Como a indústria alimentícia se aproveitou da liberação feminina para vender comida lixo

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(Salvadores de esposas)

Tem uma série documental imperdível no Netflix, Cooked, baseada no livro Cozinhar – Uma História Natural da Transformação, do jornalista e escritor Michael Pollan. Pollan, também narrador da série, é uma espécie de ativista da arte de comer bem preparando sua própria comida. Dividida em quatro episódios (Fogo, Água, Ar e Terra), Cooked defende a tese de que nosso processo civilizatório não começou com a descoberta do fogo e sim quando passamos a cozinhar os alimentos e deixamos de comer tudo cru.

Cooked começa mostrando os hábitos alimentares do povo australiano Martu para exemplificar como as mudanças nas dietas originais ocasionaram doenças nos seres humanos. Os aborígenes foram obrigados a deixar suas terras na década de 1960 e só puderem retornar, depois de muita luta, a partir de 2002. Durante o período em que permaneceram fora, tomando refrigerantes, comendo a comida “dos brancos” e ingerindo doses cavalares de açúcar, que não conheciam, desenvolveram diabetes, pressão alta e obesidade. Foi só voltarem à antiga dieta que os indicadores se normalizaram.

O mais interessante: Pollan conta como a indústria alimentícia se aproveitou da liberação feminina nos anos 1960 e 1970 para vender comida processada e junk food. O exemplo primordial é a rede de frango frito KFC (Kentucky Fried Chicken), tão famosa pela forma cruel como cria os animais que ganhou o apelido de Kentucky Fried Cruelty. A KFC enxergou na falta de tempo da mulher que ia para o mercado de trabalho uma chance de multiplicar as vendas de sua comida ruim e explorou o tema em diversos anúncios a partir do mote da libertação da mulher.

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(Faça desta noite o Dia das Mães)

Segundo Pollan, a decisão da mulher emancipada de retornar ao mercado de trabalho (já havia feito isso antes, é bom lembrar, durante a Segunda Guerra) gera uma disputa doméstica entre o casal sobre como seria a divisão das tarefas domésticas e o cuidado com os filhos.

Mas, em vez de resolver esta disputa, as famílias ouviram os “conselhos” da indústria e passaram simplesmente a comprar comida enlatada ou recorrer aos serviços de entrega em domicílio de fast food. O mais absurdo é que, utilizando campanhas de propaganda, a indústria convenceu as famílias que a comida feita em casa não era saborosa como a que se comprava pronta! Com isso, a boa e velha comida caseira foi substituída por comida lixo, cheia de “ingredientes” que você não tem na dispensa: aromatizantes, espessantes, conservantes… E os norte-americanos disseram adeus ao momento sagrado da refeição em família, a não ser nos feriados.

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(Ele dará a você um descanso da correria)

“Nós meio que assumimos que, como as mulheres voltaram ao trabalho, não haveria mais tempo para fazer a refeição familiar. Mas não é tão simples, é mais interessante. As grandes corporações estiveram batendo naquela porta por quase 100 anos. E após a Segunda Guerra, quando eles tinham inventado todas estas tecnologias para processar a comida e simular comida de verdade com comida fake, era chegada a hora de empurrar e entrar. Eles acharam a oportunidade que queriam com a revolução feminista nos anos 1970. Havia realmente um papo desconfortável tomando lugar nas mesas das cozinhas de toda a América. Homens e mulheres estavam tentando renegociar a divisão do trabalho doméstico. E a indústria alimentícia viu ali uma oportunidade. Eles disseram: ‘não se preocupe, nós te cobriremos. Nós vamos cozinhar’. A KFC inclusive fez um outdoor enorme com uma cesta de frango frito e o slogan: ‘Women’s Liberation'”, disse Pollan à rádio pública norte-americana NPR.

Não se pode dizer que no Brasil tenha sido diferente, só que aconteceu mais tarde, com a invasão do McDonald’s e das redes de pizzaria e de comida em domicílio que hoje tem até um “aplicativo” para facilitar a vida de quem se recusa a preparar a própria comida. O que Pollan propõe é que voltemos às cozinhas para terminar aquela conversa, o marido, a mulher e os filhos, para ver como podemos dividir as tarefas de casa e voltar a fazer nossas refeições, como forma de viver mais e melhor. “Eu acho que a coisa mais importante que nós podemos ensinar a nossas crianças para a sua saúde e felicidade a longo prazo é como cozinhar”, prega.

Certamente os machistas dirão: “Ora, então é culpa do feminismo que estejamos obesos!” Não, é culpa do machismo que os homens até hoje não tenham sido capazes de dividir as tarefas de casa com suas companheiras. Quem disse que cozinhar tem que ser a obrigação feminina na divisão das tarefas? É uma questão de lógica: se redividíssemos o trabalho doméstico entre todos, todos estaríamos comendo melhor. E comer bem não significa abrir mão de nenhum alimento, mas comer a menor quantidade de comida industrializada possível, enfrentando o poderoso lobby em favor dela.

Em abril do ano passado, o lobby da indústria alimentícia se juntou aos ruralistas e conseguiu aprovar na Câmara um projeto retirando dos produtos transgênicos o “T” que os identifica (rejeitado pela Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado, o projeto atualmente está em análise pela Comissão de Agricultura). Imaginem, não só somos obrigados a comer transgênicos como eles querem que não saibamos disso! Para quem acha que vemos conspiração em tudo, a coisa é mundial: nos EUA, um projeto idêntico foi sancionado por Barack Obama em agosto deste ano.

Sabe-se que o governo golpista de Michel Temer também está querendo fazer com que as pessoas trabalhem até 12 horas por dia, como já acontece no país que inspira a direita no Brasil (mas só no que há de pior por lá). Fazer os brasileiros trabalharem mais horas, passando assim mais tempo fora de casa, não é um belo truque para que comprem mais e mais comida pronta? A indústria alimentícia será eternamente grata.

 

 

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Grandes momentos “Os Miseráveis” da operação Lava-Jato (até agora)

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(Ilustração da primeira edição de Os Miseráveis, de Victor Hugo, por Emile Bayard, em 1862)

Meu pai era fã de Os Miseráveis (1935), uma das muitas versões para o cinema do clássico de Victor Hugo, com Fredric March como Jean Valjean e Charles Laughton como seu implacável perseguidor, o inspetor Javert. Todas as vezes que o filme passava na sessão Coruja, meu pai juntava os filhos no sofá para lhe fazerem companhia. A história, portanto, é muito vívida em minha memória. Valjean, desesperado pela fome, roubara um pão. E, por este crime, é caçado por Javert a vida inteira, com requintes de sadismo.

O excessivo rigor da Lava-Jato apenas com os petistas, a mão pesada seletiva do juiz Sérgio Moro, sempre me evocam Javert, o inspetor que se achava a própria encarnação da lei. Uma coisa é lutar contra a corrupção, que é o que os procuradores e Moro dizem estar fazendo com esta operação. Outra, bem diferente, é agregar a esta sanha supostamente moralizadora um indisfarçável justiceirismo, capaz de despertar na sociedade um sentimento torpe de vingança.

Como nas execuções medievais, não basta submeter os acusados ao rigor da lei, é preciso expô-los em praça pública, garantir platéia para os momentos mais… miseráveis; as emissoras de TV (sobretudo a Globo) são avisadas com antecedência de cada uma das ações. A própria necessidade de prisão preventiva já foi denunciada pelos advogados de defesa dos detidos na operação como “tortura psicológica” para forçar a delação premiada.

Reúno aqui alguns momentos da Lava-Jato que mais me fizeram vir à mente as cenas de Os Miseráveis, por sua mesquinhez. Este tipo de “castigo” está em total desacordo com as noções mais modernas de punição, como as que defendem a adoção de penas alternativas nos casos em que o criminoso não oferece risco à sociedade. Certamente momentos piores virão e este post poderá ser ampliado no futuro.

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(Charles Laughton como o inspetor Javert no filme de 1935)

Prendam-no no hospital – O ex-ministro da Fazenda Guido Mantega foi preso no dia 22 de setembro pela Lava-Jato na porta do hospital Albert Einstein, enquanto aguardava sua mulher, que está se tratando de um câncer, ser operada. Vários juristas criticaram a necessidade do pedido de prisão provisória de Mantega. Após a repercussão negativa, Moro acabou revogando o pedido no mesmo dia, como se estivesse agindo por questões humanitárias. Ora, se a prisão era mesmo necessária, por que foi revogada?

Sequestrem a casa da mãe – Em abril, o juiz Moro sequestrou judicialmente a casa onde mora a mãe de José Dirceu, Olga Guedes da Silva, em Passa-Quatro (MG). A senhora tem 94 anos. Moro, magnânimo, decidiu que ela pode continuar morando na própria casa como “depositária”.

Tranquem ele no escuro – O ex-senador do PT Delcídio contou à repórter Malu Gaspar, da revista Piaui, que decidiu fazer a delação premiada após ter sido trancado num quarto sem luz na sede da Polícia Federal em Brasília, sufocado pela fumaça do gerador do prédio. “Aquilo encheu o quarto de fumaça, e eu comecei a bater, mas ninguém abriu. Os caras não sei se não ouviram ou se fingiram que não ouviram. Era um gás de combustão, um calor filho da puta. Só três horas mais tarde abriram a porta. Foi dificílimo”, contou Delcídio.

Tirem-lhes os menores prazeres – Em agosto, Dirceu e seu companheiro de cela, Pedro Argôlo, foram castigados pela Lava-Jato porque foram encontrados no cubículo que dividem em Curitiba quatro pendrives, um carregador de celular modelo Samsung, um carregador de um aparelho portátil de reprodução de música e um cabo com entrada USB. Nenhum celular, contudo, foi achado. Os pendrives continham filmes e músicas. Só como comparação, até os presos da ditadura tinham direito a escutar seus radinhos de pilha.

Conduzam-no coercitivamente – Em março, o ex-presidente Lula, que nunca se recusara a comparecer à Justiça e ainda não era réu em nenhuma ação, foi conduzido coercitivamente a mando de Sérgio Moro em circunstância que até hoje permanecem nebulosas. Lula foi tirado de sua casa e levado ao aeroporto de Congonhas, onde foi ouvido durante três horas e meia. Existiram muitos rumores de que Lula iria ser levado para Curitiba e alguma coisa fez com que a operação fosse abortada. O que ocorreu? Foi mesmo necessária a condução de Lula coercitivamente? Sem dúvida: não.

Mantenham-no sujo – Os advogados do ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa, reclamaram ao STJ (Superior Tribunal de Justiça) em abril de 2014 melhores condições de prisão para seu cliente, que não podia tomar banho, se exercitar ou ter acesso à luz do dia (tomar banho de sol) durante os finais de semana. Costa chegou a escrever uma carta onde se queixava que, após reclamar da falta de banho, teria sido ameaçado pelos policiais de ser mandado para o presídio de segurança máxima de Catanduvas. Em agosto do mesmo ano ele assinou a delação premiada.

Impeçam-lhes o afeto – Os presos da Lava-Jato não têm direito a visita íntima de suas mulheres e companheiras. Qual a justificativa disso a não ser abalar ainda mais o psicológico do indivíduo? Segundo especialistas, a visita íntima é importante para a manutenção dos laços afetivos e a ressocialização do preso. A intenção da prisão não é que paguem por seus erros e recuperá-los para a sociedade? A castidade forçada, afinal, não faz parte da pena.

Confisquem as castanhas – A mãe de Pedro Argôlo, que é do sul da Bahia, costumava mandar doces caseiros e castanhas para o filho, que repartia com José Dirceu, seu companheiro de cela. Sem explicação alguma, a entrada das castanhas e compotas foi subitamente proibida e agora só entram produtos alimentícios para os presos se houver recomendação médica.

Façam-no falar – Em fevereiro deste ano, Marcelo Odebrecht foi transferido do Complexo Médico-Penal em Pinhais, onde estão detidos os presos da Lava-Jato, para a carceragem da Polícia Federal, onde fica numa cela de 7 metros quadrados, que divide com outros detentos. Em dez dias na nova cela, onde permanece encarcerado por 23 horas seguidas com apenas uma para o banho de sol, Marcelo estava com quadro de anemia e deficiência de vitamina D ligada a hipoglicemia. A defesa do empreiteiro solicitou reforço na dieta e pediu que voltasse ao complexo. Moro autorizou a melhora alimentar, mas não permitiu o retorno a Pinhais.

 

 

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O empoderamento de Patrícia, a acusadora de Feliciano: “Só tem homem burro no PSC”

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Quando encontro Patrícia Lélis, a garota de 22 anos que acusa o pastor Marco Feliciano de estupro, em um café de Brasília, ela acaba de vir de uma reunião no CFEMEA (Centro Feminista de Estudos e Assessoria), uma das entidades que a auxiliam na denúncia contra o deputado federal do PSC. Patricia chega acompanhada pela mãe, Maria Aparecida, que, desde julho, quando a história veio à tona, acompanha a caçula por toda parte, que nem mãe de miss. Patricia é pequena e muito bonita, apesar da maquiagem excessiva que usa no rosto, com muita base escondendo as pintinhas e as sobrancelhas marcadas com kajal.

Patrícia vem com um sorriso estampado no rosto e brilho no olhar. Está encantada com a recepção que teve no CFEMEA. Nem parece a mesma garota que, em abril, atraiu a atenção do partido de Feliciano com vídeos cujo principal alvo eram as feministas. “Não conheço uma feminista bonita”, disparava, em um vídeo de abril deste ano, fazendo chacota da campanha que pipocou nas redes sociais contra os adjetivos “bela, recatada e do lar” utilizados por uma revista semanal para definir a sra. Michel Temer, Marcela.

Ou a mesma menina arrogante que, em maio, publicou um texto no facebook chamando uma professora, com quem havia se desentendido em um debate em Gurupi (TO), de “feminazi” e “feinha” e zombando dos cabelos cacheados da moça. Após ter denunciado o abuso, virado alvo da direita e encontrado apoio justamente em quem atacava, Patrícia não esconde o entusiasmo com as novas aliadas e a, bem… sororidade demonstrada por elas.

– Elas são lindas. Eu não conhecia o feminismo, acreditava que feminismo era o oposto de machismo. Engano meu! Conheci mulheres fortes, inteligentes, independentes, trabalhadoras, amáveis e que realmente têm o intuito de ajudar. Achei todas muito inteligentes, com conceitos muito concretos e embasados. As feministas só querem seus direitos. Todas nós, mulheres, queremos respeito, queremos poder denunciar um estupro e não ser chamadas de ‘loucas’, com laudos falsos.

A mãe intervém na conversa:

– Elas são preocupadas com a mulher. Se a mulher sofreu um abuso, não importa se é de esquerda, de direita, se a mulher está ali fazendo programa, não importa: ela não é obrigada a ter relações.

Não se pode dizer que a experiência de Patricia com a direita representada pelo PSC e os Bolsonaros e Felicianos da vida tenha sido longa. Seu primeiro vídeo foi postado no facebook no início do ano e bombou. Em abril, conta, foi procurada pela Juventude do PSC.

– Fui procurada pela Sara Winter, que me mandou mensagem pelo face. A Sara veio a Brasília e me levou até a sede do partido. Quando cheguei lá, me trataram superbem e me pediram para eu me filiar. Acharam que meu discurso tinha muito a ver com o PSC. Depois que me filiei, gerou mais audiência ainda, tanto para o partido quanto para mim. Tenho vídeos que tiveram quase 1 milhão de acessos. Foi quando eles me colocaram como líder da Juventude e me disseram que eu seria candidata a deputada em 2018.

Sara Winter é aquela garota que se tornou famosa mostrando os seios em protestos como representante brasileira do grupo radical ucraniano Femen, do qual foi desligada sob acusações de desonestidade; desde então, se tornou uma ferrenha ex-feminista e antiabortista. Atualmente, também se dedica a detonar a ex-amiga em suas redes sociais com um argumento que se tornou a principal linha de ataques à estudante de jornalismo após a denúncia de tentativa de estupro: dizer que Patricia tem “distúrbios psicológicos”. Só a chamam nas redes sociais de “Patricia Lelé”, além de espalharem o boato de que a jovem seria garota de programa, o que fez com que homens passassem a enviar emails para ela perguntando quanto cobra por hora.

Em um hangout no início do mês, transmitido ao vivo no facebook, Sara Winter, Kelly Bolsonaro (fã do clã reaça que adotou o sobrenome, mas sem parentesco) e a psicóloga da “cura gay”, Marisa Lobo, candidata a vereadora pelo Solidariedade em Curitiba, “analisam” Patricia de todas as formas. Marisa, sem qualquer exame prévio, “diagnostica” a jovem como “mentirosa compulsiva”, “doente, que precisa de ajuda” e que “pode parar num hospital psiquiátrico”.

A “avaliação” de que Patrícia é “louca”, “desequilibrada”, comum entre machistas (fizeram o mesmo com a presidenta Dilma Rousseff). é “embasada” em um laudo encomendado pela polícia civil de São Paulo afirmando que a jornalista seria “mitomaníaca”. A conclusão se choca com outro parecer, elaborado por psicólogas do IML (Instituto Médico-Legal) de Brasília, que não encontrou evidências de qualquer alteração “psicopatológica” na jovem.

Os advogados de Patrícia Lélis pediram o afastamento do caso do delegado Luiz Roberto Hellmeister, de São Paulo, que a rigor nem deveria ter entrado, já que Marco Feliciano, como parlamentar, possui foro privilegiado e a investigação deveria ter sido feita desde o princípio pela Procuradoria-Geral da República, como acontece agora. No início do mês, Hellmeister pediu a prisão preventiva de Patrícia por “extorsão e denunciação caluniosa”. Os defensores de Patrícia também solicitaram a anulação do inquérito.

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Patrícia acusa o titular do 3º DP, na Santa Ifigênia, de ter preparado o depoimento dela antes de chegar à delegacia e de estar ligado ao grupo de Feliciano, já que aparece em uma foto no facebook posando com Kelly e Emerson Biazon, autor da filmagem em que Patricia supostamente tenta “extorquir” a turma de Feliciano (ela diz que o vídeo foi editado e que o valor citado teria sido oferecido a outro envolvido no imbróglio, Arthur Mangabeira, para filmá-la negando tudo). Aliás, Talma Bauer, o chefe de gabinete do deputado que aparece no vídeo, também é policial civil em São Paulo. Em agosto, Bauer chegou a ser preso sob a acusação de manter a jornalista em cárcere privado.

– Quando eu cheguei à delegacia, minha oitiva já estava pronta. O delegado ficava falando para mim: “você é criminosa, você é pior do que a Suzane von Richthoffen! Você tem duas alternativas para sair daqui bem: a primeira é assinar um atestado dizendo que tudo isso é uma mentira, tudo invenção da sua cabeça, e daqui eu te encaminho direto para um manicômio; e a outra, se você quiser brincar com a minha cara, é você assinar e vou te indiciar e você vai ser presa.’ Falei para ele: ‘não sou louca, não estou mentindo. Quero assinar o que vou ser indiciada’. E aí começou um bafafá, uma gritaria… Quando saímos, ele falou: “Vou te prender, sua bandida.” Eu não sou bandida, não peguei nem um real de ninguém. No histórico deste delegado na internet tem vários casos absurdos, pode olhar.

De fato, Hellmeister é o mesmo delegado que, em 2015, apareceu na mídia como o titular do 2º DP, no Bom Retiro, em São Paulo, onde a travesti Veronica Bolina foi barbaramente espancada e ficou com o rosto desfigurado. Hellmeister também foi acusado por uma jornalista da rede Record de agressão.

Após Patricia ter denunciado Feliciano, o PSC passou a negar que ela tivesse se filiado, mas não é difícil achar fotos da estudante em eventos públicos do partido, inclusive com Sara Winter, segurando uma ficha de filiação. Além disso, no próprio site do PSC Patrícia é citada como uma das líderes da juventude do partido.

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É importante dizer que Patricia se aproximou do PSC contra todos os conselhos da mãe, Maria Aparecida, que, apesar de ser evangélica, teve algumas más experiências com pastores das igrejas que frequentava. Hoje Aparecida prefere orar em diversos templos para não criar vínculos.

– Eu falei para ela não se aproximar de pastores. Já pertenci a uma igreja por muito tempo, mas me decepcionei com um pastor, que acabou me expulsando de lá. O cara tinha ‘ene’ mulheres, enganava todo mundo. Também conheço caso de pastor que tem relações com a própria enteada de 13 anos, mas a gente tem medo de denunciar, porque além de pastor ele é PM… Ou seja, vivendo a minha vida de evangélica nessas igrejas vi muitas coisas absurdas. Frequento várias hoje, porque já vi de tudo, também no sentido financeiro, de pastor que pede dinheiro para comprar casa, carro… Por isso que eu não queria que ela se aproximasse deles, sempre avisei.

As desconfianças de Patrícia e de sua mãe em relação ao PSC não vieram depois da alegada tentativa de estupro por parte de Feliciano. A estudante se queixa que o pastor Everaldo, presidente do PSC, vivia tentando lhe empurrar pretendentes entre os homens do partido.

– Sempre o pastor Everaldo falava: ‘esse é o homem perfeito para você, um homem de Deus’. Uma coisa muito estranha. Cheguei no pastor e falei para ele: ‘Olha, pastor Everaldo, eu não quero. Acho que só tem homem burro aqui no PSC’.

– Ele ria quando você falava isso?

– Não, ele não ria, não. Ele dizia que eu ia acabar sozinha.

Um dos “homens de Deus” que Everaldo teria insistido para Patricia namorar foi o filho de Bolsonaro, Eduardo, deputado federal do partido. Que, como os demais, a jornalista achou burro, burríssimo, e se recusou a sair com ele.

– O Eduardo é um asno, uma mula. É do tipo que, se vê uma menina na Câmara um pouco mais bonita, ele passa a mão na bunda, chama de gostosa. Ele tem altos casos na Câmara, porque tem mulher que gosta. O Eduardo não tem voz nenhuma: o pai dele fala ‘você vai fazer isso’ e ele vai lá e faz. Ele mesmo não tem opinião de nada, coitado, não sabe de nada. O Jair deve ter dito pra ele: ‘essa é uma menina bonitinha pra aparecer com você nas fotos’. ‘Ajeitadinha’, porque ele chama assim, né? Aí o coitado vai lá e faz umas coisas bizarras…

– Tipo o quê?

– Tipo vai conversar com a gente e não tem assunto nenhum, começa por aí. Ele joga umas coisas assim: ‘você é jornalista? Gosto tanto de dar entrevista… no motel’. É disso pra baixo, é muito burrinho. Conheço outros deputados, tipo o Glauber Braga (do PSOL), e você vê outra postura. O cara é inteligente, é respeitoso. Então eu tenho um parâmetro.

Outra coisa que ela diz ter estranhado, ainda dentro do partido, são as advertências feitas pelo PSC aos jovens que engrossam suas fileiras para que não tenham nenhuma espécie de contato com feministas ou pessoas de esquerda em geral. Como se tivessem medo de que virassem vermelhos por osmose –ou por conhecer melhor as ideias que são compelidos a combater.

– O PSC pedia para a gente não ter contato. Dizia que quando você conhece a esquerda, eles fazem alguma lavagem cerebral e você acaba questionando as coisas, o feminismo, o casamento gay. Então sempre pediram para a gente manter distância mesmo. Eu conhecia a advogada do PSOL, sempre foi muito educada. Mas nunca sentei para conversar… E eles pedem nitidamente para não se envolver com esquerdistas, porque são tipo os anticristos do mundo. Eles faziam reuniões explicando por que ser contra o feminismo, por que ser contra os gays, segundo a Bíblia… A gente sentava para montar estratégias de como criar confusão em alguma sessão do Congresso, para tentar tirar a credibilidade. E hoje vejo o Bolsonaro invadindo o plenário, colocando o dedo na cara da Maria do Rosário… Coisas absurdas. Eu sou nova, nunca imaginei que as coisas eram desse jeito.

– O nível intelectual das pessoas que você está conhecendo agora é melhor?

– Nossa… Muito maior. Muuuuuito. É outra coisa, até o jeito de falar. Todo dia é uma surpresa diferente. Ao mesmo tempo que a direita me massacra –porque eles me odeiam, né?, me chamam de esquerda infiltrada, falam que o Jean Wyllys me pagou… Eu cumprimentei o Jean no máximo cinco vezes! Falam que eu ganho dinheiro do PT, do PSOL… Então, ao mesmo tempo que a direita me massacra, o pessoal do outro lado –não só de esquerda, mas muito de centro também– me manda várias coisas, tipo textos de autoconhecimento mesmo. ‘Aproveita que agora você não pode trabalhar, vamos ler, vamos estudar’. E são coisas que, nossa… fazem sentido. Até então, a gente sempre entendeu que o outro lado é que é culpado. A filosofia do PSC é o Estado intervir diretamente na vida da pessoa. É uma intervenção do Estado mesmo na vida pessoal. Quantas vezes eu escutei o pastor Everaldo falar: ‘o Estado não pode deixar as mulheres abortarem. O Estado não pode deixar os gays adotarem’. É ridículo.

Patrícia admite que, como muitos jovens que se definem de direita para “zoar” nas redes, começou a postar vídeos dizendo barbaridades para ficar famosa. Ela sempre quis trabalhar na televisão, razão pela qual topou ir contar sua história em programas como o Superpop, de Luciana Gimenez, e o programa de Roberto Cabrini, dos quais saiu mais desacreditada do que entrou.

Continua, porém, repetindo a mesma versão que deu no princípio de agosto ao blog Coluna Esplanada, do portal UOL: que foi até o apartamento de Marco Feliciano em junho para participar de uma reunião sobre a CPI da UNE; que, chegando lá, não havia reunião alguma e ficou a sós com o deputado, que teria tentado beijá-la à força e arrastá-la para o quarto; que ela teria recusado o assédio e recebido um chute na perna e um soco na boca; que teria gravado dois vídeos negando tudo sob ameaça de morte; e que não aceitou nenhuma das ofertas de dinheiro que teriam sido feitas pelos assessores do pastor Feliciano e pelo pastor Everaldo. Ambos rechaçam as acusações.

Tudo isso será alvo de investigação pela Polícia Federal, que entrou no caso na semana passada, por decisão do STF (Supremo Tribunal Federal). O ministro Edson Fachin atendeu ao pedido da Procuradoria-Geral da República e determinou abertura de inquérito para apurar a denúncia. Até que se comprove ou desminta, fica a palavra de Patrícia contra a de Feliciano.

Pergunto a Patrícia Lélis qual seu objetivo ao prosseguir com a acusação.

– Meu objetivo principal é que Feliciano pague por tudo aquilo que me fez, por tudo que me prejudicou, pois é uma pessoa que se faz de santo em frente a milhares, mas que nos bastidores tem um caráter terrível; que as pessoas alienadas entendam que existem pessoas ruins em todos os lados, que entendam que crime não tem partido político; que o nome de Deus não seja usado de forma tão banal; e principalmente que as pessoas parem de votar em pessoas por conta de religião.

 

 

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