O “efeito banana” e por que a esquerda deve esperar para se posicionar sobre o Brexit

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(A norma sobre a curva das bananas da União Europeia)

Dentre tantas coisas que me chamaram a atenção sobre as razões dos britânicos para sair da União Europeia, uma me pareceu particularmente bizarra e ao mesmo tempo emblemática: a queixa sobre as bananas. Um dos líderes do movimento, o ex-prefeito de Londres, o conservador Boris Johnson, foi ridicularizado ao criticar o fato de os dirigentes europeus em Bruxelas interferirem até mesmo na curvatura das bananas. Sim: para ser considerada uma “banana ideal”, classe A, para os padrões da UE, a fruta não pode ter uma curvatura “anormal”. Parece notícia do Sensacionalista, mas é verdade. E o mesmo vale para pepinos!

Johnson foi alvo de todo tipo de gozação ao apelar para isso, mas a reclamação tem seu fundamento. Para começo de conversa, os britânicos adoram banana, é a quarta fruta de predileção no país. Eles consomem 5 bilhões de bananas anualmente, o que dá uma média de 10 quilos de banana por pessoa ou 100 bananas por cabeça por ano. Pensar que a União Europeia se mete até no tipo de banana que a pessoa come mexe com a cabeça de alguém. Ou não? Eu acharia bem ruim que o governo dissesse como deve ser o formato da minha fruta favorita (ainda mais porque prefiro orgânicos, por princípio contrários justamente a qualquer padronização). E, pelo visto, muitos britânicos também não aceitam.

O “efeito banana” sobre o Brexit ainda deverá ser estudado, mas calou tão profundamente na opinião pública que veículos importantes como a The Economist tentaram negar o inegável, que existem regras rígidas para tudo que é coisa na União Europeia, ditada pelos chefões em Bruxelas. “Yes, não temos bananas retas”, diz o texto da Economist, tratando de desmentir Johnson e lamentando que os britânicos queiram sair do bloco num momento em que se estaria “flexibilizando” estas normas. Será? Mesmo para quem acha essa discussão prosaica, sobressaem dois aspectos incômodos: a “ditadura” da UE sobre questões mínimas, coisa que não tinha vindo à tona até a discussão sobre o Brexit, e o excesso de burocracia existente para o bem de ninguém.

O bananagate fez chegar aos ouvidos do cidadão comum algo que poucos sabiam: que a tão civilizada democracia europeia repetia, nos bastidores, o comportamento ditatorial e a burocracia que pareciam ser característica unicamente da criticada (e extinta) União Soviética… O que nos leva à pergunta: afinal, qual é exatamente a diferença entre a velha URSS e a União Europeia, além do fato de uma ser comunista e a outra capitalista, uma totalitária e a outra aparentemente democrática?

Ambas, UE e URSS, são, cada uma a sua maneira, uma união de países sob um governo central. Ambas ensejaram, em sua essência, passar por cima de características nacionais em nome de um Estado único –não à toa, na UE as moedas dos países, culturalmente simbólicas dessa identidade, com anos de história, foram literalmente derretidas e substituídas pelo Euro (menos justamente na Inglaterra, que não quis abrir mão de sua Libra Esterlina). A URSS resistiu 69 anos, até que um dia acabou. Será que a saída do Reino Unido da UE não é, de certa forma, uma espécie de revival do fim da União Soviética? Após o Brexit, vários países ameaçam repetir o referendo: Itália, França, Suécia, Holanda, Dinamarca, Áustria… Além dos falidos Grécia e Portugal. A União Europeia pode não ser o problema central destes países, mas tampouco parece ser a solução.

Em todo o mundo, as reações foram de espanto, até de deus-nos-acuda. Confesso que estranhei um certo desespero por parte da esquerda com a saída da Inglaterra do bloco, como se fosse uma espécie de fim dos tempos –mesmo porque a esquerda nunca foi uma grande defensora da União Europeia, pelo contrário. Nestes 23 anos de sua existência, não se pode dizer que a UE tenha sido uma maravilha para as pessoas mais necessitadas da Europa –a pobreza e a desigualdade estão crescendo, inclusive– ou para os imigrantes, que todos temem se tornar o maior alvo da extrema-direita agora (como se já não fossem, com ou sem União Europeia). Sinceramente, acho tão exagerada a reação da extrema-direita em festejar o Brexit quanto da esquerda de lamentar.

Às vezes tenho a impressão de que entramos numas brigas que não nos pertencem. Quanto mais a gente olha para essa questão, mais percebe que era uma briga entre a direita rentista e a direita xenofóbica. Tanto é que a esquerda europeia se dividiu. Parte apoiou o Brexit; e parte era contra. Mesmo quem votou contra apontou incertezas sobre se estava agindo bem, já que nem mesmo os mais prestigiados analistas internacionais são capazes de arriscar o que pode acontecer daqui para a frente. Não podemos esquecer que, quando explodiu a crise na Grécia, a esquerda foi amplamente favorável à sua saída da União Europeia. Faltou coragem aos dirigentes do Syriza. Aos britânicos, não.

(Campanha do Partido Comunista Espanhol e do Podemos pela saída da União Europeia)

Os defensores da permanência do Reino Unido na UE argumentam que quem estava ao lado do Brexit era a extrema-direita e por isso nós, a esquerda, deveríamos nos posicionar automaticamente do outro lado, mas a coisa é bem mais complexa do que parece. Os partidos comunistas europeus, por exemplo, se declararam a favor da saída, embora as justificativas sejam outras, sobretudo a falta de democracia e o favorecimento dos monopólios rentistas. Este último ponto, aliás, nos empurra para um raciocínio oposto, o de que a esquerda deveria se alinhar naturalmente ao Brexit, já que o FMI, o mercado financeiro e os EUA são contra…

As reações das novas lideranças europeias de esquerda vão bem neste sentido: até lamentaram o fato, mas ainda mais a necessidade urgente de a Europa se repensar. “É um momento triste, mas de uma Europa justa e solidária ninguém iria querer sair”, cutucou Pablo Iglesias, do espanhol Podemos. O primeiro-ministro grego Alexis Tsipras foi na mesma toada de “mudança de rumos”. “A política deve recuperar a supremacia sobre a economia e os tecnocratas na União Europeia”, afirmou.

Prefiro, portanto, esperar para ver antes de automaticamente me afirmar contra o Brexit. Não bastassem todas estas complexidades, a mais importante delas para um esquerdista: se, por um lado, negros (73%) e minorias étnicas (67%) votaram pela permanência, a grande maioria dos mais pobres votou pela saída do Reino Unido da União Europeia (64% a 36%). Um sinal preocupante de que também lá a esquerda está distante dos anseios, temores e queixas da classe trabalhadora, à mercê dos populistas de direita.

Uma coisa é certa: as mudanças na Europa virão e a esquerda precisa se preparar para elas. Sem açodamentos.

 

 

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A direita usa o PT para tentar esmagar a esquerda (com uma mãozinha da “Justiça”)

(Polícia Federal invade sede nacional do PT. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

Ora, ora, ora. E não é que a proverbial ruindade da Justiça brasileira subitamente acabou? Mas apenas quando se trata do PT, claro. Para os demais brasileiros, a Justiça continua morosa, falha e injusta (sobretudo para os mais pobres) ou inexistente (para os ricos). Subvertendo o mito grego, a “Justiça” brasileira não é cega, é caolha: só enxerga petistas.

Com a invasão da sede do PT pela Polícia Federal dentro da Operação Custo Brasil, a “luta contra a corrupção”, eufemismo para a perseguição pura e simples a membros do Partido dos Trabalhadores, atinge um novo estágio, aterradoramente similar ao que vivemos durante a ditadura militar: a sede de um partido político foi devassada por policiais, não por coincidência vestidos com uniformes camuflados, como se fossem do Exército. Para completar o clima de revival, só faltaram os tanques.

Não acontecia algo assim desde a volta da democracia, em 1985. E inocente (ou cúmplice) é quem acredita que acontecerá novamente com algum dos demais partidos e seus membros citados nas delações que vieram à tona nas últimas semanas. Sabem por quê? Porque isso não é nem nunca foi uma batalha contra a corrupção; é uma tentativa da direita, usando os erros cometidos pelo PT, de esmagar a esquerda, de tentar colar nela a pecha de “corrupta” enquanto permite que os grandes ladrões da nação continuem roubando, como fazem há 500 anos.

Se há uma coisa que a operação Lava-Jato deixou clara é a maneira como funcionam as campanhas eleitorais no país. As empreiteiras dão dinheiro aos partidos para fazer sua pirotecnia eleitoreira; em troca, o eleito dará as maiores obras do governo para as empreiteiras. Absolutamente todos os partidos (à exceção, talvez, do PSOL) fizeram campanhas sob essa lógica imoral e criminosa, porém tolerada ao longo dos anos pela mídia (que sempre soube disso) e pelo próprio Judiciário –até que, burramente, o PT se beneficiou dela.

Deixando os flancos abertos, o PT se tornou alvo fácil para uma Justiça aparelhada pela direita, que tem a faca e o queijo na mão para utilizar a eventual prisão de petistas como instrumento de destruição da esquerda. (Uma ilusão, porque é no confronto que a esquerda cresce, além de ser uma tendência em ascensão até mesmo nos EUA, “pátria do capitalismo”, principalmente entre os jovens. Uma pesquisa divulgada em abril pela Universidade de Harvard mostra que a rejeição ao capitalismo nunca foi tão alta: 51% dos cidadãos entre 18 e 29 anos são contrários ao sistema, e nada menos que 33% apoiam o socialismo.)

Como pessoa honesta e de esquerda, me indigna assistir à Justiça se prestar ao papel totalitário de perseguir um partido e uma ideologia, que queira nos transformar em párias diante da sociedade. Tenho minhas críticas ao PT, mas não aceito que o partido se torne o bode expiatório da forma como a política é feita no Brasil. A Justiça que vale para o PT deveria valer para todos os partidos envolvidos na bandalheira que são as campanhas eleitorais e que nenhum dos partidos de direita pretende mudar. A esquerda, sim.

Mas, ainda que a esquerda desaparecesse, o que deveria incomodar os chamados “cidadãos de bem” do país é ter a certeza, em momentos como este, de que enquanto o PT paga o pato, a direita corrupta que hoje engana os tolos fingindo ser honesta continuará impune. O que não chega a surpreender, sendo a impunidade um clássico da “Justiça” brasileira.

 

 

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A maconha é uma nova commodity

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(“Faça a economia crescer; legalize e cobre impostos”)

Uma das coisas que me espantam no capitalismo, sobretudo o brasileiro, é a absoluta falta de criatividade. Se depender do sistema, nem mesmo as maneiras de se fazer dinheiro se renovarão. Vejam o caso das commodities: elas são praticamente as mesmas desde que o mundo é mundo: agricultura (leia-se grãos), pecuária, mineração, petróleo… Nada de novo sob o sol.

As principais commodities brasileiras, por exemplo, não se renovam desde a época do coronelismo (ou talvez essa época nunca tenha passado): já foram borracha, café e banana; hoje são soja, minério de ferro, petróleo e carne. Para começo de conversa, esta é uma maneira ultrapassada de enxergar a economia, porque todas estas commodities são nocivas ao meio ambiente. Vão contra a “sustentabilidade”, para usar uma palavra tão ao gosto dos capitalistas “modernos”.

Mas o caso é que essas commodities do tempo da onça são responsáveis por 65% de nossas exportações. Se o capitalismo tivesse se modernizado de verdade, já existiriam outras, não? Ou será que o fato de as commodities, as mercadorias que movem os mercados, continuarem idênticas há pelo menos 100 anos é uma prova concreta da estagnação do capitalismo?

A economia do planeta está frequentemente em crise. São crises cíclicas, ao que tudo indica inerentes ao sistema. E o que acontece em momentos de crise como o que vive o Brasil agora? Trabalhadores são demitidos e são feitos cortes nos programas sociais dos governos. Não muda, é sempre esta equação em toda parte: quando vem a crise, quem paga o pato são os que mais precisam e não quem mais dinheiro tem. Mais grave: NADA no sistema se altera. É assim com as commodities: aconteça o que acontecer, o Brasil sempre exportará soja. Ou seja, nós alimentamos um sistema falido, obsoleto, arcaico.

Por que não modernizar o sistema, pelo menos? Promover novas commodities pode ser uma solução. Uma delas: os produtos orgânicos são um mercado em ascensão no mundo e movimentam cerca de 80 bilhões de dólares anualmente. Para se ter uma ideia, mesmo com o Brasil em crise, nosso minúsculo mercado de orgânicos cresceu 25% em 2015. Insistimos em soja, algodão e milho, quando também poderíamos estar também exportando orgânicos. Somos campeões em agrotóxicos e lanterninhas em orgânicos.

Quando se fala em orgânicos, há gente até na esquerda que torce o nariz: “Ah, mas não vai ter comida para todo mundo se não houver agrotóxico”. Mentira. Primeiro que isso seria uma negação à premissa máxima do capitalismo, a lei da oferta e da procura. Se há procura, haverá oferta. E segundo porque somos um país de dimensões continentais, existe espaço para alimentos com e sem agrotóxicos -sendo que estes últimos representam o passado e os orgânicos, o futuro.

Vejam o caso do Canadá, um país enorme como o nosso, que é o quarto mercado mundial em orgânicos. Em março, o país fechou um acordo de equivalência com a União Europeia que tornará possível a exportação dos produtos orgânicos canadenses. No Brasil, um acordo semelhante está parado desde 2007 e não existem nem sequer números oficiais sobre a produção e a comercialização de orgânicos. Este é um número que tem muito mais a ver com os tempos em que vivemos: 59% dos canadenses estão conscientes de que plantar orgânicos é melhor para o meio ambiente. Isso se chama visão de futuro.

Outra clara commodity do mundo em que vivemos é a maconha. De acordo com um estudo recente elaborado por técnicos da Câmara Federal a pedido do deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ), a legalização da maconha poderia render ao Brasil cerca de 6 bilhões de reais apenas em impostos -um cálculo feito por baixo, levando em consideração que apenas 2,7 milhões de brasileiros fumam maconha recreativamente, um número claramente subestimado (nos EUA são mais de 20 milhões). O país também economizaria quase 1 bilhão de reais no sistema prisional se não ocorressem prisões relacionadas à maconha.

Nos Estados Unidos, onde foi liberada para uso medicinal em 25 Estados e para uso também recreativo em quatro, a maconha é considerada uma nova commodity quente pelos especialistas na bolsa de valores, prejudicada pelo fato de ainda ser proibida nos demais. Por lá, a expectativa é de que em 2016 a maconha legal movimente 6,7 bilhões de dólares. Se fosse legalizada no país inteiro, projeções apontam que poderia alcançar quase 22 bilhões de dólares em 2020.

Imaginem no Brasil a produção enorme de maconha que teríamos: todos sabem que a cannabis cresce que é uma maravilha no sertão nordestino, e olha que na criminalidade, sem nenhuma técnica agrícola moderna… Detalhe: maconha não é só a que contém THC e “dá barato”; a fibra também pode ser usada na fabricação de dezenas de produtos. Infelizmente, em nosso país a discussão sobre a legalização da maconha é interditada pela lógica eleitoreira que favorece os acordos com o pensamento retrógrado tanto de fundamentalistas evangélicos quanto de ruralistas (não raramente aliados no Congresso Nacional).

Até os nossos capitalistas são mais atrasados do que os outros.

 

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