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A mãe e a montanha

Aos três anos de idade, o mineiro Bernardo Collares Arantes conseguiu balançar o berço até poder descer, abriu a porta e fugiu para a rua. Moleque, gostava de subir pelas grades do edifício onde a família morava, não sem antes perguntar à mãe, Heliane: “Mãe, posso subir?” E ela: “Pode, Bernardo. Você só não pode […]

Cynara Menezes
24 de dezembro de 2013, 18h23

(Bernardo Collares quando criança)

Aos três anos de idade, o mineiro Bernardo Collares Arantes conseguiu balançar o berço até poder descer, abriu a porta e fugiu para a rua. Moleque, gostava de subir pelas grades do edifício onde a família morava, não sem antes perguntar à mãe, Heliane: “Mãe, posso subir?” E ela: “Pode, Bernardo. Você só não pode é cair”. Aos 46 anos, em janeiro de 2011, já um montanhista experiente, resolveu partir para sua maior aventura: escalar a face oeste do monte Fitz Roy, na Patagônia argentina. E sumiu.

Entre os montanhistas, quando um acidente fatal acontece, é considerado uma honra que o corpo permaneça na montanha. Mas dizer isso a uma mãe não vai exatamente apaziguar seu coração. Desde que Bernardo, terceiro de quatro filhos, desapareceu, Heliane, de 71 anos, lembra sua ausência a cada mês, no Facebook. “Um ano e um mês do desaparecimento do meu filho”. “Um ano e sete meses. Morreu? Não morreu?” “Um ano e nove meses. Queria que minha fantasia se tornasse realidade: como ninguém o viu morto, será que ele morreu mesmo? Às vezes me assusto na rua, vendo alguém parecido com ele, achando que voltou.” Dividida entre amar e odiar a montanha que engoliu o filho, Heliane posta fotos do belo Fitz Roy ao crepúsculo.

Três anos atrás, Bernardo Collares, presidente da Federação de Montanhistas do Rio, embarcou com a parceira Kika Bradford para tentar a façanha de subir o Fitz Roy pela via Afanassief, na face oeste-sudoeste do monte, conquistada em 1979. Como Kika narrou em março de 2011 em artigo na revista de aventura Go Outside, a via “é a mais longa dessa montanha, com aproximadamente 2 mil metros de extensão. Para chegar à base, é necessário caminhar por 9 horas em trilhas, neveiros (neve fofa), morainas (trechos de pedras soltas) e glaciares”. O clima da região é tão inóspito que os escaladores só se lançam à montanha nas raras brechas de bom tempo. Isso em pleno verão.

Kika e Bernardo foram para lá pela primeira vez no final de 2008, quando passaram dois meses estudando a região, sempre acalentando o sonho de atingir o cume pela Afanassief. Em 2009, esperaram dois meses para subir, e desistiram após 200 metros, ainda no primeiro dia, por causa do frio intenso. Finalmente, no dia 1º de janeiro de 2011, o clima parecia ideal, e a dupla de escaladores brasileiros iniciou a subida. A partir daí, a única testemunha do que aconteceu é Kika Bradford.

Em nove horas, ela e Bernardo fizeram a aproximação para a base e começaram a escalar. O tempo estava tão bom no primeiro dia que Kika, ao contrário do ano anterior, quando havia tiritado de frio mesmo com todas as roupas no corpo, estava de camiseta. No dia seguinte, avançaram mais rumo ao cume e foram dormir “exaustos e felizes”. Acordaram com flocos de neve caindo sobre os rostos. O tempo virou. Decidiram subir um pouco, para descer por outra via menos perigosa, mas não havia visibilidade por causa do intenso nevoeiro. A 400 metros do cume, decidiram encarar a perigosa Afanassief na descida.

Foi quando a ancoragem se soltou, Bernardo caiu do rapel e bateu com a cabeça na rocha. Segundo Kika, o parceiro chegou a ficar inconsciente por alguns segundos. Ela conseguiu transferi-lo para um platô e colocá-lo no isolante térmico, apesar das fortes dores de Bernardo no cóccix, lombar e quadril. Ambos decidiram que o melhor seria ela descer para buscar ajuda. 25 horas depois, Kika Bradford chegaria à base da montanha, mas, no dia seguinte, recebeu a notícia de que não seria possível resgatar seu parceiro por causa do tempo.

O Fitz Roy, ou Cerro Chaltén, aparece em quase todas as listas de “montanhas mais difíceis de escalar do mundo”, ao lado dos montes Annapurna, no Nepal, o pico K2, na fronteira sino-paquistanesa, ou o Nanga Parbat, a mortífera montanha no Paquistão conhecida como “comedora de homens”. Com 3.375 metros, o sul-americano Fitz Roy, na fronteira entre o Chile e a Argentina, não chega à metade destas gigantes do Himalaia, mas o que lhe falta em altura sobra em dificuldade técnica: paredões de puro granito e com clima traiçoeiro.

Para se ter uma ideia, em 19 de maio de 2012 nada menos que 234 pessoas alcançaram o cume do Everest, enquanto no Fitz Roy houve temporadas com apenas uma tentativa bem-sucedida. Em janeiro deste ano, os brasileiros Sergio Tartari e Flavio Daflon e o argentino Luciano Fiorenza foram parar no noticiário pelo feito de alcançar o topo abrindo uma nova via de escalada no lado norte da montanha, batizada de “Samba do Leão”.

(O brasileiro Daflon no cume do Fitz Roy. Foto: arquivo pessoal)

“A escalada do Fitz Roy é tecnicamente muito exigente e longa, com pouquíssimos locais para descanso. O sucesso depende de janelas de bom tempo que costumam durar no máximo quatro dias, sendo que uma ascensão e descida completas costumam levar de dois a três dias inteiros”, explica o presidente da Confederação Brasileira de Montanhismo e Escalada, Silvério Nery. “Com tempo instável, os ventos podem chegar a mais de 100km/h, reduzindo drasticamente a sensação térmica e as chances de sobrevivência.”

De acordo com Nery, é relativamente frequente que montanhistas desapareçam e seus corpos não sejam achados, como aconteceu com Bernardo, embora o caso dele seja apenas o segundo de que se tem notícia ocorrido com brasileiros –o outro caso foi o do paranaense Marcos Luszczynski em 2005, que tentou escalar o Mont Blanc, na França. Seu corpo nunca foi encontrado. “Essa é uma consequência bastante provável em montanhas muito altas e ambientes extremos”, diz. “Talvez no Brasil seja raro porque só recentemente a presença de brasileiros em grandes montanhas teve um aumento significativo. É também uma questão de estatística.”

De fato, no Japão, que vive um boom da prática de montanhismo entre pessoas maduras, o número de desaparecidos vem crescendo. O ano passado bateu o recorde: 2465 escaladores desapareceram, 75% deles com idade acima de 40 anos. A maioria foi resgatada depois, mas 249 morreram e 35 continuam desaparecidos. Mais alta montanha do mundo, o monte Everest se tornou a última morada de pelo menos 100 das cerca de 230 pessoas que morreram tentando alcançar seu cume. Em 1924, os pioneiros montanhistas Andrew Irvine e George Mallory se tornaram célebres por sua tentativa. Não se sabe se foram ou não os primeiros a chegar ao topo: jamais retornaram da aventura.

O corpo de Mallory só foi encontrado 75 anos depois, em 1999. O de Irvine continua desaparecido –provavelmente junto com a cobiçada câmera fotográfica da dupla, capaz de resolver o mistério. Eles morreram na subida ou na descida? A primeira conquista comprovada ocorreu há 60 anos, em maio de 1953, mas desde então estima-se que mais de 3.500 escaladores repetiram o feito. Na temporada de 1996, 19 pessoas morreram tentando chegar ao cume em uma expedição comercial, tragédia narrada por Jon Krakauer, jornalista que estava no grupo, no clássico “No Ar Rarefeito” (Companhia das Letras).

Hoje, com a internet, circulam, em sites um tanto mórbidos, fotos de cadáveres congelados achados durante a subida, conservados por causa do frio. À medida que a conquista do Everest se banalizou, ocasionalmente vem sendo feitas “faxinas” para limpar a montanha dos corpos e equipamentos deixados, como cordas, barracas e tubos de oxigênio.

(A subida do Everest hoje. Foto: Subin Thakuri)

(O corpo no caminho. Foto: Kristoffer Erickson)

Embora atraia multidões de escaladores em expedições pagas e com várias vias equipadas –até demais, criticam os montanhistas–, o Everest continua a fazer vítimas, por quedas, avalanches, edema pulmonar e cerebral ou hipotermia. Em 2006, o paulista Vitor Negrete, de 38 anos, tentava se tornar o primeiro brasileiro a escalar o monte sem oxigênio auxiliar. Conquistou o cume, mas, durante a descida, não resistiu e morreu. Como havia declarado o desejo de permanecer na montanha se a aventura tivesse um desfecho ruim, foi sepultado pelos xerpas (guias locais) no Everest, a pedido da família.

Com Bernardo Collares a história é diferente porque seu corpo sumiu do platô onde foi deixado por Kika Bradford. Em março de 2011, um grupo de escaladores fez uma foto no local onde Bernardo ficou, impossibilitado de se mover, segundo sua companheira. Encontraram os equipamentos, mas não a mochila, o saco de dormir –e o corpo do brasileiro. No verão seguinte, em janeiro de 2012, houve um degelo excepcional no Fitz Roy, foram achados equipamentos de pessoas perdidas havia sete anos, mas nenhum sinal de Bernardo. Kika, porém, rejeita a ideia de desaparecimento. “O Bernardo não desapareceu. Morreu, infelizmente”, diz. “Para mim, ele se soltou e caiu. O corpo deve estar em algum lugar onde o deixei e a base da montanha.”

(Heliane Collares em sua casa, no Rio. Foto: Adriana Lorete)

Entre a racionalidade do escalador e o coração de mãe tem uma montanha enorme. Salete, a mãe de Marcos Luszczynski, até hoje sente o coração disparar quando recebe o aviso de que tem encomenda para ela nos Correios. “Sempre acho que pode ser dele… Não choro mais toda hora, como no começo, mas ainda penso que a qualquer momento ele vai voltar.” Heliane Collares sabe que é praticamente impossível que o filho tenha saído dali, mas a falta do corpo mantém uma pequena chama de esperança acesa.

“Não acredito que ele estivesse tão ferido, para mim a avaliação da parceira foi errada. Acho que resolveu sair do lugar onde foi deixado. Não tinha corda, mas na época o Bernardo estava praticando ‘escalada solo’, igual lagartixa, sabe? Não sei. Mas no lugar onde a Kika o deixou ele não estava”, diz Heliane. “Não sou montanhista, não tenho obrigação de pensar como eles. É complicado para uma mãe admitir esse negócio que não vi. E se ele tiver perdido a memória e estiver por aí?”

Existem várias hipóteses para o desaparecimento do corpo de Bernardo do platô: pode ter despencado numa cavidade rochosa no meio da parede, que tem 1300 metros de extensão vertical, ou, caso tenha caído até a base da montanha, estar enterrado no gelo. Especialistas acham pouco provável a interferência de animais, como aves de rapina –condores, por exemplo–, devido às condições climáticas da região.

Além da tristeza, o desaparecimento de um familiar levanta questões legais. É preciso acionar a Justiça para decretar a “morte presumida”, prevista na legislação brasileira, para resolver questões banais como o pagamento de dívidas ou o encerramento do plano de saúde. No caso do montanhista mineiro radicado no Rio, isto foi possível graças às reportagens publicadas sobre o acidente. Psicologicamente, a falta do ritual do enterro e a própria ausência do corpo trazem aos familiares um sentimento conhecido como “luto impossível”.

Circunstâncias à parte, é uma dor análoga aos familiares dos desaparecidos políticos na época da ditadura militar. Como diz Heliane: “Sinto como se, de repente, tivesse me transformado numa mãe da Plaza de Mayo”.

(Texto publicado originalmente na revista CartaCapital em setembro/2013. Considero minha melhor  reportagem neste ano que passou.) 


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Heliane Collares em 25/12/2013 - 02h17 comentou:

Além da correção do texto, vc primou pela sensibilidade. A minha dicotomia entre admirar a montanha e sofrer por causa dela, foi certeiro. Vc entendeu meu coração. Feliz Natal! e Sucesso em 2014 !!!!!

Responder

Heliane Collares em 25/12/2013 - 15h59 comentou:

A LUTA em detrimento do LUTO !
Está no atestado de óbito do meu filho " Morte PRESUMIDA " Presume-se que ele morreu e até onde sei, ninguém o viu morto. O recorte das publicações convenceram o juiz . Mas ainda não sabíamos que ele havia DESAPARECIDO do local onde foi deixado. E, aquele que desaparece e não dá evidência de sua morte, converte-se numa espécie de fantasma que permite deixar sempre aberta a possibilidade do regresso.
É isso que faço nessa janela da foto. Espero por ele.

Responder

    Patrick em 27/12/2013 - 00h55 comentou:

    Senhora Heliane,espero do fundo do meu coração que um dia a senhora reencontre deu filho.As chances são pequenas,mais acredito que enquanto o corpo do seu filho não for achado a senhora deve manter a esperança.
    Estarei orando pela senhora.

blogululante em 03/01/2014 - 10h58 comentou:

"Entre os montanhistas, quando um acidente fatal acontece, é considerado uma honra que o corpo permaneça na montanha. Mas dizer isso a uma mãe não vai exatamente apaziguar seu coração.".
Difícil situação, parabéns pelo texto e pela sensibilidade. A espera e a dúvida acompanham todos os seres humanos. Difícil alguém que nem a conhece dizer isto, mas tenha força Heliane.

Responder

Jaime I.Serral em 03/01/2014 - 19h49 comentou:

Cynara, procuro aqui na minha coleção de palavras as que podem melhor retribuir elogiosamente este sensível texto. A condução desta história é quase como um conto, mas suas personagens são reais, os fatos são reais e o desfecho também. E apesar da tristeza que assoma aos olhos dessa mãe, toda essa dor tem o valor do amor de quem não esquece, nunca esquece os seus. Suas palavras molharam meus olhos e este é meu elogio a você. Receba-o carihnosamente..

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