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Trabalho

Cícero, o garçom de Brasília

Quando era criança, na zona rural de Nova Floresta, na Paraíba, Cícero Rodrigues dos Santos não sonhava, como toda criança sonha, com alguma profissão. “Eu não tinha espaço para sonho. Achava que ia crescer e seguir a vida dos meus pais, plantando mandioca e agave, só isso. Para quem não teve estudo, como eu, sonhar […]

Cynara Menezes
01 de julho de 2015, 16h12

cicero

Quando era criança, na zona rural de Nova Floresta, na Paraíba, Cícero Rodrigues dos Santos não sonhava, como toda criança sonha, com alguma profissão. “Eu não tinha espaço para sonho. Achava que ia crescer e seguir a vida dos meus pais, plantando mandioca e agave, só isso. Para quem não teve estudo, como eu, sonhar é uma coisa complicada.”

Quando era adolescente, ainda vivendo no semi-árido paraibano, Cícero se deu o direito de sonhar em ser caminhoneiro e colocar o pé na estrada. “Eu achava bonita a vida de caminhoneiro. A pessoa viaja, conhece muitas coisas, muitos lugares. Mas não deu.”

Toda vez que ia vender os alimentos produzidos pela família na feira, Cícero observava algumas pessoas na cidade que ganhavam o pão de cada dia sem ser na lavoura, trabalho que considerava ingrato. “É uma vida muito dificultosa, eu via meu pai trabalhar todo dia, de sol a sol, para ganhar uma mixaria. Queria outra vida para mim.”

Foi aí que a noite apareceu no caminho de Cícero. Primeiro ele teve um trailer, depois um bar. Não foi bem sucedido e passou a vender manga, jaca e banana na feira. Surgiu outro bar que também não deu certo e Cícero, endividado, virou mascate, perambulando de ônibus pelas cidadezinhas da região para vender relógios, toalhas de mesa, isqueiros, bijuterias e outras bugigangas.

Em 1977, Cícero tinha 28 anos quando um amigo, por carta, fez o convite que mudou sua vida: ofereceu-lhe um emprego no Beirute, bar da distante Brasília, a cidade que Juscelino Kubitschek inaugurara no meio do nada havia 17 anos. O tradicional boteco já era freqüentado por políticos e jornalistas e precisava de um balconista. Três anos depois, Cícero foi promovido para o salão e se tornou um dos mais famosos garçons da capital.

Sua marca registrada: esconder tampinhas de garrafa nas bolsas, paletós e casacos dos fregueses, mas só dos mais íntimos. “Sempre fui muito brincalhão”, conta, rindo, sobre a origem da mania. “Então, quando vinha alguém de paletó, eu jogava a tampinha no bolso, sempre sem a pessoa perceber. Quando vinha alguém com uma dessas blusas com capuz, eu fazia a festa.”

Em 38 anos de Beirute, Cícero conviveu com políticos, como o jovem Fernando Collor na época da faculdade, ou a então ministra Dilma Rousseff, que freqüentava o boteco na década de 1990. Também conheceu roqueiros como Renato Russo e Cássia Eller. Em uma tarde de 1993, distraído, só soube que tinha atendido o criador de Brasília, Oscar Niemeyer, depois que ele foi embora com sua trupe de arquitetos.

Mas nada deixou Cícero mais emocionado do que conhecer seu grande ídolo, o cantor Agnaldo Timóteo, quando ele se tornou deputado federal e foi comer quibe no Beirute, como todo mundo por aqui já fez pelo menos uma vez. “Pedi até autógrafo! Sempre fui fã dele. Curti muito a música do Timóteo quando adolescente e curto até hoje. Não curto muito rock, não, gosto mais de música romântica, que bate fundo no coração e levanta a poeira.”

O romântico Cícero casou com a paraibana Gilza, de quem já era noivo na Paraíba, e estão juntos até hoje. Graças à labuta do pai no bar, das 17h às 2h da manhã, os quatro filhos do casal puderam sonhar. Três fazem faculdade: Medicina, Computação e Psicologia. Só um deles resolveu ser garçom como o pai, que, apesar das alegrias que teve, não recomenda a profissão.

“É bom porque dá para tirar um dinheirinho a mais, mas é muito humilhante. Não temos o respeito que a gente merece. Já me chamaram de ‘ladrão’ algumas vezes, achando que roubei na conta. Essa palavra de ‘ladrão’ é normal para o garçom. Por mais que você faça, o cliente menospreza. Felizmente, sempre tive o apoio de meus patrões”, diz Cícero. Escaldado com os amigos que viu morrer por causa do álcool, quase não bebe fora de serviço.

Na década de 1990, o Beirute da asa Sul (hoje existe também a filial da asa Norte) começou a ganhar fama de “Gayrute”, com uma freqüência predominantemente LGBT, o que nunca incomodou Cícero. “Pelo contrário, eles sempre me respeitaram muito e fiz muitas amizades entre os gays. Cada um tem sua maneira de viver. Como é que eu vou me meter na vida deles?”

Com problemas de coluna devido aos anos seguidos em pé, segurando uma bandeja (“isso mexe com o equilíbrio”, ele explica), no início deste ano, Cícero, aos 66 anos de idade, decidiu se aposentar. No sábado 27, após duas semanas de despedidas, com direito a várias entrevistas em jornais e na televisão, ele disse adeus ao Beirute. Agora vai passear, rever os parentes no Nordeste, reformar a casa… Depois não sabe. O que sabe é que se sente feliz e reconhecido.

“Me sinto não só realizado como orgulhoso da vida que tive. Até porque a fama ficou, né? É uma surpresa, você não espera. Faz bem para a gente, eu cresci tanto na mídia! Meus colegas perguntam: ‘o que você fez para ser tão famoso?’ E eu não tenho resposta. A vida do famoso é difícil, viu?”, provoca. E solta uma gargalhada.

(Cícero e seu patrão, Chico)

(Cícero e Chico)

Os pequeninos olhos azuis do patrão de Cícero, seu Chico do Beirute, se esforçam para não encher de lágrimas. Pergunto para ele que opinião gostaria de dar sobre seu garçom mais longevo. “Como profissional e como gente, 10 em tudo que é lado.” Você vai sentir saudades? “Lógico que vou. Queria que ele trabalhasse até mofar!”

Eu conheci Cícero aos 22 anos, na primeira vez que vim morar em Brasília. Sempre cordial, discreto, elegante, amoroso. O garçom ideal. Até mais, querido Cícero. Seja feliz, aonde quer que você vá.
 

 


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