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O sertanejo deixou de ser música de peão para ser música de patrão

Enquanto no passado os sertanejos cantavam o esforço do trabalhador para dar o sustento de sua família, os atuais ídolos só falam de mulher, álcool e consumismo

Gusttavo Lima e sua casa que mais parece uma loja da Havan. Foto: reprodução
Cynara Menezes
06 de junho de 2022, 18h43

Para quem gosta de música caipira raiz, é impossível deixar de notar uma mudança radical que ocorreu no estilo ao longo das últimas três décadas. De música do trabalhador do campo, dos lavradores, o sertanejo virou, sobretudo a partir do surgimento do “sertanejo universitário”, a música do dono da fazenda, do playboy do agronegócio. Deixou de ser música de peão para ser música de patrão. Não é à toa a adesão de alguns ídolos sertanejos a Jair Bolsonaro.

Questões sociais brasileiras, o povo passando fome, o desgoverno Bolsonaro, a carestia, o trabalho escravo no campo, nenhum desses temas parece tocar os corações de homens e mulheres que cantam a música sertaneja atualmente

Enquanto no passado os grandes nomes do sertanejo falavam de amor, mas também da dureza da vida na roça, do esforço do trabalhador para dar o sustento de sua família e até do homem que errou e foi preso, os atuais ídolos só falam de mulher, muito álcool (já escrevi sobre a geração “zuar e beber”) e consumismo. Exagero? Basta dar uma olhada nas letras do passado e comparar com as de hoje.

Tomemos como exemplo uma das primeiras duplas sertanejas da História (há quem sustente que foi a primeira), Mandi & Sorocabinha, que gravou seu disco de estreia em 1930. Mandi era professor, e Sorocabinha, lavrador na região de Piracicaba. A dupla denunciava as dificuldades do povo com os preços dos alimentos pela hora da morte em canções como Tempo Ruim, A Crise ou A Carestia –qualquer semelhança com 2022 não será mera coincidência…

“A crise que temo passando/ É uma coisa danada/ Tudo, tudo encareceu, ai, ai,/ O tostão não vale nada/ O pão que estão fazendo/ É uma triste amargura/ O padeiro tá na porta/ Mas passa pra fechadura/ O feijão subiu de preço/ Numa hora num instante/ O arroz ficou tão caro/ Vale mais do que diamante/ O toicinho subiu tão arto/ subiu tanto de valor/Que um capado no chiqueiro, ai, ai/ Vale mais do que um doutor”, diz a letra de A Carestia (1930).

Os irmãos mineiros Zé Mulato & Cassiano, considerados a dupla caipira mais antiga em atividade, vieram para Brasília em 1969, onde ajudavam o pai, pedreiro e pintor de paredes. Entre seus sucessos, está As Vantage da Pobreza: “Se a bolsa cai ou se deixa de cair/ Se ela sobe o pobre não tá nem aí/ Mas essa coisa não deixa o rico dormir/ O pobre do rico não pode nem se divertir/ Com tanta grana ele nem liga pra muié/ Enquanto o pobre não abeia do tigé/ Eu tenho pena de quem vive na riqueza/ Que não conhece as vantage da pobreza”. Alguém consegue imaginar os atuais sertanejos cantando algo assim?

E é preciso que se diga que os antigos caipiras também eram antifascistas: os célebres Alvarenga & Ranchinho gravaram A Farra dos Três Patetas em 1943, durante a Segunda Guerra Mundial, tirando onda dos líderes do Eixo, Adolf Hitler, o imperador Hiroíto e Benito Mussolini, comparados a… gado. “O seu Hitler bigodinho/E o japonês Hiroíto/ Fizeram uma pagodeira/ Junto com o seu Benito/ Comeram arroz com palito,/ Sarsicha com talharim/ A sobremesa dos dito/ Foi arfafa com capim”, diz a gozadora letra.

O “pão com mortadela”, atualmente usado por bolsonaristas para atingir a esquerda com indisfarçável preconceito de classe, aparece em uma das letras mais emblemáticas da música caipira raiz e sua conexão com o trabalhador do campo, Franguinho na Panela. “No recanto onde moro é uma linda passarela/ O carijó canta cedo, bem pertinho da janela/ Eu levanto quando bate o sininho da capela/ E lá vou eu pro roçado, tenho Deus de sentinela/ Tem dia que meu almoço é um pão com mortadela/ Mas lá no meu ranchinho, a mulher e os filhinhos/ Têm franguinho na panela”, diz a canção, sucesso na voz de Lourenço & Lourival.

Agora compara esse homem, que trabalha de sol a sol na roça para sustentar sua família, com o fútil marido adúltero de uma das canções de maior sucesso da dupla bolsonarista Zé Neto & Cristiano, Ela & Ela. “Como eu vou falar pro meu amor/ Que eu tô sofrendo por amor/ E que esse amor não é o dela?/ E se ela descobrir, eu perco ela e ela/ Se ela descobrir, eu perco ela e ela”, diz a letra, machista ao extremo.

Zé Neto é aquele que criticou a cantora Anitta pela “tatuagem no toba” e pelo uso da Lei Rouanet, o que acabou detonando uma investigação que chegou aos cachês milionários pagos por prefeituras de cidades pequenas aos sertanejos apoiadores do presidente, sem licitação. Um deles foi Gusttavo Lima, que acabou cancelando o show que daria em troca de um cachê de 1,2 milhão de reais em Conceição do Mato Dentro (MG), cidade com 35% da população em situação de pobreza.

As letras de Gusttavo Lima são simplórias: quando não está falando de amor, está falando de bebida; ou das duas coisas. “A desgramada me deixou na rua/ Feito um cão sem dono/ Eu fui encontrado num bar/ Em total abandono/ Cheirando a cachaça/ Sozinho na manguaça/ Amando ela agora só em pensamento/ Curtindo a deprê, morrendo de beber”, diz a canção Até a Garrafa Chora. Em 2020, o cantor e a Ambev foram alvo de investigação do Conar (Conselho de Autorregulamentação Publicitária) por beber excessivamente em uma live patrocinada pela cervejaria.

A apologia ao abuso do álcool pelos atuais ídolos sertanejos já foi alvo de uma dissertação da mestra em Letras Mariana Lioto, da Unioeste, do Paraná, que analisou a obra de 48 cantores de música sertaneja; apenas sete deles não possuíam nenhuma música relacionada ao tema. Nada menos que 243 canções faziam referência ao consumo de bebidas alcoólicas. Zé Neto & Cristiano chegaram a gravar uma música cujo título é… Alô, AMBEV.

“Alô, Ambev?/ Dobra a produção aí, que a gente bebe/ Eu mandei saudade, ela mandou vida que segue/ Então segue sua vidona/ Eu sigo sofrendo e bebendo Brahma”, diz a letra. O clipe foi gravado dentro da sede da cervejaria em Agudos, São Paulo.

(O vídeo está restrito justamente por conta da bebida)

O momento de virada do estilo de música de peão para música de patrão ao que tudo indica começou a partir da segunda metade da década de 1990, com o surgimento do chamado “sertanejo universitário”. O perfil dos cantores mudou completamente: antes pessoas humildes, do interior, as duplas passaram ser integradas por rapazes brancos de classe média da capital (Campo Grande e Goiânia, principalmente) e formação universitária, legítimos descendentes da “lei do boi”, aquela que concedia cota para filhos de fazendeiros nas faculdades de Agronomia e Medicina Veterinária nas universidades federais do país entre 1968 e 1985 (mas dessa cota nenhum rico reclamava).

A temática dos sertanejos bolsonaristas tem tudo a ver com os barões do agronegócio e nada com os trabalhadores da agricultura. Qual sofrido peão do campo se identificaria com letras que só falam de relacionamento, baladas e coisas caras a que nunca terão acesso?

Na primeira década dos anos 2000, a mudança de foco para a ostentação aparecia em letras louvando carros de luxo, lanchas e até helicópteros e jatinhos, na esteira do mega hit Camaro Amarelo, de Munhoz & Mariano. “Agora eu fiquei do-do-do-do-doce, doce/ Agora eu fiquei doce igual caramelo/ Tô tirando onda de Camaro amarelo/ Agora você diz ‘vem cá que eu te quero’/ Quando eu passo no Camaro amarelo”, diz a letra, explorando o filão “mulher interesseira” que também aparece em Jatinho Particular, de Billy & Zaidan.

“Enquanto outros tiram onda de carrão/ eu vou de avião, jatinho particular/ e quando eu pego o avião pra decolar/ aí que a mina pira pra fazer amor no ar”, diz a letra. Não é coincidência que recentemente o cantor sertanejo Lucas Lucco tenha gravado uma canção com o mesmo título e temática: “Da boate pro carro/ Do carro pro hangar/ Chama as amiga pode chegar/ Tô com meus parça, só passear/ Reta fechada vamos voar/ Próxima parada não têm destino/ Uma ilha talvez o paraíso/ Traz mais vodca, whisky um brinde/ Mente quem disse que o céu é o limite”.

“Comigo é mais em cima eu boto pra derreter/ Whisky vinte e um anos/ Meu perfume é francês/ Prepara o heliponto/ Que agora é minha vez”, cantavam Deyvid & Emanuel em Helicóptero, lá pelos idos de 2012. Na mesma época, Davi & Fernando arrebentaram com Colheitadeira do Vovô, hoje com 4 milhões de visualizações no youtube, que mostra dois agroboys roubando a máquina do avô fazendeiro para zoar e “pegar mulher”.

Em Mulherada na Lancha, que parece ter sido escrita sob encomenda para a era Bolsonaro, mas tem mais de 10 anos, Matheus Fernandes canta, na mesma pegada mulher-bebida dos atuais sertanejos: “A mulherada tá na lancha com o copo na mão/ Dançando aquele arrocha, bebendo sem noção/ Eu já capotei, e elas ainda tão de pé/ Tá muito complicado segurar essas mulher’/ Pega o Black, traz o Johnnie/ Abre o Blue Label e tome, tome/ A mulherada tá bebendo igual aos home'”.

Infelizmente, as representantes do chamado Feminejo não vão em rumo diferente: em que pese certo empoderamento das mulheres louvado pela crítica, as letras seguem pelo caminho das relações amorosas e do “beber para esquecer” (algumas delas inclusive usam o codinome “patroas”). Questões sociais brasileiras, o povo passando fome, o desgoverno Bolsonaro, a carestia, o trabalho escravo no campo, nenhum desses temas parece tocar os corações de homens e mulheres que cantam a música sertaneja atualmente.

A temática da música dos sertanejos bolsonaristas tem tudo a ver com fazendeiros, barões do agronegócio e seus filhos, e nada com os trabalhadores da agricultura. Qual sofrido peão do campo se identificaria com letras de canções que só falam de relacionamento, baladas e coisas caras a que nunca terão acesso? Certamente cantar a dureza da vida do lavrador, como por exemplo o fato de que os trabalhadores que atuam nas cadeias de frutas estão entre os 20% mais pobres do país e que estão expostos aos agrotóxicos não renderia dinheiro, patrocínio de cervejaria e o apoio do agro. Ou de Bolsonaro.

UPDATE: Um leitor do site comentou que este texto não poderia deixar de fora Ladrão de Terra, de Jacó & Jacozinho (também gravada por Tião Carreiro e Pardinho). De fato, dêem uma olhada na letra.

“Tinha eu quatorze anos quando deixei meu Estado
Meu pai era sitiante, trabalhador e honrado
Por esse mundão de Deus eu dei murro no pesado
Quando a sorte me ajudava os meu plano foi cortado
Triste notícia chegava
Meu destino tranformava
Eu fiquei um revoltado

Meu pai tinha falecido, na carta vinha dizendo
As terras que ele deixou minha mãe acabou perdendo
Para um grande fazendeiro que abusava dos pequeno
Meu sangue ferveu na veia quando eu fiquei sabendo
Invadiu as terra minha
Tocaram minha mãezinha
Pra roubar nossos terreno

Eu voltei pra minha terra foi com dor no coração
Procurando meu direito eu entrei num tabelião
Quase que também caía nas unha dos gavião
Porque o dono do cartório protegia os embrulhão
Me falou que o fazendeiro
Tinha rios de dinheiro
Pra gastar nesta questão

Respondi no pé da letra não tenho nenhum tostão
Meu dinheiro é dois revólveres e bala no cinturão
Se aqui não tiver justiça para minha proteção
Vou mandar os trapaceiro pra sete palmo de chão
Embora saia uma guerra
Vou matar ladrão de terra
Dentro da minha razão

Negar terra pros caboclo ai ai
É negar pão pros nossos filhos ai ai
Tirar a terra dos caboclo ai ai
É tirar o Brasil dos trilho ai ai

Nós tava de onze a onze na parada nesse dia
Os pobre é carta baixa e os rico são as manilha
Foi uma chuva de bala só capanga que corria
Foi pela primeira vez que o dinheiro não valia
O barulho acabou cedo
Entregaram foi de medo
Terras que me pertencia

Na cerca de minha terra ai ai
Quem mexer ninguém imagina ai ai
Os arame são de bala ai ai
E os mourão de carabina ai ai…”

Alguém imagina Gusttavo Lima ou qualquer um dos atuais sertanejos defensores do latifúndio cantando uma música dessas?

 

 


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(10) comentários Escrever comentário

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Bernardo Santos Melo em 07/06/2022 - 16h47 comentou:

O esquema duplo : orçamento secreto e shows sertanejos engraxados por prefeitos , escancaram a técnica nazista do Pestilento .
Embebidos em álcool , minas bailantes , jatinhos , 39 kg brancos nas asas da FAB , Genivaldo , Jornalista e Indianista executados,
Garimpo e Privatizações não Soberanas , Carestia desenfreada , muito sorriso a La LIRA & Nogueira , um PAÍS desmilinguido e rodeado de armas & milicianos .
É o BRASIL verde oliva de pijamas !
Tudo pronto para o Capitólio II , onde a Dinastia BOZONERO reinará ao lado do Tchuca , sob a melodia do ronco dos tanques esfumaçantes e dos gols de Neymar na Copa do Mundo Árabe .
O resto ficará na conta do BTG / Itaú / Globo/ Fundões / Centrão e muita coordenação dos Sheiks CARLUXO , Bananinha , Chocolate , Genô e Cabelete de Hiena .
Alegre e faceira Micheque assiste a tudo em meio ao seus orgasmos bíblicos .
Eita entrega brega !
Xô Genô Pestilento 🥷🐄🇺🇸 . Carniça 🦴

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veranise Ferreira em 09/06/2022 - 11h03 comentou:

Bravíssimo! Arrasou, Cynara.

Responder

Frederico Mateus em 09/06/2022 - 17h12 comentou:

Parabéns pelo artigo publicado, Cynara! Verdadeiro, contundente, histórico em gênero e grau. O país emburreceu,as pessoas emburreceram e grande parte contaminou-se por esse “submundo” de ostentação, bizarrices, cafonices e de zuar o verdadeiro homem do campo “raiz”. Devemos sim, sempre honrar a história verdadeira do camponês, o legítimo caipira, que ostenta a sua riqueza cultural nos rincões do país, e sim, dar uma imensa banana aos pseudos sertanejos agroboys cafonas aculturados que pilham os cofres públicos em um joguete político com esse desgoverno fascista que deleita sobre a farsa do “Deus, Pátria e Família”! Viva o sertanejo humilde dos campos férteis do Brasil! Um basta à farra e zueira dessa gente cretina e alienada que envergonha a história caipira desse país.

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Uilton Alves Porto em 09/06/2022 - 22h30 comentou:

A cynara falou de grandes verdades..

Mas tudo isso vem rolando a mais de vinte anos..
Esqueceu de gritar “eu sou lula”

Responder

Freitas em 11/06/2022 - 18h43 comentou:

Baboseira, tudo que escreveu aqui só prova que é um militante político.
Concordo que as músicas não tem letras descente, mas isso é na música no gal e, os vilões aí até que se provém ao contrário são os políticos.
Esses que contratam. Eles que contratam o serviço dos cantores.

Responder

Romero Guimarães em 12/06/2022 - 07h38 comentou:

A inveja é grande kkkkkkk falar das letras das músicas essa é boa kkkkk como se nus outros gêneros musicais a apologia não fosse pior, Anita que o diga

Responder

Milce Campos em 13/06/2022 - 02h57 comentou:

É muito recalque. O mundo evoluiu, as fazendas cresceram e melhoraram a vida dos trabalhadores. Os que antes usavam as enxadas hoje usam máquinas modernas. A música sertaneja tb evoluiu e temos até fins kkkkk…. o texto está todo voltado para nosso Presidente e seus apoiadores. Esqueceu de falar que nosso país melhorou não pelo apoio dos sertanejos mas por competência de Bolsonaro e seus ministros .

Responder

Aerton em 13/06/2022 - 04h19 comentou:

Eu não costumo comentar matérias, mas essa tua tá show! Bem contextualizada e com exemplos em vídeo que chamam a atenção e dão exemplos que não deixam dúvidas sobre a situação. Parabéns!!

Responder

raf em 16/06/2022 - 15h04 comentou:

pra ficar melhor só faltava mencionar “ladrão de terra” de jacó e jacozinho.

Responder

    Cynara Menezes em 16/06/2022 - 19h36 comentou:

    boa!

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