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Cultura

Dançar na rua: resistência contra o capitalismo e a caretice

Breve história do Reclaim the Streets, que misturava arte e ativismo e fazia da festa sua manifestação política

O primeiro Reclaim the Streets em 1995. Foto: Simon Buckle/Museum of the Youth Culture
Dionizio Bueno
07 de junho de 2021, 20h20

No dia 14 de maio de 1995, em uma movimentada rua comercial de Londres, ocorre uma colisão entre dois automóveis. Os motoristas saem e começam a discutir. Tomados pela raiva, os dois começam a destruir os carros a chutes e pauladas. O tráfego fica interrompido, todos param para ver a cena. Então, um aparelho de som começa a tocar música bem alto. Pessoas invadem a rua e dançam como em uma rave. Surgem cartazes com frases como “Respire”, “Chega de carros”. A colisão seguida da destruição dos carros era, naturalmente, combinada. Foi assim que começou a primeira festa de rua organizada pelo coletivo Reclaim the Streets (RTS, “resgate as ruas”), na qual 500 pessoas dançaram para defender o uso público dos espaços da cidade.

Dois meses depois acontece a segunda festa, agora com três mil pessoas. Transformam a rua numa praia urbana: areia sobre o asfalto, pessoas sentadas no meio da pista, crianças correndo por todos os lados. Cartazes declaram o local uma “rua aberta”. Desta vez, já providenciaram um caminhão de som. De seus enormes alto-falantes sai muita música eletrônica, mas não só. Quando toca What a Wonderful World, casais dançam agarradinhos debaixo do sol.

Entre 1995 e 1998, essas festas locais espalharam-se pela Grã-Bretanha e também outros países, como Finlândia, Israel e Austrália. As táticas de ocupação se aperfeiçoam a cada nova ação. Tripés de barras de metal com seis metros de altura armados no meio da via bloqueiam o tráfego motorizado enquanto deixam as pessoas passarem livremente. Alguém fica pendurado no alto do tripé, que a polícia só conseguirá desmontar quando convencer a pessoa a descer dali. Pela rua, sofás, redes de vôlei, balanços, piscinas infantis, pessoas mandando beijos aos policiais, desenhos com sol e flores por toda parte. Distribuem comida de graça e brinquedos para as crianças, enquanto frisbees cruzam o céu.

Numa dessas festas, em uma tarde quente de verão, oito mil pessoas ocupam por cerca de nove horas uma grande avenida de Londres. Duas ativistas com vestidos de época dançam no meio da multidão em cima de andaimes ocultos sob suas enormes saias estruturadas. Enquanto a polícia observa o movimento sem nada desconfiar, guerrilheiros verdes trabalham embaixo daquelas saias: com britadeiras portáteis, abrem buracos no asfalto e plantam árvores no meio da avenida.

Foto: reprodução do livro “We are Everywhere”, 2003

Simples e altamente provocadora, era esta a linha de ação do RTS: organizar festas no espaço público, misturando arte e ativismo, e dançar como forma de protesto. Dançar no meio da rua, nos pontos de ônibus, em cima dos carros, na entrada do prédio da bolsa de valores, nas lanchonetes do palhaço.

Dança e movimento estimulam a produção de endorfina, aumentam a energia vital do corpo, mobilizam libidos. Os efeitos são imediatos e transformadores em todos que estão ali. Desses momentos de celebração coletiva e festiva emergem afetos alegres, colocando os sujeitos em uma relação de potência com o mundo. O que temos visto hoje, infelizmente, é que as estratégias de resistência nestes nossos universos saturados de informação tendem a negligenciar a importância da corporeidade na produção e reprodução dos sujeitos políticos.

Entre 1995 e 1998, essas festas no meio da rua espalharam-se pela Grã-Bretanha e em países como a Finlândia, Israel e Austrália. Dança e movimento estimulam a produção de endorfina, aumentam a energia vital do corpo, mobilizam libidos. Os efeitos são imediatos e transformadores

Ações festivas criam uma nova estética de protesto, que se afasta da postura confrontante e do discurso –muitas vezes apenas pretensamente– racional que marca os estilos mais tradicionais de manifestação pública. Uma festa no meio da rua arranca sorrisos dos passantes, gera identificação e adesão, no lugar dos julgamentos muitas vezes binários que vêm à cabeça de quem presencia um comício, e que podem gerar atitudes de cisão e afastamento. Vendo aquele monte de gente dançando na rua, as pessoas simplesmente começam a rir!

Cria-se uma perturbação na rotina de vida voltada para trabalho e consumo, dando existência a um lugar em que as pessoas, por algumas horas, vivenciam a utopia, realizam uma fantasia coletiva. Trata-se de uma maneira de colocar em prática os valores políticos que estão sendo defendidos ou, nas palavras de um dos membros do RTS, “prefigurar o mundo imaginado no próprio momento do protesto”.

Por meio dessas ações, o RTS magistralmente dá uma forma possível ao conceito de Zona Autônoma Temporária, apresentado pelo escritor anarquista Hakim Bey em um livro curtinho e importantíssimo publicado em 1991 (aqui no Brasil teve recentemente uma edição da Veneta). A TAZ (acrônimo mais usual, conforme o original Temporary Autonomous Zone) é um lugar livre e festivo que nasce já sem a intenção de perdurar, conservando assim sua essência nômade e libertária. É criada por meio de “uma operação de guerrilha que libera uma área (de terra, de tempo, de imaginação) e se dissolve para se re-fazer em outro lugar e outro momento, antes que o Estado possa esmagá-la”.

Segundo John Jordan, um dos principais articuladores, o RTS surge da fusão entre o movimento antirrodoviarista britânico e a cultura rave dos anos 1990. Em seus primórdios, um pequeno grupo organizava protestos contra obras viárias. O contexto era o desmonte do sistema de transporte público promovido pelo programa neoliberal de Margaret Thatcher que, em nome da “grande economia do automóvel”, criou uma ampla agenda de construção de estradas e prioridade ao transporte individual.

O Reclaim the Streets mostra que protesto político e ação festiva podem formar combinações muito potentes. Com tanta cara feia perdendo a vergonha de aparecer por aí precisamos, talvez mais que nunca, resgatar nossa alegria

Por meio de ação não violenta, os ativistas bloqueavam tratores com seus corpos, acampavam nos canteiros de obras, plantavam flores em carcaças de automóveis. Ocuparam por seis meses uma rua com 35 casas marcadas para demolição, num evento que ficou conhecido como “Festival da Resistência”. A mistura de festa e protesto já marcava estas primeiras ações.

Em 1994, o governo conservador promulga a Lei de Justiça Criminal e Ordem Pública, que reduz liberdades civis e criminaliza diversos comportamentos ligados à contracultura. Em seus artigos, ataca diretamente a cena rave, em plena expansão nessa época: dá aos policiais poderes para apreender aparelhos de som e transforma em ofensa criminal encontros com mais de dez pessoas e sons “caracterizados pela emissão de uma sucessão de batidas repetitivas”. O resultado foi a união de ravers, artistas políticos, viajantes da Nova Era, ambientalistas, cicloativistas, militantes anticorporações. E a resposta prática foi fazer festa na rua.

Teorias do ativismo propõem uma reflexão sobre os propósitos das ações diretas. Nelas, podem predominar valores expressivos (efeitos simbólicos, como enviar mensagem política, mostrar força e coesão) ou valores instrumentais (resultados concretos, como impedir uma desocupação ou pintar uma ciclofaixa). Nas ações do RTS, os valores expressivos e instrumentais estão presentes em altas doses, sendo difícil dizer quais predominam. As frases nas faixas, a repercussão na mídia e a própria experiência de estar ali no meio dão o valor expressivo. Ao mesmo tempo, existe valor instrumental na medida em que se concretiza ali mesmo, ainda que temporariamente, o mundo da utopia, no qual há prazer, convivência, arte e criatividade. Por algumas horas, aquele espaço é efetivamente libertado.

“Abolir o capitalismo”. Reprodução do livro “We are everywhere”

Ações locais em diversas cidades seguiram acontecendo por alguns anos, até que em fevereiro de 1998, em uma reunião em Genebra que marca o início da Ação Global dos Povos, articuladores do RTS apresentam a proposta de organizar uma festa de rua global no dia da reunião da Organização Mundial do Comércio. A ideia é levada adiante e, em 16 de maio daquele ano, acontece o que ficou conhecido como primeiro Dia de Ação Global. “Nossa resistência é transnacional como o capital”, diziam faixas de protesto em 70 cidades do mundo. Diante do sucesso da ação, uma segunda festa global é marcada para acontecer no ano seguinte em centros financeiros do mundo todo, na data do encontro anual do G8. O dia, 18 de junho de 1999, ficaria conhecido como J18. Em Londres, a festa recebe o nome de Carnaval Contra o Capital.

Na concentração para a festa, foram distribuídas oito mil máscaras, de quatro cores diferentes, com uma instrução simples de como agir no momento em que fosse dado o sinal: “siga sua cor”. Quando isso acontece, a multidão se divide em quatro blocos que seguem por caminhos diferentes, despistando a polícia e provocando colapso de seu sistema de comunicação. Assim, dez mil pessoas ocupam a City of London e começam a dançar, nessa que foi uma das mais importantes ações do RTS. Algumas semanas depois, o relatório do comitê de polícia trazia a seguinte avaliação: “Os eventos de 18 de junho revelaram níveis de sofisticação e planejamento jamais vistos anteriormente em manifestações desse tipo”.

No ano seguinte, ao planejar os protestos de 1º de Maio, escolhe-se uma tática diferente: uma ação maciça de guerrilha verde na cidade. Mais de dez mil manifestantes ocupam a Praça do Parlamento, em Londres, e plantam grama, herbáceas, árvores frutíferas e flores, além de espalhar sementes de maconha pelos canteiros da praça. Na véspera, a polícia havia encharcado a área numa tentativa de desencorajar a ocupação, mas isso apenas facilitou o trabalho de jardinagem.

Nessa época, o RTS já começava a perder energia. Membros do grupo seguiram atuando em diversos outros movimentos ambientalistas e/ou anticapitalistas. Em um fórum sério de internet, cujo linque se encontra na página de arquivo do RTS (em inglês), uma provocação lançada por alguém (“RTS: o que aconteceu?”) deu origem a reflexões interessantes sobre os motivos do fim das ações do grupo. Diversos comentários fazem referência ao aumento do controle que se seguiu ao Onze de Setembro. Uma outra categoria de avaliações diz respeito a questões mais internas, como problemas nos processos de decisão, que não mais funcionavam tão bem com o aumento do tamanho do grupo, o que teria levado à sua fragmentação. Quem já participou de coletivos, associações e iniciativas com proposta de horizontalidade provavelmente conhece as dificuldades de se implementar um sistema de fato não autoritário entre pessoas que sempre viveram imersas numa cultura hierárquica, em que competição e desigualdade são relações tidas como naturais.

Reclaim the Streets em 1997. Foto: Giles Moberly/Museum of Youth Culture

Aparece de forma generalizada nos comentários do fórum certa frustração com a descontinuidade do RTS. Se, como tudo indica, os articuladores do RTS de Londres compreenderam bem a letra ‘T’ do conceito de Zona Autônoma Temporária, eu arriscaria dizer que ser um movimento permanente, de tamanho cada vez maior, talvez não fosse seu propósito mais importante. Quando há motivo e vontade de protestar, outras ações podem surgir paralelamente em diferentes grupos e lugares, seja trilhando caminhos que já funcionaram bem, seja inovando em linguagens e táticas de ação.

Ler relatos e ver imagens das ações do RTS, sobretudo nestes tempos em que festas e manifestações políticas estão proibidas por ordem médica, pode ser uma experiência um tanto perturbadora. Como um chamado, “resgate as ruas” nos faz pensar no momento de voltar a estar lá. E como inspiração, o RTS mostra que protesto político e ação festiva podem formar combinações muito potentes. Com tanta cara feia perdendo a vergonha de aparecer por aí precisamos, talvez mais que nunca, resgatar nossa alegria.

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(1) comentário Escrever comentário

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Manuel Gonzalez em 08/06/2021 - 17h39 comentou:

No Brasil todo tipo de manifestação do povo é criminalizado, só vale ser ovelha e abedecer o pastor aquele que nao se encaixar é punido pelos pastores alemao (PM)

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