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“Homenagem” do jornal El Mercurio a Göring, sucessor de Hitler, revolta chilenos

Para a comunidade judaica, matéria do jornal que apoiou o golpe contra Salvador Allende em 1973 é "apologia ao nazismo"

Göring e Hitler em um terraço da Bavária, entre 1933-1935. Foto: United States Holocaust Memorial Museum
The Clinic
25 de outubro de 2021, 18h35

Do jornal The Clinic
Tradução Cynara Menezes

Neste domingo, 24 de outubro, o conservador jornal El Mercurio, um dos principais diários do Chile e apoiador de primeira hora do golpe militar contra Salvador Allende em 1973, dedicou uma página inteira da seção de Sociedade à lembrança de Hermann Göring, o líder nazista declarado culpado no tribunal de Nuremberg. Na página intitulada 75 anos de sua morte: Herman Göring, o sucessor de Hitler, o jornal lembrou seus primeiros anos, sua vida pessoal, sua carreira militar, sua proximidade com Adolf Hitler e também o suicídio com cianureto graças ao qual “conseguiu burlar o enforcamento ao que havia sido sentenciado pelo Tribunal Militar Internacional”.

A matéria de efeméride destinada ao líder nazista foi questionada por políticos chilenos, pela comunidade judaica e por três candidatos a presidente do país. Uma das primeiras em se manifestar foi a deputada constituinte (o Chile está no meio do processo para elaborar uma nova Constituição) e jornalista Patricia Politzer, perguntando: “O que pensará a embaixada alemã deste obituário de Hermann Göring, criador da Gestapo, a polícia secreta nazista?”

Outra constituinte, Cristina Dorador, lamentou: “Uma página e meia de obituário dedicado a um dos mais horrendos criminosos nazistas. Nefastos”.

Manuel Woldarsky, também membro da Assembleia Constituinte do país, criticou: “Desta mesma forma provocam admiração pelo opressor e raiva contra o oprimido. No Chile, o genocídio é justificado pelo setor que El Mercurio representa”.

A ativista, militante do Partido Liberal e ex-coordenadora de campanha da socialista Paula Nárvaez, Alessia Injoque, acrescentou: “O caminho para as ditaduras e aos piores crimes se começa a construir normalizando o que é repudiável. Hoje no El Mercurio nos dão um exemplo, destacando o legado de um nazista condenado por crimes contra a humanidade no tribunal de Nuremberg”.

Outro personagem da política chilena que se referiu à matéria foi a ex-deputada Lily Pérez, que publicou no twitter: “Insólito. El Mercurio de hoje, em um artigo em Sociedade, destaca Göring, um expoente do nazismo. Pelas fotos publicadas é uma apologia”.

Nas últimas horas foi a própria embaixada da Alemanha no Chile que se referiu à publicação, em sua conta no twitter. “Não é costume da Embaixada comentar publicamente artigos da imprensa. Só queremos deixar muito claro: Este personagem, H. Göring, cometeu crimes de lesa-humanidade e foi um dos pilares do regime nazista. Isto não deixa o menor espaço para justificar ou minimizar moral e/ou politicamente –e muito menos em termos jurídicos–seu papel nefasto durante o regime nazista e no Holocausto”.

A Comunidade Judaica do Chile também se somou às condenações contra a publicação, afirmando, em sua conta no twitter, que a página do matutino era uma “apologia ao nazismo”.

Três candidatos à presidência do Chile já se manifestaram contra a matéria. A candidata da Democracia Cristã, Yasna Provoste, se disse solidária à comunidade judaica e lamentou a “normalização dos extremismos”.

Já o candidato do Partido Republicano, José Antonio Kast, afirmou que, embora seja defensor da liberdade de imprensa, tem o direito de criticar “quando os meios se equivocam ao abrir espaço a que se relativize o horror causado por um personagem desprezível como Göring e o regime criminoso que liderou”.

Gabriel Boric, candidato da Frente Ampla, definiu como “inaceitável” o texto e uma “ofensa às vítimas do Holocausto”.

Na edição desta segunda, na seção de Cartas, o jornal El Mercurio nega ter feito apologia ao nazismo, em resposta à reclamação de uma leitora. “Jamais foi a intenção de ‘El Mercurio‘  fazer apologia alguma nem muito menos ofender as vítimas do Holocausto. São inumeráveis as mostras ao longo do tempo de que o diário manteve uma postura crítica e condenatória ao nazismo. Também propiciou a publicação de livros no nosso selo editorial e debates sobre esta tragédia, centrando-se precisamente no sofrimento das vítimas e de suas famílias. No entanto, se muitos leitores leram esta resenha histórica da seção Sociedade da maneira como expressa esta leitora, é um erro de nossa responsabilidade que lamentamos profundamente”, disse o jornal.


(6) comentários Escrever comentário

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Mario em 26/10/2021 - 14h40 comentou:

Olá Cynara

O que será que vem depois,chamar a autocracia de Pinochet de “ditabranda”?

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    Cynara Menezes em 26/10/2021 - 15h23 comentou:

    certamente

Sócrates Buarque em 26/10/2021 - 16h54 comentou:

Lamentável e revoltante.

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Marcio Alves Vieira em 30/10/2021 - 19h25 comentou:

Triste, triste triste…

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PAULO ROBERTO MARTINS em 02/11/2021 - 20h05 comentou:

Virou moda,agora, para ficar de acordo com os tempos atuais, a imprensa burguesa ficar ressuscitando lembranças de bandidos e carniceiros que se posicionaram contra a classe trabalhadora e o socialismo. Devagar e fingindo inocência eles vão avançando nesta estratégia de manter o que devia estar enterrado, ainda vivo. Cretinos, não nos enganam com estas frases de efeito,justificando esta sacanagem! Jornalistas, quando dão para serem filhos da puta, só um pelotão de fuzilamento segura!

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Luís Carlos Kerber em 07/11/2021 - 11h03 comentou:

É necessário que esse jornal autoritário e antidemocrático, que tece elogios ao ditador Pinochet e enaltece o nazista Goring, sofra no bolso pressões da sociedade e dos órgãos governamentais. A sociedade tem que cobrar a iniciativa privada que pare de anunciar nessa organização antidemocrática, já os órgãos públicos tem que cortar toda forma de subsídio, além de interromper os anúncios públicos. A comunidade jurídica deveria entrar com alguma ação por reparação de danos contra a humanidade cometido por esse grupo empresarial.

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