Dicas literárias para um Natal vermelho (quinta edição)

É batata: como todo ano tem Natal, todo ano também tem a lista de livros e HQs do Socialista Morena! Porque se é para gastar dinheiro nesta época do ano, que se gaste com livros. Confira aquiaqui, aqui e aqui as listas dos anos anteriores. Você encontra outras dicas literárias do blog também na tag #literatura.

São obras que li ou que estão na minha própria lista de desejos… Lembre-se de voltar a visitar este post: estas dicas serão atualizadas até janeiro. Porque ler nas férias é tudo de bom, não é?

LANÇAMENTOS

sombradilma

À Sombra do Poder – O jornalista e cientista político Rodrigo de Almeida foi secretário de Imprensa de Dilma Rousseff justamente nos 13 meses que antecederam o golpe. Seu relato é, portanto, de quem assistiu de perto e de dentro a queda da presidenta reeleita com o voto de 54 milhões de brasileiros em 2014. Com uma narrativa envolvente, Rodrigo conta o que viu e como Dilma reagiu a tudo. Traz também perfeitas alfinetadas ao papel da imprensa no período: as recriações feitas pelos jornais não resistem à realidade de quem viu tudo com os próprios olhos. Como o autor não é petista de carteirinha, a narrativa ganha pontos por ser bastante independente, embora cause estranheza no leitor de esquerda que o livro trate Dilma o tempo inteiro como “presidente” e não “presidenta”, como ela preferia ser chamada. Leya, 224 págs., R$39,90.

angelacapa

Mulheres, Raça e Classe – Obra mais importante da “pantera negra” norte-americana Angela Davis, este livro, publicado nos EUA em 1981, nunca havia sido traduzido no Brasil até agora. O momento é ideal: é inegável a força que têm tido os coletivos de mulheres e de negros na luta contra os golpistas e fascistas instalados em nosso país. No livro, a autora aborda a forma como todas estas lutas estão interrelacionadas: a luta anticapitalista, a luta antirracista, a luta feminista. Nada mais atual diante da eleição de Donald Trump nos EUA e do crescimento de uma extrema-direita igualmente misógina, homofóbica, racista e classista no Brasil. Prefácio de Djamila Ribeiro e tradução de Heci Regina Candiani. Boitempo, 248 págs., R$54.

historiaeua

A História Não Contada dos Estados Unidos – Escrito a quatro mãos pelo cineasta Oliver Stone e pelo historiador Peter J. Kuznick, o livro atravessa um século para dar a versão não-oficial sobre a trajetória da nação mais poderosa do planeta. O real significado da batalha contra o nazismo, a criação da guerra fria, as agressões dos EUA a outras países, a tradição de espionar o mundo: está tudo lá. Para quem quer ter uma visão da história norte-americana bem distante da que nos é contada pelos arautos do império e pela mídia hegemônica, um livro considerado pelo jornal britânico The Guardian como “o livro de história mais instigante, revelador e intelectualmente provocativo dos últimos anos”. A versão em documentário pode ser vista abaixo, com legendas em português. Tradução de Carlos Szlak. Faro Editorial, 360 págs., R$49,90.

cova312

Cova 312 – Vencedora do prêmio Jabuti na categoria Reportagem e Documentário este ano, a jornalista Daniela Arbex conta a história real de como, em 1967, as Forças Armadas torturaram e mataram o jovem militante político Milton Soares de Castro, forjaram seu suicídio e sumiram com seu corpo. Daniela não só reconstitui o calvário do rapaz de 26 anos, de seus amigos e familiares, como dá uma incrível contribuição à História: descobre onde estavam seus restos mortais, na anônima Cova 312 que dá título ao livro. Geração, 344 págs., R$39,90.

toureando

Toureando o Diabo  O romance, escrito por Clara Averbuck e ilustrado por Eva Uviedo, foi inteiramente financiado pelos leitores. Camila, personagem central de Máquina de Pinball, livro de estreia de Clara, de 2002, reaparece revirando (e revendo) seus cadernos do passado, cujas anotações são belamente ilustradas por Eva. O livro está à venda exclusivamente na loja das autoras, onde também podem ser comprados desenhos originais. 146 págs., R$50.

cuenca

Descobri que Estava Morto  Um belo dia, o escritor J.P. Cuenca descobre que havia morrido: um cadáver fora identificado com sua certidão de nascimento em um edifício invadido no bairro carioca da Lapa. A história surreal acabou virando filme dirigido e estrelado pelo próprio autor este ano: A Morte de J.P.Cuenca. Para quem, como eu, é fascinado por autobiografias farsescas ou ficções da vida real. Tusquets, 240 págs., R$39,90.

byington

O Que É Que Ele Tem? – Li este livro de uma sentada, numa visita à livraria. Trata-se do relato autobiográfico da cantora Olívia Byington sobre seu filho mais velho, João, que tem a síndrome de Apert, uma condição rara que causa má formação do crânio, mãos e pés. É um relato doce, tocante e forte, onde a autora evita a auto-piedade e adota um tom mais realista (e, inclusive, bem humorado) para lidar com a questão. A orelha do livro é do irmão de João e também filho de Olívia, o cronista e humorista Gregório Duvivier. Objetiva, 184 págs., R$34,90.

CLÁSSICOS

casagrandesenzala

Casa Grande & Senzala – É preciso sempre voltar a Gilberto Freire como quem recorre a uma Bíblia. Cada vez que eu leio este livro, enxergo novas nuances e descubro outras histórias. Impressionante. Na atual releitura, vejo detalhes sobre a dominação do homem sobre a mulher no Brasil colonial e sobre a escravidão que tinham me escapado das primeiras vezes. Uma das obras fundamentais para conhecer a história de nosso país, sempre, ao lado de O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro. Global, 728 págs., R$58.

Capa_Viva o povo brasileiro - Edicao especial.indd

Viva o Povo Brasileiro  Publicado pela primeira vez em 1984, o romance de João Ubaldo Ribeiro se tornou um clássico imediato, ao recontar a história do Brasil durante 400 anos (de 1647 a 1977), no estilo picaresco que marcou a obra do autor. Situado na ilha de Itaparica, terra natal de João Ubaldo, o recôncavo baiano funciona como uma espécie de metáfora do Brasil inteiro, neste épico que perpassa os principais acontecimentos históricos de nosso país, desde a invasão holandesa à ditadura militar. Alfaguara, 672 págs., R$74,90.

Fidel capa.pmd

Fidel Castro: Biografia a Duas Vozes  Para conhecer a história de Fidel Castro por ele mesmo, nada melhor do que esta biografia escrita pelo jornalista franco-espanhol Ignacio Ramonet, resultado de mais de 100 horas de entrevista com o líder da revolução cubana morto este ano. Fidel conta a Ramonet sua trajetória, desde a educação jesuíta de filho de latifundiário até a transformação em guerrilheiro, e dá sua versão sobre as maiores polêmicas de sua vida, como a perseguição a homossexuais e a dissidentes do regime. Apresentação de Fernando Morais e tradução de Emir Sader. Boitempo, 624 págs. (esgotado). No sebo Estante Virtual por R$45.

HQs

enterro

O Enterro das Minhas Ex  Um dos muitos gibis escritos e desenhados por mulheres que li este ano. O quadrinho feminino está cada vez mais em evidência, e a francesa Anne-Charlotte Gauthier é uma das garotas em ascensão numa área antes dominada pelos homens. Nesta HQ, no tom confessional que tem marcado os quadrinhos feitos por mulheres, ela recorre os primeiros anos de sua vida como lésbica, desde a infância à adolescência, com humor e delicadeza. Tradução de Fernando Scheibe. Nemo, 160 págs., R$39,90.

hiphop

Hip Hop Genealogia  Este gibi luxuoso conta nada mais, nada menos do que a história do hip hop em quadrinhos, com o traço incrível de Ed Piskor, herdeiro de Robert Crumb e que ficou famoso por sua parceria com o legendário roteirista Harvey Pekar (American Splendor). Lançado originalmente em 2013, a graphic novel ganhou o Eisner Award, o mais importante prêmio dos quadrinhos, e entrou para a lista dos mais vendidos do New York Times. A caprichada edição brasileira tem prefácio do rapper Emicida e tradução e comentários de Mateus Potumati. Veneta, 128 págs., R$99,90.

joesacco

Reportagens – Joe Sacco é o nome que você precisa conhecer quando se trata de reportagens no formato de histórias em quadrinhos. Este gibi reúne suas principais matérias na Palestina, Índia, Iraque e Chechênia. Sobre os chechenos, Sacco é taxativo em responsabilizar o presidente russo Vladimir Putin pela tragédia do país desde que se tornou o braço direito de Boris Ieltsin, na década de 1990. Também chocante seu relato entre os “intocáveis” de Kushinagar, situados no último degrau da sociedade de castas indiana. Tradução Érico Assis. Companhia das Letras, 200 págs., R$49,90.

INFANTIS

minimaginario

Minimaginário de Andersen  Coletânea de histórias clássicas do dinamarquês Hans Christian Andersen, belamente ilustrada por Salmo Dansa. Soldadinho de Chumbo, A Pequena Sereia, Os Sapatinhos Vermelhos, Patinho Feio e Polegarzinha integram o volume adaptado por Katia Canton, que conta ainda com o mais triste conto infantil de todos os tempos, em minha opinião: A Pequena Vendedora de Fósforos. Companhia das Letrinhas, 190 págs., R$44,90.

odeauma

Ode a Uma Estrela  O poeta chileno Pablo Neruda delicia os pequenos e os adultos com a delicada (e poética) história do homem que roubou uma estrela do céu. Escrito em 1957, o poema-ficção de Neruda foi traduzido pelo também poeta Carlito Azevedo, com ilustrações da espanhola Elena Odriozola. CosacNaify, 24 págs. (a editora fechou, mas encontrei no sebo Estante Virtual a partir de R$26,30).

 

 

O Socialista Morena é um blog de jornalismo independente. Se você quiser contribuir financeiramente, doe ou assine. Quanto mais colaborações, mais reportagens exclusivas. Obrigada!!

Se você não tem uma conta no PayPal, não há necessidade de se inscrever para assinar, você pode apenas usar qualquer cartão de crédito ou de débito. Ou, você pode ser um patrocinador com uma única contribuição:

Para quem prefere fazer depósito em conta:

Cynara Moreira Menezes
Caixa Econômica Federal
Agência 3310
Conta Corrente 23023-7

Em Blog

0 Comente

As 14 características do fascismo, por Umberto Eco. Parecem familiares?

fascistas

(Cartaz antifascista da guerra civil espanhola)

(Adaptado do PijamaSurf)

Umberto Eco (1932-2016) é uma das personalidades que melhor poderiam definir o fascismo, pois nele se combinaram a experiência própria, a erudição e a lucidez analítica. Como italiano, viveu de perto o fascismo e suas consequências, e como intelectual dedicou-se a estudá-lo, entendê-lo e explicá-lo, mas, acima de tudo, a denunciá-lo e preveni-lo. De todos os males que o ser humano pode gerar a si mesmo, poucos são tão nefastos como um regime totalitário, em que normalmente o sofrimento é muito maior do que os possíveis benefícios.

Compartilho o fragmento de uma conferência que Eco fez em 1995 na Universidade de Columbia, em que elaborou uma rápida caracterização do que chamou “Ur-Fascismo” ou “fascismo eterno”, quer dizer, uma ideologia e vontade de governar que, independentemente das circunstâncias históricas, parece sempre estar ali, à espreita, esperando um mínimo descuido para se apoderar de um governo nacional, uma sociedade, um país. Eco reconhece que nem todos os regimes totalitários são iguais, mas ao mesmo tempo encontrou alguns traços comuns, ou, melhor dizendo, recursos que a maioria empregou para seduzir a população e tomar o poder político.

Muita gente acha que falar em fascismo é “banalizar” o termo, mas reparem que a extrema-direita hoje, representada por Donald Trump e seus supremacistas brancos nos Estados Unidos e aqui pelos MBLs e Bolsonaros da vida, se enquadra em cada uma destas características. Só não vê quem não quer. Fica a advertência de Eco: “O Ur-Fascismo pode voltar todavia com as aparências mais inocentes. Nosso dever é desmascará-lo e apontar o dedo sobre cada uma de suas novas formas, todo dia, em todas as partes do mundo”.

A seguir, as 14 características do fascismo segundo Umberto Eco. Leia o texto completo da conferência aqui.

1. Culto da tradição, dos saberes arcaicos, da revelação recebida no alvorecer da história humana, dos hieróglifos egípcios às runas dos celtas e aos textos sagrados, ainda desconhecidos, de algumas religiões asiáticas.

2. Rechaço do modernismo. O Iluminismo, a idade da Razão, são vistos como o princípio da depravação moderna. Neste sentido, o Ur-Fascismo pode se definir como irracionalismo.

3. Culto da ação pela ação. Pensar é uma forma de castração. Por isso a cultura é suspeita, à medida em que é identificada com atitudes críticas.

4. Rechaço do pensamento crítico. O espírito crítico opera distinções e distinguir é sinal de modernidade. Para o Ur-Fascismo, estar em desacordo é traição.

5. Medo ao diferente. O primeiro chamamento de um movimento fascista, ou prematuramente fascista, é contra os intrusos. O Ur-Fascismo é, pois, racista por definição.

6. Apelo às classes médias frustradas. Em nossa época, o fascismo encontrará seu público nesta nova maioria.

7. Nacionalismo e xenofobia. Obsessão pelo complô. Os seguidores têm de se sentir ameaçados.

8. Inveja e medo do “inimigo”.

9. Princípio de guerra permanente, antipacifismo.

10. Elitismo, desprezo pelos fracos.

11. Heroísmo, culto à morte.

12. Transferência da vontade de poder a questões sexuais. Machismo, ódio ao sexo não-conformista, como a homossexualidade. Transferência do sexo ao jogo das armas.

13. Populismo qualitativo, oposição aos apodrecidos governos parlamentares. Toda vez que um político lança dúvidas sobre a legitimidade do parlamento porque já não representa a voz do povo, podemos perceber o cheiro do Ur-Fascismo.

14. Novilíngua. Todos os textos escolares nazis ou fascistas se baseavam em um léxico pobre e em uma sintaxe elementar, com a finalidade de limitar os instrumentos para o raciocínio complexo e crítico. Devemos estar preparados para identificar outras formas de novilíngua, inclusive quando adotam a forma inocente de um popular reality show.

 

O Socialista Morena é um blog de jornalismo independente. Se você quiser contribuir financeiramente, doe ou assine. Quanto mais colaborações, mais reportagens exclusivas. Obrigada!!

Se você não tem uma conta no PayPal, não há necessidade de se inscrever para assinar, você pode apenas usar qualquer cartão de crédito ou de débito. Ou, você pode ser um patrocinador com uma única contribuição:

Para quem prefere fazer depósito em conta:

Cynara Moreira Menezes
Caixa Econômica Federal
Agência 3310
Conta Corrente 23023-7

Em Blog

0 Comente

Manuela Carmena, prefeita de Madri: a política tem que ser ocasional, não uma carreira

manuelamujica

(Manuela Carmena, Pepe Mujica e sua mulher, Lucía Topolanski, em Madri: Foto: Elvira Megias/Ahora Madrid)

Por Lucas Rohan, de Lisboa

No início do ano, a prefeita da capital espanhola, da coligação de esquerda Ahora Madrid, causou o maior rebuliço ao revolucionar a tradicional Cavalgada de Reis, a grande data infantil do país. São os reis magos, e não o papai Noel, que entregam os presentes às crianças por lá. Pois Manuela Carmena resolveu dar umas tintas de realidade à festa e colocou um rei Baltazar negro de verdade, sem black face e vestido com trajes genuinamente africanos -afinal, se existiu, o rei mago possivelmente era negro.

Não foi a única polêmica de Manuela, que se considera uma “política vocacional” e não profissional. Aos 72 anos, foi eleita em 2015 como candidata independente por Ahora Madrid, que reuniu partidos de esquerda, entre eles o Podemos, e movimentos sociais, e pôs fim a 24 anos de hegemonia do neoliberal Partido Popular (PP) na capital espanhola. Regularizou a situação dos okupas que invadiram vivendas públicas sem uso, oferecendo-lhes a possibilidade de alugar os imóveis; rompeu o contrato com a agência Standard’s and Poors, que auditava a prefeitura madrilenha; autorizou o “dia sem maiô” nas piscinas municipais; criou um portal para ouvir a opinião da população sobre as mudanças no urbanismo da cidade; e fez declarações sobre o clitóris e a masturbação com a maior naturalidade.

mujicamanuela

(Manuela com Mujica em seu Fusca azul)

Uma foto do ex-presidente do Uruguai Pepe Mujica levando Manuela para um churrasco em Montevidéu em seu Fusca azul viralizou na internet. A prefeita não nega que o uruguaio é uma de suas inspirações. “O senhor Mujica é um político absolutamente invejável”, diz. Agnóstica, ex-militante do Partido Comunista Espanhol, advogada dos trabalhadores presos na ditadura de Francisco Franco, juíza por mais de 30 anos, Manuela admite que trabalha num “ambiente masculino” e defende que “a política se feminize”. Pensando nisso, sua administração criou uma Escola de Igualdade Para Homens e Mulheres, com formação na área de gênero e empoderamento.

No início de seu mandato na prefeitura de Madri, começava também a fase mais aguda da crise dos refugiados. Mandou colocar uma faixa com os dizeres em inglês refugees welcome (bem-vindos refugiados) na fachada do Palácio de Cibeles, sede da administração e um dos principais edifícios históricos do centro de Madri. A ação correu o mundo através das redes sociais. Mais de um ano depois, com a crise dos refugiados ainda em curso, o cartaz gigante de boas-vindas continua lá.

madrirefugiados

Na contramão da esquerda tradicional, em um ponto o discurso da prefeita madrilenha se aproxima das novas caras da direita: defende que a política seja “ocasional”, e não uma carreira profissional, como tem sido para tantos. Manuela Carmena falou com o repórter Lucas Rohan pelo telefone. Leia.

– A senhora é considerada uma das principais figuras da chamada “nova política”. Mas o que é essa nova política para a senhora? Que diferenças há entre a senhora e os políticos profissionais?

– Bom, creio que a diferença fundamental é que eu sou uma pessoa cuja carreira nunca teve a ver com a política. Fui juíza até que me aposentei antecipadamente. E justo nesse período, que é um verdadeiro paraíso, de uma aposentadoria quando você está bem e com muita capacidade de trabalho, surgiu a possibilidade de me dedicar durante um tempo à política, que eu considero política vocacional.

– Mas o que seria essa nova política?

– Eu diria que tem muito a ver com ser um político ocasional, de ser uma política que não seja de carreira, uma política que tente que as estruturas clássicas, que se afastaram tanto da política, que se convertam em algo mais flexível, que permita a combinação da democracia representativa com a democracia política.

– A senhora se propôs a fazer um governo aberto e para isso foi criado o portal Decide Madrid. Como foi o primeiro ano da experiência?

– Nesse primeiro ano nós verificamos que houve um número representativo de acessos ao portal. No entanto, ainda não alcançamos a meta necessária para que a partir daí as propostas que os cidadãos fizeram lá sejam submetidas a um referendo. Se tivermos dez por cento do censo geral já poderemos ter uma proposta submetida a referendo em breve.

– Há algum exemplo de proposta cidadã enviada pelo portal que tenha se convertido em realidade?

– Há algumas que já se converteram em realidade porque foram medidas que tomamos na administração. O mais determinante é que uma das propostas que será discutida é a criação de um bilhete único que possa ser usado não somente em todos os transportes públicos de Madri, mas também das cidades da comunidade.

– Mas a senhora acredita que um portal é suficiente para garantir um governo aberto?

– Não, por isso tomamos muitas outras medidas que, diria eu, são tanto ou mais indicativas de que este é um governo aberto. Nós implantamos a transparência de todas as nossas agendas, assim que praticamente todo o trabalho que a administração municipal faz está disponível na internet e pode ser acessado por qualquer pessoa. Ainda que pareça surpreendente, qualquer cidadão pode conhecer 80% dos dados com os quais trabalhamos.

– A senhora esteve em viagem pela América Latina, onde se encontrou com o ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica. Aceita o fato de que Mujica e a senhora são similares? A sua atuação política tem alguma inspiração nele?

– O senhor Mujica é um político absolutamente invejável. Ele sim é um político profissional, mas é exemplar. O que ele tem demonstrado em todas as suas atividades políticas indica as virtudes necessárias para o desenvolvimento de um trabalho de liderança política.

– Ainda sobre a América Latina, o que a senhora viu lá em termos de política?

– A Espanha e a América Latina ainda estão muito perto. Para mim o que é interessante desse momento da América Latina é o salto que deu. Acredito que a região viveu um desenvolvimento econômico muito importante atualmente. Após sofrerem com as grandes ditaduras com as responsabilidades históricas que devem ter, os países superaram, vieram as democracias e elas possibilitaram o desenvolvimento econômico. É verdade que se trata de um desenvolvimento que ainda é muito desigual, mas está gerando fontes de ingresso que são muito interessantes. Creio ser muito relevante ver como a América Latina está melhorando.

– No Brasil recentemente houve uma turbulência política, culminando com o impeachment da presidente Dilma Rousseff, que muitos dizem que se tratou de um golpe. O que a senhora pensa sobre isso?

– Não conheço bem a realidade brasileira, não me atreveria a dizer ou muito menos fazer um diagnóstico. No entanto, acredito que a situação atual é lamentável, na qual parece que há uma grande diferença entre o que os eleitores brasileiros quiseram ao votar e o que está sendo feito agora pelos que detêm o poder político.

– Falando nisso, a presidente do Brasil disse muitas vezes que há um pouco de machismo no golpe contra ela, que a política é um lugar de homens branco e ricos. A senhora acredita que a política ainda é machista?

– A política continua sendo muito masculina e por isso eu acredito que é importante que as mulheres participem da política, não tanto mulheres no sentido biológico, mas também pessoas que assumam uma cultura diferente de política com relação à mulher. Eu acredito que sim, é necessário que a política se feminize.

– Uma das ações do seu primeiro ano de governo em Madri que mais chamaram a atenção fora da Espanha foi a recepção aos refugiados. A imagem da frase de boas-vindas no Palácio de Cibeles (sede do governo municipal, onde foi colocada uma faixa “refugees welcome”) foi vista em todo o mundo…

– Há muitas cidades europeias que estão se posicionando pedindo aos Estados que mudem a política diante dessa terrível situação que muitas pessoas estão vivendo, que tem que fugir porque não há outro remédio para salvar suas vidas da guerra na Síria. Muitas cidades, entre elas Madri, fizeram tudo o que foi possível. E continuaremos fazendo para acabar com esse calvário dos refugiados. Continuaremos buscando atender as necessidades, cuidar e fazer com que essas pessoas esqueçam o terror que tiveram que viver.

 

 

O Socialista Morena é um blog de jornalismo independente. Se você quiser contribuir financeiramente, doe ou assine. Quanto mais colaborações, mais reportagens exclusivas. Obrigada!!

Se você não tem uma conta no PayPal, não há necessidade de se inscrever para assinar, você pode apenas usar qualquer cartão de crédito ou de débito. Ou, você pode ser um patrocinador com uma única contribuição:

Para quem prefere fazer depósito em conta:

Cynara Moreira Menezes
Caixa Econômica Federal
Agência 3310
Conta Corrente 23023-7

Em Camaradas

0 Comente