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Ditadura togada: o bizarro pedido de prisão de Cristina Kirchner na Argentina

Acusação baseada em fotocópias conta com denúncias anônimas de vizinhos que ouviram "barulho de cofre" e delações sem provas

Cristina com o ex-ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim. Foto: reprodução twitter
Martín Fernández Lorenzo
19 de setembro de 2018, 22h14

O plano é idêntico ao concretizado contra o PT no Brasil. Nesta semana, o juiz Claudio Bonadío decretou a prisão preventiva da ex-presidenta argentina Cristina Fernández de Kirchner como “chefe de uma associação ilícita”, tal como acusaram Lula de ser o “chefe de uma organização criminosa”. A perseguição midiático-político-judiciária a Cristina se intensifica ao mesmo tempo que a administração de Mauricio Macri se mostra um fracasso e a economia do país colapsa. Ela só não foi para a cadeia porque, como senadora, goza de imunidade parlamentar, que só poderia ser suspensa por 2/3 do Senado.

Quando, no dia 1º de agosto, a mídia comercial repercutiu a investigação sobre o caso conhecido na Argentina como “Los Cuadernos”, o juiz Bonadío ordenou a prisão de 12 pessoas, 34 ataques e 18 convocações, incluindo a ex-presidenta. Com grande fanfarra, a mídia anunciou que havia encontrado a “Lava-Jato argentina”, uma comparação sem fundamento, já que até agora não foi encontrada nenhuma conta nem dinheiro físico de tais acusações.

“Podem escavar a Patagônia argentina inteira ou onde seja que nunca vão encontrar nada com o que me incriminar, porque jamais me apoderei de dinheiro ilícito nenhum”, escreveu a ex-presidenta em sua defesa

A história dos “cadernos” surge das anotações do ex-motorista de um ex-funcionário do ex-ministro do Planejamento Julio de Vido (hoje preso por outra causa), que em seus 12 anos como chofer e pai de 13 filhos, registrou toda a corrupção que teria testemunhado pessoalmente, com absoluta riqueza de detalhes. Conta, por exemplo, como “sacos” cheios de dinheiro iam de um lugar para outro dentro das propriedades da presidenta e de seu marido Néstor, com hora e data.

Como o motorista Oscar Centeno (que foi denunciado por sua ex-mulher a ninguém menos que o próprio juiz Bonadío) alegou ter queimado os cadernos, a causa é baseada em fotocópias, que poderiam ter sido escritas por qualquer pessoa. A repetição do assunto na mídia foi ensurdecedora e, depois de horas, muitos empresários começaram a recuperar sua liberdade assumindo o papel de “arrependidos”. O advogado Cuneo Libarona, defensor de 3 empresários envolvidos, revelou em um áudio que “se você se declara inocente vai preso”.

Foi assim que as primeiras buscas e apreensões ocorreram, semanas depois, na residência de Río Gallegos e no apartamento de Cristina, localizado no bairro de Recoleta, em Buenos Aires, esta última baseada na ligação anônima de um vizinho que alegava ouvir “barulho de cofres”. Os policiais não só derrubaram paredes do prédio durante 13 horas, como também deixaram uma substância tóxica que resultou na internação de três funcionários da propriedade no dia seguinte.

A escavadeira procurando o “tesouro” de Cristina. Nada foi achado. Foto: reprodução

Com base em outro telefonema anônimo, e com o aval da ministra da Segurança Patricia Bullrich e de Bonadío, emulando Indiana Jones, decidiram ir com máquinas retroescavadeiras para as propriedades de Lázaro Baéz (empresário apontado como “sócio dos Kirchner” e agora preso), procurando contêineres de dinheiro ou joias escondidas sob uma terra que supostamente pertencia ao casal de ex-presidentes da República. Os resultados foram negativos.

Como a caça não forneceu um troféu, eles decidiram invadir a propriedade de Cristina em Calafate, quebraram parte da estrutura da casa, mas só conseguiram tirar de lá um “valioso” pato de vidro, um pequeno adorno que a ex-presidenta reclamou.

Assim como os delatores premiados para Sergio Moro, a palavra dos “arrependidos” vale muito para o juiz Bonadío. Um dos relatos mais rocambolescos é o de José López, um ex-funcionário do governo condenado por corrupção dois anos atrás após ter sido flagrado entrando num convento de freiras às 3 da manhã com 9 milhões de dólares e uma carabina. Ao se declarar “arrependido” e denunciar os Kirchner, envolvendo o casal de ex-presidentes na trama, López imediatamente entrou no programa de proteção a testemunhas. Não se entende como as freiras estão em liberdade, já que claramente parecem ser as mais perigosas da história.

Após a delação de López, o juiz fez a acusação a Cristina. “Esta mecânica funcionou mais ou menos assim,” diz, na decisão. Como é possível uma decisão judicial baseada em conjecturas e não em atos concretos? Quase tão absurdo quanto condenar alguém à prisão sem provas, não?

Curiosamente, o pedido de prisão de Cristina foi feito duas horas depois que o ministro das Finanças apresentou o explosivo orçamento para 2019, avalizado pelo FMI, que inclui um ajuste feroz para os restantes 15 meses de Macri à frente do governo, aprofundando a pobreza no país.

Ao depor pela oitava vez, Cristina Kirchner divulgou um comunicado em que denuncia a perseguição judicial que está sendo feita a ela, a ponto de embargarem sua aposentadoria e até impedirem-na de ter um cartão de crédito ou débito para que assim fosse obrigada a ir até onde estariam os milhões de dólares que os “arrependidos” afirmam ter dado a ela. “Podem seguir vigiando meus movimentos e da minha família, podem escutar de maneira clandestina minhas ligações telefônicas ou escavar a Patagônia argentina inteira ou onde seja, que nunca vão encontrar nada com o que me incriminar, porque jamais me apoderei de dinheiro ilícito nenhum”, escreveu a ex-presidenta em sua defesa.

Dificilmente Cristina irá para a cadeia, porque, com a delicada situação social em que se encontra a Argentina, colocar a principal referência da oposição atrás das grades seria o gatilho ideal para um povo que está sem paciência, mas acima de tudo muito zangado. Muito embora, como Macri advertiu: “Não quero ficar louco, porque posso causar muito dano a vocês”.  Um homem ameaçador.

 


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