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Cultura

As mortes de Dom e Bruno e o sangue derramado sem pudores na Amazônia há séculos

Numa narrativa que mistura violência, feitiçaria e poesia, HQ de André Toral retrata a relação entre indígenas e brancos desde os primeiros contatos

Ilustrações de A Alma que Caiu do Corpo, de André Toral
Piu Gomes
23 de junho de 2022, 17h05

A ideia era falar de amor, dar um descanso aos corações e mentes tão bombardeados pelos horrores que a extrema-direita vem produzindo no Brasil e no mundo. Mas a boiada anunciada por Ricardo Salles passou, empoderando o garimpo, a extração de madeira, a caça e pesca ilegais e o narcotráfico na Amazônia.

O autor André Toral usa na trama a vivência como historiador, sociólogo e antropólogo, que o levou a trabalhar com grupos indígenas por mais de trinta anos –ocupou cargos de confiança na Funai e fez oficinas de quadrinhos para algumas etnias

O sangue é derramado sem pudores, e o assassinato bárbaro e cruel do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips é uma evidência disso. Vamos falar então de A Alma que Caiu do Corpo, uma coletânea de histórias sobre a relação entre nossos indígenas e os colonizadores brancos em que se misturam violência, feitiçaria e poesia.

O autor André Toral usa na trama a vivência como historiador, sociólogo e antropólogo, que o levou a trabalhar com grupos indígenas por mais de trinta anos –ocupou cargos de confiança na Funai e prestou consultoria para o Ministério Público e diversas organizações que trabalham com grupos índigenas do vale do Araguaia, como Carajá, Javaé, Avá-Canoeiro e Tapirapé. Também atuou na educação índigena, oferecendo até oficinas de quadrinhos em algumas aldeias.

O resultado é uma obra densa, que reúne nove histórias já publicadas, cujos textos foram revisados e as imagens melhoradas, reunidas aqui em ordem cronológica, dos primeiros contatos entre os povos originários e os brancos até chegar aos tempos da Transamazônica e aos dias atuais.

As narrativas misturam diversos estilos. Em muitas delas estão presentes elementos místicos, com doses de xamanismo e sobrenatural, como nas poéticas A Alma que Caiu do Corpo e  O Iãgre. Um violento conto soturno de vingança, O Brasileiro envolve colonizadores franceses, tupinambás e caraíbas, mostrando conflitos entre católicos e calvinistas. A Imagem de Jim Hendricks traz ecos de Nelson Rodrigues, numa narrativa bem-humorada que fala de sexo.

Dois contos mais longos abordam, em épocas diferentes, a exploração dos indígenas e da natureza: O Negócio do Sertão é o diário de uma “entrada”, expedição que visava a exploração de pedras preciosas e a captura de nativos para escravidão em 1653. O Caso dos Xis trata de exploração ilegal de madeira e demarcação de terras na atualidade, mostrando problemas que se agravaram a partir de 2018, como a aproximação entre algumas etnias e os invasores brancos, gerando conflito entre diferentes povos.

 

A arte preto & branco de Toral parece simples, mas é elaborada, partindo sempre do lápis e usando nanquim apenas para quadros, balões e eventuais aguadas. A diagramação alterna bem o ritmo entre diálogos e recordatórios –os textos que conduzem a narrativa fora dos balões. Os cenários quase sempre são despojados, e os personagens trazem traços realistas.

O estilo é visto desde a estreia em 1986, com Pesadelos Paraguaios, publicada na icônica revista Animal. Nos anos seguintes, publicou nas revistas Chiclete com BananaLúciferGeneral e Cyber Comix. Seu primeiro álbum foi O Negócio do Sertão (1992), que lhe rendeu um prêmio HQ Mix de graphic novel nacional. Mais dois vieram com Adeus, Chamigo Brasileiro – Uma História da Guerra do Paraguai: HQ Mix de roteirista nacional em 1999 e melhor álbum de aventuras em 2000.

O trabalho de André Toral joga luz sobre a terrível realidade atual da Amazônia, que culminou na tragédia no Vale do Javari. O desgoverno Bolsonaro, com sua política de desmonte das instituições protetoras na região e o incentivo à ocupação e exploração ilegal da floresta, carrega agora manchas de sangue das vítimas mais recentes, além dos índigenas que sempre foram vítimas.

Resta saber quem mandou matar Dom e Bruno, uma vez que a conclusão da Polícia Federal ignora informações qualificadas fornecidas pela Unijava (União dos Povos Índigenas do Vale do Javari) e pelo próprio Bruno Pereira de que existe um grupo criminoso organizado agindo na região. Mas essa resposta, infelizmente, só deverá chegar depois das eleições de outubro, quando o voto mostrar que já passou da hora de botar a boiada e a quadrilha pra fora.

A Alma que Caiu do Corpo
AUTOR: André Toral
EDITORA VENETA, 104 págs., R$ 69,90

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(2) comentários Escrever comentário

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Regina Borges em 23/06/2022 - 17h18 comentou:

Gratidão e Parabéns por compartilhar conosco os teus dias e a tua arte.

Comprarei o livro!

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Bernardo Santos Melo em 24/06/2022 - 12h27 comentou:

A LEI do CRIME , a morte consentida , incentivada e comemorada .🤡
522 anos de MATANÇA , uma guerra contra Índios , Negros e Pobres .🥷
Corpos de todas espécies em extinção , 25% da FLORESTA AMAZÔNICA DERRUBADA, 50% do CERRADO já se foi , E DAÍ ?
Tragedias Climáticas avizinham-se , e a SATÂNICA ignorância desdenha do seu próprio extermínio .
Estamos aos 45 minutos do segundo tempo , restam os acréscimos , talvez 100 dias para um BASTA ao GENOCIDA .
Bruno & Dom alvejados em represália covarde e COM MANDANTES não identificados , mas com a mesma sanha e método aplicados a Marielle & Genivaldo .
A jornalista BRUM diariamente comprometida com a PRESERVAÇÃO AMAZÔNICA teme não haver retorno , Vital Farias já está rouco de cantar a dor dos corpos da floresta .
Papa Francisco afirma que o planeta está doente e que não aguenta mais os impropérios humanos .
E mesmo com tantas celebridades e cientistas alertando para CATÁSTROFES IMINENTES, ainda restam fanáticos ladeando o CRIMINOSO .
Minha esperança é que as palavras das esposas de Dom & Bruno se materializem , OS ESPÍRITOS DELES REINARÃO para zelar por todos nós que dependemos dos rios aéreos presenteados pela mata verde em respiração livre e divina .🛶

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