mercury, há Zubin Mehta, o diretor da Filarmônica de Israel; Jamshedji Tata, fundador do Tata Group, o maior conglomerado industrial da Índia; Dadabhai Naoroji, o primeiro indiano eleito para o Parlamento britânico; o professor de Harvard professor Homi K. Bhabha; e o físico nuclear Homi J. Bhabha, para citar alguns.

Além de Freddie Mercury, também são zoroastristas Zubin Mehta, o diretor da Filarmônica de Israel; Jamshedji Tata, fundador do Tata Group, o maior conglomerado industrial da Índia; e Dadabhai Naoroji, o primeiro indiano eleito para o Parlamento britânico, para citar alguns

A família de Freddie Mercury era imigrante com origem na Índia. Eles se mudaram primeiro para Zanzibar, onde Freddie nasceu, antes de se estabelecerem na Inglaterra. Como seus ancestrais, Freddie Mercury se integrou à nova cultura. Ele mudou seu nome e se tornou um ícone pop ocidental. Apesar disso, se manteve imensamente orgulhoso de suas origens.

“Eu acho que o que a religião zoroastrista deu a ele”, sua irmã Kashmira Cooke explicou em 2014, “foi a ideia de trabalhar duro, perseverar e seguir seus sonhos”.

Vasudha Narayanan é professora de Religião na Universidade da Flórida

 


(1) comentário Escrever comentário

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ADEMIR MARIA RICHOTTI em 13/11/2018 - 18h19 comentou:

E não há como não vincular essas raízes com a obra prima Bohemian Raphsody

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