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“Em nenhum palácio do mundo cabem dois presidentes”, disse Lula a Mino

Entrevista feita dias antes das revelações da Folha/Intercept confirma resistência do ex-presidente em aceitar o cargo de ministro

Mino Carta e Lula se abraçam. Foto: Ricardo Stuckert
Cynara Menezes
09 de setembro de 2019, 20h39

Eu estava muito curiosa de ver a entrevista de Lula a Mino Carta, diretor de redação da revista CartaCapital. Mino é praticamente o “descobridor” de Lula. Em fevereiro de 1978, a primeira grande entrevista do presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, um tal Luiz Inácio da Silva, foi dada ao jornalista, então diretor de redação da IstoÉ, uma das revistas que Mino criou. Foi emocionante revê-los juntos, testemunhar o abraço carinhoso entre os dois amigos de mais de 40 anos (Mino havia estado com o ex-presidente outras duas vezes, mas longe das câmeras, em sua “celinha”, como Lula chamou). A entrevista já tem mais de meio milhão de views no youtube.

Achei que Mino e Sergio Lirio, diretor de redação da revista, tentaram apertar Lula, mas o ex-presidente se esquivou bastante dos temas mais espinhosos. Mudou de assunto quando perguntaram sobre as declarações elogiosas de seu candidato, Fernando Haddad, ao então juiz Sergio Moro na véspera da eleição, e preferiu atacar a Veja do que falar da entrevista de Dias Tóffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal, à revista, em que admite a existência de um pacto para mantê-lo preso…

Foi a última resposta da entrevista a que mais me chamou a atenção, pela antecipação do que iria acontecer, pouco depois, do lado de fora das masmorras onde Lula se encontra, há mais de um ano, em Curitiba.

Se eu tivesse que citar um erro, é o de não ter assumido que eu era candidato em 2014 e não assumi porque gosto da Dilma, respeito ela e democraticamente ela tinha o direito de ser candidata. A Dilma, o PT, eu, todos erramos e colhemos o que plantamos

Exatamente três dias antes de o Intercept e a Folha revelarem que a Lava-Jato escondeu diálogos onde Lula demonstrava resistência em aceitar a indicação a ministro da Casa Civil de Dilma Rousseff em 2016, o próprio ex-presidente afirmou a Mino que não desejava ocupar o cargo. A entrevista de Mino a Lula aconteceu na quinta-feira. No domingo, o país ficou sabendo que a Lava-Jato grampeou 22 conversas do ex-presidente, mas só uma foi vazada pelo juiz Sergio Moro à mídia parceira: a que dava a entender que Lula queria se beneficiar do foro privilegiado ao assumir o ministério.

Lula e Mino. Foto: Ricardo Stuckert

Na entrevista, Mino pergunta por que Lula não se tornou ministro de Dilma assim que ela tomou posse para o segundo mandato, em 2015. O jornalista sempre falou a interlocutores que considera um erro do ex-presidente não ter acertado isso imediatamente após a reeleição. Lula respondeu que não conseguia conceber tal situação. “No Palácio do Planalto, em nenhum palácio do mundo, cabem dois presidentes. É preciso saber as circunstâncias de, naquela época, depois da 1 hora da manhã, eu ter dito ‘sim’. Não achava conveniente politicamente, pois entraria como o salvador da pátria. Querer governar no lugar, não dá, na minha cabeça não dá”, disse.

O desconforto de Lula em aceitar o cargo, o desejo de ajudar Dilma a salvar o mandato, a vontade de recompor a base do governo, nada disso foi ao ar pela GloboNews, só o famoso áudio em que Dilma diz que mandará “Bessias” entregar o termo de posse a Lula

Nas conversas reveladas no domingo e escondidas pelos procuradores da Lava-Jato, é exatamente este o argumento apresentado pelo ex-presidente para sua resistência em aceitar o cargo: que se sentia mal com a situação e que só aceitaria para salvar o mandato de Dilma, assumindo as negociações com o vice Michel Temer e o PMDB –e não para impedir a si mesmo de ser preso.

Este desconforto de Lula não foi ao ar em primeira mão pela GloboNews naquele dia, apenas o famoso áudio em que Dilma diz que vai mandar o “Bessias” entregar o termo de posse para Lula usar “em caso de necessidade”. O incômodo de Lula em aceitar o cargo, seu desejo de ajudar Dilma a salvar o mandato, a vontade de recompor a base do governo, tudo isso foi ocultado para que a tese de que o ex-presidente queria foro privilegiado prevalecesse.

Gilmar disse que não se arrepende da decisão de suspender a posse de Lula, mas que hoje “temos uma visão mais completa do que estava se passando”. Segundo o ministro, “é muito estranho que somente um pedaço do fato e não sua inteireza tenha sido divulgado à época”

Foi depois da divulgação desse áudio pela GloboNews que o ministro do STF Gilmar Mendes soltou uma liminar, a pedido do PSDB e do PPS, impedindo que Lula tomasse posse do cargo. Ouvido pela Folha, Gilmar disse que não se arrepende da decisão de suspender a posse, mas que hoje “temos uma visão mais completa do que estava se passando”. Segundo o ministro, “é muito estranho que somente um pedaço do fato e não sua inteireza tenha sido divulgado à época”.

A Mino e Sergio Lírio, Lula admite pela primeira vez com todas as letras que seu erro não foi descartar o ministério e sim não ter saído candidato em 2014 no lugar de Dilma. “Se eu tivesse que citar um erro, é o de não ter assumido que eu era candidato em 2014 e não assumi porque gosto da Dilma, respeito ela e democraticamente ela tinha o direito de ser candidata. Não fizemos política corretamente. A Dilma, o PT, eu, todos erramos e colhemos o que plantamos”, disse.

Assista à integra da entrevista.

 


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Celso Orrico Filho em 10/09/2019 - 10h48 comentou:

oxe, erro primário cometido pelo estadista e seu Partido..já na época das jornadas de 2013 eu defendia a candidatura de Lula, era óbvio que a situação exigia mais estatura política no candidato e Dilma não tem essa estatura..padecemos ainda do personalismo na Política brasileira, interesses do País submetidos a “gostos” de pessoas..perdemos de novo..

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