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Com um craque na Economia, Argentina começa a sair do poço em que a direita a deixou

País vizinho anuncia acordo de reestruturação da dívida com credores privados que lhe trará uma economia de 30 bilhões de dólares

O ministro Guzmán, Maradona e Alberto Fernández na Casa Rosada. Foto: presidencia argentina
Martín Fernández Lorenzo
05 de agosto de 2020, 20h07

A Argentina começa a emergir do poço econômico em que foi deixada após o pesadelo do governo de direita de Mauricio Macri e anuncia o princípio de um acordo de reestruturação da dívida de 65 bilhões de dólares com seus três principais credores privados: o Ad Hoc Group of Argentine Bondholders, o Argentina Creditor Committee e o Exchange Bondholder Group.

Após o anúncio do acordo, os bônus argentinos operaram com aumentos de até 7% no exterior, e o risco-país atingiu o menor número desde 17 de fevereiro: 2.029

O início do acordo a ser selado em 24 de agosto próximo foi amplamente comemorado pelo grupo  atualmente no poder e por grande parte da oposição (a mesma que levou à quebra do país). Após o anúncio, os bônus argentinos operaram com aumentos de até 7% no exterior, e o risco-país atingiu o menor número desde 17 de fevereiro: 2.029.

O anúncio foi feito pelo Ministério da Economia, liderado por Martín Guzmán, às 3 horas da manhã desta terça-feira, 4 de agosto, após meses de duras negociações com os credores. Guzmán, de apenas 37 anos, trabalhou na Universidade de Columbia, em Nova York, na equipe do Prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz, que o considera “a brilhante e jovem esperança argentina”, e tapou a boca de todos os detratores que o criticavam há muito meses por não chegar a um acordo.

O ministro, discreto e muito sério, desde o primeiro dia deixou muito claro que, diante da moratória seletiva na qual Macri deixou o país, não negociaria às custas de prejudicar os interesses do povo argentino, e cumpriu o dito. No final de 2019, os detentores de títulos da dívida exigiam 92 dólares por cada 100 do valor original de cada título. Em fevereiro, os credores ofereceram 75 dólares. A primeira oferta de Guzmán foi em abril, onde ele propôs pagar 40 dólares, e a contraproposta dos credores foi de 65. Em maio, a última oferta do ministro foi 53 dólares. O negócio finalmente foi fechado a 54,8 dólares para cada título da dívida.

O ministro Martín Guzmán, de apenas 37 anos, trabalhou na Universidade de Columbia na equipe do Prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz, que o considera “a brilhante e jovem esperança argentina”

Esperando a adesão de pequenos grupos de dívida e credores nas próximas semanas, a Argentina economizará 37 bilhões de dólares em uma década. O jornal Página 12 destacou os 5 principais pontos do acordo:

1. A reestruturação reduzirá os juros pagos por títulos externos a uma taxa média de 3,07% ao ano, enquanto a dívida anterior pagou perto de 7%.

2. Com essa troca, a Argentina enfrentará vencimentos de títulos externos por 4,5 bilhões de dólares nos próximos 5 anos, em vez dos 30 bilhões originais.

3. Considerando o mesmo tratamento para a dívida nos termos da legislação local, o alívio financeiro para os próximos 5 anos totaliza 42,5 bilhões de dólares.

4. Se você considerar a troca de títulos externos juntamente com a dívida local em moeda estrangeira, a Argentina terá um alívio financeiro de 37,7 bilhões de dólares no período 2020-2030.

5. O processo de reestruturação dos títulos externos é realizado pagando as comissões mais baixas da história pela emissão de dívidas.

Nada mal, Guzmán. Não é à toa que, em suas primeiras negociações, o ministro foi apoiado por mais de 150 estrelas da Economia de todo o mundo, incluindo dois ganhadores do Prêmio Nobel, Stiglitz e Edmund Phelps, a economista mais renomada do Campo da Crise Financeira, Carmen Reinhart, e outros pesos pesados, como Jeffrey Sachs , Thomas Piketty e Dani Rodrik.

A Argentina celebra e não é para menos. O presidente Alberto Fernández declarou: “Resolvemos uma dívida impossível na maior crise econômica que temos na memória”. O governo atual age como a antítese do governo anterior. O ex-ministro da Economia Nicolás Dujovne, personagem sombrio semelhante a Paulo Guedes, com quem teve reuniões antes de perder as eleições, se tornou célebre como comentarista em programas de TV tirando sarro dos kirchneristas porque diziam que o país retornaria ao FMI com a direita no poder, o que de fato aconteceu no governo Macri –e com Dujovne à frente da Economia.

Agora o foco está em outra dívida, com o FMI. Foi Cristina Kirchner que, em fevereiro, começou a fustigar o Fundo, questionando-o por violar seus regulamentos internos e facilitar fuga de capitais. O porta-voz do FMI contestou a ex-presidenta, mas ela provou estar certa

Guzmán tem sido a versão invertida do ministro que não apenas solicitou o maior empréstimo ao FMI em sua história, como também trouxe a inflação mais alta nos últimos 28 anos, “errando” em suas projeções de inflação, nada mais, nada menos que em quase 32 pontos por dois anos consecutivos: de 15,7% para 47,6% em 2018 e de 23% em 2019 para 53,8%. Passamos de ter um palhaço na economia a um estadista que cuida do bolso do povo argentino.

Agora, o foco está na outra dívida, que é com o FMI. Mas foi Cristina Kirchner que, em fevereiro, começou a fustigar o Fundo a partir de Cuba, onde lançava seu livro Sinceramente, com o qual destruiu a oposição na campanha de 2019. Cristina questionou o FMI por violar seus regulamentos internos e facilitar fuga de capitais para o governo e também solicitou um alívio da dívida. Lembre-se que durante 2019, a fuga de capitais foi a segunda maior da história, estando muito próxima do recorde, de 2018.

Dias depois, o porta-voz do FMI contestou Cristina, dizendo que nenhuma irregularidade havia sido cometida. A resposta da atual presidenta do Congresso foi destruidora. Ela apresentou documentos que sustentavam suas palavras e respondeu, no twitter: “Nós, argentinos e argentinas, sabemos ler”.

Conclusão: O FMI emitiu uma declaração uma semana depois declarando que a dívida é insustentável e que a Argentina merecia uma redução.

Embora ainda não seja o momento de cantar vitória, a mudança é profunda no governo. É importante notar que, embora Macri tenha recebido do FMI, no período de um ano, 47 bilhões de dólares, antes da primeira rodada em que perdeu a reeleição, o ex-presidente pediu um último desembolso de 5,4 bilhões, que felizmente nunca chegou.

Quando Guzmán assumiu, a Argentina ainda possuía os 11 bilhões restantes do empréstimo, que ele imediatamente rejeitou para não endividar o país. “Não tem sentido receber mais dinheiro do FMI”, declarou.

Não são pequenas as diferenças entre o macrismo e o atual governo, e nesta situação de pandemia, também em relação à saúde. O ex-presidente irresponsável celebrou uma marcha anti-quarentena em 9 de julho, onde jornalistas foram atacados pelos manifestantes: “Livres!”, Macri tuitou.

Após essa marcha, 15 dias depois, dispararam os casos no país, promovidos por uma oposição que não aceita que o governo de Fernández seja exemplar contra o Covid-19. Embora os casos estejam aumentando, a taxa de mortalidade ainda é uma das mais baixas da região: 89 mortes por milhão de habitantes, e 1,8% de letalidade sobre os casos.

Embora Martín Guzmán tenha recebido elogios de todo mundo, houve uma mensagem que certamente encantou o ministro, confesso fã do clube Gimnasia de la Plata, do qual Diego Maradona é treinador

Hoje Macri, investigado por um escândalo de espionagem ilegal que complica sua situação, está inexplicavelmente viajando por Paris, onde, ao chegar, continuou com seu discurso anti-quarentena: “Aqui você vive em liberdade”. A França tem quase o mesmo número de casos que a Argentina, mas com uma grande diferença nessa “liberdade” na pandemia que falou o ex-presidente: 26 mil mais mortes.

Mas, para não finalizar esta grande notícia para o país com as ações e atitudes infames do ex-presidente, embora Martín Guzmán tenha recebido elogios de todo mundo, houve uma mensagem que certamente encantou o ministro, confesso fã do clube Gimnasia de la Plata, do qual Diego Maradona é treinador.

“Eu ia publicar uma foto com vocês (Guzmán e Fernández) de quando os visitei na Casa Rosada. Mas o mérito dessa mudança, que parecia impossível, é todo seu”, agradeceu Diego em seu instagram.

Sem dúvida alguma, Guzmán jogou como o 10. Um craque.

 


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