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Sanha golpista: o cerco da polícia de Buenos Aires à residência do presidente argentino

Alberto Fernández condenou os protestos como "inadmissíveis" na vida democrática. "Não vale tudo, nem tudo é permitido"

Policiais cercam a Quinta dos Olivos. Foto: Daniel Dabove/Télam
Martín Fernández Lorenzo
10 de setembro de 2020, 14h46

Há mais de 48 horas, a Argentina vive um sério clima de tensão e alerta devido a um protesto da polícia da província de Buenos Aires por aumento salarial. Em meio à pandemia, e após nove meses do novo governo, os policiais buenairenses exigem um aumento de 56% e melhores condições de trabalho ao governador Axel Kicillof, do mesmo partido do presidente Alberto Fernández.

O ministro da Segurança de Buenos Aires, Sergio Berni, rapidamente anunciou que no final de semana seriam anunciados reajustes salariais às forças policiais, que tiveram uma perda de 30% em seus soldos entre 2016 e 2019, durante o governo de direita de Mauricio Macri.

“Não estou disposto a aceitar certas formas de reivindicação, porque nada têm a ver com a vida democrática. Este não é o caminho, eu realmente lhes digo, portanto espero que vocês reflitam”, disse o presidente. “Não vale tudo, nem tudo é permitido”

Mesmo depois do anúncio, porém, as forças inexplicavelmente continuaram com o protesto, exigindo uma resposta imediata, e cercaram a residência do governador Kicillof em carros-patrulha, armados e com roupa oficial (o que é proibido), onde pernoitaram entoando canções, ateando fogo a pneus e soando as sirenes das viaturas.

Na manhã da quarta-feira, um homem lançou um coquetel molotov na Quinta de Olivos, residência oficial do presidente, e foi detido. Mas o ponto mais delicado ocorreu ao meio-dia, quando a polícia cercou a Quinta de Olivos com as suas viaturas, ameaçando o presidente, em um ataque inaceitável à democracia argentina. O que causa mais estranheza e torna ainda mais sinistra a ação dos policiais é que a reclamação original era à administração da província, e não ao governo da Nação.

Houve um amplo repúdio ao cerco da residência por quase todo o arco político, exceto o bloco de deputados da UCR, macrista, que incrivelmente expressou seu apoio à polícia no twitter, em mensagem que posteriormente foi excluída.

Diante do silêncio absoluto de Macri, vale lembrar as palavras ditas há 15 dias por outro ex-presidente, Eduardo Duhalde, sobre a possibilidade de um golpe na Argentina, prevendo que no próximo ano as eleições legislativas não poderiam ser realizadas, que o país “é o campeão das ditaduras militares” e “pode acabar numa espécie de guerra civil”. Premonição ou informação privilegiada? Tudo muito estranho.

Desde que Alberto Fernández tomou posse em 10 de dezembro, a oposição argentina tem assumido uma posição semelhante à de Aécio Neves quando foi derrotado por Dilma Rousseff, não aceitando a derrota nas urnas e instigando seu eleitorado a intensificar o ódio visceral ao kirchnerismo. Foram contrários a todas as medidas que o governo tomou desde a sua posse e, no meio da  pandemia, podemos dizer que sem exagero que sua atitude não foi nada diferente do bolsonarismo. Com o apoio da imprensa hegemônica, organizaram seis marchas anti-quarentena em nome da “liberdade,” em uma postura negacionista liderada por Macri.

Depois dos graves acontecimentos desta quarta-feira, que já não têm neste momento nada a ver com reivindicação salarial, Alberto Fernández pediu aos apoiadores que não saiam às ruas por conta da quarentena, e falou em rede nacional, acompanhado pelo governador e dirigentes dos diferentes partidos de Buenos Aires.

“Posso entender qualquer reclamação ou reivindicação, o que não estou disposto a aceitar são certas formas de reivindicação, porque nada têm a ver com a vida democrática. Este não é o caminho, eu realmente lhes digo, portanto espero que vocês reflitam”, disse o presidente. “Vamos achar uma solução, mas não vamos aceitar que continuem com essa forma de protesto. Não vale tudo, nem tudo é permitido.”

Na manhã de quinta, em entrevista a uma rádio, o presidente voltou a condenar a forma de “protesto” dos policiais buenairenses como “inadmissível”. “Este tipo de protesto cercando a Quinta dos Olivos com carros-patrulha não foi apropriado, ainda que esteja claro que há uma reivindicação justa, porque há uma defasagem de muitos anos no salário da polícia de Buenos Aires”, afirmou o presidente.

O governador da província, Axel Kiciloff, anunciou que 39 mil oficiais passarão a ganhar um salário inicial de 44 mil pesos (cerca de 3.115 reais), além de um aumento do adicional para os uniformes, e pediu que parem com os protestos. “Quero anunciar que tomei a decisão política de saldar uma dívida que este Estado tem com a sua polícia”, disse o governador. “A sociedade necessita que acabemos com isso, diante da resposta contundente e histórica que estamos dando. Se não, entenderemos que é uma questão política.”

Veremos nas próximas horas como reage a polícia, mas está claro que um ato como o de hoje não pode ser aceito nem naturalizado em uma democracia. É sempre bom lembrar que o golpe de Estado na Bolívia em 2019 começou a partir de motins da polícia.

Desde abril, a polícia de Buenos Aires é acusada de envolvimento no desaparecimento e morte do jovem Facundo Astudillo Castro, de 22 anos, cujos restos mortais foram encontrados em um manguezal. O jovem havia sido detido por furar a quarentena para visitar a namorada numa cidade vizinha à sua. O presidente iria receber a mãe de Facundo na Quinta de Olivos nesta quinta-feira.

 


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(1) comentário Escrever comentário

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jucemir r. da silva em 10/09/2020 - 19h23 comentou:

São apenas os primeiros movimentos visíveis de um golpe anunciado.
Aguardemos o que virá.

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