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Mídia

Ódio de classe da mídia a Lula é maior que o desprezo por Bolsonaro

(Já o amor pelo país é zero)

Lula é vacinado em São Bernardo. Foto: Ricardo Stuckert
Cynara Menezes
22 de março de 2021, 19h57

No início de março, o ministro do Supremo Tribunal Federal Luiz Edson Fachin anulou as condenações sofridas por Lula em Curitiba por considerar que o foro era incompetente para julgá-lo e que as ações deveriam ter corrido em Brasília. Lula e boa parte dos brasileiros festejaram a notícia: tanto é que o petista logo apareceu liderando pesquisas de intenção de voto para a presidência em 2022, pois a anulação o tornou elegível.

Mas o preconceito de classe tantas vezes escancarado contra o ex-presidente pela mídia comercial não tardaria em dar o ar de sua graça. Vários analistas se apressaram em avaliar, baseados em achismos sem nenhuma evidência científica, que uma possível candidatura de Lula beneficiaria Bolsonaro. Com as pesquisas expondo que, pelo contrário, o petista é o adversário mais forte do atual presidente em sua campanha à reeleição, o discurso mudou: a presença de Lula “esmaga” o centro, passaram a dizer em uníssono os “especialistas”.

Que ninguém duvide que, em 2022, essa gente se aproxime do energúmeno defensor da ditadura sentado na cadeira de presidente, transformado em candidato “de centro”. Se a mídia que apoiou o golpe de 1964 pode posar de “centro”, por que não Bolsonaro?

Como o “centro”, eufemismo para a direita liberal, é a ideologia que veículos como as organizações Globo, a Folha de S.Paulo e o Estadão dizem abraçar, eles se sentiram mortalmente feridos. Ora, aquele nordestino já comparado a um “encanador” por um colunista da Folha em 1994 em contraposição a “Jean-Paul Sartre” (o então candidato Fernando Henrique Cardoso), quer voltar ao poder e esmagar o candidato limpinho e cheiroso da elite e sua representante, a mídia? “Esmagaremos ele antes”, prometem-se os patrões do jornalismo.

Nesta segunda-feira, a Folha publicou em manchete uma pesquisa do Datafolha segundo a qual “a maioria” dos brasileiros rejeita a decisão de Fachin (51%) e também a candidatura de Lula (51% acham que não devem se candidatar de novo contra 47% que acham que sim). É possível confiar nestes números? Eles não parecem nada lógicos. Em primeiro lugar porque não é plausível que tantos brasileiros assim conheçam Fachin e muito menos que sejam especialistas em processo legal; em segundo lugar, porque os números contrariam as pesquisas onde Lula aparece como favorito e é inclusive o menos rejeitado de todos os candidatos. Como pode Lula ser o favorito da maioria em algumas pesquisas e em outra “a maioria” defender que ele não devia se candidatar? Estranho.

Não é a primeira nem a última vez que este site olha as pesquisas de opinião com desconfiança. Sempre defendemos que as pesquisas mais induzem do que acertam. Também causa espécie que as pesquisas de opinião sejam feitas por gente que se beneficia delas: no caso dos jornais, a própria mídia; há ainda pesquisas feitas por entidades empresariais e atualmente até especuladores da Bolsa de Valores patrocinam sondagens, o que deveria ser proibido por lei, já que as pesquisas influenciam nas oscilações do mercado financeiro. Em outros países, os institutos de pesquisa são independente ou ligados a universidades.

Os números do Datafolha não parecem nada lógicos. Tantos brasileiros assim conhecem Fachin? São todos especialistas em processo legal? Como pode Lula ser o favorito em algumas pesquisas e em outra “a maioria” defender que ele não devia se candidatar?

A assessoria do ex-presidente já havia reclamado das matérias requentadas que a Folha vem soltando em suas páginas desde a decisão de Fachin, apenas com o propósito de atacá-lo. Neste domingo, sem nem mesmo se dignar a ouvir o “outro lado” como prega seu Manual de Redação: a defesa de Lula. “O jornal Folha de S. Paulo recicla suspeitas de 5 anos atrás contra o ex-presidente, em uma prática de levantamento de acusações difusas e fúteis típicas do Lawfare”, reclamou o ex-presidente em uma nota intitulada “O jornalismo de suspeição da Folha de S.Paulo contra Lula”.

Nesta segunda, a pesquisa do Datafolha foi repercutida com estardalhaço pelo Globo e outros meios de comunicação corporativos. Curiosamente, o instituto não fez pesquisa de intenção de voto incluindo Lula, ao contrário dos levantamentos do XP/Ipespe, do Poder Data, da Atlas e da Revista Fórum.

Ao dirigir sua metralhadora giratória para Lula em vez de focar num presidente responsável pelo morticínio da pandemia de Covid-19, a mídia comercial dá sinais de que seu preconceito de classe contra o petista é maior do que o desprezo que diz sentir contra Bolsonaro. Lula deixou o poder com 87% da aprovação –sinal de fomos todos bem felizes nos tempos dele–, mas a mídia hegemônica continua não só comparando-o ao show de incompetência e sandice que ocupa o Planalto, como faz de Lula seu alvo dileto.

Enquanto isso, os mais importantes veículos de comunicação de outros países continua a tratar Lula com a devida reverência e respeito: após Fachin anular as condenações, o ex-presidente foi entrevistado com o máximo de destaque pela jornalista Christiane Amanpour, estrela da CNN Internacional, e pelo jornal francês Le Monde.

O que exatamente os jornais brasileiros têm contra Lula, um dos melhores (se não o melhor) presidentes que o país já teve, a não ser o puro suco do preconceito de classe? Este classismo se estende às conquistas dos mais pobres nos governos petistas. Acaso não foi nas páginas destes jornais que vimos, durante os governos Lula e Dilma, artigos no mais legítimo estilo “classe média sofre”, com uma colunista reclamando das empregadas de carteira assinada e outro lamentando que os aeroportos tinham virado rodoviárias ou churrasco na laje? Tudo a ver com o ministro da Economia de Bolsonaro, Paulo Guedes, para quem doméstica indo à Disney com o dólar barato era um absurdo. Agora, com o dólar a 5 reais, a culpa é… do PT, lógico.

O que exatamente os jornais brasileiros têm contra Lula senão o puro suco do preconceito de classe? Não foi nas páginas deles que vimos uma colunista reclamando das empregadas de carteira assinada e outro lamentando que os aeroportos tinham virado rodoviárias?

Em 2016, a mídia corporativa patrocinou um golpe jurídico-parlamentar contra uma presidenta legitimamente eleita para arrancar o PT do poder, sem se preocupar com o dano que isso causaria à nossa jovem democracia. Amor pelo país? Zero. Mais de quatro anos se passaram e, mesmo com as evidências do enorme erro que cometeu, ela segue demonizando Lula, o PT e a esquerda. Que ninguém duvide que, em 2022, essa gente se aproxime do energúmeno defensor da ditadura sentado na cadeira de presidente, transformado em candidato “de centro”.

Se a mídia que apoiou o golpe de 1964 pode posar de “centro”, por que não Bolsonaro?

 


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Luis Carlos Kerber em 23/03/2021 - 17h43 comentou:

A grande mídia brasileira, famosa pela sigla PIG, não aprende mesmo e não pode receber a confiança da esquerda, muito menos de um futuro governo Lula a partir de 2022. Os órgãos do denominado PIG tem que pagar por todas as ações que fez para desacreditar Dilma, prejulgar Lula e incriminar toda a esquerda. É necessário uma Ley de Medios que coloque os integrantes do PIG no seu devido lugar. O próximo governo, espero que seja de Lula, tem que fortalecer a mídia regional, incentivar com as verbas publicitárias do Estado a diversidade cultural do país e não concentrar essa verba em poucos meios de comunicação. Ainda mais uma imprensa que torce contra o Brasil e contra o povo brasileiro.

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Bernardo Santos Melo em 24/03/2021 - 02h47 comentou:

Grande SOCIALISTA MORENA , não duvida que Lula merece muito mais do que estar LIVRE , é justo transformá-lo no MENESTREL que LIQUIDOU o MARRECO MORO do FBI.
Contudo nosso país exige RENOVAR e para tal , não podemos retroceder e pessoas como DINO & CIRO GOMES nos levarão MAIS LONGE .

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Pedro de Alcântara em 24/03/2021 - 21h36 comentou:

Com relação a Lula é clara a dor de corno da classe média. Mas penso que é preciso ter em mente algo mais do que isso. Em seu recente pronunciamento, referindo-se a Guedes, Lula afirmou que esse sr. nunca usou palavras como progresso e investimento. Aí, nessa afirmação de Lula tem muita coisa, tem tudo a ver com a realidade que estamos vivendo. Não são poucas as razões pelas quais Lula é odiado, mas acho que a principal está no fato de que o Brasil estava a caminho de ocupar o 5º lugar em termos de desenvolvimento econômico. É preciso tomar em consideração o significado dos Brics e o papel que se anunciava em termos da participação do PT. O Lula, digamos, o PT, está em oposição aberta àquilo que está no título do livro do Costas Lapavitsas: Profiting without Producing. O Rentismo tomou conta do mundo. Seu domínio é o que está acontecendo neste mundo que outrora a gente chamava de capitalista. Compare o Brasil com a China em todos os aspectos. Enquanto a China se tornou uma potência, o Brasil está sendo submetido a uma verdadeira devastação. A esquerda não enfrenta essa questão. A nossa necessidade maior é uma transformação radical. A direita rentista percebe que Lula é uma das manifestações dessa transformação.

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Pedro de Alcântara em 24/03/2021 - 23h01 comentou:

Em tempo: recomendo a leitura deste artigo do Nicolau Dowbor no 247. Em resumo: a produção não faz parte do que foi o capitalismo. Artigo do Dowbor: Produzir e extrair na economia global.

Aqui se encontram as razões do ódio ao Lula.

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twa em 27/03/2021 - 14h48 comentou:

Não existe imprensa “livre” ou “isenta”… todos defendem um lado, o que eu acho absolutamente normal.
Veja/Revista Oeste x Carta Capital/CGN/DCM/Brasil247
Clarín/La Nácion x Página12/C5N
CNN/MSNBC x Fox News
NYTimes/WAPO/USA Today/NBC x Washington Times/National Review.

O próprio Clarín na Argentina defendia os Kirchner, depois de 2008 brigaram feio…
Tem uma jornalista argentina, que trabalhou no La Nácion quando este ainda era “isento” depois foi para o Clarín… Ela disse que sempre há lados, depois disso ela fundou seu próprio Blog e escreve livros.

Depois de ter vivido nos EUA por um tempo, eu afirmo com convicção que as mídias brasileiras são bem razoáveis ao que vi na terra da liberdade…
Todo mundo fala da Globo, mas ela nem de muuuiiito longe pode ser comparada a loucura que é uma Fox ou MSNBC.

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Rossi em 28/03/2021 - 02h25 comentou:

Reinaldo Azevedo,empregado do grupo Folha,afirmou que 95% dos jornalistas,incluindo elaboradores da pesquisa, não leram a sentença condenatória do Presidente Lula.A folha,como a globo vai morrer gorda,como diria o saudoso P.Henrique Amorim.Não farão falta.

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