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Atual diretor da CIA advertiu que expansão da OTAN era “provocação desnecessária” à Rússia

Guerra na Ucrânia acontece após décadas de advertências de que expandir a organização poderia "perturbar a estabilidade europeia"

Prédios em Kharkiv após ataque russo. Foto: Serviço de Emergência da Ucrânia/CC
The Conversation
03 de março de 2022, 19h46

Por Ronald Suny, no The Conversation
Tradução Maurício Búrigo

Enquanto a guerra se alastra por toda a Ucrânia, duas versões da realidade subjacentes ao conflito encaram-se através de uma profunda divisão, nenhuma delas concedendo verdade alguma à outra.

O ponto de vista mais difundido e familiar no Ocidente, sobretudo nos Estados Unidos, é o de que a Rússia é e sempre foi um estado expansionista, e seu atual presidente, Vladimir Putin, é a encarnação da ambição russa essencial: construir um novo império russo.

“Isso sempre… se tratou de agressão nua e crua, do desejo de Putin de império, custe o que custar,” disse o presidente Joe Biden em 24 de fevereiro de 2022.

Diretor da CIA de Biden, William Burns advertiu em 1995 para o efeito provocador à Rússia da expansão da OTAN. Então encarregado de assuntos políticos na embaixada em Moscou, relatou que “a hostilidade à expansão é sentida em todo o espectro político”

O ponto de vista oposto argumenta que as preocupações da Rússia com segurança são de fato legítimas, e que a expansão da OTAN rumo ao Leste é vista pelos russos como que dirigida contra o seu país. Putin tem sido claro, há muitos anos, de que, se continuasse, a expansão seria provavelmente confrontada com pesada resistência por parte dos russos, até mesmo com ação militar.

Essa perspectiva não é considerada pelos russos apenas; alguns influentes peritos em política externa norte-americanos a têm endossado também.

Entre outros, o diretor da CIA de Biden, William J. Burns, advertiu já em 1995 para o efeito provocador que teria sobre a Rússia a expansão da OTAN. Nesta época, Burns, então encarregado de assuntos políticos na Embaixada dos EUA em Moscou, relatou a Washington que “a hostilidade à expansão inicial da OTAN é quase que sentida de maneira geral em todo o espectro político aqui.”

Dos 12 países iniciais, a OTAN se expandiu pela Europa

A Organização do Tratado do Atlântico Norte é uma aliança militar que foi formada pelos EUA, Canadá e várias nações européias para conter a URSS e a difusão do comunismo. Agora, o ponto de vista no Ocidente é o de que ela não é mais uma aliança anti-Rússia e sim uma espécie de acordo coletivo de segurança que visa proteger seus membros de agressão externa e promover a mediação pacífica de conflitos no âmbito da aliança.

Reconhecendo a soberania de todos os Estados e seu direito de se aliar a qualquer Estado que desejem, com o tempo a OTAN aceitou os pedidos de democracias européias de ingressarem na aliança. Antigos membros do Pacto de Varsóvia, firmado pela União Soviética, e que era uma versão soviética da OTAN, foram também introduzidos na OTAN nos anos 1990, junto com três antigas repúblicas soviéticas –Estônia, Letônia e Lituânia–, em 2004.

Manifestação contra a guerra em Hamburgo. Foto: C.Suthorn/CC

O ponto de vista ocidental é de que o Kremlin deve compreender e aceitar que as atividades da aliança, entre as quais exercícios táticos, repletos de tanques norte-americanos, executados em estados bálticos vizinhos e foguetes posicionados na Polônia e Romênia –que os EUA dizem estarem apontados para o Irã– não apresentam de forma alguma uma ameaça à segurança russa.

Tanto a elite russa quanto a opinião pública em geral há muito se opõem a tal expansão, à colocação de foguetes norte-americanos na Polônia e Romênia e ao armamento da Ucrânia com arsenal do Ocidente.

Quando o governo do presidente Bill Clinton tomou providências para introduzir a Polônia, a Hungria e a República Tcheca na OTAN, Burns escreveu que a decisão era “prematura, na melhor das hipóteses, e desnecessariamente provocadora, na pior”.

Em 2008, Burns, então embaixador em Moscou, escreveu a Condoleezza Rice: “A entrada ucraniana na OTAN é o cúmulo dos cúmulos para a elite russa (não só para Putin). Ainda estou para encontrar alguém que não considere uma afronta aos interesses russos”

Ele continuou: “Enquanto os russos ferviam de indignação e sentiam-se em desvantagem, um acúmulo tempestuoso de teorias quanto a uma ‘punhalada nas costas’ se agitava devagar, deixando uma mancha nas relações da Rússia com o Ocidente que se prolongaria por décadas.”

Em junho de 1997, 50 proeminentes especialistas em política externa assinaram uma carta aberta a Clinton, que dizia: “Nós acreditamos que o esforço de expandir a OTAN conduzido pelos EUA é um erro político de proporções históricas” que iria “perturbar a estabilidade européia.”

Em 2008, Burns, então embaixador norte-americano em Moscou, escreveu à Secretária de Estado Condoleezza Rice: “A entrada ucraniana na OTAN é o mais claro cúmulo dos cúmulos para a elite russa (não apenas para Putin). Em mais de dois anos e meio de conversas com atores-chave russos, desde brutamontes em recantos escuros do Kremlin até os mais afiados críticos liberais de Putin, eu ainda estou para encontrar alguém que considere a Ucrânia na OTAN como alguma coisa que não uma afronta direta aos interesses russos.”

Há diferentes conclusões a serem tiradas da crise atual, dependendo de como você considera a sua causa, quer como imperialismo russo, quer como expansionismo da OTAN.

Em 1997, 50 proeminentes especialistas em política externa assinaram uma carta aberta a Clinton: “Nós acreditamos que o esforço de expandir a OTAN conduzido pelos EUA é um erro político de proporções históricas” que iria “perturbar a estabilidade européia”

Se você pensa que a guerra na Ucrânia é obra de um imperialista determinado, quaisquer ações, a não ser derrotar os russos, se assemelharão à uma pacificação tal qual a de Munique em 1938, e Joe Biden se tornará um ultrajado Neville Chamberlain, o primeiro-ministro britânico que cedeu às exigências de Hitler por território na Tchecoslováquia, apenas para descobrir que foi enganado, enquanto os nazistas marchavam tranquilamente para a guerra.

Se, no entanto, você acredita que a Rússia tem preocupações legítimas acerca da expansão da OTAN, então a porta estará aberta à discussão, negociação, conciliação e concessões.

Tendo passado décadas estudando história e política russas, acredito que, em política externa, Putin tem agido em geral como um realista, avaliando sem sentimentalismo ou moralismo a dinâmica do poder entre os Estados. Ele procura possíveis aliados prontos a levar em consideração os interesses da Rússia –recentemente encontrou tal aliado na China– e está disposto a recorrer às forças armadas quando acredita que a Rússia está ameaçada.

Manifestação em favor da Ucrânia no Reino Unido. Foto: Alisdare Hickson/CC

Mas algumas vezes ele também age com base em predileções ideológicas, as quais incluem suas histórias fabricadas sobre a Rússia. De vez em quando, age por impulso, como na tomada da Criméia em 2014, e com precipitação, como na desastrosa decisão de invadir a Ucrânia. Anexar a Criméia após a revolução pró-democrática de Maidan, em 2014, combinou tanto um imperativo estratégico de manter o controle da base naval do Mar Negro em Sebastopol, como uma justificativa nacionalista, depois do feito, de trazer o imaginado berço da cristandade russa e uma conquista histórica dos czares de volta aos braços da “pátria-mãe”.

O sentimento de Putin quanto à insegurança da Rússia diante de uma OTAN muito mais poderosa é genuíno, mas durante o atual impasse sobre a Ucrânia, suas declarações recentes se tornaram mais febris e até mesmo paranóicas. Em geral um racionalista, Putin parece ter perdido a paciência e está se deixando levar pelas emoções.

Putin sabe o bastante de História para reconhecer que a Rússia não se expandiu no século 20 –perdendo partes da Polônia, Ucrânia, Finlândia e Turquia oriental após a revolução de 1917–, exceto por um breve período antes e depois da Segunda Guerra Mundial, quando Stálin anexou as repúblicas bálticas e parte da Finlândia, e uniu terras da Polônia entreguerras à Ucrânia soviética.

Pergunta-se –como fez George F. Kennan, pai da doutrina de contenção da Guerra Fria, que advertia contra a expansão da OTAN em 1998– se o avanço da OTAN rumo ao Oriente tem aumentado a segurança dos Estados europeus ou se os tem deixado mais vulneráveis

O próprio Putin ficou traumatizado com a desintegração da União Soviética em 1991, a perda de um terço do seu antigo território e metade da sua população. Num instante, a URSS desapareceu, e a Rússia se encontrou muito mais fraca e mais vulnerável às grandes potências rivais.

Muitos russos concordam com Putin e sentem rancor e humilhação, associados à ansiedade quanto ao futuro. Mas um número esmagador deles não quer a guerra, dizem os apuradores de pesquisas de opinião pública e analistas políticos russos.

Líderes como Putin quando se sentem encurralados e ignorados podem atacar de repente. Ele já ameaçara com “consequências militares e políticas” se as atualmente neutras Finlândia e Suécia tentarem ingressar na OTAN. Paradoxalmente, a OTAN pôs em perigo pequenos países na fronteira com a Rússia –como se deu conta a Geórgia em 2008– que aspiram ingressar na aliança.

Pergunta-se –como fez o diplomata norte-americano George F. Kennan, o pai da doutrina de contenção da Guerra Fria, que advertia contra a expansão da OTAN em 1998– se o avanço da OTAN rumo ao Oriente tem aumentado a segurança dos Estados europeus ou se os tem deixado mais vulneráveis.

Ronald Suny é professor de História e Ciência Política, University of Michigan

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Loira Capitalista em 03/03/2022 - 20h56 comentou:

Antes da invasão da Criméia e da própria Ucrânia agora, eu pensava que a OTAN deveria ter desaparecido com o colapso da URSS (Tem muitos esquerdistas “viúvas” dela até hoje). Agora não mais, haja visto que não fosse a presença na NATO, pequenos países do báltico como Lituânia, Letônia e Estônia, até mesmo a Polônia (hoje parto da UE/NATO) já teriam sido engolidas pela expansão imperialista de Putin querendo criar uma nova URSS dos velhos tempos.
Nos anos 1990, a Ucrânia decidiu abrir mão das armas nucleares deixadas em seu território em troca de segurança e reconhecimento como país independente da Rússia. Tudo foi acordado por meio do Memorando de Budapeste, um acordo assinado entre o governo ucraniano, a Rússia, o Reino Unido e os Estados Unidos após o fim da URSS.
Se a Ucrânia (ou qualquer país da Europa) e seu povo querem fazer parte da UE, isso é entre eles… Rússia/Putin nada tem a ver com isso. Aliás, porque será que ninguém quer voluntariamente quer ficar com a Rússia Imperialista ? A UE é a menina bonita do baile, e todos querem ficar com ela. A Rússia é o oposto.
O povo Russo, que não pode nem fazer um demonstração contra a guerra, pois são presos e mortos, sofrerá demasiadamente nos anos vindouros, com as pesadas sanções impostas ao seu país. Putin é daqui adiante, um “Mad Dog” da arena internacional, está acabado e expulso do mundo civilizado, nunca mais será bem vindo a qualquer tipo de reunião em um país democrático. A ele sobram os autoritários regimes de sempre, como Coréia do Norte, Cuba, Venezuela etc.
Putin é um assassino, desde que ele está no poder, mais de 200 repórteres foram mortos. As minorias Rússia étnicas de Donbass e Luanski querem ser Russos, que façam as malas e migrem para a Russia na fronteira.
Uma vergonha absoluta é o Bolsonaro ter deixado o Brasil como um país neutro, mesmo que nosso país tenha mais de 600.000 descendentes de Ucranianos, que ajudaram a construir nosso país (PR).

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P C Teixeira em 05/03/2022 - 14h00 comentou:

Está se vendo que é loira e capitalista

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Gab em 06/03/2022 - 16h17 comentou:

Recentemente reparei em como o PCO está defendendo fortemente a Russia nessa guerra. E me chama muita atenção o volume de conteúdo que eles estão conseguindo produzir. E com razoável qualidade (ao menos visualmente) superior a maioria dos outros partidos, e até mesmo a portais de notícia profissionais.
Me parece que desde 2018 eles elevaram muito o profissionalismo de geração de conteúdo na internet. Isso junto as denúncias que saíram do DCM me fazem pensar. Porque pelas denúncias de ex-militantes o PCO tem uma péssima estrutura organizacional interna e parece alternar entre táticas que o Rui cria semana a semana, sem seguir uma estratégia clara.
Será que o Rui não está na verdade seguindo orientações externas? E quem quer que seja que está ditando as táticas não tem o objetivo de sabotar a esquerda?
Digo isso porque o PCO parece apoiar superficialmente causas como a candidatura do Lula ou o Fora Bolsonaro. Mas quando você vai ler o conteúdo das matérias ou assistir os vídeos, na verdade por entre as linhas eles estão sempre criando intrigas e narrativas contra personalidades da esquerda. Isso quando o texto/vídeo não é apenas um ataque a outros partidos e jornalistas de esquerda.

Enquanto a capacidade de influencia direta do PCO é muito pequena, ele acaba ocupando matérias e a imaginação popular, criando divergências em assuntos que deveriam ser unanimidade como a condenaç˜

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Ademar Amâncio em 07/03/2022 - 15h04 comentou:

Primeiro texto que leio sobre a guerra que me esclareceu certas questões,obrigado.

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Luís Carlos Kerber em 14/03/2022 - 13h40 comentou:

Joe Biden enxerga nesse conflito uma forma dele ganhar popularidade que perdeu, ele não quer se tornar um pato manco. Então ele incentiva o conflito não pensando nas perdas humanas e materiais que estão ocorrendo na bucha chamada Ucrânia.
A Otan está provocando a Rússia com a sua expansão para leste. Qual a finalidade da existência da Otan nos dias atuais? Penso ser um instrumento militar que pressiona os países militarmente e economicamente (através das sanções determinadas pelos imperialistas EUA) no intuito de beneficiar interesses dos EUA.
A Ucrânia e o seu presidente bolsominion e palhaço entraram neste conflito sabendo ser uma bucha de canhão a ser utilizada para satisfazer interesses dos EUA. O presidente palhaço da Ucrânia é uma marionete manipulada pelo EUA e o sujeito não tem preocupação com as perdas humanas e materiais do povo ucraniano.

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Paulo Roberto Martins em 14/03/2022 - 17h05 comentou:

Impressionante como os “capitalistas” distorcem a História. Primeiro : a Criméia nunca fez parte de Ucrânia nenhuma.Nem mesmo a Ucrânia era qualquer país antes de 1991. Um país,como Israel, criado para servir de provocação e um “porta-aviões” norte americano dentro do espaço de outros países. Putin,com todos os seus defeitos,está absolutamente certo em defender a Rússia da instalação de mísseis às portas de seu país. Porque ele não instala mísseis em Cuba,ou na Venezuela, para vermos qual seria a reação dos EUA? Vocês,que se autointitulam “capitalistas” acham que os gringos iriam aceitar isto? Ou fariam como em 1962, quando ficaram apavorados e quase provocaram uma nova guerra? Bando de cínicos aqueles que ficam agitando bandeiras ucranianas,terra de neonazistas históricos,como Bandera,um assassino de judeus. Não foi coincidência que os ucranianos serviram de cães de guerra para os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial e cometeram as maiores atrocidades contra judeus,russos e minorias étnicas. Um povo racista,fascista e que sempre odiou a etnia russa.

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Paulo Roberto Martins em 14/03/2022 - 17h08 comentou:

Nunca li tanta asneira,sob qualquer ponto de vista, histórico ou político. Leia mais,vá estudar História, antes de tentar justificar bobagens. Pelo amor de Deus!

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renato sartori em 23/03/2022 - 16h33 comentou:

concordo plenamente com a loira capitalista, mas agora graças a deus os comunistas assassinos russos estão sendo mortos as dúzias pelos ucranianos e em breve o hitler russo morrerá assassinado pelos burgueses que ele mesmo criou.

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    Cynara Menezes em 23/03/2022 - 20h02 comentou:

    que mané russo comunista, parou no século passado

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