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Cultura

Sophia Loren, o feijão de Marcello Mastroianni e a amizade entre um homem e uma mulher

Grandes amigos e parceiros, durante 42 anos iluminaram as telas de cinema com a sua presença juntos em 12 filmes

Sophia e Marcello em Matrimônio à Italiana, de Vittorio De Sica, 1964
Cynara Menezes
14 de julho de 2015, 12h05

Tem gente que diz que mulheres e homens não podem ser amigos. Me refiro, naturalmente, a homens e mulheres heterossexuais, porque não há mulher neste mundo que não tenha amigos gays, e vice-versa. Pois bem: dizem que não existe amizade entre homem e mulher, que sempre há “interesses” ocultos metidos no meio. Nada mais falso. É exatamente o contrário: não existe amizade mais sincera e desinteressada no mundo do que aquela entre um homem e uma mulher.

Algumas das melhores amizades que fiz na vida foram com pessoas do sexo masculino. Quando era pequena, no interior da Bahia, meu pai à moda antiga não me deixava brincar com os meninos, a não ser os da família. Eu, claro, odiava essa regra. Os garotos me interessavam muito e as brincadeiras deles, mais ainda. Eu não gostava de brincar de boneca ou de casinha, gostava de jogar bolinha de gude com meu irmão, de apostar corrida, de saltar, de andar de bicicleta, de competir com os meninos. Queria me misturar com eles o tempo todo, mas não podia.

Na adolescência, com a rédea paterna afrouxada, comecei a ter muitos amigos meninos. Também tinha amigas, óbvio, e tanto com elas quanto com eles estabeleci ligações de profunda cumplicidade e de troca de confidências. Os meninos sempre se sentiram à vontade para confiar a mim seus segredos mais íntimos, seus amores, suas decepções. Em troca, eles me ofereceram o ombro carinhoso quando sofri desilusões, e me deram conselhos honestíssimos e absolutamente proveitosos.

Sim, o conselho de um amigo homem, em casos de amor, é, na maioria das vezes, bem mais útil do que o conselho da melhor amiga, porque ele tem, para começar, o que nós queremos: inside information. E eles são práticos, não dizem coisas para nos confortar, como fazem as amigas. Ouvi-los é ter outra perspectiva da história, exatamente a que mais importa. Se toda menina tivesse um amigo íntimo, talvez homens e mulheres pudéssemos nos entender melhor, porque compreenderíamos a natureza de cada um. Onde falhamos, onde acertamos, onde temos razão, onde não temos.

Olhar um romance que se está vivendo sob o ponto de vista do sexo oposto é uma experiência enriquecedora e reveladora. Quando você faz amizade de verdade com um homem, percebe o quanto também eles se machucam, se ferem, e como também entram em roubadas, exatamente como nós. Tenho amigos que foram verdadeiras “mulher de malandro” (“homem de malandra”?) nas mãos de algumas parceiras… As relações de dominação, em minha opinião, não se definem apenas por uma questão de gênero.

Tem quem acredite ainda que sexo pode estragar a amizade entre um homem e uma mulher. Será? Ou será que estamos levando a sério demais uma simples transa, que pode ou não ocorrer? É possível que haja tensão sexual em algumas amizades entre homens e mulheres (eu apostaria que na maioria delas não rola). Sendo assim, não seria melhor… resolvê-la? Outra coisa: naqueles dias em que a mulher sai disposta a, digamos, ficar com o primeiro que aparecer, não é melhor que seja com um conhecido do que com um desconhecido? Eu acho. E acho que, se amizades profundas ultrapassam tudo, não é sexo ocasional, uma brincadeirinha, que irá estragá-la.

Toda vez que penso na amizade entre homens e mulheres me vêm à lembrança Sophia Loren e Marcello Mastroianni, os grandes amigos e parceiros que durante 42 anos iluminaram as telas de cinema com a sua presença juntos em 12 filmes. Sophia já vivia um romance com Carlo Ponti, seu marido de toda a vida, quando contracenou pela primeira vez com Marcello, em 1954, no filme Bela e Canalha (Peccato Che Sia Una Canaglia, de Alessandro Blasetti).

Marcello também era casado. É bastante provável, portanto, que a amizade entre os dois tenha se restringido a isso: uma amizade. E se em algum momento houve algo além, o que importa? Não muda o fato de que foi uma amizade das mais lindas da história do cinema, e que só terminou com a morte dele, em 1997. A intimidade que havia entre os dois na vida real explica a deliciosa química que possuíam em cena.

Para mim, o filme que melhor retrata esta amizade é justamente aquele em que ambos se despem dos personagens que costumavam encarnar: Um Dia Muito Especial (1977), de Ettore Scola. Em vez da voluptuosa italiana, Sophia é uma dona-de-casa sofrida e sem glamour, casada com um fascista; em vez do boa vida, Marcello vive um homossexual desempregado com tendências suicidas –isso, sim, sempre sedutores. Eles protagonizam um insólito encontro de almas em um edifício vazio. Lá fora, Hitler marcha sobre Roma, recebido por Mussolini, em 6 de maio de 1938. Imperdível.

Em 1998, Sophia Loren lançou nos Estados Unidos seu segundo livro de receitas (Sophia Loren’s Recipes and Memories). Como não poderia deixar de ser, homenageia de forma saborosa Marcello, que havia falecido no ano anterior, vítima de câncer no pâncreas. Deixo vocês com o texto da atriz e a receita que escolheu em homenagem a seu grande amigo, Marcello Mastroianni. Um homem e tanto, uma mulher e tanto, uma amizade e tanto.

***

Fagioli con le Cotiche (feijões com pele de porco)

Por Sophia Loren

O verão de 1997 foi triste para mim, porque perdi meu querido amigo e colega Marcello Mastroianni. Sua morte deixou um grande vazio em minha vida. De vez em quando penso nele com emoção e revivo os anos em que trabalhamos juntos, nossas muitas confidências, nossa profunda, profunda amizade. Uma característica de Marcello é que ele tinha uma espécie de benevolência irônica combinada com franqueza. Por que eu o trago aqui e falo de cinema em vez de falar de cozinha? Porque quero relembrar seu lado mais cotidiano e real e porque recordo sua paixão entusiasmada por um prato, que para ele superava qualquer um nos mais refinados menus do mundo: Fagioli con le Cotiche, feijões aromatizados com pele de porco. Este é um prato de camponeses, de gente pobre, um prato para ser encontrado nos mais humildes restaurantes. Talvez por isso fosse o favorito de Marcello, um homem simples, um amigo das pessoas comuns. Com esse pensamento e com felicidade em vez de luto, ofereço este robusto e satisfatório prato.

Ingredientes (para seis pessoas):

½ quilo de pele de porco

Sal

½ quilo de feijão branco, deixado de molho de um dia para o outro e escorrido

1 osso de presunto Parma ainda com um pouco de carne (acredito que, no Brasil, será preciso substituir este ingrediente, talvez pela própria carne de presunto Parma ou espanhol picada ou um pedaço de costela de porco salgada)

1 punhado de alecrim

1 colher de sopa da gordura do presunto Parma

1 dente de alho amassado

½ cebola picada

2 colheres de sopa de manjericão fresco picado

2 colheres de sopa de salsa picada

2 latas de tomate italiano pelado

Pimenta do reino fresca moída na hora

Coloque bastante água para ferver numa panela grande. Adicione a pele de porco e, quando a água voltar a ferver, deixe por 2 minutos. Escorra e ponha sob água fria, e daí passe para uma tábua de picar. Coloque novamente água para ferver na panela. Corte a pele de porco em cubos, ponha na panela com uma pitada de sal, e deixe cozinhar em fogo baixo entre uma hora e uma hora e meia.

Enquanto isso, coloque os feijões com o osso e o alecrim em uma panela grande e cubra generosamente com água. Cozinhe em fogo baixo até que os feijões estejam macios. Escorra a pele de porco e ponha novamente sob água fria. Escorra os feijões e reserve toda a carne que se soltou do osso de presunto.

Coloque a gordura do presunto, o alho, a cebola, o manjericão e a salsinha em uma panela funda em fogo médio. Refogue rapidamente, adicione os tomates, o sal e a pimenta, e cozinhe por 20 minutos. Adicione a pele de porco, os feijões e o presunto e continue a cozinhar por mais 10 minutos. Sirva.

 

 


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