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Cultura

Dos cartões postais com negros linchados nos EUA à execução de negros pela polícia no Brasil

Uma história em quadrinhos, um documentário e fatos recentes mostram que infelizmente aqui, como lá, pouco ou nada mudou

Imagem do gibi Incognegro
Piu Gomes
31 de maio de 2022, 15h43

Maio é o mês em que se “comemora” a sanção da Lei Áurea, de 1888, que aboliu a escravidão no Brasil, último país independente do Ocidente a fazê-lo. As aspas se devem às críticas do movimento negro, mais do que justificadas face ao racismo estrutural, à desigualdade e falta de oportunidades perenes, e à violência que teima em ceifar vidas negras.

Entre 1880 e 1968 (!), ocorreram cerca de 4 mil linchamentos de pessoas negras nos EUA. Os atos reuniam multidões e fotógrafos negociavam para ter a melhor posição para os registros, posteriormente vendidos e transformados em cartões postais

Essa realidade terrível não é exclusividade tupiniquim, como mostram a HQ Incognegro e o curta-metragem Lynching Postcards – a Token of a Great Day, que, cada um a seu modo, se debruçam sobre crimes bárbaros cometidos contra os negros nos EUA nas primeiras décadas do século 20, logo após a abolição da escravidão por lá, em 1865.

O filme, dirigido por Christine Turner, concorreu ao Oscar de melhor documentário em curta-metragem em 2021. Numa narrativa sóbria, estudiosos afro-americanos comentam como a eternidade de um momento captado pela fotografia e a banalidade de um cartão postal se somam para perpetuar a ideologia da supremacia branca e manifestar a propriedade sobre pessoas negras mesmo na morte.

Disponível na rede, fica o alerta sobre as imagens fortíssimas que o filme exibe dos postais com os linchamentos comercializados à época. Imagina receber pelo correio uma coisa dessas? Por quê? Para quê?

É fato que o simples fato de um negro existir podia ser punido com a morte nos EUA de então. Entre 1880 e 1968 (!), ocorreram cerca de 4 mil linchamentos de pessoas negras por racistas. A execução sem julgamento ou defesa incorporava requintes de crueldade, como corpos queimados e membros amputados para servirem de souvenir.

Os atos reuniam multidões de pessoas certas da impunidade e fotógrafos negociavam para ter a melhor posição para os registros posteriormente vendidos. Estar próximo ao corpo era sinal de prestígio e influência, tornando os brancos assassinos em celebridades que enviavam as fotos para familiares. Qualquer semelhança com os atuais posts violentos nas redes não é mera coincidência.

Cartão postal colorizado do linchamento de Virgil Jones, Robert Jones, Thomas Jones, e Joseph Riley em 1908

O gibi Incognegro inicia com a cena de um linchamento descrito por Zane Pinchback, repórter do New Holland Herald, a um casal de amigos no Harlem. Presente ao ato, ele se vale da pele mestiça para se disfarçar de branco e publicar matérias que denunciam as atrocidades.

O termo “incognegro” é caro ao roteirista Mat Johnson, também um afro-americano miscigenado, que sofria discriminação na comunidade black power em que cresceu e se imaginava nesse papel junto com um primo meio negro, meio judeu.

Como o protagonista do gibi Incognegro, Walter White, ex-líder da NAACP, organização defensora dos direitos para a população negra nos EUA, se infiltrava nos movimentos racistas sulistas para denunciar os linchamentos

Na faculdade, Mat se deparou com a história de Walter White, ex-líder da NAACP, organização defensora dos direitos para a população negra. Como imaginava o jovem Mat, White se infiltrava como se fosse branco (daí “incognegro”) nos movimentos racistas sulistas para denunciar os linchamentos.

A trama da HQ se desenvolve como um thriller noir, quando Zane e Carl, o amigo do Harlem, despencam para o Mississipi para solucionar um caso envolvendo o irmão gêmeo do repórter, acusado de matar uma mulher branca. Michaela era, na verdade, a companheira de Alonzo e também uma criminosa durona –os dois estavam fabricando uísque nos bosques de Tupelo.

Entre várias reviravoltas no roteiro, os três negros vão enfrentar de caipiras brancos selvagens e isolados que acreditam que uma guerra racial está a caminho, a um violento chefão da Klan, que acredita que tal guerra já se deflagrou e quer vencê-la derramando muito sangue. Além, é claro, da inacreditável sociedade supremacista branca do Sul dos EUA.

Imagem do gibi Incognegro

A arte de Warren Pleece traz personagens e cenários realistas em um P&B clássico e contrastado, trazendo ação e drama à uma construção narrativa que abusa de pontos de virada e ganchos que deixam as resoluções em suspenso. O final da história mistura cenas acridoces com o poder da denúncia feita pela mídia, além de uma bela justiça poética.

A violência racial no Brasil e no mundo, empoderada pelo crescimento da extrema direita, resulta em assassinatos covardes como os de George Floyd em Minneapolis ou o de João Alberto em Porto Alegre. Há poucos dias, em Buffalo, um branco matou 10 pessoas numa comunidade negra após visitar sites de supremacia branca.

No Brasil, Genivaldo Jesus dos Santos foi morto em Umbaúba, Sergipe, pela polícia rodoviária do Estado bozofascista no dia 25 de maio, numa tragédia que se assemelha aos abusos descritos nos quadrinhos e no filme. Genivaldo foi assassinado por não usar capacete no reino das motociatas criminosas do (des)governo. O discurso do ódio só vem crescendo nas ruas e nas redes, mas aumenta também a reação a ele, seja na web ou fora dela.

O assassinato de Genivaldo. Ilustra: Nando Motta

A cineasta Christine Turner é afro-americana, e lançou em 2022, no festival de Tribeca,  Paint and Pitchfork –outro curta, sobre dois artistas visuais negros dedicados a retratos de afro-americanos. Comemorando os dez anos do original, Johnson e Pleece fizeram em 2018 a prequel Incognegro – Renaissance , onde Zane investiga a morte de um escritor negro na Nova York dos anos 20.

Em obras de arte, em manifestos na rua, em pressão sobre as autoridades, em voto consciente, que seja como disse Angela Davis: “não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”.

Incognegro
AUTORES: Mat Johnson e Warren Pleece
EDITORA VENETA, 144 págs., R$49,90

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Bernardo Santos Melo em 31/05/2022 - 18h13 comentou:

Nenhum policial assassino de Genivaldo foi preso .
Omisso sobre o crime por vários dias . O VERME ontém afirmou : A IMPRENSA PREFERE APOIAR BANDIDOS !
E daí ?
Sem perspectivas , a família de Genivaldo sangra lágrimas de uma injustiça transmitida em todas as telas , seu filho agora órfão certamente encontra-se perplexo e perguntando , porque a PRF matou meu pai ?
Por outro lado , fotos da Micheque sorrindo e fardada de PRF abundam na WEB .
O TEATRO do Homem de BEM persiste : marchas para Jesus , shows sertanejos bem pagos , vendas de refinarias , carestia geral , sarampo , dengue , catástrofes climáticas , arruaças contra STF e TSE … CAOS .
INÉRCIA GERAL , um povo sem instrumentos para reagir , desinformado e desunido , com carência alimentar , nas filas do INSS , sem perspectivas .
E DAÍ ?
Não sei .
Certo mesmo é que tudo piora aceleradamente conforme os anseios da FAMILÍCIA .
Luto por tempo indeterminado ✝️.

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