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Jean Wyllys: bilionários deveriam custear atendimento psicológico na quarentena

Para o escritor e jornalista exilado nos EUA, é preciso fornecer mais do que ajuda material aos que estão isolados em casa

Ilustra: aquarela de Jean Wyllys
Jean Wyllys
28 de março de 2020, 12h22

Viver nos tempos do coronavírus não está fácil para nenhum de nós (e que fique claro que têm traços de psicopatia ou, no mínimo, déficit grave de empatia, aqueles que estão dormindo e acordando tranquilos e/ou, tendo o privilégio do confinamento, abrindo mão de seu dever cívico de respeitar a quarentena, o confinamento e a distância social indicados pela Organização Mundial de Saúde).

Viver esses tempos residindo nos Estados Unidos –novo epicentro da pandemia– torna tudo mais difícil para mim. Aqui, os limites e as contradições do capitalismo neoliberal diante do coronavírus são mais gritantes e, portanto, permanentes fontes de ansiedade para qualquer pessoa que reconheça humanidade nos –e se importe com os– mais pobres. Aqui, quem não tem dinheiro para pagar direta ou indiretamente um seguro de saúde está completamente desprotegido neste momento.

Viver nos EUA torna tudo mais difícil para mim. Aqui, os limites e as contradições do capitalismo neoliberal diante do coronavírus são mais gritantes. Quem não tem dinheiro para pagar um seguro de saúde está completamente desprotegido

O país não conta com um sistema público de saúde que possa assistir os mais vulneráveis em todos os Estados. A pandemia e os protocolos de contenção trazem consigo também uma pandemia de ansiedade e medos para a qual a maioria das subjetividades não está preparada. Em palavras mais simples, é muito pequena a quantidade de pessoas que sabem lidar com os terrores inconscientes que lhes habitam e que foram despertados pelas notícias sobre o coronavírus. Poucas são as pessoas que sabem trazer, para a consciência, esses medos e trabalhá-los de modo a conter a ansiedade e evitar depressão, algo mais grave.

As pessoas entram em pânico quando apresentam sintomas de gripe semelhantes aos do coronavírus, porque, claro, todos temos um medo irracional da morte jamais trabalhado por uma sociedade da produtividade 24 horas por dia, sete dias por semana, e do culto à juventude e à aparência.

Seria, então, o caso de os empresários –sobretudo os bilionários de plataformas de comunicação como Google, Amazon, Facebook e YouTube, por exemplo, até porque essas mídias sociais têm sido a causa do adoecimento psíquico de muita gente– e os banqueiros riquíssimos custearem o trabalho de médicos e psicólogos no atendimento às pessoas mais pobres e vulneráveis, para reduzir os impactos da pandemia na vida de todos e todas nós. Os banqueiros e grandes empresários –incluindo aí os pastores evangélicos das igrejas-franquias– deveriam também investir mais na Ciência e na pesquisa em busca de uma cura neste momento.

A necessidade de contenções também às pandemias de medos, ansiedades e depressões me parece clara. Todos temos um medo irracional da morte jamais trabalhado por uma sociedade da produtividade 24 horas por dia, 7 dias por semana, e do culto à juventude e à aparência

Mas não é o que estamos vendo, fora a decisão tardia do governo norte-americano de enviar um cheque de 1200 dólares a cada cidadão (o que quer dizer que estão excluídos os não-documentados) para ajudar materialmente no enfrentamento do corona. Além da ajuda material –salários, comida, aluguel, água potável e insumos de higiene– durante a quarentena, as pessoas precisam de assistência psicológica, conhecimento e informações de qualidade e não de fake news. Esta assistência não pode, porém, vir apenas da solidariedade e do voluntariado dos profissionais da saúde e da comunicação. Ela precisa ser custeada por aqueles que podem mais e têm de sobra.

A necessidade de contenções também às pandemias de medos, ansiedades e depressões decorrentes da relação com o coronavírus me pareceu clara na quantidade de pessoas que me agradeceram por ter lhes dito, em vídeo publicado em minhas redes sociais, que admitam para si mesmas que estão com medo e ansiosas, pois a superação do medo e da ansiedade começa por reconhecê-los para nós mesmos e para os outros. Só assim podemos ser ajudados e ajudar as outras pessoas.

Viver a pandemia de coronovírus em exílio, desterrado também da minha língua, fez-me sentir mais humano do que eu já me sentia; mais vulnerável do que eu já me sentia, embora muito menos vulnerável do que milhões de pessoas neste planeta. As notícias sobre o coronavírus conectaram inconscientemente meus traumas e medos e me desestabilizaram num primeiro momento. Isto exigiu, de minha consciência, um trabalho maior; a parte principal deste foi admitir para mim mesmo que eu precisava de ajuda, de alguém por perto ou ao telefone para me socorrer em caso de sintomas físicos da ansiedade.

E que sorte a minha de ter, ao meu redor, pessoas amorosas, corajosas e disponíveis! E que sorte a minha de ter guardado comigo todo o material que as artes e as ciências me deram ao longo desses anos (Um viva aos artistas e cientistas! Eles precisam de todo nosso apoio material agora para seguirem nos iluminando!). E, por fim, a pandemia de coronavírus fez-me dar ainda mais valor ao amor do que eu já dava antes. Toda atenção ao amor neste momento ainda é pouca. Só ele poderá mover as ações em todos áreas da atividade humana que nos permitiram continuar.

Jean Wyllys é escritor, jornalista e pesquisador visitante no Instituto Afro-latinoamericano do Hutchins Center da Universidade de Harvard. Foi deputado federal pelo PSOL


(4) comentários Escrever comentário

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Marina em 28/03/2020 - 13h40 comentou:

Jean! Sempre sábio, íntegro e perfeito na sua humanidade. Nos inspira continuar, sabedores que entre o lodo e a incerteza do amanhã, há um homem como você.

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Valneida Viana em 28/03/2020 - 16h43 comentou:

Exatamente isso Jean. Trabalhadores como eu que sou autônoma precisamos de amparo. Todos nós estamos em sofrimento, mas os medos, ansiedades, tristezas, angústias e depressões matam e podem levar ao suicídio. Vc falou muito bem. A dor de toda essa vivência é subjetiva e imensurável no significado das consequências para cada sujeito e sua história antes, durante e pós pandemia. Haverá pós? Viver é uma incerteza e por si só angustia. Não damos conta de tudo e aqueles que se escondem na denegação, mais cedo ou mais terá que lhe dar com seus conteúdos. Todos nós precisamos de acompanhamento psicológico. Não somos só corpo, somos afeto, somos infância, somos esquecimentos, somos dores e alegrias.

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Leonardo em 17/04/2020 - 13h21 comentou:

Fica a pergunta

Pq exilado nos EUA e não em Cuba?
Lá em Cuba não existe problema com capitalié inexistente

Responder

    Cynara Menezes em 17/04/2020 - 14h12 comentou:

    porque ele se exila ONDE ELE QUISER. e recebeu convite de harvard. o resto é só chororô de reaça

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