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мода: a filha dileta do capitalismo, a Moda, durante a era soviética

A indústria têxtil e a moda existiam desde os primórdios da revolução russa, em 1917, e continuaram existindo depois

Moscou em 1954. Foto: Henri Cartier-Bresson
Iara Vidal
05 de fevereiro de 2021, 21h06

A moda está visceralmente ligada ao modo de produção capitalista. Nem por isso as sociedades de transição socialistas, como a extinta URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), a aboliram. Há uma persistente tradição de democracias liberais em esvaziar a experiência socialista como insípida e padronizada. Como o estilo de vida da sociedade burguesa usa a moda como forma de expressar a individualidade, há uma percepção equivocada de que nada similar ao mundo fashion existiu ao longo dos 74 anos da era soviética (1917-1991).

Como o estilo de vida da sociedade burguesa usa a moda como forma de expressar a individualidade, há uma percepção equivocada de que nada similar ao mundo fashion existiu ao longo dos 74 anos da era soviética

Quando Raíssa, mulher do ex-líder soviético Mikhail Gorbachev, morreu em 1999, aos 67 anos, vítima de leucemia aguda, a Folha de S.Paulo reproduziu uma reportagem do jornal francês Libération sobre a relação dela com a moda. O gosto da ex-primeira-dama “pela alta costura, numa época de dificuldades econômicas, fez com que ela se tornasse alvo de críticas. Ela introduziu a moda ocidental na Rússia, onde a moda era o modelo único de vestidinho florido.”

Raíssa foi uma mulher admirável, mas não teve mérito algum em levar a moda para um lugar de onde ela nunca saiu. A indústria têxtil e a moda existiam desde os primórdios do governo socialista, estabelecido em outubro de 1917, e continuaram existindo depois.

Raíssa Gorbachev. Foto: Nikolai Malyshev/TASS

Sob a liderança de Vladimir Lenin, que conduziu a República Socialista Federativa Soviética da Rússia de 1917 a 1922, e a URSS de 1922 a 1924, ano de sua morte, a função do segmento têxtil era fornecer roupas baratas e de qualidade sem esquecer o design. Na Moscou revolucionária, as primeiras casas de moda foram criadas a partir das oficinas de costura e alfaiataria da cidade no final dos anos 1920 e início dos 1930.

Em 1920, foi fundada a Vkhutemas (sigla para Estúdios de Arte do Estado), chamada de “a Bauhaus de Moscou”, que funcionou até 1932 e estabeleceu as bases para as décadas subsequentes do design industrial soviético. A escola tinha o propósito de preparar artistas para atuarem na indústria, além de construtores e gestores para o ensino técnico-profissional. A instituição mantinha faculdades de artes, com cursos de artes gráficas, escultura e arquitetura; e de indústria, com formação em impressão, têxtil, cerâmica, marcenaria e trabalho em metal.

Projeto de fachada da Vkhutemas para os 10 anos da revolução

A Vkhutemas abrigou o movimento artístico-cultural que reverberou também na moda e que ficou conhecido como Vanguarda Russa. Contemplou, entre outras expressões, o Construtivismo, que atuava no segmento têxtil. A forma de expressão foi fruto de uma era marcada por mudanças políticas, econômicas, sociais, culturais, de modos de produção e de organização social. A noção de intervenções e participação ativa de artistas no processo fabril, eles mesmos limitados à produção de desenhos que poderiam ser produzidos em massa, era por si só uma ideia muito revolucionária.

Stepanova criando padronagens em 1924. Foto: Alexander Rodchenko

O departamento têxtil dos Estúdios de Arte do Estado era orientado pela designer construtivista Varvara Stepanova (1884-1958). Embora a orientação pedagógica fosse voltada para uma perspectiva utilitária, a estilista incentivava os alunos à observação da estética e tecidos contemporâneos para desenvolverem consciência quanto às exigências das novas condições sociais impostas pelo regime soviético. A estilista construtivista Lyubov Popova (1889-1924) também era membro do departamento têxtil.

Em 1922, as duas artistas da Vanguarda Russa foram contratadas para criarem tecidos para a Fábrica de Estampagens Têxteis do Estado. Ambas foram pioneiras como mulheres designers na indústria têxtil Soviética, embora 60% da força de trabalho desse segmento fosse feminina. Popova foi autora de padrões geométricos, arquitetônicos e assimétricos e produziu tecidos com retículas de estampas de foices e martelos, precursores do trabalho de outros artistas bolcheviques.

Padronagem de Popova

Popova e Stepanova tentaram criar novos tipos de vestimenta que separariam o antigo regime do país pós-revolucionário. Ambas ajudaram a desenhar um novo modo de vida para as mulheres e estiveram envolvidas na versão russa da “reforma do vestido”, na tentativa de criar um novo uniforme democrático, que não revelaria origens de classe, já que todos eram iguais.

A moda construtivista utilizava materiais do cotidiano como barbante, madeira, metal, plástico, escolhidos pelas qualidades inerentes: texturas, cor e forma. Havia um esforço em trabalhar com o design de roupas com enfoque na funcionalidade e abordagem de formas e estilos. As tendências apontavam para roupa agênero e universal, uso de novos materiais (alternativos e sintéticos), cores vivas, além do preto, branco e prata com detalhes geométricos e zíper.

Vestidos de Alexandra Exter e Lyubov Popova em 1922

O movimento fashionista dos bolcheviques surgiu, em grande medida, graças à estilista Nadejda Lamanova, conhecida como a  “Chanel russa”. Antes da revolução, Nadejda criou roupas para a Corte Imperial e para os teatros da capital russa. No período soviético, desenhou roupas para produção em massa. Ela era a queridinha das esposas de chefes do Partido Comunista da URSS (PCUS) e formou os responsáveis pelas primeiras casas de moda do regime, como a loja de departamentos Mostorg, inaugurada em 1933;  a Mosbelio, aberta em 1934; e Moschveia, que abriu as portas em 1938. Essas lojas de roupas lançaram as primeiras revistas de moda soviéticas, em 1936.

Foi da “Chanel russa” a ideia de criar um ateliê de moda contemporânea para orientar o guarda-roupas revolucionário. Ela desenvolveu a moda para operários e camponeses a partir de lenços e toalhas de mesa, entre outros itens do dia a dia. Ainda assim, criou uma coleção que venceu o Grande Prêmio na Exposição Internacional de Paris em 1925.

A moda e o capitalismo têm uma trajetória a par e passo ao longo da história. O que diriam os comunistas Marx e Engels sobre as contradições dessa indústria gigante e icônica do século 21?

No período pós-revolucionário, o guarda-roupa soviético era formado por casacos de couro e roupas com corte reto em tecidos como lona e linho. As peças eram usadas por homens e mulheres. Nessa época, elas passaram a usar um lenço vermelho, símbolo da emancipação feminina, amarrado na parte de trás da cabeça. Antes do Outubro Vermelho, apenas homens retiravam a luva da mão direita em sinal de respeito para cumprimentar outra pessoa. As camaradas também passaram a adotar o gesto.

Com a morte de Lenin, em 1924, a URSS passa a ser liderada pelo georgiano Joseph Stalin, que ocupou o posto até sua morte, em 1953. Nos anos iniciais do regime, as roupas da moda ficaram inacessíveis ao povo soviético até depois de 1936, quando foram suspensas as restrições à venda de têxteis. Antes disso, as pessoas tinham que fazer reparos, reutilizar roupas velhas, ou produzir qualquer peça com os materiais disponíveis.

Casal do Komsomol, a juventude soviética, em 1920. Foto: RussiaBeyond

A Nova Política Econômica, iniciada por Lenin e implementada ao longo da década de 1920, autorizava negócios privados e permitia que a moda ocidental entrasse na União Soviética. Essa prática gerou críticas dos bolcheviques, cuja ideologia era contrária ao consumo de moda ocidental por considerá-la intrinsecamente capitalista. Na visão dos camaradas, a moda enfatiza o status econômico e as diferenças de gênero, justamente valores que o regime socialista buscava desconstruir.

As medidas para reconstrução da economia soviética após a I Guerra Mundial e a Guerra Civil Russa melhoraram as condições de vida da população. A moda “comuna” chegou a adotar as invenções ocidentais dos chamados “Loucos Anos Vinte”: ternos Marengo, botas de feltro, calças Oxford, vestidos de cintura baixa, e colares de pérolas. Era comum copiar o estilo das estrelas de cinema.

Casaco de Lamanova vestido pela atriz Alexandra Hohlova em 1923

A moda praia surgiu na URSS na década de 1920, com direito até a um protótipo de biquíni em 1937. A peça dupla só foi oficialmente inventada em 1946, pelo estilista parisiense Jacques Heim. Os primeiros biquínis de duas partes começaram a surgir na URSS na década de 1950. Com a parte de cima “tomara que caia”, chocou a sociedade e eram usados especialmente por celebridades ou boêmias. A parte de baixa alta – atualmente considerada “retrô” – seguiu como tendência até o início dos anos 1980.

O biquíni soviético ficou eternizado no filme Brilliántovaia Ruká (Braço de Diamante, 1968). Dirigido por Leonid Gayday (1923-93), o longa traz a estrela Svetlana Svetlitchnaia vestida com um modelo ousado para os padrões da época e em um papel de mulher sedutora. A atriz ganhou para sempre o título de “sex symbol”. Nas duas décadas seguintes, 1970 e 1980, as soviéticas conseguiam roupas de banho ocidentais com calcinhas de biquíni pequenas.

Na Segunda Guerra Mundial, durante o cerco nazista a Leningrado, hoje São Petersburgo, em abril de 1944, foi inaugurada a Casa Mertens, que vendia roupas femininas. Até a Revolução Vermelha, no local funcionava uma loja de peles. Atualmente, o local abriga uma enorme unidade da rede espanhola Zara, loja de roupas produzidas no sistema fast fashion.

Ao final da Segunda Guerra Mundial e em plena Guerra Fria, o mundo fashion bolchevique fervia. Nesse período foi inaugurada a mais famosa loja de roupas soviética, a Casa de Moda, no centro da capital Moscou. Lá eram criadas coleções para mais de 500 fábricas e organizados desfiles de moda abertos ao público com especialistas em arte comentando sobre as últimas tendências da moda. Os estilistas eram raramente identificados no lançamento das coleções. A criação era atribuída ao coletivo de estilistas da Casa de Moda. Os modelos mais famosos da época participavam de desfiles regulares de moda, e o empreendimento empregou jovens estilistas talentosos, como Slava Zaitsev, o “Dior Vermelho”, que acabou virando uma celebridade até no Ocidente.

Slava Zaitsev, o “Dior vermelho”, nos anos 1960. Foto: divulgação

Com a morte de Stalin, em 1953, o russo Nikita Kruschev o substituiu e ocupou o cargo até 1964. Uma das medidas do período pós-stalinismo soviético foi revogar a proibição do “culto à personalidade”, em fevereiro de 1956. A vida política e cultural na União Soviética foi profundamente impactada. Um dos símbolos do novo tempo foi a comédia musical Carnaval em Moscou (1956), de Eldar Ryazanov, estrelada por Lyudmila Gurchenko (1935-2011).

A atriz ucraniana foi considerada ocidental demais no tempo de Stalin, acusada de aceitar dinheiro de admiradores para complementar o salário pago pelo Estado e teve o patriotismo questionado quando recusou ser informante da KGB. Na nova era iniciada por Kruschev, Lyudmila foi alçada a uma artista icônica para a cultura soviética e sua cintura fina  virou uma febre entre as mulheres do país, que perseguiam o visual “ampulheta” dos vestidos com saia rodada que ela eternizou.

Em seguida, ascendeu ao poder o ucraniano Leonid Brejnev (1964-1982), que enfrentou a grave crise econômica dos anos 1970. Esse período ficou conhecido como anos da “estagnação”. Na moda, as camaradas se destacavam com penteados altos e casacos de pele, em contradição à situação de um país que sofria com o déficit.

A moda tem a capacidade de despertar desejos de consumo. Com as soviéticas não era diferente e muitas delas enfrentavam horas na fila para conseguir uma bota de cano alto, colocavam as meias-calças bege de molho na água sanitária para aplicar tinta de desenho e variar a paleta de cores ou investiam todo o salário em um sobretudo como o da atriz de Hollywood.

De 1982 a 1984, os soviéticos foram liderados por Yuri Andropov, seguido por Konstantin Chernenko, em 1984 e 1985, e Mikhail Gorbachev, de 1985 a 1991, quando chegou ao fim a experiência do socialismo na extinta União Soviética. Atualmente, a Rússia e as outras ex-repúblicas soviéticas estão integradas em definitivo ao capitalismo tardio e alinhadas ao neoliberalismo.

Cartaz contrapondo o estilo soviético à “decadência” ocidental

Na moda, o consumo de alto luxo levou a filial da Christian Dior na Rússia a bater recorde de vendas e alcançar receitas que ultrapassaram 1,1 bilhão de rublos (quase US$ 15,8 milhões) em 2019. A Praça Vermelha, em Moscou, abriga um dos shoppings mais luxuosos do mundo. O país exporta belíssimas modelos para marcas de moda de alto luxo globais. A moda russa, inclusive, já está inserida na era digital fashion, com mercado de roupas digitais.

Quando Karl Marx e Friederich Engels desenvolveram a teoria social que originou os marxismos, o segmento têxtil era uma realidade que eles observaram sob o ponto de vista do materialismo histórico. Engels era herdeiro de uma tecelagem e teve contato direto com operárias e operários. Ele, inclusive, foi casado com uma trabalhadora irlandesa desse segmento, Mary Burns.

A moda e o capitalismo têm uma trajetória a par e passo ao longo da história. O que diriam os dois comunistas sobre as contradições dessa indústria gigante e icônica do século 21? Para quem ainda tem a capacidade de sonhar, nunca é demais lembrar: “Tudo que é sólido desmancha no ar.”

 


(2) comentários Escrever comentário

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MARCELO em 16/02/2021 - 10h13 comentou:

O pensamento sobre as mulheres soviéticas, é que elas não se preocupavam com a moda, mas em cuidar dos filhos e do marido, sendo, assim, uma “patriota”.

Responder

    Cynara Menezes em 17/02/2021 - 19h49 comentou:

    as mulheres soviéticas trabalhavam fora tanto quanto os homens

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