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Milton Ribeiro é o 4º ministro que sai do governo Bolsonaro acusado de corrupção

“Eu boto a minha cara no fogo pelo Milton”, disse o presidente na semana passada; o titular da Educação acabou deixando o cargo e a cara de Bolsonaro nem ardeu

Bolsonaro e Ribeiro assinam o novo piso salarial dos professores em fevereiro. Foto: Clauber Cleber Caetano/PR
Da Redação
28 de março de 2022, 22h01

“Eu boto a minha cara no fogo pelo Milton”, disse o presidente Jair Bolsonaro em sua live da última quinta-feira, 24 de março, sobre as denúncias de que o titular da Educação havia transformado o ministério num balcão de negócios administrado por pastores, acusados até mesmo de pedir propinas em barras de ouro. Nesta segunda-feira, 28, Milton Ribeiro deixou o governo, e a cara de Bolsonaro, que vive dizendo que “o Brasil está há mais de três anos sem corrupção”, nem ardeu.

Ao contrário do que diz o presidente, na verdade Ribeiro é o quarto ministro que deixa o governo envolvido em escândalos. O primeiro foi o falecido ministro Gustavo Bebianno, que deixou a Secretaria-Geral, ainda em fevereiro de 2019, acusado de envolvimento no escândalo das candidaturas laranja do PSL, ao qual Bolsonaro era filiado. Bebianno, de acordo com reportagem do jornal Folha de S.Paulo, repassou 400 mil reais a uma candidata a deputada federal de Pernambuco quatro dias antes das eleições, e ela recebeu apenas 274 votos.

Desde que Bolsonaro assumiu, em janeiro de 2019, houve uma intensa troca de cadeiras nos ministérios, mas poucos nomes deixaram efetivamente o governo. Quem saiu de fato, saiu por acusações de corrupção, incompetência ou por discordar dos rumos da gestão

Indicado por Bolsonaro em abril de 2020 a ocupar o ministério da Saúde após as saídas de Mandetta e do meteórico porém letárgico Nelson Teich, que ficou apenas um mês no cargo, o general Eduardo Pazuello deixou o cargo um ano depois, em março de 2021, no auge da crise da Covid-19, às voltas com acusações de omissão e malversação de dinheiro público na gestão da pandemia.

A PF havia aberto investigação contra Pazuello pela crise da falta de oxigênio em Manaus e a Procuradoria da República no DF, um inquérito para apurar se ele cometeu improbidade administrativa, com possível uso ilegal de dinheiro público na compra de remédios sem eficácia comprovada; e se foi omisso na compra de vacinas e na baixa execução dos recursos para a pandemia. O Tribunal de Contas da União também apontou ilegalidade no uso de dinheiro público por Pazuello na aquisição de cloroquina para “tratar” pacientes com o coronavírus. Em julho, o MPF (Ministério Público Federal) acusou o ex-ministro de causar um dano de cerca de 122 milhões de reais à União.

Em junho de 2021, o ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro, Ricardo Salles, entregou o cargo que ocupava desde o início do governo após se tornar alvo de uma operação da Polícia Federal que apura os crimes de corrupção, advocacia administrativa, prevaricação e facilitação de contrabando através da exportação ilegal de madeira brasileira. A PF incluiu Salles por identificar supostas “movimentações suspeitas” no escritório de advocacia do qual o ex-ministro é sócio. Ricardo Salles era acusado ainda de obstruir as investigações em um caso de desmatamento.

No caso de Ribeiro, em um áudio vazado, o ministro da Educação revelou que dava prioridade no repasse de verbas a municípios indicados por dois pastores, Gilmar Santos e Arilton Moura, a pedido do presidente Jair Bolsonaro. De acordo com uma série de reportagens publicadas pelo jornal O Estado de S.Paulo, Arilton e Gilmar teriam montado uma espécie de gabinete paralelo dentro do MEC, pedindo dinheiro a prefeitos em troca da liberação de recursos. Arilton chegou a pedir 1 kg de ouro ao prefeito Gilberto Braga (PSDB), de Luís Domingues (MA), para liberar verbas para o município.

Outra contrapartida pedida pelos pastores para a liberação de verbas era a confecção de Bíblias custeadas com dinheiro público. Nesta segunda-feira, foi revelado pelo Estadão que Bíblias impressas pela prefeitura de Salinópolis, no Pará, e distribuídas pelos pastores lobistas Gilmar e Arilton em um evento oficial do MEC na cidade, continham fotos do ministro e dos dois, o que fere o princípio da impessoalidade no cargo. Milton Ribeiro estava presente no evento.

Desde que Bolsonaro assumiu, em janeiro de 2019, houve uma intensa troca de cadeiras nos ministérios, mas poucos nomes deixaram efetivamente o cargo. Onyx Lorenzoni, por exemplo, já foi o titular do Trabalho e Previdência, da Cidadania e da Secretaria-Geral. Onyx foi acusado de ter cometido o crime de caixa 2 nas eleições de 2012 e 2014, aceitando doações não contabilizadas do frigorífico JBS, mas pediu desculpas (!) e em 2020 assinou um acordo inédito com a PGR (Procuradoria-Geral da República) onde se comprometia a pagar 189 mil reais de multa para que a investigação fosse encerrada. E permaneceu no ministério.

Antecessor de Ribeiro no cargo, o boquirroto Abraham Weintraub deixou o ministério e o país em junho de 2020 após ser incluído no inquérito das fake news do STF por caluniar ministros da Corte Suprema. Em reunião ministerial com o presidente em 22 de abril de 2020, Weintraub defendeu a prisão dos ministros do Supremo, a quem chamou de “vagabundos”. Mas Bolsonaro deu como prêmio ao ex-ministro a indicação a um cargo de 250 mil dólares por ano no Banco Mundial, em Washington. Caiu “para cima”, como se diz.

Mandetta e Sérgio Moro, na Justiça, deixaram os cargos por não concordar com os rumos do governo, o primeiro em relação à pandemia e o segundo em relação à Polícia Federal. De acordo com Moro, Bolsonaro queria interferir politicamente na escolha do diretor da instituição e assim evitar que as investigações da PF atingissem seus filhos. Já Ernesto Araújo deixou o Ministério das Relações Exteriores em março de 2021 desgastado por sua incompetência, acusado de prejudicar a compra de vacinas pelo Brasil e de isolar o país no cenário internacional.

 

 

 


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