Socialista Morena
Cultura

A divisão entre os oprimidos e a amizade fatal entre Malcolm X e Ali

Ou: como os oprimidos se voltam contra outros oprimidos sob as bênçãos (e incitação) do opressor

Malcolm X e Muhammad Ali no cartaz do filme. Foto: divulgação/Netflix
Cynara Menezes
18 de outubro de 2021, 20h05

Uma amiga querida me falara recentemente dos alertas de Frantz Fanon em Os Condenados da Terra (1961) para o fato de a violência do colono acabar descambando em disputas sangrentas entre os próprios colonizados: oprimidos contra oprimidos sob as bênçãos (e incitação) do opressor. “Enquanto o colono ou o policial podem a qualquer momento espancar o colonizado, insultá-lo, fazê-lo ajoelhar-se, vê-se o colonizado sacar a faca ao menor gesto hostil ou agressivo de outro colonizado”, lamenta Fanon. “Esta agressividade sedimentada nos músculos vai o colonizado manifestá-la primeiramente contra os seus. É o período em que os negros brigam entre si.”

Estas frases me vêm imediatamente à memória após assistir ao documentário Irmãos de Sangue: Malcolm X e Muhammad Ali, em cartaz no Netflix. Eu fiquei curiosa por saber mais do encontro destes dois gigantes da luta dos negros norte-americanos pela liberdade e por direitos. Confesso que desconhecia essa proximidade e tampouco tinha detalhes sobre a história do assassinato de Malcolm X. Portanto, foi um choque para mim descobrir como sua morte está diretamente conectada à amizade rompida com Ali…

Malcolm e o boxeador então chamado de Cassius Clay teriam se visto pela primeira vez antes de um encontro do grupo de negros muçulmanos Nation Of Islam, em 1962. Malcolm X tinha 37 anos; Clay, prestes a revelar sua conversão ao islamismo e assumir uma nova identidade como Muhammad Ali, tinha 20. Logo se estabeleceu uma relação mentor-pupilo entre os dois. Em fevereiro de 1964, um ano antes de ser morto, Malcolm X chegou a levar a família para visitar o centro de treinamento de Ali em Miami.

Ali recebe a visita de Malcolm X em Miami. Foto: reprodução/Netflix

Naquela noite, os dois amigos, mais o cantor Sam Cooke e o jogador Jim Brown, iriam festejar com sorvete a vitória de Cassius Clay sobre Sonny Liston na primeira luta pelo campeonato mundial de pesos pesados –esta história foi ficcionalizada no filme Uma Noite em Miami, de Regina King, no ano passado. Dois dias depois deste encontro, Clay anunciaria ao país que se tornara muçulmano (na verdade, segundo seu pai, o lutador havia se convertido ao grupo desde os 18). É então que a história dos dois amigos, “brothers” de sangue, começa a bifurcar.

Havia, desde o princípio, um terceiro elemento entre os dois: o líder espiritual da Nação do Islã, Elijah Muhammad, de quem, por sua vez, Malcolm X havia sido pupilo. Foi Elijah quem rebatizou Cassius Clay como Muhammad Ali, nome que o pugilista usaria de 1964 até a morte, em 2016. “Cassius Clay é um nome de escravo. Eu não escolhi e não quero. Eu sou Muhammad Ali, um nome livre –significa ‘amado por Deus’ e é como eu quero que as pessoas me chamem”, disse.

Enquanto Ali estava mais e mais seduzido pelo “profeta”, um mês depois da luta em Miami, Malcolm não só rompeu com Elijah Muhammad como deu uma razão forte para isso: o líder muçulmano teria tido oito filhos com seis adolescentes que trabalhavam como suas secretárias pessoais. Até hoje pesa sobre o grupo a acusação de ter mandado matá-lo por conta disso. Ou seja, não foram agentes do governo dos EUA, mas os próprios negros que assassinaram Malcolm X.

Em 1992, quando lançou a cinebiografia Malcolm X, com Denzel Washington no papel-título, Spike Lee foi atacado e ameaçado por lideranças negras por associar o crime à Nação do Islã. “É fácil culpar a CIA e o FBI”, rebateu Lee então. “Eu não vou dizer que eles não estiveram envolvidos. No mínimo, deixaram isso acontecer.” Mas, disse o diretor, todo mundo sabe que cinco membros do grupo foram responsáveis pelo assassinato. Três inclusive foram presos e um deles, Thomas Hagan, assumiu ter dado os disparos.

Em sua autobiografia, Muhammad Ali disse que romper com Malcolm X foi um grande erro. “Dar as costas a Malcolm foi um dos erros dos quais mais me arrependo na vida. Queria ter podido dizer que sentia muito, que ele estava certo sobre tantas coisas…”

O documentário da Netflix corrobora esta tese, que o próprio Muhammad não fazia questão de negar. A reação de Ali à morte do ex-amigo foi fria, para dizer o mínimo. Dois meses antes do crime, o atual líder do NOI, Louis Farrakhan, escrevera que Malcolm X era um traidor e como tal “deveria ser morto”.

A viúva do ativista negro, Betty Shabazz, morreu acreditando que Farrakhan foi diretamente responsável pelo assassinato do marido. “Claro que sim. Ninguém manteve em segredo. Era uma medalha de honra. Todo mundo falava sobre isso”, afirmou ela. Farrakhan nunca negou peremptoriamente ter tido alguma participação e, em um discurso de 1993, dá a entender que esteve mesmo envolvido. “Malcolm traiu você ou a nós? E se lidamos com ele como uma nação lida com um traidor, isso é da sua conta?”, afirmou.

Em 2000, Farrakhan se disse arrependido pelo papel que teve. “Posso ter sido cúmplice pelas palavras que falei”, afirmou à filha de Malcolm X, Atallah Shabazz, durante uma entrevista ao programa 60 minutos, da rede CBS. “Eu reconheço isso e lamento que qualquer palavra que eu tenha dito tenha causado a perda de uma vida humana.”

Antes disso, porém, outras tragédias já tinham acontecido na família de Malcolm X. A segunda filha do ativista negro, Qubilah Shabazz, que presenciara o momento do crime, foi presa em 1995 sob a acusação de ter mandado matar Farrakhan. O líder religioso e a viúva de Malcolm, Betty, apertaram as mãos diante das câmeras para inocentar Qubilah, as acusações criminais foram retiradas e ela foi enviada a tratamento psiquiátrico. Mas, enquanto estava internada, seu filho de 12 anos, Malcolm, abrigado pela avó, ateou fogo na casa onde moravam, levando Betty à morte, aos 63 anos. Após enfrentar mais problemas com a polícia ao longo da curta vida, o neto de Malcolm X morreria espancado no México, aos 28 anos, em 2013.

Quanto a Muhammad Ali, ele só deixou a Nação do Islã em 1975, após a morte de Elijah Muhammad. Em sua autobiografia, The Soul of a Butterfly (2004), escrito em parceria com a filha Hana Yasmeen, ele disse que romper com Malcolm X foi um grande erro. “Dar as costas a Malcolm foi um dos erros dos quais mais me arrependo na vida. Eu queria ter podido dizer a Malcolm que sentia muito, que ele estava certo sobre tantas coisas… Mas ele foi assassinado antes que eu pudesse fazer isso.”

 


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(3) comentários Escrever comentário

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Mario em 19/10/2021 - 17h01 comentou:

Lamentável…negros fazendo o trabalho do inimigo racista.

Responder

Luís Carlos Kerber em 10/11/2021 - 11h19 comentou:

No filme Colin em preto e branco, Netflix, 2021, o atleta do futebol americano e ativista Colin Kaepernick narra a sua história para conseguir ser um quarterback (uma posição onde a maioria dos atletas são brancos no futebol americano). Nesse filme ele relata uma pesquisa feita com crianças brancas e negras com bonecas brancas e negras. Tanto a criança branca, quanta a criança negra associavam a boneca negra a coisas ruins, as crianças brancas e negras não se viam representadas pela boneca negra, o padrão de beleza para a criança branca e negra era a boneca branca! Isto ocorre devido aos meios de comunicação e de entretenimentos colocar, geralmente, o negro ou negra em situações vexatórias, degradantes, de assassinos, de pessoas violentas, burras, incompetentes, etc. Provavelmente filmes e propagandas comerciais dos anos 30 aos 80 colocavam o negro em situações desagradáveis e isto se refletia no imaginário de muitas crianças negras que não queriam ser negras ou tinham vergonha de sua origem negra. Não conheço a história da Netflix com profundidade e nem procurei saber. Percebo que essa empresa de entretenimento busca financiar e produzir filmes que qualificam os negros, que mostram o processo de preconceito social e racial sofrido pelos negros ao longo da história, que mostram exemplos de negros que combateram o racismo e o preconceito social e lutam por igualdade de direitos entre brancos e negros. O mesmo a Netflix faz com pessoas LGBTQIA+, também qualificando e defendendo o direito de pessoas LGBTQIA ser o que quiserem e combater o preconceito contra as minorias.

Responder

    Cynara Menezes em 10/11/2021 - 15h47 comentou:

    é muito bom esse filme!

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