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A mídia aparentemente despreza Cunha, mas o utiliza para imolar uma presidente inocente

Jornais se utilizam de um político fundamentalista, sobre quem pesam graves denúncias de corrupção, réu no STF, para ser o carrasco de Dilma, ao mesmo tempo que fingem indignação contra ele

Montagem de Magnesio sobre o quadro Salomè con la Testa del Battista, de Bernardino Luini, 1527
Cynara Menezes
20 de abril de 2016, 20h43

O absoluto maucaratismo, a covardia, a falta de apreço aos fatos e o profundo desamor pelo Brasil da velha mídia ficam mais do que evidentes neste novo golpe que perpetram contra a democracia. Nada mais importa a não ser arrancar o PT do poder. Dane-se que Dilma Rousseff não tenha cometido ilícito; dane-se o dantesco julgamento de domingo, quando o mundo inteiro pôde ver a classe de políticos que votou contra ela; dane-se que se está cometendo uma injustiça.

Os jornais brasileiros ocultam todo o tempo de seus leitores que Dilma é honesta e que está sendo derrubada do poder por um bando de políticos às voltas com a Justiça. Em nenhum momento os editoriais dos três maiores jornais, que expressam a opinião de seus donos, foram capazes de ao menos se indignar com a realidade de que Dilma não é corrupta e que está sendo deposta por gente acusada de corrupção. Pelo contrário. A questão agora é fazer o impeachment o mais rápido possível, defendem a Folha de S.Paulo e o Estadão, em uníssono. Hoje, o jornal dos Mesquita inclusive zomba da dor da presidenta da República por se sentir injustiçada.

É risível, mas a  Folha chega a cobrar do presidente do Senado, Renan Calheiros, “apreço pela verdade”, ao mesmo tempo em que, cinicamente, adere ao “novo” presidente Michel Temer e lhe apresenta sugestões de medidas “urgentes” para quando começar a governar –sendo que, apenas duas semanas atrás, pedia a renúncia dupla do mesmo Temer junto com Dilma, no mais covarde editorial da história da imprensa brasileira.

Principal artífice midiático do golpe,  O Globo celebra sem pudor a iminente queda de Dilma e ataca os cidadãos pagadores de impostos que defendem a presidenta, alcunhando-os “bolivarianos”, como se não fossem tão brasileiros quanto os que protestam contra ela (e é o PT quem é acusado de “dividir o país”…). Os jornais anseiam loucamente por escapar da ideia, já disseminada na opinião pública, de que há um golpe em curso e por isso utilizam sofismas, exatamente como fizeram em 1964, quando chamava o movimento militar que destituiu João Goulart de “revolução”. Naquela época, era a “revolução” sem povo. Hoje é o “impeachment” sem crime.

O jornal carioca diz que um golpe com apoio do Supremo Tribunal Federal “seria candidato a entrar no Guinness”, mentindo para seus leitores, já que o golpe de 1964 contou com o beneplácito do STF: no dia 2 de abril de 1964, o presidente do Supremo, Ribeiro da Costa, participou da posse de Ranieri Mazzilli, então presidente da Câmara dos Deputados e interino no comando do país; e, em 15 de abril, saudou o general Castelo Branco, o primeiro de nossos ditadores. Daqui a 50 anos, provavelmente o panfleto dos Marinho pedirá perdão por ter apoiado a destituição de uma pessoa inocente, como fez dois anos atrás em relação a 1964. “Foi mal, galera.”

Apegar-se à desculpa de que Dilma está sendo escorraçada do poder porque não possui popularidade é uma tentativa de justificar o injustificável. Não está prevista na Constituição a hipótese de derrubada de uma presidente eleita porque se considera o governo dela ruim ou péssimo. Se assim fosse, a mídia hegemônica teria, como fez com Dilma, exigido a renúncia do tucano Fernando Henrique Cardoso em 1999, quando sua popularidade decaiu para 8% e também havia multidões nas ruas bradando “fora FHC”. A crise econômica ou o desemprego de 38% no governo de Fernando Henrique (é de 10,3% com Dilma) tampouco levou os jornais a uma campanha pela destituição do “príncipe da Sociologia”.

Enquanto a imprensa brasileira age como comandante do golpe, a estrangeira denuncia a farsa do impeachment de uma presidente que não cometeu crime de responsabilidade, condição sine qua non para tirá-la do cargo, de acordo com a Carta Magna do país. O primeiro a sair em defesa de Dilma foi o prestigiado jornalista norte-americano Glenn Greenwald, que em 2013 denunciou as escutas do governo dos EUA ao mundo. Em março, Greenwald apontou, no seu site The Intercept , que “o Brasil vive uma perigosa subversão da democracia” e criticou o papel manipulador da mídia. “Acreditar que as figuras políticas agindo para o impeachment de Dilma estão sendo motivadas por uma autêntica cruzada anti-corrupção requer extrema ingenuidade ou ignorância”, escreveu, em artigo assinado com outros dois jornalistas.

Em seguida, o The New York Times publicou uma reportagem em que dizia, com todas as letras, que Dilma é uma presidente honesta que está sendo derrubada por uma gangue. Reforçou a percepção na terça 19, com um editorial em que critica o processo de impeachment, dizendo que o argumento das pedaladas é na verdade o pretexto para “um referendo” sobre a permanência do PT no poder –referendo sem povo, diga-se de passagem. Rasgando seus manuais de redação, os jornais noticiam estes reparos ao processo feitos por alguns dos mais importantes veículos de comunicação do mundo novamente subtraindo aos leitores o ponto principal da crítica: o fato de Dilma ser inocente e estar sendo condenada por abutres. O Estadão, por exemplo, preferiu destacar, sobre o editorial do New York Times, que Dilma “terá que mostrar liderança para sobreviver”.

Na Inglaterra, o The Independent saiu com uma matéria dura contra a imprensa daqui: “Processo político brasileiro é ‘prejudicado por imprensa partidária'”. E o The Guardian , também em editorial, apontou a falta de provas contra Dilma, a sobra de evidências contra a Câmara que votou por seu impeachment e declarou “temor” pelo futuro do país: “Um escândalo e uma tragédia”. O editorial do diário espanhol El Pais, “O Brasil diante do abismo”, é um tapa na cara no jornalismo pseudoimparcial de nossa imprensa: “O processo de destituição de Dilma Rousseff não resolve nenhuma das crises do país”. Não é à toa a pressa dos jornais brasileiros pelo impeachment: quanto menos o mundo souber da injustiça histórica que estão patrocinando, melhor.

O pior de tudo, para mim, é assistir a mídia se utilizando de um político fundamentalista, perigoso para os destinos da Nação, sobre quem pesam graves denúncias de corrupção, réu no STF, para ser o carrasco de Dilma, ao mesmo tempo que finge indignação contra ele. Para usar uma metáfora bíblica, tão em voga nos dias atuais, é como se Eduardo Cunha fosse Salomé, com a cabeça de João Batista/Dilma numa bandeja, enquanto a velha mídia/Herodes Antipas demonstra “constrangimento” diante da imolação de uma pessoa digna. Mas não move um dedo para defendê-la. A diferença é que, no Novo Testamento, é Salomé quem pede e Herodes Antipas quem ordena a decapitação; a situação atual é o exato oposto: a mídia quis e Cunha executou o serviço sujo.

Não que Antipas, ops, a imprensa dê a mínima, mas o papel indigno que desempenha neste momento lamentável e sua responsabilidade direta nas consequências nefastas para o país serão cobrados pela História. A participação em dois golpes deixará uma marca indelével na reputação dos jornais brasileiros –isto é, se eles não falirem antes.

 


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