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Os donos dos jornais: nós que amávamos tanto a “revolução”

Dos grandes jornais brasileiros, o único a apoiar Jango contra o golpe foi a Última Hora, de Samuel Wainer

Cynara Menezes
30 de março de 2014, 16h45

As palavras sobram para falar sobre o apoio da imprensa brasileira ao golpe militar em 1964: os fac-símiles dos editoriais da época dizem tudo. Foi acachapante. Todos saudaram a “democrática” atuação dos homens de farda para derrubar João Goulart, ainda que ele fosse querido pelo povo. Os “defensores da Pátria” não estavam –como estão hoje– nem aí para a vontade popular. O Jornal do Brasil saudou os militares no poder como “a verdadeira legalidade” e os que apoiaram a quartelada de “verdadeiros brasileiros”. Afinal, quem melhor que a imprensa para apontar onde está a “verdade”, não é mesmo?

O Globo , que este ano pediu desculpas pelo apoio à ditadura, chamou o golpe de “volta da democracia” e comparou os militares a anjos: “o povo brasileiro foi socorrido pela Providência Divina”. O império Globo cresceu à sombra da ditadura militar e foi durante anos o principal porta-voz e propagandista do governo fardado. Beneficiado com concessões em todo o País, a Globo só se tornou o que é hoje por causa da ditadura. Em vez de pedir desculpas, deveria dizer “muito obrigado”. Acho até ingratidão.

Aqui, o documentário Muito Além do Cidadão Kane, que explora a proximidade da Rede Globo com a ditadura militar. A emissora conseguiu proibir a exibição do filme durante anos no Brasil. Até hoje não é possível transmiti-lo na TV aberta.

O Estado de S.Paulo também apoiou o golpe e conspirou em favor dos militares desde o primeiro momento, mas, depois, se tornaria “vítima” da censura. O que, segundo a historiadora Beatriz Kushnir, autora de Cães de Guarda: jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988, não impediu o jornal de continuar a colaborar com a ditadura, assim como fizeram todos.

“Eu reviso essa ideia de resistência e mostro que houve, no lugar disso, um grande colaboracionismo”, explicou Kushnir em entrevista à revista CartaCapital. “Se houve resistência, esta está nos veículos alternativos e não na grande imprensa”. A Globo, diz Beatriz no livro, chegou a contratar censores para atuar como funcionários, com o objetivo de aperfeiçoar a autocensura e evitar cortes que poderiam causar prejuízos econômicos.

A Folha de S.Paulo saudou os militares que derrubaram Jango como “exemplos de patriotismo e desprendimento”. Em 2011, o jornal reconheceu que apoiou a ditadura de forma deslavada, sem nenhuma crítica. “A partir de 1969, a Folha da Tarde alinhou-se ao esquema de repressão à luta armada, publicando manchetes que exaltavam as operações militares”, afirmou o jornal, confirmando que a redação da FT estava entregue “a jornalistas entusiasmados com a linha dura militar (vários deles eram policiais)”. O grupo admitiu, inclusive, ser possível que automóveis do grupo tenham sido utilizados por agentes do DOPS para espionar a esquerda (leia mais aqui). Nos anos 1980, o jornal ganharia leitores ao encampar o apoio às eleições diretas. Estratégia editorial? É possível, porque nos anos recentes assistimos uma nova guinada da Folha à direita, chegando a alcunhar a ditadura de “ditabranda”.

Dos grandes jornais brasileiros, o único a apoiar Jango foi a Última Hora, de Samuel Wainer. E, obviamente, foi empastelado pelos ditadores, enquanto os outros floresciam. Não é à toa que, aos 50 anos do golpe militar, a imprensa brasileira tenta justificar o injustificável em editoriais onde enxerga “lados positivos” nos anos de chumbo. Claro, não se abandona um líder ferido na beira da estrada…

Assista aqui a um documentário sobre o papel da imprensa paulista no golpe. Veja mais manchetes dos jornais brasileiros apoiando o golpe militar aqui.

 


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Luiz Américo em 31/03/2014 - 10h28 comentou:

Outro dia na TV Brasil uma Professora/Pesquisadora disse afirmativamente: “Aqueles mesmos jornalistas que escreveram os editoriais saudando a “redentora”, no mínimo, com eles concordavam, ainda hoje, são os mesmos “chefes” e donos de jornais.
Digo eu, como qualquer “jogador” viciado, esses, ainda sonham com o golpe perfeito.

Parabéns pelo poder de síntese Cynara. É isso! Pior que estão a dar cria e a chocar muitos… vários ovos de serpentes…

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Ze Borba em 31/03/2014 - 12h44 comentou:

Não só os donos de jornais, mas os jornalistas e o povo em geral apoiaram o golpe. Só um ou dois com uma visão histórica profunda perceberam que a revolução iria virar um regime sangrento e anti-democrático. Os comunistas e brizolistas, que desejavam que Jango desse um golpe primeiro, logo no primeiro dia sentiram na própria carne a força do regime militar. Como economicamente o povão tava satisfeito, o regime perdurou (foi o momento que o PIB brasileiro mais cresceu na história). Apenas com as instituições fora da guerrilha, como a igreja católica, por exemplo, e a inflação altíssima (cuja responsabilidade devemos ao hoje lulista Delfim Neto) conseguiram minar os alicerces do regime. A guerrilha, pelo contrário, era o combustível que os radicais do regime militar precisavam.

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    abolicionista em 31/03/2014 - 15h43 comentou:

    Sinto informar, mas algumas das suas informações estão equivocadas. Pesquisas reveladas recentemente pelo professor Luiz Antonio Dias, da Unicamp, mostram que as reformas de base que motivaram o golpe tinham cerca de 70 % de apoio da população brasileira (segundo pesquisa realizada pelo Ibope em 1963 às vésperas do golpe). O apoio popular de João Goulart também era de mais de 50%. Jango tinha amplo apoio popular, como também grandes chances de vitória caso disputasse as eleições presidenciais previstas para 1965. A reforma agrária, por exemplo, era considerada necessária por 72% da população brasileira.

    Quanto ao apoio à ditadura, é impossível saber se a maioria dos brasileiros queria ou não a volta da democracia, pois eles não tinham direito a opinar. Mas as últimas pesquisas antes do golpe mostram que a maior parte da população se identificava ideologicamente nem com a esquerda nem com a direita, mas com o "centro".

    Quanto ao crescimento do PIB, ele veio seguido de um crescimento da dívida externa de da desigualdade (também os maiores índices na história nacional), desigualdade essa que hoje é a maior responsável pelo inchaço urbano, pela explosão de violência etc. O Delfim Neto chegou a dizer a famosa máxima, primeiro é preciso fazer o bolo crescer para depois dividi-lo.

    Quanto à utilização da "ameaça comunista" como um pretexto para se perpetuar no poder, você está coberto de razão, vide o tragicômico atentado no Riocentro, no qual os milicos tentaram forjar um atentado de esquerda.

    Ze Borba em 31/03/2014 - 19h29 comentou:

    Creio que discordamos mesmo. Pois a situação econômica, política e de greves estava caótica sob a presidência de Jango. Além disso, essas pesquisas que você está informando não creio que são aceitáveis, nem antes ou durante a ditadura. Só lembro do relato de Carlos Heitor Cony que viu apenas uma figura sem camisa gritar por Brizola no dia do golpe. Como um especialista já disse, o golpe foi civil-militar e muitos acreditavam que as eleições seriam em 1965. Infelizmente os gangsters de camisa verde não deixaram.

politikabrasil em 01/04/2014 - 12h49 comentou:

Eu não sei… Hoje nós sabemos dos 21 anos que se seguiram. Mas naquele tempo eles não sabiam. Havia expectativa de que fossem convocadas novas eleições imediatamente, mas não foi o que aconteceu. Em 64 o Jornal do Brasil não sabia que viria o AI-5 anos depois. Acho que essas pessoas apenas se enganaram. Pensaram que era algo bom que estava acontecendo quando não era.

O que os defensores do regime militar dizem hoje em dia é justamente que o movimento tinha apoio popular e da imprensa. Como se isso pudesse justificar tudo o mais que a aconteceu depois.

E quanto a pesquisa do Ibope, ela é idônea sim. Foi descoberta recentemente. Era 65% de aprovação ao governo e 70% de apoio à reforma agrária. Mas a pesquisa não foi divulgada na época, e nem o próprio presidente sabia dela. Não se sabia quem a encomendou.

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Rossi em 02/04/2014 - 07h40 comentou:

O Dines deve corar de vergonha ao reler -se tiver coragem- as sandices escritas naquele editorial. Quanto à Folha da Tarde, do grupo foiaditabranda, dizem as más línguas era o jornal com maior "tiragem" da época, devido ao nº de milicos empregados como jornalistas.

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Ted Tarantula em 06/04/2014 - 14h20 comentou:

segundo pesquisas dos fabricantes de aviões eles caem em diferentes países por diferentes motivos, quer dizer, há traços culturais nos diferentes povos que facilitam tais eventos. Em nosso país, em grande parte, aviões caem por…autoritarismo. A tripulação tem dificuldade (medo) de comunicação com o comandante, temendo apontar-lhes erros e arguir equívocos.
No avião que ia pra Manaus e caiu na selva sem combustível por exemplo, voou quase duas horas, até cair e matar todos os ocupantes, com todos sabendo que estava no rumo errado e ninguém teve coragem de falar.

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Rodrigo Cabral em 08/04/2014 - 22h20 comentou:

Sugiro que leiam (para ver o outro lado) o editorial do Estado de S.Paulo, na data de ontem (07/04) de título: "1964 – um testemunho", em que Fernão Lara Mesquita, conselheiro do Grupo Estado, faz seu relato do observado na época. Na minha humilde opinião foi o melhor texto sobre o Golpe/Revolução que li.

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    morenasol em 09/04/2014 - 17h29 comentou:

    quanta mentira junta… se eu fosse da família de jango, processava. é nojento o que lambe-botas de milicos tentam fazer para tentar mudar o FATO de que eles, sim, apoiaram uma ditadura sanguinária

    Paulo em 09/04/2014 - 19h28 comentou:

    Eles não apoiavam ditadura sangrenta nenhuma, eles apoiavam o golpe, Jango estava tomando medidas autoritárias, queria impor as reformas de base na lei ou na marra, com o apoio dos comunistas . Nem os militares eram unânimes em relação a uma ditadura, só a linha dura das Forças Armadas queria se perpetuar no poder.

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