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Conquista da esquerda, voto aos 16 anos está se voltando contra ela

Vitória de Milei e avanço da extrema direita na Europa indicam que redes sociais estão atraindo cada vez mais jovens para a falácia do "anarcocapitalismo"

Milei entre seus jovens eleitores. Foto: divulgação
Cynara Menezes
12 de junho de 2024, 14h41

O taxista desce a 9 de Julio, principal avenida de Buenos Aires, enquanto se queixa da “ridícula” presença de Javier Milei na Casa Rosada. “Foram os ‘pibes’ de 16 anos que colocaram ele lá”, reclama. “O que um menino de 16 anos entende de política?” Os números confirmam: os eleitores entre 16 e 24 anos deram 61% dos votos ao picareta de extrema direita que chegou ao poder na Argentina usando as redes sociais e prometendo “destruir o Estado”. Será que o voto aos 16, conquista da esquerda, está se voltando contra ela?

O avanço da extrema direita no Parlamento europeu no último final de semana indica que alguma coisa mudou na cabeça dos jovens desde 1988, quando os brasileiros acima de 16 anos conquistaram na Constituição o direito ao voto. Ou pelo menos a partir dos anos 2000, quando as redes sociais começaram a ganhar força. As redes estão na origem da guinada do votante de 16 a 18 anos, naturalmente inclinados à esquerda, se tornarem mais suscetíveis à falácia da “rebeldia contra o sistema” dos Mileis mundo afora.

Com a falácia do “anarcocapitalismo” na cabeça e as redes sociais na mão, a extrema direita avança no eleitorado jovem. Na Alemanha, nestas eleições para o Parlamento, os populistas da AfD, chamada de “partido tiktok”, cresceram em todas as faixas etárias, mas tiveram seu maior êxito entre os 16 e 24 anos

O Brasil foi um dos primeiros países em aprovar uma lei que reduzia a idade mínima para votar, resultado da forte mobilização das entidades estudantis que antecedeu a primeira eleição direta para presidente pós-ditadura. Ulysses Guimarães era contra (a maioria dos países do mundo até hoje utiliza a idade de 18 anos), mas a mudança acabou sendo aprovada.

Na Argentina, foi a partir de 2012 que os jovens de 16 em diante foram autorizados a votar, uma lei sancionada pela então presidenta Cristina Kirchner. Na Europa, o voto aos 16 começou na Áustria, em 2007. Nesta eleição ao Parlamento, belgas, alemães, gregos e moradores da ilha de Malta menores de 18 anos estiveram aptos a votar. Atualmente há projetos reduzindo a idade do direito ao voto em vários outros países, inclusive nos EUA.

Os extremistas de direita sempre se posicionaram contrários ao voto aos 16 por temer a hegemonia da esquerda nesta parcela do eleitorado –afinal, “ser jovem e não ser revolucionário é uma contradição genética”, como dizia Che Guevara. Em 2018, o partido neonazista alemão AfD (Alternativa para a Alemanha) recorreu à Justiça quando a redução na idade para votar foi aprovada, argumentando que os partidos de esquerda e os verdes só queriam autorizar o voto aos 16 porque isso iria beneficiá-los –na eleição para o Parlamento europeu em 2019 os jovens votaram maciçamente nos verdes.

Em março de 2022, Jair Bolsonaro reclamou publicamente da campanha feita por artistas e influenciadores de esquerda para que os jovens maiores de 16 anos fossem tirar o título para votar contra ele. Até astros hollywoodianos, como Leonardo Di Caprio e Mark Ruffalo, se juntaram ao movimento, que se mostrou vitorioso: 2,04 milhões de novos eleitores nessa faixa de idade se registraram para votar em 2022. Bolsonaro chegou a pedir a pais e avós que tentassem convencer os filhos a votar nele. De nada adiantou: Lula ganhou de lavada entre os mais jovens.

Acontece que as redes sociais vêm ajudando a extrema direita a convencer cada vez mais adolescentes de que elegê-los seria um “voto de protesto contra o sistema”, duas falácias absolutamente contraditórias. Ora, se o “sistema” é o capitalismo e a extrema direita é capitalista, como é que se pode ser “contra o sistema” e votar na extrema direita? Por outro lado, qual jovem do mundo não gosta de protestar “contra o sistema”? O candidato que conseguir usar as redes para transmitir essa ideia sairá em vantagem –e se os algoritmos favorecem a extrema direita, bingo.

O truque narrativo que está atraindo os jovens é o “anarcocapitalismo” preconizado por Milei e outros extremistas de direita mundo afora, disfarçados sob o epíteto de “libertários”. O conceito é uma contradição em termos, já que o anarquismo é de esquerda e anticapitalista. Mas encontra eco nas cabecinhas despolitizadas dos adolescentes aptos a votar porque concretiza a “utopia” de poder ser “capitalista” e “antissistema” ao mesmo tempo. Teria o anarcocapitalismo substituído o socialismo e o comunismo nos ideais dos jovens? Em boa parte deles, sim, e é o que explica o voto na extrema direita.

Milei descobriu o anarcocapitalismo em 2008, após ler um artigo do economista norte-americano da escola austríaca Murray Rothbard que recebera de um colega. O atual presidente argentino tinha então 38 anos e considera a leitura do artigo um turning point em sua vida. Durante os anos que antecederam a vitória na eleição, Milei não se intimidou em pagar mico fazendo cosplay de “general Ancap”, e seus apoiadores lançaram até um gibi com o mesmo nome. Enquanto a esquerda achava ridículo, Milei ganhava pontos entre os “pibes”.

Gibi do “General Ancap”

Rothbard, um discípulo de Ludwig von Mises, cunhou o termo “anarcocapitalismo” em 1971. A principal diferença do anarcocapitalismo para o anarquismo é que os primeiros pregam a inexistência do Estado, mas defendem com unhas e dentes a propriedade privada, enquanto para os anarquistas originais “a propriedade é roubo” (Proudhon). Tanto é que alguns intelectuais defendem que o “libertarianismo” dos Ancaps deveria ser chamado de “proprietarianismo”, já que advogam a “liberdade” de utilizar a terra a seu bel-prazer, até mesmo o direito de derrubar uma floresta se assim o desejarem, mas ai de quem falar em reparti-la…

Com essa falácia na cabeça e as redes sociais em mãos, a extrema direita avança entre a juventude. Na Alemanha, nestas eleições para o Parlamento, os populistas de extrema direita do AfD cresceram em todas as faixas etárias, mas tiveram seu maior sucesso entre os jovens: em 2019, um em cada três eleitores alemães com menos de 24 anos escolheram o Partido Verde, enquanto a AfD conseguiu apenas 5% dos votos entre os jovens; em 2024, 16% dos jovens votaram na extrema direita enquanto os verdes viam encolher sua bancada. A AfD foi apelidada de “partido tiktok”, tamanha a influência da rede no fenômeno.

Os extremistas de direita saltam direto das plataformas com milhões de seguidores para a política, como aconteceu com Fidias Panayiotou, jovem youtuber de 24 anos do Chipre que foi eleito deputado europeu sem saber nada de política, como ele próprio admite

Na Espanha, 25% dos votantes entre 18 e 24 anos disseram que iriam votar em partidos de extrema direita nas eleições europeias (Vox e Se Acabó la Fiesta); na França, o partido de Marine Le Pen era a escolha mais popular do grupo entre 18 e 34 anos. A explicação para isso está no uso das redes sociais: segundo uma pesquisa feita pelo Parlamento Europeu entre os jovens em 2021, 64% deles usam o instagram e 25% usam o tiktok para se informar.

Agora, os extremistas de direita saltam direto das plataformas com milhões de seguidores para a política, como aconteceu com Fidias Panayiotou, jovem youtuber de 24 anos do Chipre que foi eleito deputado europeu sem saber nada de política, como ele próprio admite. Na Alemanha, onde os jovens de 16 anos votaram pela primeira vez, Maximilian Krah só não foi eleito deputado porque acabou sendo excluído da AfD devido ao envolvimento em escândalos como passar pano para a SS nazista e a acusação de ser espião chinês.

Krah havia ganhado notoriedade ao afirmar no tiktok que “homens gentis” e eleitores do partido Verde não arranjam namorada. “Um em cada três jovens homens na Alemanha nunca tiveram uma namorada. Você é um deles? Não assista pornô, não vote nos verdes, vá para a rua tomar ar fresco. Seja confiante. E acima de tudo não acredite que você precisa ser suave e gentil. Homens de verdade estão na extrema direita. Homens de verdade são patriotas. É assim que se arranja namorada!”

@jordanbardellaLa France se réveille, merci l’Isère ! ❤️♬ Solas X Interstellar – Gabriel Albuquerqüe

A França, cujo parlamento foi dissolvido por Emmanuel Macron após a eleição, corre o risco de ter como primeiro-ministro Jordan Bardella, um extremista de 28 anos alcunhado “rei do tiktok”. Bardella, que, como Bolsonaro, Milei e outros enganadores de extrema direita se diz “apolítico”, tem 1,6 milhão de seguidores na rede chinesa –Lula possui 4,6 milhões, Bolsonaro 5,6 milhões e Donald Trump, que entrou no tiktok há menos de um mês, já tem 6,1 milhões de seguidores.

Todo este fenômeno, segundo os especialistas, é resultado direto do confinamento durante a pandemia, quando os jovens que estão com 16 anos ou menos agora estavam trancados em seus quartos, solitários, sem amigos, sem fazer esporte, sem se divertir fora, à mercê das redes sociais. Qual é o pai ou mãe que não está enfrentando este problema?

Os partidos da direita radical estão cortejando ativamente o voto dos mais jovens, disse o professor de Ciência Política na Universidade Livre de Bruxelas, Dave Sinardet, à BBC. “A direita radical canaliza sentimentos anti-establishment. Eles têm uma vibe um pouco rebelde, especialmente quando se trata de sua agenda anti-woke (anti-identitária), e isso atrai os jovens. O tiktok e o instagram servem ao tipo de mensagens que a direita radical quer espalhar. Vídeos simplistas e sem nuances sobre questões como imigração, segurança e gênero.”

A esquerda precisa estar atenta a esta guinada que ainda não ocorreu no Brasil para que ela não dê as caras já nesta eleição de 2024. Em dezembro do ano passado, durante a Conferência Nacional da Juventude, o presidente Lula, que sabe bem mais de política do que nós, já advertia para a questão e conclamava os jovens a se comprometerem com a conscientização política da juventude. “Qual é o trabalho que vamos fazer com os milhões de jovens que ainda não nos entendem?”, questionou Lula.

“Como vamos tratar esses milhões de jovens? 65% votaram no Milei, de 16 a 24 anos de idade. Como é que a gente vai competir na formação política dessa juventude, que está abandonada na periferia, sendo violentada todo dia com a indústria da fake news, da mentira, da destruição?”, provocou. Da resposta a estas perguntas depende o futuro da esquerda e a derrota da extrema direita no mundo.

 


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