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Feminismo

Joga pedra na Geni: as três influencers assassinadas e a mãe que dançou funk

Mulheres são as vítimas preferenciais do implacável tribunal das redes; na vida real, a "mulher exibida" pode acabar espancada e morta

Laine, Micaelly e Luanne: mortas; Brenna: linchada pelo tribunal da internet. Fotos: reprodução
Cynara Menezes
25 de maio de 2023, 15h27

O arquétipo da mulher “exibida”, que provoca inveja nas demais e desejo nos homens, é volta e meia utilizado pelo machismo para justificar violência doméstica, estupros e feminicídios. A “desinibida do Grajaú”, imortalizada por Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, no conto homônimo do livro As Cariocas (1967), acabou tendo que se mudar de bairro tamanho o assédio que sofria de vizinhos e vizinhas. No Brasil de 2023, poderia acabar assassinada.

No dia 12 de maio, a influencer Laine Mendonça, de 44 anos, morreu em Japurá, no Paraná, após ser espancada e ter 30% de seu corpo queimado pelo namorado. Três dias depois, em 15 de maio, a influencer teen Micaelly dos Santos Lira, de 19 anos, foi baleada na cabeça e morta em Hortolândia (SP) por um homem com quem teve um relacionamento passageiro, e que se suicidou em seguida dentro do carro onde ambos se encontravam.

Três feminicídios em um mês contra influencers mulheres indicam um novo padrão para a vítima do ciúme assassino dos machistas: a mulher “exibida” com milhares de seguidores que ganha a vida utilizando as redes sociais para se promover e vender produtos

No último domingo, 21 de maio, a influencer Luanne Jardim, de 30 anos, teve seu carro alvejado por tiros disparados por ocupantes de outro veículo, no momento em que pegava um acesso para a Linha Amarela, no Rio, e morreu com um tiro no ombro que atingiu o coração; a princípio, a polícia achou que fosse latrocínio, mas a família dela acredita que foi premeditado. Um ex-namorado, da PM, teria feito ameaças a Luanne.

Três feminicídios em um mês contra influencers digitais mulheres indicam um novo padrão para a vítima do ciúme assassino dos machistas: a mulher “exibida”, que ganha a vida utilizando seu perfil nas redes sociais com milhares de seguidores para se promover, dar conselhos, veicular opiniões e vender produtos. Teve ainda o caso de Daniele Gonçalves, de 32 anos, influencer que foi atacada a golpes de facão pelo ex-namorado em Londrina (PR) e ficou vários dias na UTI com ferimentos profundos no rosto, cabeça e mãos. Teria sido a quarta influencer assassinada no Brasil apenas em maio.

Agora, além de só poder se vestir de forma “não provocativa” e de ser obrigada a permanecer em relacionamentos abusivos, a mulher deve evitar “se mostrar” nas redes sociais para não ser morta por companheiros e ex-companheiros. Para não ser assassinada, a mulher tem que ser Amélia, aquela que não tinha a menor vaidade; jamais ser a “desinibida” e muito menos Geni, a que dá para qualquer um, é feita para apanhar e boa de cuspir. Quem vai decidir se ela é uma ou outra? Ora, o implacável tribunal da internet, onde todos são monopolistas da virtude e PhDs em julgar a vida alheia.

“Cada comentário absurdo, vagabundo falando ‘executa ela’. A filha é minha, o corpo é meu e faço da minha vida o que quiser”, disse a mãe que dançou funk. O que querem os que estão julgando Brenna? Que perca a guarda da filha? Que seja apedrejada e morta?

No último sábado, 20 de maio, Brenna Azevedo, de 26 anos, resolveu fazer uma brincadeira com os convidados da festa de 3 anos da filha em Belfort Roxo, no Rio: trocou de roupa, colocou um vestido transparente e dançou até o chão um funk da cantora Anitta, o “Movimento da Sanfoninha”. O “erro” de Brenna foi permitir que uma tia colocasse os vídeos da festa, onde estava cercada de familiares e pessoas amigas numa celebração privada, em seu perfil no tiktok.

As imagens viralizaram e a mãe está sendo xingada, psicanalisada e até ameaçada por desconhecidos nas redes sociais. O pai da criança, com quem ela aparece no vídeo, está sendo chamado de “corno”, embora os dois não sejam casados e não fique claro por que o fato de a mãe da menina ter dançado funk o faria ser chamado assim. Perfis de esquerda e direita acusam Brenna de “sexualizar” a filha (embora a menina apareça usando um vestido da Minnie) e de estar “seminua” numa festa infantil. Ela teve que fechar o perfil no instagram por conta dos ataques.

“As pessoas repercutiram o vídeo de uma forma que eu não imaginava. Todo dia recebo mensagens pavorosas: me chamam de safada, piranha, narcisista, até de desgraçada, lixo, e de péssima mãe. As pessoas não têm noção, até me ameaçam”, disse Brenna ao jornal Extra. “Ninguém sabe do meu dia a dia com a minha filha, do apoio da minha família para a gente dar educação para ela.”

A “caça às bruxas” voltou com força total nas redes sociais. O puritanismo medieval disseminado pelo bolsonarismo parece ter contaminado pessoas de todos os espectros ideológicos. As vítimas destes tribunais de costumes sempre foram, são e serão prioritariamente mulheres

“Vi cada comentário absurdo, vagabundo falando ‘executa ela’. Me executar? Vocês têm que executar os estupradores, as pessoas que maltratam idosos, e não a mim, gente. Eu não tenho a ver com isso. A filha é minha, o dinheiro é meu, o corpo é meu e eu faço da minha vida o que eu quiser”, disse a mãe em um vídeo que postou no instagram em resposta aos ataques.

É de se perguntar: o que querem os que estão julgando e crucificando Brenna por dançar um funk? Que ela perca a guarda da filha? Quem sabe ser apedrejada? Morta? São assustadores os tempos que vivemos. As redes sociais se mostram absurdamente violentas, burras, tóxicas, e com um potencial muito maior para a destruição, o ódio e os linchamentos virtuais –que podem virar reais.

Me preocupo com a vida de Brenna Azevedo. Em 2014, Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, foi linchada por vizinhos no Guarujá (SP), após um boato espalhado por uma página do facebook apontá-la como praticante de magia negra com crianças. Testemunhas chegaram a dizer que ela carregava um livro de magia negra nas mãos, e não a Bíblia que costumava levar quando ia à igreja. Fabiane foi amarrada e agredida por dezenas de pessoas, mas somente cinco foram identificadas e condenadas pelo assassinato.

A “caça às bruxas” voltou com força total nas redes sociais. O puritanismo medieval disseminado pelo bolsonarismo parece ter contaminado pessoas de todos os espectros ideológicos. As vítimas destes tribunais de costumes sempre foram, são e serão prioritariamente mulheres. A não ser que nos comportemos como os inquisidores mandam, qualquer uma de nós pode acabar na fogueira.

 


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(9) comentários Escrever comentário

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Angelo Panebianco em 25/05/2023 - 16h11 comentou:

Tempos sombrios, isso tudo só está acontecendo pela abertura do esgoto bolsonarista..lamentável

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Ana em 25/05/2023 - 19h49 comentou:

Concordo plenamente com as suas colocações . Infelizmente as mulheres sofrem muito. Se o pai abandona o lar e vai embora … não fic mal visto. Se a mãe abandona o lar … ela taxada de tudo o que é nome … e por aí vai .

Sobre a mãe dançando….. ela faz o que quer … porém penso assim. Ali estavam muitas crianças … talvez naquele momento não fosse adequado . até porque a atração aí , neste dia , era a sua filhinha . Então, neste caso faço a minha ressalva .

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Wagner Spagnul em 25/05/2023 - 19h49 comentou:

É assustador tamanho retrocesso que vivemos. Fico indignado e perplexo com este moralismo escroto que se manifesta nas redes sociais e que promove linchamento virtuais e reais de quem não segue os padrões fascistoides que eclodiram dos ovos das serpentes chocados a partir de 2016…

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Fernanda em 26/05/2023 - 21h50 comentou:

Uma ressalva apenas no seguinte trecho: “Para não ser assassinada, a mulher tem que ser Amélia, aquela que não tinha a menor vaidade; jamais ser a “desinibida” e muito menos Geni…” – Tampouco adianta ser Amélia, ser inibida, não ter vaidade e ser ‘recatada’, a mulher não pode ser é de nenhum jeito que queira, as que não são “exibidas”, são assassinadas da mesma maneira, porém seus casos apenas não ganham tanta repercussão e visibilidade. O buraco é mais embaixo e o problema está mais nos agressores e em nossa cultura do que no jeito de ser das vítimas. Mulher não precisa ser de nenhum jeito ou ter alguma beleza específica para ser agredida, simplesmente acontece com todas, não temos nem como fugir.

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Thai em 27/05/2023 - 10h44 comentou:

O incrível país em que se condena uma mãe dançando funk e se elegem uma Damares e uma Zambelli.

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    Cynara Menezes em 29/05/2023 - 17h39 comentou:

    boa

Loira Capitalista em 28/05/2023 - 22h38 comentou:

O mundo sempre foi um lugar com muitos malucos cruéis… assassinos em série, estupradores e pedófilos de toda ordem. As mídias sociais deram palco para milhares de pessoas no mundo todo para todo tipo de coisas, boas e más…
A pornografia se tornou um negócio bilionário e infestou até plataformas que eu jugava tranquilas como o Instagram, mas mesmo nele já se começa a ver de tudo… Várias crianças e adolescentes com “contas administradas pelos pais”, modelos ou não, com fotos pra lá de sensuais, outras até pornográficas mesmo na cara, convidando para conteúdo mais “íntimo” na página do Onlyfans… Isto no Instagram, onde tal coisa seria proibido… Nem quero imaginar o submundo da net.
Esses dias vi uma entrevista de uma jovem, que ganha R$ 200.000,00 por mês no Onlyfans sozinho.
Ou seja, virou um negócio, onde os corpos se anunciam como carne dependurada no açougue… Tudo em nome da tal “liberação/liberdade/libertinagem” sexual sem freios atual. Pois bem, tudo tem consequências… Não existe almoço grátis, como diria Thomas L. Friedman !
As pessoas que utilizam estas plataformas e se tornam celebridades, não podem mais se considerar digamos, “normais”… Há uma série de riscos de pessoas malucas… Umas só seguem e vigiam, como no caso de uma caminhoneira Sueca, cuja canal é muito famoso onde ela mostra seu dia a dia dirigindo caminhões e todo tipo de tratores e máquinas pesadas, conteúdo sexual zero !!! Ainda assim ela teve que se mudar para o norte ainda mais gelado da Suécia porque teve um camarada vigiando sua casa…
Os valores atuais estão tão desnorteados (muita coisa mudou para o bem, mas muita coisa para o mal) que para adolescentes (homem ou mulher) de classe média se prostituírem virou normal até em países com grande população conservadora.
Veja um exemplo recente, nos EUA… Uma guria de uns 20 anos de classe média resolveu se prostituir, provavelmente para ajudar a pagar a faculdade… fez uma tatuagem que diziam mais ou menos assim…. que ninguém, só Deus podia jugar ela… o que é verdade. Bem, um imigrante Nigeriano matou-a e queimou o corpo … algo horrível, não me entendam mal, uma coisa não justifica a outra. Sou conservador, mas não hipócrita ou maluco… e jamais pensaria como como muitos americanos que dizem, “She was asking for…”
Enfim, ganha-se muito dinheiro com a sexualização e a liberdade vigiada que a internet trouxe, mas deve-se tomar muito cuidado, atrás da tela tem de tudo.

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Morgana em 05/07/2023 - 11h14 comentou:

Uai, mas não são todas mulheres, a questão não é GÊNERO? O corte não é o fenótipo, e todas são se declaram mulheres? E agora, José? Elas não têm lugar de fala?

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Paulo leal em 10/07/2023 - 12h57 comentou:

quanto a mãe da festinha de aniversário, sejamos coerentes, não precisava fazer o que ela fez, bastava preparar uma festa de aniversário dela e botar pra quebrar, quis, sim, simplesmente ser a atração principal da festa. e depois sobre o carro, qual a intenção, só aparecer.

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