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Lula fala de Ciro, Maduro, Bolsonaro, Mourão… e desanca FHC: “sem grandeza”

"Fernando Henrique poderia ter um papel mais respeitoso com ele mesmo, não é comigo. O problema é que ele nunca aceitou o meu sucesso"

Foto: Ricardo Stuckert
Da Redação
28 de abril de 2019, 22h25

Compilamos as opiniões de Lula, na primeira entrevista na prisão ao El Pais e à Folha, sobre algumas das principais figuras políticas com quem conviveu. Confira.

Ciro Gomes

“Eu pessoalmente gosto do Ciro Gomes, tenho respeito pelo Ciro Gomes. O Ciro Gomes não causa mal ao PT, causa mal a ele. O Ciro Gomes precisa aprender uma lição elementar: aprender a ouvir coisas que você não gosta, a suportar os contrários. Aprender a conviver na adversidade. Ele precisa aprender essa lição mínima. Quando ele foi governador do Ceará, prefeito de Fortaleza, não precisava disso. Mas para ser presidente do Brasil ele precisa.”

“Se você tem 10% e eu tenho 30%, e você acha ‘no segundo turno eu sou melhor que você’, se você é melhor do que eu, por que você não ganha no primeiro turno?”

Marina Silva

“Não sei se a Marina tem propensão algum dia de voltar pros setores de esquerda, porque a Marina acabou, né? Coitada. Ter 1% só no processo eleitoral, depois de ser quase a presidenta é muito pouco. Eu não sei o que ela vai fazer.”

O Ciro Gomes precisa aprender uma lição elementar: aprender a ouvir coisas que você não gosta, a suportar os contrários. Quando ele foi governador do Ceará, não precisava disso. Mas para ser presidente do Brasil ele precisa

FHC

“O Fernando Henrique Cardoso não tem jogado um papel que o nome dele deveria merecer. Ele fala muito sobre quase tudo desnecessariamente. Eu sinceramente acho que ele poderia ter um papel de grandeza para quem já foi presidente da República e foi chamado de príncipe da sociologia. Ele poderia ter um papel mais respeitoso com ele mesmo, não é comigo. O problema do Fernando Henrique Cardoso é que ele nunca aceitou o meu sucesso. Ele me adorava no fracasso. Quando eu fui eleito e ele falou ‘bom, Lulinha só vai durar quatro anos e aí eu vou voltar com pompa e tudo’, ele me tratava bem. Eu chego a dizer que ele queria que eu ganhasse ao invés do Serra. ‘Ah, o Lula vai ganhar, um coitado, um metalúrgico que não vai conseguir fazer nada, eu vou voltar quatro anos depois cheio de moral. O Serra, se ganhar, vai me ferrar’. Não deu certo. Porque quem deu certo não fui eu, foi a paciência do povo brasileiro, que me ajudou, que acreditou.”

Palocci

“Eu era um cara que tinha profundo respeito pelo Palocci. O Palocci era uma pessoa que se não tivesse feito bobagem poderia ter crescido na política brasileira. Eu comecei a perder a confiança no Palocci com aquela história do caseiro no primeiro mandato. Vocês estão lembrados que o Palocci saiu do governo em março de 2006. Eu tinha vindo para o Paraná, eu tinha uma atividade aqui. Tinha lido a imprensa, liguei para o Palocci e falei: ‘Palocci, eu tô indo para o Paraná, eu vou voltar às 3 horas da tarde e se você não tiver resolvido o problema do caseiro você não está mais no governo’. E ainda falei pra ele: ‘Palocci, não é possível um ministro da fazenda ganhar de um caseiro. Então ou você explica essa história do caseiro ou cai fora’. Quando voltei e liguei pra ele de tarde ele não tinha explicação –porque é o seguinte, comecei a achar que o Palocci não dizia a verdade porque nunca teve coragem de dizer se ele ia ou não ia na casa. Ora, se ele mentisse para a Polícia Federal, para o PMDB, para o Senado, era problema dele. Mas mentir para mim que era o presidente dele? E aliás dizia que não sabia andar de carro em Brasília. E entre o Palocci dizer que não ia na casa e o caseiro dizer que ele foi, eu acreditava no caseiro.”

Dilma

“Orgulho. Tenho muito orgulho de ter (eleito) a Dilma. Nem todo filho consegue ter o sucesso que você teve. Pelé não teve nenhum jogador como  ele, nem o filho dele. É importante lembrar que em 2013 a Dilma tinha quase 75% de preferência eleitoral. Depois do que aconteceu a partir de 2013, que acho que nem a imprensa nem a esquerda nem os cientistas políticos avaliaram bem… (Em seu pronunciamento, cortado pela Folha na versão da ‘íntegra’ da entrevista, Lula acusou a Globo de estar por trás de 2013: ‘usou sua concessão pública para convocar manifestações de rua contra o Governo e até contra o sistema democrático’.)

Muamar Khadafi, ditador líbio

“Por que fazer o que fizeram com o Khadafi? O Khadafi eu achava ele muito parecido com o Cauby Peixoto. Ele tinha feito um implante de cabelo, ele tava cabeludo, utilizava muita base no rosto. Aqueles panos bonitos, aqueles mantos, tudo cheio de base… Ele não causava mais mal a ninguém, aquela loucura de matar aquele cara. E o que criaram na Líbia?

A Marina acabou, né? Coitada. Ter 1% só no processo eleitoral, depois de ser quase a presidenta é muito pouco

Bolsonaro

“A gente tem que saber que o mandato é de quatro anos. A gente tem que saber que esse cara ganhou as eleições, a gente goste ou não goste. A gente tem que saber que ele pode imprimir o jeito dele de governar, cabe a gente aceitar ou não. Se a gente não aceita, tem que lutar. Tem que ir para a rua. Achar que o Bolsonaro vai fazer o que você quer, esqueça.”

“Não adianta ficar xingando o Bolsonaro e achando que ele vai fazer. Ele não vai fazer. Quem coloca os ministros da Educação que ele colocou não gosta de educação. Quem coloca o cara do meio-ambiente que ele colocou não gosta de meio-ambiente. Quem coloca o Guedes na economia não gosta do povo. Ao invés de ficar esperando que o Bolsonaro resolva nosso problema, nós temos que, enquanto sociedade civil organizada, começar a se mexer, a lutar, a brigar pelos nossos interesses, cobrar o Congresso Nacional, fazer pressão.”

“Eu nunca vi um presidente bater continência para a bandeira americana. Eu nunca vi um presidente ficar dizendo ‘eu amo os Estados Unidos’. Ama a sua mãe, ama o seu país. Que ama os Estados Unidos! Alguém acha que os Estados Unidos vão favorecer o Brasil? Americano pensa em americano em primeiro lugar, pensa em americano em segundo lugar, pensa em americano em terceiro lugar, pensa em americano em quinto, e se sobrar tempo pensa em americano. E ficam os lacaios brasileiros achando que os americanos vão fazer alguma coisa por nós. Quem tem que fazer por nós somos nós. Acabar com o complexo de vira-lata, levantar a cabeça e a solução para os problemas do Brasil está dentro do Brasil.”

O Khadafi eu achava ele muito parecido com o Cauby Peixoto. Ele tinha feito um implante de cabelo, ele tava cabeludo, utilizava muita base no rosto. Aqueles panos bonitos, aqueles mantos, tudo cheio de base...

“Eu não esperava que o Bolsonaro fosse resolver o problema do Brasil em 4 meses, só propõe fazer análise de cem dias quem nunca governou. Quem acha que, em cem dias, pode apresentar alguma coisa, ele realmente não aprendeu a sentar a bunda na cadeira. E, depois, com a família que ele tem, com a loucura que tem. O inimigo central dele, além o PT, que é o primeiro inimigo dele, é o vice. Quer dizer, é uma loucura. Ele passar a agredir os deputados, depois tenta agradar os deputados, diz que está fazendo a nova política, e ele faz a mesma, porque ele é um velho político. Então, o país está subordinado à ingovernabilidade. Está desgovernado.”

“O Bolsonaro ou ele constrói um partido político sólido ou do jeito que está também não perdura muito, porque ali você tem uma quantidade difusa de interesses. É só pegar a quantidade de siglas para alguém que diz que não gosta de política. . Não sei como você é deputado 27 anos e diz que não gosta de política. Eu não sei como você faz um filho deputado federal, outro vereador e outro senador e você não gosta de política. Então ele vai ter que ter muita capacidade de articulação, muita vontade, vai ter que gostar muito de política para poder dar certo.”

“O país está sendo governado por um bando de maluco.”

“Imagine se os milicianos do Bolsonaro fossem amigos da minha família?”

Moro & Dallagnol

“Eu durmo todo dia com a consciência tranquila. E tenho certeza que o Dallagnol não dorme, que o Moro não dorme. Aquele power point do Delagnoll nem o bisneto dele vai acreditar naquilo.”

“Sempre riram de mim porque eu falava ‘menas laranja’. Agora, o Moro falar ‘conge’ é uma vergonha. É o mínimo que deveria saber, porque está escrito no código penal, vários artigos que falam de ‘cônjuge’.”

“O Moro não sobrevive na política.”

“O Moro tem certeza –se as pessoas não confessarem agora, no dia da extrema-unção a gente vai confessar– que eu sou inocente. O Dallagnol tem certeza que ele é mentiroso e mentiu a meu respeito.”

“Eu adoraria poder um dia fazer um debate em uma universidade com Moro e Dallagnol juntos. Adoraria um debate. Eles levando as milhares de páginas que contaram mentiras e eu levando a minha verdade. Eu adoraria. Com a cara boa, tranquila, bonitão como eu tô hoje. Para discutir.”

Americano pensa em americano em primeiro lugar, em segundo lugar, em terceiro lugar, pensa em americano em quinto, e se sobrar tempo pensa em americano. E ficam os lacaios brasileiros achando que os americanos vão fazer alguma coisa por nós

Mourão

“Eu não posso falar porque não conheço o Mourão. Sou agradecido por um gesto dele na morte do meu neto. Ele foi um cara que disse, diferentemente do filho do Bolsonaro, que postou uma série de asneiras no twitter, ele foi o cara que deu uma declaração que era uma questão humanitária eu visitar meu neto. Eu tô acompanhando a briga. Ninguém nunca mais neste país vai ter uma dupla harmônica como eu e José Alencar, o sindicalista e o empresário.”

Hugo Chávez

“Quando ele não era presidente, ele foi no Foro de são Paulo em El Salvador, e nós do PT, eu e Marco Aurélio, não deixamos ele participar porque ele era golpista. Depois quando foi presidente, e que derrubaram ele, ele voltou para o governo e o Fernando Henrique Cardoso me liga e fala para mim se eu atenderia um telefonema do presidente Chávez. E me explicou o que era: o Chávez estava pedindo um navio, estavam em greve os trabalhadores da PDVSA e o Chávez estava pedindo ao Brasil para emprestar um navio de combustível para ele. E Fernando Henrique disse: ‘eu por mim empresto, Lula, mas como você já ganhou as eleições, embora não tenha tomado posse, eu disse pro Chávez que é você que decide’. Chávez me liga e eu decidi mandar o navio de gasolina para ele. Foi a primeira vez.”

“O Chávez era uma figura estupenda. Era voluntarista, eu tinha divergências políticas com o Chávez, mas era uma figura encantadora. Era aquele cara que fazia você se sentir bem em qualquer lugar. Mas era muito voluntarista, era complicado.”

O Guedes precisa criar vergonha. Onde ele fez esse curso de economia dele? Se ele quiser me visitar aqui a gente discute como é que ele resolve esse problema dos pobres sem causar prejuízo aos pobres

Nicolás Maduro

“Eu mandei uma carta para o Maduro no dia da posse dele. Quando ele tomou posse pela primeira vez eu mandei uma carta para ele tentando aconselhar como é que eu achava que ele deveria fazer, porque ele não tinha, na minha opinião, a perspicácia do Chávez, não tinha a liderança pública do Chávez, a respeitabilidade internacional do Chávez, então que ele precisaria fazer as coisas diferente do Chávez. Precisaria compartilhar mais. Sabe? Se eu não sou essa figura pública de poder que o Chávez era, eu tenho que juntar gente, tenho que trabalhar em equipe. Obviamente que eu não concordo com a política econômica da Venezuela, acho que é um equívoco, mas muito menos eu concordo do Brasil reconhecer o tal do Guaidó. Sinceramente, é uma pouca vergonha, é levar o Brasil ao mais baixo nível de política externa que eu já vi na vida. E depois aquela vergonha de dizer que ia mandar alimento e mandar duas caminhonetes vazias.”

Cristina K

“Tudo que eu desejo é que a Argentina encontre o caminho da democracia. Eu convivi com o Kirchner, eu convivi com a Cristina, e eu acho que eles foram um bem enorme para o povo argentino. Eles obviamente alimentaram o ódio da elite argentina, aqueles mesmo que apoiavam o Cavallo quando era ministro da Fazenda, e achavam que os EUA iam botar muito dinheiro na Argentina. Não colocou, o que colocou foi a seriedade do Kirchner e da Cristina que ganharam a confiança do povo e fizeram a Argentina produzir e ter uma economia forte.”

Macri

“A fome voltou na Argentina, o desemprego voltou na Argentina, o povo voltou para a rua. O neoliberalismo não dá certo em lugar nenhum do planeta Terra. Todo mundo que fica aceitando a receita do ajuste fiscal não dá certo.”

Paulo Guedes

“O Guedes precisa criar vergonha. Onde ele fez esse curso de economia dele? Se ele quiser me visitar aqui a gente discute como é que ele resolve esse problema dos pobres sem causar prejuízo aos pobres.”

“Esse Guedes daqui a pouco vai embora. O Guedes, a hora que ele cair, ele vai morar nos EUA e ninguém vai nem lembrar dele. Mas quem vai ficar com uma vida desgraçada são mulheres e homens que trabalharam a vida inteira nesse país. Então a hora de lutar é agora.”

 

 

 


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(1) comentário Escrever comentário

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Giovana Silveira em 29/04/2019 - 10h43 comentou:

Que belíssima palavras do Lula.
Bonitão e consciente!
Continuaremos em luta!

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